O Mestre - EM HIATUS
2 Capítulo Um
Notas iniciais
"Em cada frustração existe uma desilusão e, em cada desilusão, uma oportunidade de recomeço" — Rafael Barros
[Alyssa]
Já está anoitecendo quando eu desembarco no Aeroporto Internacional de San Diego com três malas e um coração partido. Fazia pouco mais de duas semanas que eu havia rompido meu noivado, largado meu emprego e desistido de meu curso de Medicina em Harvard, mas também fazia quase um mês que eu guardava – escondida embaixo das blusas de minha gaveta – a carta de admissão da Universidade da Califórnia, que agora eu usaria para realizar meu grande sonho.
No saguão do Aeroporto minhas duas melhores amigas – Melody e Serena – me esperam com uma grande cartolina azul, onde o meu nome está escrito com cola e glitter dourado e cercado de flores coloridas feitas de tinta guache.
– Aqui Liss! – Melody grita assim que me avista no portão de desembarque – Estamos aqui!
A algazarra de Melody faz com que os outros passageiros olhem ao redor procurando a responsável por tudo aquilo e quando eu aceno para as duas, todos os olhares se voltam para mim, mas eu apenas ignoro todos eles e abro um largo sorriso para minhas amigas, que mal esperam que eu coloque os dois pés no saguão antes de correrem até mim e pular em meus braços.
– Que saudade! – diz Serena, apertando-me com força e fazendo com que um pouco do glitter do cartaz caia sobre minha cabeça como uma chuva dourada.
– Eu também senti muita saudade de vocês duas. – digo retribuindo ao abraço forte delas.
– Gostou do cartaz? – Melody pergunta com um sorriso que vai de orelha a orelha, enquanto Serena estica o cartaz para que eu possa vê-lo direito.
– Ficou lindo, garotas. Eu adorei!
– E isso é só o começo. – diz Serena, lançando um olhar significativo para Melody, o que logo me faz ficar tensa.
– O que vocês duas estão tramando? – pergunto olhando de uma para a outra.
Conheço minhas amigas muito bem e sei que depois de olhares assim a notícia que recebo é sempre bombástica.
– Você vai descobrir daqui a pouco. – diz Melody pegando uma de minhas malas, enquanto Serena enrola o cartaz.
– Ah meu Deus! Me digam que não há uma festa rolando na casa de vocês.
– Não há uma festa rolando em nossa casa. – diz Serena.
Ela pega minha outra mala e segue com Melody em direção à saída do aeroporto. Ambas tem um enorme sorriso estampado em seus lábios.
– Estão mentindo para mim, não é? – pergunto.
– Não exatamente. – diz Melody voltando-se para mim – Realmente resolvemos dar uma festa hoje, mas ela só vai começar mais tarde.
Solto um suspiro cansado.
– Meninas, vocês sabem que eu não estou em clima de festas e, além do mais, as aulas começam amanhã cedo. – choramingo.
– Exatamente por isso nós decidimos fazer a festa. – diz Serena voltando para o meu lado e passando um braço ao redor de meus ombros – É uma ótima oportunidade de fazer você se divertir e ainda comemorar sua admissão na universidade.
– E... Você ainda pode conhecer alguns gatinhos. – Melody completa fazendo, com Serena, algum cumprimento de mãos personalizado e estranho que eu tenho certeza de que elas inventaram recentemente.
– Não estou afim de conhecer ninguém, seja gato, cachorro ou urso. – tento fazer um pouco de graça, mas não sou bem sucedida.
Melody para em frente a mim e coloca as mãos na cintura, encarando-me.
– Liss, você acha justo que aquele safado do seu noivo...
– Ex-noivo. – eu a interrompo.
– Pois bem: Você acha justo que aquele safado do seu ex–noivo esteja agora mesmo dormindo com uma vadia qualquer enquanto você está aqui deprimida?
– Você nem sabe se ele está dormindo com alguém agora. – digo.
– Ele teve coragem de dormir com alguém enquanto ainda era seu noivo, o que o impede de fazer isso agora? – Serena questiona.
