Notas iniciais
Olá! Sei que essa frase já está se tornando batida por aqui, mas: ME DESCULPEM PELA DEMORA! Como eu expliquei aos leitores nos reviews, estou sem tempo para escrever e, por isso, atualizar a fanfic está sendo muuuuito difícil, mas, por favor, tenham paciência comigo (rsrs). Prometo que, sempre que possível, eu aparecerei aqui com um capítulo novo para vocês. Enfim, vou deixar que vocês leiam agora, pois sei que estão esperando a muito tempo por esse capítulo. Espero que gostem. Beijos e boa leitura.

“Não poucas vezes esbarramos com o nosso destino pelos caminhos que escolhemos para fugir dele.” – Jean de La Fontaine.

[Alyssa]

Completamente em choque, observo enquanto Blake e Jacob Farnell trocam um breve cumprimento no centro do palco do auditório e mal noto que os estudantes ao meu redor voltaram a se sentar em suas cadeiras, até que Serena puxa o cós de minha calça jeans, forçando-me a me sentar também.

– Tenho certeza de que todos estão ansiosos para iniciar a aula. – Jacob Farnell diz quando todos, finalmente, se calam – Sendo assim, vou encerrar o meu discurso por aqui e deixar que vocês conheçam melhor o seu novo professor. Desejo a todos um ótimo semestre e, sempre que precisarem, as portas da Diretoria estarão abertas.

Os alunos se levantam novamente e batem palmas para Jacob Farnell enquanto ele se despede de Blake com mais um aperto de mão, mas eu permaneço sentada, pois sinto que o auditório inteiro está girando à minha volta enquanto luto para assimilar o fato de que Blake – o cara com quem eu quase fui para a cama há algumas horas – será um de meus professores nesse semestre.

– Respire, Liss. Você já está ficando vermelha. – Serena me adverte em voz baixa.

Faço o que ela pede e puxo o ar com força, ainda sem retirar os olhos do centro do palco do auditório de onde Jacob Farnell acaba de sair, deixando-nos a sós com nosso novo professor.

– Muito bem. – Blake diz assim que Jacob Farnell se retira do auditório – Acho que agora podemos começar.

Ele abre seu sorriso perfeito para os alunos e uma série de suspiros ritmados irrompe pelo auditório, mas eu não culpo nenhuma das garotas ali por não conseguir se conter, afinal, eu havia provado o encanto daquele sorriso na noite anterior e sabia bem que ele era irresistível.

– Como o Sr. Farnell já mencionou, eu me chamo Blake Carson e irei substituir o Sr. Palmes na disciplina de Musicalidade e Interpretação esse semestre. – Blake continua – Para vocês que, assim como eu, escolheram trabalhar com arte, essa disciplina é muito importante, pois é aqui que muitos de vocês encontrarão a sua identidade artística e o meu trabalho será, justamente, ajuda-los a desenvolver essa identidade.

Uma aluna de cabelos vermelhos intensos, que está sentada em uma das primeiras fileiras do auditório, ergue a mão e Blake direciona sua atenção para ela.

– Com licença, Sr. Carson. – ela começa a dizer, mas Blake a interrompe.

– Por favor, me chame apenas de Blake. – ele diz, exibindo novamente seu sorriso perfeito que, mais uma vez, faz uma sessão se suspiros preencher o auditório.

Se Blake seria um bom professor ou não, era impossível dizer, mas uma coisa era fato: em menos de dez minutos de aula, ele já havia alcançado o topo da lista de professor favorito de todas as garotas – e de alguns garotos – daquela turma.

– Então, Blake. – a garota recomeça frisando o nome dele com um sorriso afetado – O Sr. Farnell mencionou que você é um ex-aluno da UCSD¹. Isso é verdade?

– Sim. Eu me graduei em Teatro aqui. – Blake responde animado – Já me sentei nessas mesmas cadeiras onde vocês estão hoje e, o Sr. Palmer, inclusive, foi meu professor nessa mesma disciplina. Depois que me formei, eu fui para a Goldsmiths, em Londres, onde fiz minha Pós-Graduação e, também, o meu Mestrado em Artes Modernas, que concluí ano passado.

Outra mão se ergue. Dessa vez, em uma das cadeiras no centro do auditório, e Blake desvia sua atenção da garota de cabelos vermelhos para se concentrar na outra aluna. Uma bela morena de olhos verdes que é o estereótipo perfeito de uma garota californiana.

