Notas iniciais
Olá! Como prometido, dessa vez não demorei tanto quanto antes para postar o novo capítulo e espero que os próximos capítulos continuem seguindo nesse ritmo. Espero que gostem. Boa leitura.

“A vida é uma caixinha de surpresas, não discordo; mas olha só que ironia gostosa: a minha vem com brinde!” – Carolina Grein Xavier.

[Alyssa]

Faço o meu melhor para ignorar os olhares questionadores das pessoas por quem passo enquanto vago pelas ruas escuras de San Diego, descalça e comm metade do vestido aberto.

Aos olhos dessas pessoas eu devo parecer uma prostituta bêbada e fracassada, mas eu não os culpo por pensarem assim, afinal, a única culpada por toda essa situação vergonhosa na qual me encontro agora, sou eu.

Não sei onde eu estava com a cabeça quando decidi largar uma festa na segurança de meu novo lar para ir ao apartamento de um completo desconhecido sem levar nem mesmo o celular ou a carteira. Eu devo ser doida!

Blake era educado e encantador, mas ele poderia muito bem ser um estuprador, ou algum tipo de psicopata assassino e eu havia simplesmente ignorado todas essas possibilidades aterrorizantes e subido na garupa de sua moto... Eu deveria me bater por ser tão irresponsável!

Faço sinal para o primeiro táxi que aparece, rezando para que ele pare e, felizmente, minhas preces são atendidas.

– Trevers Way 6147, por favor. – digo ao motorista que me lança um olhar desconfiado antes de seguir em frente.

Assim que ele estaciona em frente à casa de Melody e Serena, eu me inclino para frente e verifico o taxímetro.

– O senhor pode esperar aqui, enquanto eu entro para pegar o seu dinheiro? – peço encarecidamente.

O taxista me lança o olhar de desconfiança novamente e eu quase posso ouvi-lo decidir, mentalmente, se eu estou tentando lhe aplicar um golpe ou não. Aguardo ansiosa, fazendo minha melhor cara de sinceridade, até que ele finalmente assente e destrava as portas do táxi.

Assim que ponho os pés para fora do carro, Melody e Serena surgem na porta de entrada da casa. Seus olhares seguem em sincronia para minha mão esquerda – com a qual seguro o par de sapatos altos de Melody –, descem até meus pés descalços e, depois, voltam para o meu rosto.

– O que houve, Liss? – Serena pergunta enquanto ela e Melody vêm ao meu encontro.

Sua voz está repleta de preocupação e, assim que ela e Melody param ao meu lado, vejo seu olhar recair para o zíper mal fechado de meu vestido.

– Ai meu Deus! – Serena exclama levando as mãos a boca – O que aconteceu com você?!

– Se aquele bastardo tiver feito qualquer coisa com você, eu juro que o mato! – Melody diz, virando-me um pouco, para avaliar meu estado.

– Ele não fez nada comigo, garotas. Eu estou bem. – digo desviando-me delas para ir buscar o dinheiro do taxista que já começa a me olhar com impaciência de dentro do carro.

Melody me segura pelo ombro.

– Você está bem coisa nenhuma! – ela me encara com seriedade – Eu te conheço desde o jardim de infância e sei pela sua cara que aconteceu alguma coisa. Desembuche, Liss!

Reviro os olhos e suspiro.

– Aconteceu uma coisa, sim. Mas não é nada do que vocês duas estão imaginando. – explico – Vou contar tudo a vocês, mas antes preciso ir buscar o dinheiro para pagar o táxi.

Melody olha para mim e depois para o táxi e, então, me empurra na direção de Serena.

– Eu pago o táxi. – ela diz decidida – Você vai entrar com a Serena e depois nós conversaremos sobre o que aconteceu.

Melody mal termina a frase e Serena já está me arrastando para dentro de casa.

Com o início das aulas na manhã seguinte, a maior parte dos convidados já tinha ido embora e, algo me dizia, que os poucos convidados que restavam seriam enxotados por Melody assim que ela voltasse para dentro.

Enquanto seguimos para o quarto, Serena e eu passamos por um grupo de garotos que estavam sentados no sofá da sala, conversando animados sobre a temporada de Surf.

– Rapazes. – Serena os cumprimenta com um breve um aceno de cabeça.

– Moças. – diz o garoto que está sentado na extremidade esquerda do sofá.

Olho para trás e vejo que ele está fitando a parte aberta de meu vestido com curiosidade, e assim que ele percebe que estou olhando, ele abre um pequeno sorriso e ergue a garrafa de cerveja que está segurando como uma espécie de cumprimento.

Antes que eu tenha tempo de tentar imaginar o que ele estaria pensando ao olhar meu vestido daquele jeito, Serena abre a porta do quarto e me empurra para dentro dele.

– É melhor você tomar um banho, antes de a Mell voltar. – ela diz entregando-me uma toalha.

Aceito a sugestão de bom grado e me dirijo para o banheiro, enquanto ouço Melody expulsar os garotos da sala. Eles saem sem reclamar e, quando termino meu banho, o único som que há na casa é o barulho de Melody e Serena arrastando um colchão de casal para a sala.

