Notas iniciais
Olá, demorei mas voltei kkk sentiram minha falta? Nesse exato momento são 3:30 da manhã, mas estou sofrendo de uma crise de insônia essa noite e aproveitei para terminar o capítulo.Esse ficou até grandinho XD Espero que gostem. Aviso: coloquei o link do vídeo da música que vocês encontrarão nesse capítulo no texto. Quem quiser ouví-la, basta clicar e ser feliz. *O vídeo é legendado em português para vocês curtirem mais*. Boa leitura!

“E que a minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade também.” – Oswaldo Montenegro

[Alyssa]

Nós dormimos assim, entrelaçados. Nossos corpos cobertos apenas pelo fino lençol lilás de minha cama e nossos peitos nus colados um ao outro. As mãos de Blake ainda estão ao redor de minha cintura e o meu rosto ainda está encaixado na curva de seu pescoço, exatamente como estava quando nós adormecemos, mas agora eu já posso sentir os raios fracos do sol da manhã invadindo o meu quarto.

Eu realmente não queria ter de me levantar daquela cama (se o mundo acabasse nesse momento, com Blake me envolvendo em seus braços, eu decididamente não me importaria), mas hoje ainda é quarta-feira e tanto Blake quanto eu temos coisas para fazer, por isso me aconchego um pouco mais em seu abraço e, delicadamente, beijo seu pescoço.

– Hora de acordar, dorminhoco. – digo baixinho e vejo um pequeno sorriso se instalar nos lábios de Blake quando ele se remexe na cama, espreguiçando-se.

– Hey... Bom dia. – ele diz em um tom calmo e sonolento enquanto me fita com seus belos olhos azuis.

Não sei como é possível, mas este homem fica ainda mais bonito e sexy quando está com o cabelo bagunçado e com cara de sono e o fato de ele estar na minha cama torna toda a cena ainda melhor, como se eu tivesse ganhado um prêmio por participar do jogo de desafios que Melody decidiu fazer em minha primeira noite na cidade de San Diego.

– Bom dia. – respondo sem conseguir desviar meus olhos dos dele – Você dormiu bem?

– Se eu dormi bem? – Blake me encara com uma expressão maliciosa – Liss, eu conheço, pelo menos, dez palavras diferentes com que posso responder a sua pergunta, mas ao invés de usar alguma delas eu prefiro apenas fazer isso. – ele responde e se inclina para me beijar, cobrindo o meu corpo com o seu.

Desde que Blake apareceu em minha porta, na noite passada, nós fizemos amor quatro vezes e cada uma delas pareceu ser melhor que a anterior. Blake é como uma droga feita especialmente para mim. Cada toque e cada beijo dele me devasta e me intoxica completamente e, com o corpo dele pressionando o meu daquela forma, é fácil me deixar levar. Ele desfaz todas as minhas barreiras.

– Hoje deveria ser sábado. – verbalizo enroscando meus braços ao redor de seu pescoço enquanto ele beija a minha clavícula – Eu realmente não queria ter de me levantar dessa cama para ir à universidade.

– Universidade? – Blake para e separa seus lábios de minha pele, esticando o braço para pegar seu celular que está sobre o criado mudo ao lado de minha cama. A expressão confusa em seu rosto me diz que ele terá uma grande surpresa quando descobrir que horas são e, no instante em que a tela do aparelho se acende revelando que são 7:25 da manhã, eu vejo minhas suspeitas se confirmarem – Ai meu Deus! – Blake exclama levantando-se apressado – Eu tenho uma reunião com o diretor em vinte minutos!

Sorrio e rolo na cama para ficar de frente para ele.

– Você podia ligar para o diretor e dizer que não poderá ir à reunião porque está na cama de uma das suas alunas. – brinco – Tenho certeza que ele iria entender e ainda te daria o dia de folga amanhã.

– Isso não tem graça nenhuma, Liss. – Blake me encara, mas o pequeno sorriso que paira em seus lábios trai a sua seriedade – E você não tem uma aula para assistir?

– Até tenho, mas porque motivo eu iria até a universidade assisti-la se o meu professor favorito está bem aqui, no meio do meu quarto e, ainda por cima, está semi-nu? – dou uma piscadela para Blake e ele revira os olhos para mim, sorrindo enquanto apanha sua calça jeans do chão e a veste rapidamente.