– Blake – ela diz visivelmente empolgada por se tornar o centro das atenções dele naquele momento –, posso ser atrevida e perguntar qual a sua idade?

Ao meu lado, Serena revira os olhos e bufa e, conhecendo-a tão bem quanto conheço, eu tenho certeza que, naquele exato momento, ela está xingando a garota de vadia mentalmente e eu só posso concordar com ela.

– Bem, eu não sou muito mais velho que vocês. – Blake responde calmamente – Fiz vinte e seis na semana passada.

A excitação percorre o auditório no mesmo instante, afinal, não é todo dia que os estudantes se deparam com um professor que – fazendo uma média – é apenas cinco anos mais velho que eles e que, ainda por cima, pode ser considerado uma espécie de deus grego da beleza.

– Bem, vocês terão mais tempo para me conhecer ao longo do semestre. – Blake diz antes que mais uma mão se erga – Agora, eu quero que todos vocês saiam de seus lugares e venham para cá. – ele aponta para o centro do palco do auditório – Não precisam trazer nenhum material para fazer anotações. Apenas sentem-se em um círculo.

No instante seguinte, todos os estudantes estão se levantando de seus lugares e seguindo até o palco do auditório, mas eu apenas me viro para Serena e a encaro com uma expressão suplicante.

Depois de tantos anos de amizade, nós nos tornamos especialistas em decifrar as expressões uma da outra, portanto, eu não preciso usar uma palavra sequer para que Serena entenda exatamente o que quero dizer ao encará-la daquela maneira.

– Você sabe que não vai poder fugir de todas as aulas dele, não é? – ela pergunta enquanto se coloca de pé.

– Eu sei. – me apresso para responder – Mas preciso de um tempo para me preparar para isso. Eu, decididamente, não estou pronta para encará-lo agora, Serena.

Me coloco de pé também, esquecendo-me até mesmo de que minha caneta continua perdida embaixo de minha carteira e olho rapidamente para Blake, que acaba de puxar uma cadeira para o centro do círculo de alunos no auditório, antes de me voltar para Serena.

– Tudo bem. – ela assente meio a contra gosto – Vamos dar o fora daqui.

Assim que Serena pega sua mochila, nós nos encaminhamos à porta de saída do auditório, mas como a minha vida gira em torno do azar, antes que pudéssemos alcançar a porta, Blake nos vê.

– Senhoritas. – ele nos chama em um tom calmo, porém alto o bastante para que nós pudéssemos escutá-lo de onde estávamos – Não vão se juntar a nós?

O que eu deveria ter feito, naquele momento, era correr para longe daquele lugar sem me importar com o quão estranho aquilo pudesse parecer aos olhos dos outros estudantes, mas, ao invés disso, eu me viro em direção ao palco do auditório, apenas para encontrar os olhos azuis e penetrantes de Blake sobre mim.

No instante em que nossos olhares se cruzam, vejo seu rosto ficar lívido de surpresa e sinto meu coração bater com força contra o meu peito. Tudo o que eu queria era cavar um buraco e me enterrar nele, mas estou tão nervosa que nem consigo me mover.

Parece que horas se passam antes que Blake, finalmente, desvie o olhar do meu e, quando ele o faz, o sorriso que se instala em seu rosto é tão constrangido quanto o de um adolescente que acaba de ser flagrado, pelos pais, folheando uma revista Playboy.

– Por favor. – ele diz, por fim, fazendo sinal para que Serena e eu nos juntemos ao restante da turma no palco do auditório.

Permaneço onde estou, incapaz de mover um músculo sequer enquanto o pânico cresce dentro de mim, mas sou surpreendida quando Serena pressiona minhas costas, empurrando-me em direção ao interior do auditório novamente.

Olho de relance para ela, implorando de forma silenciosa para que ela não me obrigue a seguir até lá e encarar Blake de perto, mas Serena está impassível.

– Ele já te viu. – ela sussurra para mim – Agora é tarde para fugir.

Engulo em seco, sentindo que posso desmaiar a qualquer momento e, então, me dirijo ao palco do auditório com Serena em meu encalço, pronta para me empurrar novamente caso eu trave.