– O que estão fazendo? – pergunto, enrolando meus cabelos molhados na toalha cor de rosa de Serena.

– Decidimos que seria bom dormirmos juntas essa noite. – Melody explica enquanto forra o colchão com um lençol – Assim como fazíamos em nossas festas do pijama no colegial.

– Não precisam fazer isso, meninas. Eu disse que estou bem.

– Isso nós iremos decidir depois que você nos contar o que aconteceu entre você e aquele cara. – diz Serena.

– Blake. – digo calmamente.

– O que? – Melody para, me encarando confusa.

– O nome dele é Blake. – explico, sentando-me no sofá enquanto ela e Serena terminam de arrumar nosso colchão.

Depois que as meninas terminam de arrumar tudo, nós trancamos a casa, apagamos as luzes, ligamos a TV em um volume baixo e nos deitamos no colchão dividindo um único edredom.

– Pode começar a abrir o bico. – Melody exige, dando alguns tapas em seu travesseiro para afofa-lo.

Tenho absoluta certeza de que, por mais que eu queira, não poderei evitar aquela conversa, então eu simplesmente solto um longo suspiro e começo a falar:

– Bem... O nome dele é Blake e ele é um cara legal. – digo numa tentativa de criar um contexto para introduzir a história – Nós conversamos um pouco aqui na festa e meio que rolou um lance entre nós, sabe?

– Hum... continue. – diz Serena, encarando-me com tanta atenção que até me sinto sem jeito para continuar meu relato.

– Sim. Como eu dizia, nós conversamos um pouco e rolou um lance legal e... Nossa! Ele é muito lindo, sabe? E é tão sedutor que eu quis... – faço uma pausa tentando criar coragem para contar o resto – Bem...eu quis...

– Quis ir para a cama com ele. – Melody completa para mim, fazendo-me corar.

– É. Isso aí. – digo envergonhada.

– E então? O que aconteceu depois? – Serena quis saber.

– Nós fomos para o apartamento dele...

– O apartamento dele é bonito? – Melody me interrompe, fazendo Serena lançar-lhe um olhar de reprovação – O que foi? – ela franzi a testa para Serena – Essas informações são importantes.

– Sim. – respondo para encerrar aquele assunto – O apartamento dele é bonito, ok? Muito bonito, por sinal.

– Ótimo. – Melody diz com um sorriso – Continue. Vocês foram para o apartamento dele e...

– E, vocês sabem. – dou de ombros – Nós ficamos por lá e aí o clima esquentou... Quando dei por mim nós já estávamos totalmente nus sobre a cama dele.

Ambas me encaram e então Serena cruza os braços atrás do pescoço.

– Deixe-me adivinhar. – diz ela – Você transaram e depois ele foi um completo idiota e, aí, você teve de sair correndo do apartamento dele e pegar um táxi para voltar para casa. Acertei?

– Não. – digo concentrando-me em um dos desenhos florais do edredom – Na verdade, foi exatamente o contrário.

– Como assim o contrário? – Melody pergunta, confusa.

– Para começar, nós não transamos. – explico – Estávamos quase lá e, então, ele olhou para mim e disse que nós formávamos um belo par. Depois disso eu saí correndo do apartamento dele.

Melody e Serena se levantam no mesmo instante e sentam no colchão, encarando-me boquiabertas.

– Você é doida?! – Melody exclama para mim.

– Não. – digo me encolhendo um pouco diante da acusação.

– Então porque diabos você saiu correndo, Liss? – Serena questiona, encarando-me de forma séria – Você acaba de nos dizer que o cara é lindo, super sedutor e que rolou um lance legal entre vocês. Sinceramente, parecia até que ele queria algo um pouco mais sério. Não entendi porque você fugiu.

Olho para elas por um instante e depois afundo um pouco mais em meu travesseiro.

– Quando o Blake disse que formávamos um belo par eu me lembrei do Dylan. – digo baixinho, já sentindo as lágrimas inundarem meus olhos – Foi exatamente isso que ele me disse quando me deu o anel de noivado, mas como vocês devem ter notado, nós não formamos um belo par no fim das contas.

Assim que termino minha explicação, as lágrimas começam a despencar de meus olhos e, logo, sinto os braços de Melody e Serena me envolverem em um abraço grupal.

– Sinto muito, Liss. – Serena sussurra para mim em um tom condescendente – O Dylan é um grande idiota.

– Eu sei. – digo em meio às lágrimas – E eu queria muito ter ido em frente com o Blake essa noite, mas eu não pude. Eu, simplesmente, não pude.

– Nós entendemos. – Melody me reconforta – O Dylan te magoou e você tem medo que aconteça de novo. É normal. Mas vou te dizer uma coisa: Se um dia eu encontrar o Dylan no meu caminho eu não me responsabilizo pelo que serei capaz de fazer com ele.

– Isso mesmo, Mell. Mostre a ele os seus golpes de Jiu Jitsu. – Serena a incentiva – E eu aproveitarei para mostrar a ele todo o talento que tenho usando um taco de Baseball.