Há um minuto de silêncio constrangedor e tenso antes que eu comece a rir.
– Ok. Vocês tem razão. O Dylan é mesmo um safado e, com certeza, deve estar na cama de alguém agora, mas só porque ele dorme com qualquer uma não significa que eu tenha que fazer o mesmo só para esquecê-lo.
– Eu não disse nada sobre dormir com alguém. – Melody dá de ombros – Mas se sua imaginação cogitou isso é porque não deve ser má ideia.
– Você não vale nada. – sorrio – Nenhuma das duas vale nada.
– Apenas somos sinceras. – diz Serena – Mas o que me diz sobre a festa, hein? E, antes que tome qualquer decisão, quero deixar claro que já compramos bebidas e aperitivos e convidamos meio mundo de gente.
– E passamos a tarde decorando a casa. – Melody completa.
Finjo pensar um pouco e depois solto um suspiro profundo.
– Ok. Mas só porque vocês decoraram a casa. – repondo – E eu sei que para duas preguiçosas como vocês, isso é um grande esforço.
Melody e Serena soltam gritinhos animados e há mais uma sessão de abraços apertados, antes de nos dirigirmos até o estacionamento do aeroporto, onde o antigo Porche 911 recém-reformado de Serena nos aguarda.
Nós guardamos minha bagagem em seu porta-malas, depois nos apertarmos para entrar no carro, que era um modelo conversível branco de 1990 com apenas dois bancos, e seguimos para a 6147 da Trevers Way.
A casa das garotas é pequena, mas é aconchegante e tem um grande quintal. Possui dois quartos, sala, cozinha e um banheiro e, como Melody havia me dito antes, está decorada para a festa que acontecerá naquela noite.
– Venha, Liss. Vou te mostrar o seu quarto – diz Serena puxando-me em direção ao quintal.
Ela abre uma porta que fica ao lado da área de serviço e eu me surpreendo ao encontrar ali um pequeno quarto de paredes lilases, com uma cama de solteiro com lençóis limpos e novos, um guarda-roupa antigo, uma mesa pequena de madeira com uma cadeira e um espelho com uma bela moldura de mogno, onde estavam coladas três fotos minhas ao lado de Melody e Serena.
– Usávamos esse lugar para guardar um monte de coisas velhas. – Melody começa a explicar – E quando você disse que viria para cá, Serena e eu decidimos que poderíamos usá-lo para fazer o seu quarto. Então nos livramos de todas as coisas velhas, limpamos e repintamos tudo para você.
– Aproveitamos que a Melody comprou uma cama nova recentemente e colocamos a antiga aqui para você. – Serena completa – E compramos esse guarda-roupa, o espelho e a mesa de uma senhora que mora no centro da cidade. São antigos, mas ela nos fez um bom preço.
Eu olho para elas emocionada com tudo aquilo.
– Sabemos que não é muito grande e que fica do lado de fora da casa. – diz Melody – Mas assim você ganha um pouco de privacidade também.
– Meninas é... perfeito! Mas não precisavam fazer isso. Vocês sabem que eu poderia dormir até no sofá da sala.
– Nada disso. Você é nossa amiga e queremos que fique confortável aqui. – diz Serena – Você fez muita coisa por nós também, estamos apenas retribuindo.
– Obrigada, garotas. – digo agarrando as duas em mais um forte abraço.
– Disponha. – Serena sorri – Agora deixe suas malas aí e nem pense em começar a desfazê-las hoje, porque temos que nos arrumar. Marquei a festa para às sete horas, o que significa que às oito as pessoas começarão a chegar, então temos muito que fazer até lá.
– Sim, senhora. – eu concordo, fazendo um cumprimento militar.
Depois de tomar meu banho – logo depois de Melody e Serena – procuro em minhas malas alguma coisa legal para vestir naquela noite. Opto por um vestido de renda branco e rodado, com um pequeno blazer rosa por cima e sapatilhas de um tom nude e amarro o cabelo em um rabo de cavalo alto.