Quando, finalmente, subimos a pequena escada que nos leva ao palco do auditório, eu procuro por um local um pouco mais afastado de Blake para poder me sentar, mas como os alunos então sentados em um grande círculo e Blake está sentado numa cadeira giratória justamente no centro dele, fica difícil encontrar um local afastado. Então, eu escolho um lugar exatamente atrás dele, mesmo sabendo que ele pode girar em sua cadeira e ficar de frente para mim quando bem entender.

– Muito bem, pessoal. – Blake começa assim que eu e Serena nos sentamos – Eu acredito que toda relação tem de partir do conhecimento. Então, agora que vocês já me conheceram um pouco, eu gostaria de conhecê-los também. Portanto, eu quero que, um por um, vocês me digam seu nome, idade, curso e um objetivo ou sonho que vocês tenham, ok? – Blake dá um giro de 180° em sua cadeira e eu sinto meu coração martelar em meu peito novamente quando ele aponta para mim e pergunta: – Poderia nos dar a honra de iniciar as apresentações?

Imediatamente, eu começo a me perguntar como pude sair de casa durante vinte e um anos e nunca ter sido atropelada por um caminhão, pois meu azar parece não conhecer limites.

Enquanto Blake e os demais alunos no auditório me encaram, tudo o que eu quero é me enrolar como uma bola e morrer, mas, ao invés disso, eu me obrigo a erguer minha cabeça e fazer o meu melhor para me manter calma enquanto encaro os belos olhos azuis de Blake.

– Meu nome é... – digo quase com um sussurro.

Paro e respiro fundo, porque é difícil manter a calma enquanto Blake me olha daquela forma intensa. É como se ele pudesse ver através de mim e decifrar meus pensamentos. Então, automaticamente, eu envolvo o meu corpo com os braços como se, ao fazer isso, eu pudesse impedi-lo de decifrar tudo o que se passa em minha cabeça naquele momento.

Serena bate o joelho no meu para me dar apoio moral e, depois de correr os olhos pelos vinte e três rostos presentes no círculo de alunos que me encaram com expectativa, engulo em seco e recomeço:

– Meu nome é Alyssa Cooper. Tenho vinte e um anos e estou cursando o meu primeiro semestre de Música.

Paro outra vez. Em parte, porque o nó de nervosismo voltou a se formar em minha garganta e, em parte, porque a última etapa do questionário de Blake é a mais difícil de responder.

Durante toda a nossa vida temos pessoas nos perguntando sobre nossos sonhos e objetivos e, portanto, o correto seria que já estivéssemos acostumados a responder essa questão. Mas, quando você cresce e descobre que precisa de uma resposta melhor que um simples “ir à Disney World e conhecer o Mickey Mouse”, as coisas se complicam.

Para nós que, como Blake já havia mencionado, escolhemos trabalhar com Arte a complicação é duas vezes maior. Primeiro, porque as pessoas – principalmente os seus pais – acham que cursar Artes é quase o mesmo que ter o sonho de ir à Disney World (Inútil e totalmente insano!) e, segundo, porque as respostas que podemos dar não possuem muitas variáveis.

Por exemplo, se você cursa Teatro, seu sonho é se tornar ator, mas, independente de você querer atuar no cinema ou na Broadway, o fato é que muitos estudantes de Teatro terminam desempregados ou sendo figurantes em comerciais de TV.

O mesmo vale para aqueles que, assim como eu, decidem cursar Música. Independente de optarmos por nos tornar uma estrela do POP ou por ser parte de uma Orquestra Sinfônica, a verdade é que a maior parte dos músicos termina desempregada ou cantando em barzinhos.

Em síntese, quando você escolhe trabalhar com Arte – seja ela Plástica, Cênica ou Musical – suas alternativas se resumem a:

1) Dar sorte e terminar fazendo o que realmente sonhou em fazer.

2) Procurar um trabalho alternativo e;

3) Ficar desempregado.

Boa parte dos estudantes de Artes está ciente desse fato e é por isso que muitos de nós costumamos operar sempre no Nível Laranja de Ameaça, afinal, sabemos que, muitas vezes, o que era o nosso plano B pode virar o nosso plano A e que, muitas vezes, ainda há uma grande possibilidade de precisarmos de um plano C ou D.

Pensando nisso, eu percebo que, desde que rompi meu noivado com Dylan, tenho sido negligente quanto aos objetivos que traço para a minha vida.

Quando estávamos juntos, minhas metas eram: terminar o curso de Medicina, me casar, abrir um consultório médico ou trabalhar em um, fazer uma Pós-Graduação em Neurologia e, talvez, criar uma ONG para ajudar as crianças africanas.

