O Mestre - EM HIATUS

27 Capítulo Vinte e Seis


Notas iniciais
Oláres! Vejam quem veio atualizar a fic e, dessa vez, não demorou um milênio haha. Como vocês estão? Ansiosos para descobrirem qual é o segredinho do Blake? Bem, então, não vamos perder tempo e vamos ao capítulo. Ele não está tão longo quanto os últimos que postei, mas estou confiante. Espero que gostem. Boa leitura.

“Não importa se somos fortes, traumas sempre deixam uma cicatriz. Seguem-nos até nossas casas, mudam nossas vidas.” – Grey’s Anatomy.

[Blake]

Alyssa está sentada à mesa, observando-o cada um de meus passos enquanto caminho, para e para cá, pela cozinha, reunindo coisas para fazer uma salada de frutas para nós. Eu sei que estou agindo como um covarde, tentando ganhar tempo desse jeito e colocando a culpa em meu estômago vazio, mas eu preciso pensar em uma maneira de explicar tudo a ela primeiro.

— Quer um pouco de leite condensado na sua ou você prefere sem ele? – Pergunto e ela dá de ombros. Desde que chegamos, Alyssa mal pronunciou três frases inteiras e isso me preocupa. Eu não quero que ela fique estranha comigo. – Ok, talvez seja melhor sem isso mesmo. – Concluo e distribuo a sala de frutas em dois copos para nós.

Alyssa pega o dela, mas não come, apenas fica remexendo as frutas com a colher e não preciso de legenda para saber que ela está impaciente.

— Será que podemos, pelo menos, comer um pouco antes de termos essa conversa? – Peço. – Os ensaios me tomaram o dia inteiro hoje e eu mal tive tempo de almoçar.

— Não estou te impedindo de comer, Blake, apenas estou sem fome, mas você pode apreciar a sua salada de frutas sem problemas. – Ela larga o copo sobre a mesa e se levanta. – Vou assistir um pouco de TV enquanto você termina. – Então, ela sai da cozinha e vai instalar no sofá da sala, deixando-me sozinho com a salada de frutas que, até mesmo eu, já estou sem vontade de comer.

Sinto como se houvesse uma pedra em meu estômago e, realmente não queria ter de discutir aquele assunto com Alyssa, mas sei que não posso evitar. Guardo nossa comida na geladeira e vou até o meu quarto buscar uma caixinha de madeira que está repleta de lembranças dolorosas que, muitas vezes, eu desejo poder esquecer, mas das quais nunca consegui me livrar.

Alyssa mal olha para mim quando passo pela sala, mas quando volto e deposito a caixa fechada diante dela, no sofá, ela ergue seus olhos verdes para mim.

— O que é isso?

— Sua resposta. – Sento-me na poltrona à sua frente e peço que ela abra a caixa.

Ela demora alguns segundos para reagir, como se estivesse com medo do que poderia encontrar ao abri-la e eu prendo a respiração quando ela, finalmente, se move. Observo todas as reações que passam por seu rosto quando ela retira a tampa da caixa e examina seu conteúdo e vejo o susto, depois, o ciúme e, então, a tristeza, a confusão e algo que parece ser raiva, é como se ela não conseguisse decidir o que sentir primeiro.

— O nome dela era Jacquie. – Eu digo quando os olhos de Alyssa voltam para mim. – Nós nos conhecemos na universidade, no meu último semestre da graduação. Eu era veterano e dava algumas aulas de monitoria aos sábados e ela era uma caloura perdida que ainda não tinha se acostumado ao ritmo da vida acadêmica. Nossos caminhos acabaram se cruzando.

Faço uma pausa e espero que Alyssa diga alguma coisa, mas como ela permanece calada, segurando uma foto minha e de Jacquie em suas mãos, continuo:

— Eu não tive intenção de me apaixonar por ela, na verdade, eu tentei evitar isso a todo custo, mas ela era tão... diferente das outras garotas e conviver com ela, todos os sábado, durante um semestre inteiro, não me ajudou muito, então, foi praticamente impossível não me apegar, mas eu decidi que era melhor não dizer nada para ela. Eu iria me formar em breve e tinha tentado uma vaga na Goldsmiths para cursar minha pós-graduação em Artes Modernas, portanto, não fazia sentido começar um relacionamento aqui. – Esclareço. – Mas, alguns dias depois que recebi a minha carta de admissão, Jacquie veio falar comigo. Ela me disse que estava apaixonada e que não podia mais manter guardar aquele segredo e eu... eu não consegui dizer não para ela.

As mãos de Alyssa tremem ligeiramente e ela respira fundo. Queria que ele dissesse alguma coisa, qualquer coisa para que eu não ficasse ali recitando um monólogo, mas ela não diz nada.