Uma risada escapa por meus lábios ao ouvir os planos de minhas amigas vingativas, mas logo as lágrimas voltam a fluir de meus olhos e eu as deixo sair, aconchegando-me mais no abraço de Melody e Serena.

Blake parecia ser uma boa pessoa, mas meu relacionamento com Dylan havia me machucado muito e as feridas eram muito recentes para cicatrizarem. Talvez, se eu o tivesse encontrado em algum outro momento as coisas poderiam ter sido diferentes entre nós, mas naquela noite, fugir foi tudo o que consegui fazer para me proteger e a única coisa que me entristecia era o fato de que eu, provavelmente, não o veria de novo.

***

Na manhã seguinte nós acordamos cedo, mas ainda assim alguns minutos atrasadas para nossa primeira aula do semestre. Fazemos o que é possível para amenizar nossas caras de sono e ressaca – e, no meu caso, também de choro – nos dez minutos que temos para nos arrumar, antes de nos apertamos no antigo Porche 911 de Serena e seguirmos para a universidade.

Assim que Serena estaciona, eu desço do carro e me espreguiço, sentindo meus ossos estalarem. Dividir um colchão e um edredom com Melody e Serena é quase como entrar num ringue com dois excelentes pugilistas. Some-se a isso o fato de que minha noite tinha sido um desastre e que meu estado sentimental estava um lixo e, então, você poderá entender como eu me sentia naquela manhã.

– Preparada para sua primeira aula? – Serena pergunta, pegando-me pelo braço.

– Não exatamente, mas vamos lá! – digo com um sorriso que, eu espero, não tenha saído tão forçado.

Como Serena cursava teatro, nós teríamos aula de Musicalidade e Interpretação juntas, portanto, nos despedimos de Melody – que cursava Estilismo e Moda – e seguimos para nossa aula no auditório do prédio de Artes.

Quando chegamos, o auditório já está praticamente lotado e nos sentamos em uma das últimas fileiras para ouvir o final do discurso de boas vindas de um homem de cabelos grisalhos que estava em pé no centro do palco do auditório.

– Aquele é o senhor Jacob Farnell. – Serena me explica em voz baixa – Ele é o diretor dos Cursos de Artes da universidade.

Eu assinto e abro o zíper barulhento de minha mochila da forma mais discreta que consigo, para poder retirar dela meu caderno e uma caneta para o caso de eu, eventualmente, precisar fazer alguma anotação.

– Muito bem, senhoras e senhores. – Jacob Farnell diz após cessarem os aplausos que se sucedem ao seu discurso de boas vindas – Como muitos de vocês devem saber, a senhor Palmer, que lecionou essa disciplina por mais de vinte anos em nossa instituição, teve de se ausentar para cuidar de sua saúde. Não sabemos quando, ou se, ele irá retornar, pois seu estado de saúde é frágil e, por esse motivo, nós contratamos um professor para substituí-lo esse semestre e, caso ele não retorne, para substituí-lo permanentemente.

Houve uma série de murmúrios pelo auditório e pude notar o alívio se espalhar pelo local. Talvez o Professor Palmer fosse muito competente, mas com certeza ele não era muito querido pelos alunos.

Jacob Farnell faz um sinal pedindo silêncio aos alunos no mesmo instante em que minha caneta cai de meu caderno e rola para baixo de minha carteira, forçando-me a me abaixar e ficar de cócoras para tentar resgatá-la.

– Sem mais delongas, eu gostaria de apresentá-los ao seu novo professor de Musicalidade e Interpretação. – Jacob Farnell continua enquanto eu luto para pegar minha caneta de volta – Recebam, com carinho, um de nossos mais talentosos ex-alunos, o senhor Blake Carson.

Assim que Jacob Farnel apresenta nosso novo professor, a sala irrompe em aplausos e suspiros.

– Ai.Meu.Deus! – Serena exclama ao meu lado e só consigo pensar que, muito provavelmente, nosso novo professor deve ser um gato.

Meus dedos roçam a caneta embaixo de minha carteira no mesmo momento que Serena começa a estapear minhas costas de forma frenética. Faço o possível para ignorá-la e estico o braço um pouco mais até conseguir agarrar a caneta.

– Liss! – Serena me chama em uma espécie de grito-barra-sussurro e eu me levanto, limpando a poeira de minha calça jeans com alguns tapas.

– O que é?! – pergunto um tanto irritada.

Serena aponta para o palco do auditório e eu me viro a tempo de ver Blake subir os últimos degraus da pequena escada e se dirigir ao centro do palco para apertar a mão de Jacob Farnell.

– Ai.Meu.Deus! – eu exclamo, deixando a caneta escorregar de minhas mãos e rolar para baixo de minha carteira novamente.

Notas finais
Bem, espero que vocês tenham gostado e que eu tenha esclarecido o motivo da estranha fuga da Alyssa. Aguardo seus reviews e vejo vocês no próximo capítulo! Beijos e até lá.