Agora, tudo o que sei é que quero terminar a faculdade de Música e me tornar uma pianista, mas qualquer detalhe sobre isso ainda está oculto em minha mente e o meu plano B nem sequer existe.

Com um susto percebo que, se os estudantes de Artes têm de operar no Nível Laranja de Ameaça, eu preciso começar a operar no Nível Vermelho, pois meus sonhos e objetivos estão tão próximos da Disney World que eu quase posso ver o Mickey Mouse zombando de mim.

– Liss. – Serena me chama dando um leve tapa em meu ombro para me tirar de meus devaneios.

– Desculpe. – sacudo a cabeça numa tentativa de me livrar dos pensamentos ruins – Onde foi que eu parei?

O auditório inteiro cai na gargalhada, mas o que realmente me faz ruborizar é o sorriso charmoso que Blake lança para mim, pois me faz lembrar dos momentos que passamos em seu apartamento.

– Você ia nos falar sobre os seus sonhos e objetivos. – Blake responde calmamente.

– Ah, sim. Claro. Meus sonhos e objetivos. – repito quase inconscientemente, enquanto esfrego minhas mãos uma na outra de maneira nervosa – Bem, eu ainda não tenho objetivos muito concretos – respondo com sinceridade –, mas desde criança eu sonho em ser uma grande pianista, então... acho que é isso.

Concluo meu pensamento dando de ombros e Blake assente.

– É um belo sonho. – ele diz – Vamos trabalhar esse semestre para torná-lo uma realidade.

Então, como um último e breve olhar para mim, ele se vira para Serena e faz um gesto indicando que ela deve ser a próxima a falar.

– Serena Humphrey. – ela diz, ajeitando melhor sua postura já que agora é o centro das atenções da turma – Também tenho vinte e um anos e estou no meu quinto semestre de Teatro. Ainda estou na dúvida entre atuar ou ser diretora de palco, mas pretendo descobrir com qual dos dois me identifico mais até o fim do curso e, então, acho que farei uma Pós-Graduação em um deles.

– Muito bom. – Blake diz com um sorriso – Eu já trabalhei um pouco com gerenciamento de palco e atuação, então talvez eu possa te dar algumas dicas.

Serena sorri em agradecimento e Blake se vira para o garoto ao lado dela, dando continuidade às apresentações em sentido horário.

Um a um, os outros vinte e dois alunos no círculo vão dizendo seus nomes, idades, cursos e sonhos e eu começo a perceber que, na verdade, eu não sou a única ali que ainda não tem um plano A e um plano B bem definidos. Com exceção daqueles cujas famílias têm uma ótima condição financeira e daqueles que estão cursando Arte por hobby, a maior parte dos alunos também está receosa quanto ao futuro e apenas espera que, no fim, tudo dê certo.

Quando as apresentações finalmente se encerram, faltam apenas dez minutos para a aula de Blake terminar e ele usa esse tempo para comentar sobre o que nós falamos.

– Vejo que muitos de vocês ainda não têm uma ideia exata sobre o que querem fazer ao sair da universidade – ele diz de maneira calma –, mas eu não esperava que fosse diferente, afinal todos escolhemos a arte, justamente, porque ela não é uma ciência exata. – ele abre um sorriso – O que vocês precisam ter em mente é que, o mais difícil no caminho que escolheram, não é encontrar um emprego ou saber exatamente aonde você quer chegar com isso. O mais difícil é continuar se lembrando do porque você escolheu esse caminho.

Blake faz uma pausa para que absorvamos aquilo e depois continua:

– Nós vivemos em um mundo que, muitas vezes, menospreza o seu desejo de se tornar um artista ao invés de um advogado ou um médico, mas esse mesmo mundo se encanta ao assistir os filmes de Charles Chaplin e chora todas as vezes que ouve a Sexta Sinfonia de Beethoven. Então – Blake dá um giro em sua cadeira para poder olhar para cada um de nós –, nunca se esqueçam que, antes de dinheiro ou status social, vocês escolheram seguir esse caminho por amor. Algumas vezes essa será a única coisa que vocês terão para se apoiar e, se isso não for suficiente, então, talvez vocês tenham escolhido o caminho errado. Confúcio uma vez disse: “Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida.”. Eu acredito nisso e espero que vocês também acreditem.

Nós permanecemos em silêncio, encarando nossos próprios pés, enquanto pensamos no que Blake nos disse.