Estou me preparando para fazer a maquiagem quando Melody e Serena entram em meu quarto.
– Por Deus, Liss. Que roupa é essa? – Melody pergunta visivelmente desapontada com o look que eu havia escolhido.
– O que há de errado com ela? – pergunto olhando-me no espelho uma vez mais.
– Nada. Desde que você esteja planejando ir à igreja ao invés de uma festa. – Serena responde com um sorriso.
Ela usa uma blusa branca de renda, um pequeno short preto com lantejoulas brilhantes e uma sandália gladiadora de salto alto e fino, também preta, enquanto Melody usa uma mini blusa preta, calça jeans escura com alguns rasgos, botas pretas de salto alto e um chapéu de Fedora e, perto delas, eu realmente pareço a filha de um pastor.
– Acho que esqueci que tipo de roupa se usa em uma festa. – digo – Desde que comecei a namorar o Dylan nunca mais fui a uma.
– Pois não se preocupe com isso. – Melody me consola – Serena e eu vamos te ajudar. Aliás, eu tenho uma roupa que vai ficar perfeita em você. Espere um segundo, ok? Eu já volto.
Melody corre para dentro da casa e volta um minuto depois com um vestido preto tomara que caia, cuja saia era de um tecido fino e evasê, e com um par de sapatos altos e pretos, com alguns detalhes dourados.
– Aqui. Use esses. – diz Melody – Acho que vão combinar muito com você.
– Ok. – digo tirando as roupas que estava usando e apressando-me em vestir as que ela havia me dado.
Quando termino dou uma pequena voltinha para Melody e Serena que aplaudem animadas. Em minha opinião, o vestido está mais curto e mais apertado do que eu considero confortável, mas tanto Melody quanto Serena discordam.
– Está simplesmente perfeito! – Melody exclama – Você está super sexy, Liss.
– Verdade. Essa roupa combinou muito com você. – Serena concorda – Agora vou te ajudar com a maquiagem e o cabelo.
– Ótimo, enquanto isso eu vou dar um pulinho lá fora, pois tenho a impressão de que os convidados já estão chegando. – diz Melody – Vejo vocês daqui a pouco então.
Melody se retira e Serena puxa a cadeira da mesa de madeira para perto do espelho.
– Sente-se aqui, Liss. – diz ela.
Eu obedeço e Serena começa a fazer seu trabalho. Ela opta por fazer uma maquiagem de tons mais escuros já que a festa é à noite e deixa meu cabelo solto mesmo, passando apenas um pouco de mousse para modelá-lo.
– Bem, isso é tudo. – diz Serena dando um último retoque em meu batom vermelho – O que achou?
Eu me olho no espelho, avaliando sua bela obra.
– Ficou perfeito. Já pensou em ser maquiadora? – pergunto, colocando-me de pé e arrastando a cadeira de volta para a mesa.
– Nunca. – Serena responde convicta – Minha vocação é o teatro. Ser boa maquiadora é apenas um bônus.
– Eu queria ter tanta certeza sobre minha vocação quanto você e a Mell.
– Você tem. – diz Serena passando um braço ao redor de meus ombros – Ninguém larga o emprego e um curso de medicina em Harvard e atravessa o país para cursar Música se não tiver certeza absoluta do que quer.
Penso um pouco a respeito. Muitos consideram meus atos uma completa loucura, mas eu fiz tudo para correr atrás dos meus sonhos e não me arrependo. Pelo menos ainda não.
– Você tem razão. – sorrio.
– Eu sei. – Serena retribui ao meu sorriso – Mas vamos nos preocupar com essas questões acadêmicas a partir de amanhã, ok? Tem uma mega festa rolando lá fora. Então vamos erguer a cabeça, colocar um grande sorriso no rosto e nos divertir! E isso é uma ordem, Liss.
– Você quem manda. – respondo e, assim, seguimos para a festa.