Sei que é uma grande loucura, do meu ponto de vista, que eu esteja tão a vontade com o fato de ele ser meu professor agora, quando menos de 24 horas atrás eu estava surtando por causa disso, mas quem se importa? Acho que eu liguei o “foda-se” para todas essas preocupações no momento em que enlacei meus braços ao redor do pescoço de Blake na noite anterior e o beijei, então, mesmo se eu quisesse, já seria tarde demais para me arrepender. E o X da questão é justamente o fato de que eu não estou nem um pouco arrependida.

– Vou te levar para sair essa noite. – Blake interrompe o meu breve devaneio – Você come comida chinesa?

– C-como? – pergunto totalmente surpresa com o convite repentino.

– Ótimo. – ele se inclina e me dá um selinho rápido – Passo aqui para te buscar as sete. E vê se levanta essa bunda linda da cama e vai se arrumar antes que você se atrase para a sua primeira aula.

Então, tão repentinamente quanto apareceu em meu quarto na noite anterior, Blake abre a porta e sai e eu fico sentada na cama, observando a porta se fechar atrás dele, completamente paralisada. Tenho certeza que ele entendeu minha resposta errado, mas eu estava tão surpresa com o convite que nem consegui corrigi-lo. E não, ele não estava errado ao entender que eu gosto de comida de chinesa – algo que, devo dizer, eu realmente amo –, mas sim, sobre o fato de eu ter concordado em sair com ele naquela noite.

As pessoas podem até me chamar de covarde (e elas meio que tem um pouco de razão sobre isso), mas eu realmente não acho que seja uma boa ideia Blake exibir a nossa relação em público tão cedo. Eu não teria nenhum problema com isso se a situação fosse diferente, é claro – eu até curtiria mostrar a todas as mulheres de San Diego que ele estava comigo –, mas por mais que eu tenha aceitado bem o fato de que, de certa forma, estou saindo com o meu professor, isso não significa que o restante das pessoas vão aceitar também. E se nós nos esbarrarmos com algum dos estudantes da universidade durante o nosso passeio? E se isso acabar rendendo algum problema para Blake? E se ele perder o emprego porque está comigo? Há muitas coisas para levar em consideração e, nesse caso, não dá para ligar o “foda-se” para elas.

– Liss! – o grito empolgado de Melody me retira de meus devaneios e eu me enrolo um pouco melhor no lençol, segundos antes de ela invadir o meu quarto como um furacão – Ai caramba! – ela exclama assim que seus olhos azuis pousam em mim – Serena, corre aqui! Dá uma olhada no estado dessa garota! Ela ainda tá pelada!

– Melody! – fecho a cara e praticamente rosno para ela, antes de me levantar da cama e começar a recolher minhas roupas do chão – Você tem mesmo que anunciar essas coisas aos berros? Nós temos vizinhos, sabia?

– E você acha que eles já não escutaram os seus gemidos de total e completo tesão ontem a noite, não? – ela ri e eu coro – Caramba, Liss, me diz que ele é tão bom de cama quanto os seus gritinhos deixaram transparecer.

– Melody – Serena entra em meu em meu quarto pulando em um só pé enquanto termina de calçar seu tênis –, você nunca dá uma folga? Pare de constranger a menina a essa hora da manhã.

– Ah, graças a Deus alguém que me compreende. – sorrio – Obrigada.

– De nada. – Serena fica de cócoras e faz um laço em seu cadarço, mas rapidamente se põe de pé de novo e me encara – Mas... então – ela começa com uma expressão maliciosa – ele é tão bom de cama quanto os seus gritinhos deixaram transparecer?

– Aff, não! – faço careta – O que eu fiz para merecer vocês duas, hein? Será que eu nunca vou ter paz?!

Agarro minha toalha e passo por Melody e Serena, dirigindo-me rapidamente para o banheiro que fica dentro da casa delas. Sei que já estamos um pouco atrasadas, mas depois da noite que tive com Blake – que é tão bom de cama quanto os meus gritinhos deixaram transparecer – eu não posso ir para a faculdade antes de tomar um banho.

Quando termino de me arrumar e de pegar meus materiais, incluindo o exercício incompleto que foi parar debaixo de minha cama depois que Blake apareceu em meu quarto, meu relógio de parede já marca 8h03 da manhã e eu corro para o carro de Serena e me aperto com Melody ao seu lado, enquanto ela costura o trânsito pelas ruas de San Diego numa falha tentativa de nos fazer chegar na hora.

O resto da manhã eu passo alternando o meu tempo entre prestar atenção nas aulas e pensar em Blake e, me envergonho em admitir, que muitas vezes pensei em Blake quando deveria estar prestando atenção na aula, mas nenhuma única vez eu prestei atenção na aula quando deveria estar pensando em Blake. Fazer o que, né? A culpa é toda dele por me enfeitiçar daquela maneira.