— Nós passamos as férias de verão juntos naquele ano. – Indico a fotografia que ela está segurando. – Aproveitamos cada momento de sol que a Califórnia tinha a oferecer e cada noite agitada e, quando as férias terminaram, eu me mudei para Londres e ela ficou aqui. Mantivemos um relacionamento à distância, nos correspondendo por mensagens, e-mails, chamadas de vídeo e até mesmo cartas sempre que possível e eu planejava apresentá-la para os meus pais quando voltasse para os EUA, mas eu não pude voltar naquele ano, então, a Jacquie foi até Londres para me visitar.

— E o que deu errado? – Alyssa finalmente se pronuncia. Sua voz sai meio falhada por causa de todas as emoções conflitantes que ela está tentando manter sob controle e eu demoro algum tempo para responder porque, embora tenham se passado quase quatro anos desde aquele dia, falar sobre ele ainda dói.

— Nós brigamos na última noite que ela passou em Londres. Motivos bobos, como ciúmes e dificuldade para lidarmos com o tempo cada vez mais escasso que tínhamos por causa do trabalho e da universidade. – Explico. – Dissemos algumas coisas bem ruins um para o outro naquela noite e a Jacquie saiu do restaurante onde estávamos jantando muito brava comigo. – Paro e respiro fundo. – Eu devia ter pedido que ela esperasse ou devia ter mantido a calma em vez de brigar, mas eu não fiz isso. Eu só deixei que ela saísse chorando de lá e acho que foi por isso que ela não olhou o atravessar a rua e eu... eu não pude fazer nada para ajudá-la enquanto ela agonizava nos meus braços.

A expressão irritadiça no rosto de Alyssa desmorona e, no segundo seguinte, ela está ao meu lado na poltrona, envolvendo-me em um abraço apertado.

Eu nunca havia contado aquela história para ninguém, nem mesmo para os meus pais, já que eu sequer puder ir ao funeral de Jacquie depois que a mãe dela me culpou por sua morte. Eu entendia a dor dela, porém. Jacquie tinha apenas dezenove anos e uma vida inteira pela frente, mas tudo isso acabou quando ela foi até Londres me visitar. Se ela fosse minha filha, acho que eu também teria culpado seu namorado, afinal, era mais fácil lidar com a dor quando se tinha alguém a quem responsabilizar por isso.

E eu sabia que aquilo tinha sido apenas uma fatalidade, não era como se eu a tivesse atropelado ou como se o motorista que dirigia o carro pudesse ter evitado o acidente porque tudo aconteceu muito rápido naquela noite, mas eu não conseguia me livrar da culpa. Não conseguia não pensar que, talvez, Jacquie ainda estivesse viva se não tivesse ido à Londres para me ver. Talvez ela tivesse encontrado alguém muito melhor que eu aqui San Diego e, talvez, eles ainda estivessem juntos e felizes, mas eu destruí todo o seu futuro no momento em que concordei com aquele relacionamento à distância, no momento em que sugeri que ela viajasse para outro país só para que pudéssemos passar alguns dias juntos.

— Isso não foi sua culpa. – Alyssa beija minha testa e se agacha na minha frente para me olhar nos olhos. – Você não tem que se martirizar pelo que aconteceu com a Jacquie, Blake. Não tinha como você saber que aconteceria.

— Eu sei. – Assinto, mas meus pensamentos estão bem longe dali, de volta àquela noite em Londres, com o corpo de Jacquie entre meus braços. Às vezes, eu tento me lembrar de como ela era antes, de seu sorriso e da forma engraçada como ela ajeitava o cabelo atrás da orelha, mas eu já não consigo fazer isso. Aquela última imagem dela se apoderou de minha mente como uma maldição.

— Sabe, eu entendo o seu medo. – Alyssa se apoia entre as minhas pernas. – Você a amava e a perdeu de uma maneira trágica, então, é natural que procure motivos para isso ter acontecido e você culpa o relacionamento à distância e aquela viagem, mas... Blake, isso foi um acidente. Poderia ter acontecido com qualquer um, em qualquer lugar. Poderia ter acontecido aqui— ela insiste –, mas não é porque isso aconteceu com você antes que vai acontecer de novo. Nós podemos lidar com isso, podemos lidar com a distância.

Eu nego com a cabeça. Não espero que Alyssa entenda, mas eu sei que não podemos lidar com isso. Sei que eu não posso lidar com isso. Eu jamais suportaria passar por algo assim de novo.

— São apenas três anos, Blake. Sei que parece uma eternidade, mas...

— Isso não está em discussão, Liss. Você me pediu uma resposta e eu te dei, mas eu não vou voltar para Londres e te deixar aqui. Não vou me arriscar nesse tipo de coisa de novo.

— Mas e o seu trabalho? – Ela soa desesperada. – Blake, você tem uma carreira em Londres, tem uma companhia de teatro à sua espera. Não pode desistir de tudo isso por causa de uma coisa que aconteceu anos atrás, não pode jogar tudo fora assim.