Boa parte dos convidados perece já ter chegado e o barulho de música e vozes toma conta da casa e também do quintal. Serena segue me apresentando para todos os seus amigos e conhecidos e quando nós encontramos Melody, cerca de uns dez minutos depois, foi sua vez de me apresentar para todos os seus amigos.
Ao que posso notar, setenta por cento das pessoas que estão nessa festa são universitários, vinte por cento são amigos dos universitários e os outros dez por cento são penetras, mas ninguém parece realmente se importar com isso. Todos estão se divertindo e até quem não foi convidado acaba fazendo amizades ali.
Eu sigo Melody e Serena por toda a festa, parando de grupo em grupo e me esforçando para interagir com todos, pois aquelas pessoas serão minhas colegas de universidade e quanto mais eu as conhecer hoje, menos caloura me sentirei amanhã.
– A gente devia jogar alguma coisa. – diz Melody aumentando o tom de voz para que eu e Serena póssamos ouvi-la, mas seu esforço é em vão.
Estamos no meio da pista de dança improvisada que foi montada no quintal, cerca de uma hora antes, para que um amigo de Melody – que é DJ nas horas vagas – possa tocar. A música alta e cheia de graves mais altos ainda nos impede de ouvi-la, mesmo estando a pouco mais de trinta centímetros de distância uma dela.
– O que você disse? – Serena grita aproximando-se de Melody um pouco mais.
– Eu disse que a gente devia jogar. – Melody grita aproximando-se também.
– Jogar? – eu indago sem entender o que ela quer dizer com aquilo. Em minha mente a única coisa que fará jus a isso é montar um campo de futebol bem no meio do quintal, mas eu duvido que as pessoas ali concordarão com isso.
– É. – Melody assente – Para animar as coisas um pouco. É nosso último dia de férias e precisamos nos divertir muito hoje.
– Que tipo de jogo? – Serena pergunta, antecipando-se a mim.
– Verdade ou Desafio. – Melody responde, segurando-nos pelo braço e arrastando-nos para longe da pista de dança, em direção à mesa de bebidas que havia sido montada próxima à varanda.
Serena logo se anima com a ideia.
– Cara, eu não jogo isso desde a formatura do Colegial. – diz ela – Eu topo. E você Liss?
Eu penso um pouco. Eu também não jogo Verdade ou Desafio desde o colegial. Ainda me lembro do quanto nós três costumávamos nos divertir com esse jogo durante a adolescência e diversão é tudo o que eu preciso depois do que aconteceu em minha vida. As últimas semanas não foram fáceis para mim.
– Vai ser legal. – respondo finalmente.
– Ótimo. – Melody comemora.
Ela pega uma garrafa de Vodka quase vazia e despeja o restante de seu conteúdo em três copos, entregando um para Serena e outro para mim e entornando o seu com um único gole.
– Bem, vamos lá! – diz ela, fechando a garrafa novamente e girando-a sobre a mesa.
A garrafa dá algumas voltas e para com o fundo voltado para mim e o gargalo para Serena, indicando que eu devo fazer uma pergunta a ela.
– Verdade ou Desafio? – pergunto animada, bebendo um pouco da Vodka de meu copo.
– Verdade. – ela diz com um sorriso.
– É verdade que você transou com Kevin Smith no vestiário masculino em nosso primeiro ano do colegial? – questiono, recebendo um cumprimento de Melody, que logo depois abre outra garrafa de Vodka e volta a encher seu copo.
Serena ruboriza no mesmo instante e é quase possível ver uma gotícula de suor começar a brotar em sua testa. Ela entorna seu copo de vodka com um gole só e pede que Melody o encha novamente. Está na cara que ela está nervosa.
– Eu sou mesmo obrigada a responder essa pergunta? – ela me questiona e eu afirmo com um aceno decidido.
– Essa é a regra do jogo, Serena. – digo satisfeita.
Serena jamais responde qualquer coisa sobre Kevin em situações normais. Ela sempre desconversa e acaba por nos deixar no vácuo, mas hoje ela terá que responder.