À tarde, eu almoço com Serena e Melody no refeitório, enquanto elas me imploram para contar os detalhes de minha noite com Blake e, só para vê-las sofrer um pouquinho, não revelo nada e ainda digo que Blake me convidou para jantar essa noite.

Esbarro-me com Wade, pelo menos duas vezes, pelos corredores antes de descobrir que temos mais uma aula juntos e, enquanto fazemos um exercício em dupla, aproveito para conversar um pouco com ele e sou praticamente bombardeada pelos olhares raivosos das garotas que, sem a menor sombra de dúvida, estão afim dele.

No fim do dia, me despeço de Wade e sigo para o estacionamento, onde espero até que Serena e Melody apareçam. Enquanto espero, me permito pensar um pouco mais em Blake e tento imaginar onde ele está e o que está fazendo. Aquela, com certeza, não é a primeira vez que me pergunto aonde ele se esconde quando está na universidade, pois com exceção de sua própria aula, eu nunca o encontro em qualquer outra parte da universidade. Isso é até bom, pois eu não confio em meu autocontrole para me impedir de agarrá-lo caso eu o encontre em algum corredor deserto da UCSD.

Quando Melody e Serena finalmente estão prontas para ir embora, nos apertamos novamente em seu antigo Porsche 911 e rumamos de volta para casa. Aproveito o restante da tarde para fazer os exercícios que preciso entregar no dia seguinte e quando o relógio marca seis horas, corro para o chuveiro e tomo um banho, antes de começar a me arrumar.

Até estranho o fato de Blake não ter me ligado para saber se nosso passeio ainda estava de pé, mas depois me lembro que nós ainda não trocamos nenhum número de telefone e faço uma anotação mental de pedir o número do celular dele essa noite.

Como Blake não me deu muito detalhes sobre o nosso passeio, fico um pouco indecisa sobre que roupa usar, mas, no fim, opto por usar um short de cintura alta, preto com detalhes em strass, uma camiseta branca, uma jaqueta sem mangas com estampa da bandeira da Inglaterra que já tenho faz uns três anos, mas que gosto muito e um sapato de salto preto.

Serena, mais uma vez, me ajuda com o cabelo e a maquiagem, optando por fazer uma bela trança de lado em meu cabelo e usando tons claros na maquiagem para combinar com a roupa que escolhi que, segundo Melody, é um look que diz “estou muito afim de você, mas não vou dizer isso em voz alta” e eu, sinceramente, me pergunto de onde ela tira essas definições loucas.

É apenas quando Blake toca a campainha, às sete da noite, e sinto um friozinho percorrer minha barriga, que percebo o quão nervosa e ansiosa realmente estou com esse encontro. Literalmente corro até a porta e a abro com rapidez, encontrando Blake parado diante de mim com uma calça jeans escura, sapatênis e bela uma camiseta preta que deixa em evidência seus bíceps e os músculos bem definidos de seu abdômen.

– Boa noite. – ele me cumprimenta e seus olhos sorriem antes de sua boca – Você está linda.

– Obrigada. – abro um sorriso em resposta e tenho certeza que corei por causa do elogio. É incrível como sempre fico pateticamente romântica quando Blake está por perto.

– Você está pronta?

– Estou. Eu só... vou pegar minha bolsa rapidinho. – levanto o dedo indicador, mostrando que demorarei apenas um instante e volto para dentro da casa, dirigindo-me até o sofá. Pego a bolsa que deixei ali em cima, sopro um beijo para Serena e Melody, que estão exibindo um sorriso de orelha a orelha para mim e, então, volto para junto de Blake – Prontinho. – digo fechando a porta atrás de mim – Vamos?

Ele sorri e me conduz até a rua, onde estacionou sua moto, uma bela Ducatti preta que, com certeza, deve causar inveja em muita gente. Blake me ajuda a colocar o capacete e, depois de colocar o seu próprio, ele me ajuda a subir na moto – uma tarefa que não é nada fácil quando se está de salto – e, então, rumamos para o P.F. Chang’s China Bistrô, um belo e aconchegante restaurante chinês que fica na Friars Road.

Nos sentamos em uma das mesas que ficam mais ao fundo do restaurante e, depois que o garçom anota os nossos pedidos, eu perco um momento apenas admirando a decoração do lugar, que está repleta de lanternas de papel vermelho vivo e estátuas de mármore de dragões chineses.

– É tudo tão lindo. – comento enquanto aprecio a pintura em alto relevo da muralha da China que está na parede oposta a da nossa mesa – Acho que, mesmo quem não gosta de comida chinesa, deveria vir a esse restaurante só para apreciar a decoração.