Diferente das pessoas que nos põem para baixo e das pessoas que nos põem para cima de mais, Blake nos deu um panorama real do que iremos enfrentar no mundo lá fora. Não seria fácil, mas também não seria impossível e, mesmo que aquilo pudesse parecer pouco para algumas pessoas, para mim, era mais que inspirador. Era exatamente o que eu precisava ouvir.

– Muito bem, pessoal. – Blake suspira e se coloca de pé – Nosso tempo está acabando, então antes que ele termine vou lhes passar seu primeiro dever de casa.

Um murmúrio de desagrado percorre o círculo de alunos e Blake sorri.

– Vamos lá, galera. Não vai ser tão ruim, eu prometo. – ele une as palmas das mãos como se estivesse se preparando para fazer uma oração – O que eu quero que vocês façam é muito simples. Quero que reflitam sobre quem vocês são e, depois, quero que escolham algo que os descreva e tragam na próxima aula. Pode ser um poema, uma música, um desenho... enfim, qualquer coisa que os descreva, entenderam? – os alunos assentem e Blake abre um sorriso animado – Ótimo. Então, estão dispensados. Vejo todos vocês na quarta-feira e venham preparados para fazer uma apresentação.

Assim que Blake encerra a aula os estudantes se levantam e começam a deixar o palco do auditório. Algumas garotas se aproximam de Blake com a desculpa de que precisam tirar uma dúvida qualquer a respeito do dever de casa e eu aproveito esse momento para agarrar o braço de Serena e me esgueirar para fora do palco do auditório também, mas mal chegamos a dar cinco passos antes que eu ouça Blake dizer:

– Senhorita Cooper, posso falar com você por um momento?

Paro e olho para Serena esperando que ela me ajude a escapar daquilo, mas ela apenas olha para mim com uma expressão de desculpa e diz:

– A gente se vê no almoço.

E, então, larga o meu braço para se juntar à multidão que se encaminha à saída do auditório, deixando-me ali sozinha para enfrentar as consequências de meus atos.

Se eu não estivesse tão ocupada em não hiperventilar eu, certamente, teria corrido atrás de Serena e a socado, mas, dada a situação, eu apenas respiro fundo e caminho, lentamente, de volta ao centro do palco.

Enquanto espero Blake dispensar todas as alunas a sua volta, eu o observo com atenção. Ele usa sapatênis, calça jeans escura e uma camiseta xadrez de botão, vermelha e preta, cujas mangas longas estão dobradas pouco acima de seu antebraço e, nem de longe, ele se parece com um professor, mas isso não faz com que eu me sinta menos culpada por quase ter ido para a cama com ele na noite anterior.

Quando Blake, finalmente, consegue se livrar da bela morena de olhos verdes – que depois das apresentações eu descobri se chamar Sophie –, ele se aproxima de mim com passos lentos. Suas mãos estão enfiadas ao máximo dentro de seus bolsos e, as minhas, começavam a suar por causa do nervosismo.

– Então... – Blake começa depois de um longo minuto de silêncio constrangedor entre nós – Quer dizer que você cursa Música?

– E você é professor. – digo envergonhada.

Ele assente com um leve um aceno e depois coça a parte de trás da cabeça sem jeito.

– Eu não imaginei... Quer dizer... Bem, eu não me dei exatamente o trabalho de pensar em muita coisa ontem à noite, mas... Bem, você não parece uma universitária, entende?

– Se serve de consolo, você também não parece um professor. – retruco.

Ele assente mais uma vez e, sem perceber, eu faço o mesmo. Por Deus! Porque isso tinha de ser tão embaraçoso?!

Passamos outro longo minuto em silêncio, apenas nos encarando enquanto meus batimentos cardíacos chegavam a níveis que nenhum médico consideraria seguro. Todo aquele silêncio estava me matando e, como eu não consigo suportar a tensão, decido ir logo ao assunto e acabar com aquilo, de uma vez por todas, para que eu possa respirar novamente.

– Eu não vou contar a ninguém. – digo rapidamente.

Blake olha para mim e franzi as sobrancelhas e eu não faço a mínima ideia do que se passa em sua cabeça naquele momento.

– Você se arrependeu? – ele pergunta depois um breve instante.

Olho para ele sem saber o que responder.