– Sim. É verdade. – ela responde entornando novamente a Vodka de seu copo.
Melody e eu soltamos assovios e risadas com a resposta e Serena esconde o rosto entre as mãos.
– Eu sabia que Kevin era um safado de primeira! Ele nunca me enganou. – Melody exclama agitada.
Eu concordo bebericando um pouco do líquido ardente em meu copo.
Kevin Smith era um garoto ruivo que estudava conosco no colegial. Ele era aquele tipo de garoto nerd que os populares gostavam de importunar: Usava óculos com lentes grossas e roupas engomadas, sentava-se na primeira cadeira da sala, sempre tirava notas A, colecionava insetos em uma caixa de isopor e andava sempre com uma bombinha contra asma. Apesar disso, Serena estava sempre ao seu lado e, sempre que nós perguntávamos se eles tinham algum caso, ela negava e dizia que tinha apenas o interesse de que ele fizesse os deveres dela. E, na verdade, ele fazia mesmo.
Entretanto, eu e Melody sempre suspeitamos que havia mais que isso entre eles e um belo dia nós vimos, por acaso, os dois entrarem sorrateiros no vestiário masculino. Desde então sempre nos questionamos se havia acontecido algo lá dentro. Agora tínhamos nossa resposta.
– Sim. Ele tinha aquele jeito nerd insuportável, mas era bem quente naquelas horas. – Serena confessa corando e arrancando de nós gritinhos eufóricos.
– Sua safada! Não acredito que você transou com ele e nunca nos contou. – digo – E todo aquele papo de que melhores amigas não têm segredos?
– Vocês fizeram graça comigo por quase dois meses mesmo sem ter certeza de que eu e ele tínhamos ficado juntos. – ela se defende – Se eu tivesse contado, esse período teria se estendido por muito mais tempo e não tenho certeza se eu aguentaria vocês me perturbando por um ano inteiro.
– Você tem razão. – diz Melody abraçando Serena– Eu teria te importunado até o fim do colegial se tivesse me contado isso.
– Sei bem. – diz Serena – Mas vamos lá. De novo!
Serena gira a garrafa que para com o fundo virado para Melody enquanto o gargalo permanece virado para ela novamente, que olha para a garrafa decepcionada.
– Mas que droga! – Serena pragueja de mau humor.
– Verdade ou desafio? – Melody pergunta praticamente cantarolando.
– Desafio, pelo amo de Deus! Chega de perguntas vergonhosas por hoje.
– Ok. Eu te desafio a beber metade dessa garrafa de Vodka. – diz Melody.
– Você quer que eu entre em coma alcoólico?! – Serena exclama – Isso não é água, Mell.
– Pare de drama, Serena. A garrafa já está pela metade. – diz Melody estendendo a garrafa para ela – Beba!
Serena agarra a garrafa de má vontade e Melody traça uma linha invisível indicando até onde ela deve beber. Ela concorda, conta até três e então começa a beber, sendo acompanhada pelo coro que Melody e eu fazemos gritando “Bebe! Bebe! Bebe!” como costumávamos fazer no colegial. Parecemos três adolescentes de novo.
Serena cumpre seu desafio, devolve a garrafa de Vodka para Melody e gira a garrafa vazia novamente, cruzando os dedos. Dessa vez o fundo da garrafa se volta para Melody de novo, mas seu gargalo se volta para mim ao invés de Serena e ela comemora com uma dancinha estranha qualquer.
– Verdade ou Desafio? – Melody pergunta-me com um sorriso malicioso.
Se eu fosse esperta, teria escolhido a verdade, pois nunca tive realmente segredos com minhas amigas e o mais provável era que Melody me fizesse uma pergunta da qual já soubesse a resposta ou uma curiosidade boba qualquer, que eu poderia responder sem problemas, mas essa noite eu estou mais desinibida e mais tentada a fazer coisas idiotas. E foi exatamente o que fiz.
– Desafio. – respondo confiante, bebendo o restante da Vodka que há em meu copo.