Eu apenas a encaro. Não quero discutir, mas não darei o braço a torcer. Depois da morte de Jacquie eu achei que nunca mais conseguiria embarcar em um relacionamento sério outra vez, mas conheci Alyssa e, em poucos dias, ela mudou essa realidade e me fez acreditar novamente em finais felizes. Cada segundo que eu passava ao lado dela era um segundo que eu valorizava e eu não me arriscaria a perder tudo o que tínhamos construído, voltando para a Londres e colocando um oceano de distância entre nós. O Reino Unido podia esperar.

— Você nem quer pensar melhor sobre isso? – Ela questiona visivelmente desanimada.

— Eu já pensei. – Me desvencilho dela e me levanto para ir até o sofá. Coloco a fotografia que ela deixou sobre as almofadas de volta na caixa e a fecho, levando-a de volta para seu lugar no fundo da gaveta em meu quarto.

Imagino que seja estranho guardar fotos da sua falecida ex-namorada assim, mas eu não consigo me desfazer delas, muito embora eu mal tenha tocado naquela caixa durante todos esses anos.

Quando volto para a sala, Alyssa ainda está parada lá, olhando para a TV – ou talvez para a parede branca atrás dela – sem realmente enxergá-la. Ela não parece nada satisfeita com minha decisão de permanecer na Califórnia, mas sinto que ela precisa apenas de um tempo para se acostumar. O meu trabalho na universidade não é ruim e, de certa forma, ele até me mantém conectado com o mundo do teatro. Sei que vai ser difícil mantermos essa relação aluna-professor em segredo por mais três anos, mas tenho certeza de que, quando aquela fase chegar o fim, ela perceberá que aquela era a nossa melhor opção. Não um relacionamento à distância, não uma dezena de viagens cansativas. Apenas nós, a Califórnia e o meu apartamento. Ficaríamos bem.

— Você quer comer agora? – Pergunto, trazendo-a de volta ao tempo presente e ela me fita com olhos vazios.

— Na verdade, acho que eu preciso ir embora. Eu ainda estou no meu horário de trabalho e prometi a Glenn que voltaria para ajudá-la. – Ela diz, adiantando-se para desligar a TV.

Aquilo me faz pensar no porquê dela ter ido até a universidade naquela tarde. Lembro-me que cheguei a questioná-la sobre isso mais cedo, mas ela não me respondeu.

— Porque você foi até a universidade hoje mesmo? – Pergunto de novo. – Achei que queria falar comigo, mas você não falou nada.

Alyssa sacode a cabeça e pega sua bolsa.

— Não era nada importante. Eu só estava com saudade. – Ela se aproxima e deposita um beijo breve em meus lábios. – Te vejo hoje à noite?

Eu assinto.

— Quer que eu faça alguma coisa especial para o jantar?

Os olhos dela parecem tristes.

— Definitivamente. – Ela responde e se encaminha para a porta. – A coisa mais especial em que conseguir pensar.

— Está tudo bem?

— Claro. – Ela sorri, mas não consigo ver sinceridade naquilo. – Só estou cansada. Não dormi muito bem essa noite e hoje foi... cheio de emoções.

— Se quiser podemos remarcar o jantar. – Sugiro. – Podemos nos ver amanhã.

— Não. – Ela balança a cabeça com veemência e sinto uma tensão estranha se espalhando entre nós, mas não consigo detectar bem o que é. Talvez tenham sido as fotos e as cartas de Jacquie. Acho que mostrar aquela caixa a Alyssa foi um pouco demais. – Eu estarei aqui às oito. – Ela garante. – Não comece a comer sem mim.

— Tudo bem.

— Tudo bem. – Ela me lança outro sorriso fraco e sai do apartamento, fechando a porta atrás de si.

Eu ainda fico ali, encarando a porta fechada por mais alguns segundos depois que ela se vai, tentando entender o que acabou de acontecer, mas o dia também foi cheio de emoções para mim e estou cansado. Olho para o relógio e decido que tenho tempo suficiente para tomar um banho e tirar um cochilo antes de começar a preparar o jantar, então, sigo direto para o chuveiro e, depois, direto para a cama.

Ainda não sei o que prepararei para Alyssa naquela noite, mas pensarei em algo que esteja altura das expectativas dela. Talvez eu até ligue para a minha mãe mais tarde e implore por outra de suas receitas secretas, mas isso é algo com que me preocuparei depois. Naquele momento, eu só preciso de algumas horas de sono.

Notas finais
Então, meus amores e amoras, eu espero que vocês tenham gostado do capítulo e que estejam ansiosos pelo próximo. Aliás, alguém aí já tem alguma suspeita do porquê a Alyssa passou a agir tão estranhamente? Se tiverem, mandem aí nos comentários. Vamos nos embrenhar nas "teorias da conspiração" rsrs. Vejo vocês em breve e beijinhos!