Achei que, depois de tudo, Blake estaria preocupado com o fato de alguém descobrir que ele quase havia ido para a cama com uma de suas alunas, mas, ao invés disso, ele parecia mais preocupado em saber se eu tinha me arrependido disso ou não.

O que, diabos, ele tinha na cabeça?!

– Bem... – começo, um pouco sem jeito – Não aconteceu nada entre nós, na verdade. Então... Bem... Eu não sei se tem alguma coisa da qual eu deva ou não me arrepender.

Dou de ombros e olho para o chão, desejando – não pela primeira vez naquele dia – que um meteoro, simplesmente, caia sobre a minha cabeça e me livre de toda aquela situação constrangedora.

Blake permanece imóvel e em silêncio e, depois de um longo momento de espera, eu me arrisco a erguer a cabeça e olhar para ele.

Seu rosto está tão inexpressivo quanto uma parede, mas em seus olhos há uma sombra de decepção, que me faz engolir em seco.

– Desculpe. – eu sussurro sem saber exatamente pelo que eu estava me desculpando.

Pensei que tivesse tomado a atitude certa ao tratar os acontecimentos da noite anterior como algo irrelevante, mas a maneira decepcionada e, até mesmo, um pouco ofendida como Blake me olhava, naquele momento, me deixava em dúvida.

Céus! Porque eu tinha de ser uma lástima (se é que eu podia descrever minha relação com Blake dessa forma) para questões amorosas?!

– Você está certa. – Blake diz, finalmente – Somos adultos e podemos lidar com isso de uma maneira saudável.

Eu apenas assinto, pois o nó que se formou em minha garganta me impede de dizer qualquer coisa que seja.

– Vamos... Vamos esquecer isso. – Blake sugere e, mais uma vez, eu assinto.

Eu, provavelmente, pareço um lagarto idiota mexendo minha cabeça para cima e para baixo daquela forma, mas aquilo é tudo o que consigo fazer, pois estou certa de que eu não conseguirei esquecer a forma como as mãos dele passearam pelo meu corpo, nem os beijos quentes que trocamos na noite anterior.

Só de pensar no corpo dele sobre o meu eu já sinto meu interior se agitar, mas Blake é meu professor! Eu não posso pensar nele daquela maneira. Eu não posso pensar nele de maneira alguma, na verdade, pois se eu pensar, automaticamente, me lembrarei de como o corpo dele é quente, de como suas mãos são fortes e de como seus lábios são macios e...

Droga!

Eu preciso parar de pensar nisso!

Reunindo o pouco que restou de meu autocontrole, eu respiro fundo e me forço a abrir um pequeno sorriso para Blake.

– É melhor eu ir agora. – digo com a maior calma que possuo naquele momento, o que na verdade, não é quase nada.

– Tudo bem. Não quero que perca sua segunda aula por minha causa. – ele sorri também. Um sorriso tão tenso e forçado quanto o meu.

– Tudo bem. – repito, segurando a alça de minha mochila com mais força do que é realmente necessário – Te vejo na quarta-feira então, professor.

Eu acrescento aquela palavra ao fim da frase e faço questão de frisá-la, para deixar a situação bem clara para mim, mas o sorriso no rosto de Blake se esvai no exato momento em que eu a pronuncio, como se ele achasse que, de alguma forma, eu o estava julgando pelos acontecimentos da noite anterior.

– Até quarta. – ele diz em voz baixa e, depois, desvia o olhar para o chão, constrangido.

Mais uma vez engulo em seco e, para evitar que a situação fique ainda pior, eu decido não dizer mais nada e, simplesmente, me viro e sigo para a saída do auditório. Eu devia ter sido amaldiçoada ao nascer, pois eu era a única pessoa no mundo capaz de quase ter um caso com um professor por acidente.

Notas finais
NOTAS EXPLICATIVAS: 1) UCSD - é a sigla "Universidade da Califórnia em San Diego" e é assim que muitas pessoas se referem a essa universidade. Bem, é isso aí. Espero que tenham gostado do capítulo, que ficou um pouco maior que o capítulos que costumo postar, né?... Isso vale como compensação pela demora? rsrs Vejo vocês no próximo capítulo que não sei quando vou postar porque estou sem tempo de escrever kkk mas já para acalmá-los, aviso que eu nunca abandono uma fanfic depois que começo a escrevê-la, então, eu posso até demorar para atualizar, mas sempre atualizarei, ok? Apenas tenham paciência XD Então, beijos e até a próxima!