– Ok. – ela diz e seu sorriso se alarga ainda mais – Eu te desafio a ir para a cama com um dos caras dessa festa.
– O que?! – exclamo assustada com o desafio escolhido por ela. Melody está realmente travessa essa noite e eu me arrependo imediatamente de não ter escolhido dizer apenas a verdade.
– Você disse desafio e foi esse o desafio que eu escolhi. – ela coloca um pouco mais de Vodka em meu copo.
– Eu não vou fazer isso. – dispenso a ideia – Escolha outra coisa.
– Não tem como mudar o desafio. Essa é a regra do jogo, Liss. – Serena dá um tapinha em meu ombro e eu a amaldiçoo, enquanto ela e Melody trocam um brinde animado.
– Eu não vou para a cama com um completo estranho por causa de um jogo idiota. – retruco – Não adianta.
– Sem essa! Eu fui obrigada a contar meu segredo sujo e a beber meia garrafa de Vodka, então você tem que fazer sua parte também.
– Só que contar um segredo e beber não se compara com fazer sexo com alguém que você nem conhece.
– Ok. Ok. – diz Melody vendo que eu não iria ceder – Então apenas seduza o cara e dê uns bons “amassos” nele essa noite. Me contento com isso.
Eu nego com a cabeça.
– Ah, fala sério, Liss! Entendo que você não queira cumprir o desafio original, mas esse aí não é difícil. – diz Serena – Basta escolher um cara atraente e ficar com ele essa noite. O que você vê de mais nisso?
Ela e Melody permanecem me encarando com tanta intensidade que me sento obrigada a concordar com o novo desafio proposto apenas para me livrar de seus olhares.
– Ok. Escolham o cara então. – digo de mau humor — E espero que não façam nenhuma gracinha, pois se vou ter que aturar alguém durante toda essa festa,é melhor que seja alguém legal.
Elas olham ao redor, analisando os caras que estão por perto e escolhem um cara loiro e forte que veste uma jaqueta com o emblema do time de futebol americano da universidade. Assim que dou dois passos em direção a “pista de dança” para começar a flertar com ele, Melody segura-me pelo braço e me puxa de volta.
– O que foi? – pergunto já achando que ela se arrependeu do desafio que me deu.
– Mudei de ideia. Esse cara não. – ela diz concentrando seu olhar num ponto mais afastado do quintal – Aquele cara!
Eu sigo seu olhar e me deparo com um cara alto, de cabelos escuros e corpo atlético encostado na cerca que dividia o quintal da casa com uma área verde e inutilizada.
– Com certeza aquele é o cara. – diz Serena postando-se ao meu lado.
Ela e Melody olham para mim animadas e eu quase posso sentir a eletricidade percorrendo seus corpos, embora eu não entenda o porquê já que o cara está a metros de distância e de costas para nós e mal é possível vê-lo direito.
– Ok. – digo seguindo em direção ao cara — Vamos acabar logo com isso.
Sigo com passos decididos até a extremidade da propriedade, tomando cuidado para não tropeçar com aquele salto, pois eu sei que um vexame desses não me ajudará a conquistar aquele cara e eu preciso dele para terminar esse desafio e me ver livre das brincadeiras de mau gosto de Melody e Serena.
Conforme me aproximo dele, entretanto, a confiança que eu tenho parece se esvair. Eu estou bastante ciente dos olhares de Melody e Serena atrás de mim e mais ciente ainda do fato de que elas rirão de mim por dias se aquele cara me rejeitar, mas já não há mais volta. Eu estou apenas a quatro passos dele agora.
Três.
Dois.
Um.
– Oi. – digo tentando usar meu melhor tom sedutor para chamar a atenção dele, que está tão absorto na paisagem escura que há além da cerca que nem sequer parece ter escutado meus passos pesados na grama seca atrás dele.
Ele se vira para mim e eu quase caio para trás quando vejo seu rosto perfeito, que parece ter sido esculpido por anjos e seus olhos azuis intensos. Melody e Serena estão certas: ele é o cara!
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