– Concordo, mas seria bem interessante ver alguém se sentar numa das mesas e dizer ao garçom: “Obrigado, mas não quero nada, só estou aqui para apreciar a decoração”.

– É. – faço uma pequena careta – Colocando dessa forma, acho que o dono não ia se sentir lá muito satisfeito.

– Com certeza não. – Blake assente, divertido – Mas e aí, como foi o seu dia?

– Ah, foi normal. Eu só assisti às aulas, fiz exercícios, tive que aguentar minhas amigas me enchendo de perguntas a seu respeito... – dou de ombros – Nada demais.

Blake joga a cabeça para trás e ri.

– Posso saber que tipo de perguntas elas te fizeram?

– Eu prefiro nem comentar, mas garanto que se a Melody ficar perto de você por mais de trinta segundos você descobrirá sozinho.

– Não sei se fico curioso ou com medo. – Blake comenta, sorrindo.

– Com medo. – aconselho – Melody e Serena são minhas melhores amigas e eu as amo do fundo do meu coração, mas elas são loucas.

– Vou me lembrar disso. – Blake dá uma piscadela.

– E você? – apoio os cotovelos sobre a mesa e me inclino para mais perto dele – Como foi o seu dia? Conseguiu chegar a tempo para a sua reunião com o diretor?

– Nossa! Não. Eu cheguei quinze minutos atrasado.

– Quinze minutos?! – arregalo os olhos – Caramba. Eu sinto muito. Você deve ter levado uma bronca.

– Não. – Blake dispensa meu comentário com um aceno de mão – Ele até ficou meio bravo, mas eu expliquei a ele que me atrasei porque tinha passado a noite com uma das minhas alunas e ele entendeu.

– Você não disse isso! – dou um leve tapa em seu braço.

– Não. Eu não disse. – Blake ri – Mas você precisava ver a sua cara.

– Sem graça. – mostro-lhe a língua – Completamente sem graça.

Entre conversas e risadas, Blake e eu saboreamos um delicioso Sukyaki¹ acompanhado de chá gelado e, depois de pagar a conta, seguimos direto para o apartamento dele.

Apesar de fazer apenas três dias que estive ali, sinto como se estivesse pisando naquele lugar pela primeira vez. Minha última passagem pelo apartamento de Blake foi tão rápida e conturbada que nem tive tempo de reparar em como sua decoração é bonita e contemporânea ou em como seus móveis parecem ter sido perfeitamente planejados para se adequar ao espaço onde foram colocados e, pensando nisso, me dou o direito de fazer um tour pelo local dessa vez.

O apartamento de Blake é amplo e bem organizado. Sua sala contém um sofá em L, branco, macio e repleto de pequenas almofadas da mesma cor, uma espécie de estante, também branca, embutida na parede , onde há alguns objetos de artesanato e alguns portas-retrato com fotos de Blake e de pessoas que imagino ser sua família, uma TV de plasma, um home teather, um vaso de argila branca onde uma Bromélia está plantada, e uma pequena mesinha de canto sobre a qual está um abajur.

Sua cozinha possui um balcão de mármore branco com dois bancos altos, um armário em que, com certeza, cabem mais utensílios domésticos do que ele precisa, pia, fogão, geladeira, lava-louças, exaustor de fumaça e mais alguns objetos decorativos.

Em sua sala de jantar há uma belíssima mesa de aço e vidro com lugares para seis pessoas sobre a qual repousa um belo arranjo de flores Amarilis e em sua varanda há duas poltronas estofadas de aparência confortável e uma pequena mesinha de centro de marfim.

Seu quarto possui uma cama King Size tamanho casal, coberta com belas colchas em tons pastéis e ladeada por dois criados mudos de marfim, sobre os quais estão dois abajures de cristal. Há uma mesa de estudos repleta de livros num canto, um guarda roupas de marfim com um grande espelho em uma das portas, TV, home theater, tapete e uma luminária também de Cristal.

Eu ainda tenho o banheiro e uma pequena biblioteca particular para visitar em meu tour, mas paro quando abro a porta do quarto de hóspedes e encontro uma espécie de sala de música, repleta de instrumentos.

– Bem vinda a minha Fortaleza da Solidão². – Blake diz com um pequeno sorriso.

Ele indica o interior do quarto com um aceno de cabeça, incentivando-me a entrar e não penso duas vezes antes de me lançar para dentro dele.

– Minha nossa, esse lugar é... incrível! – exclamo enquanto olho ao redor, encantada com tudo o que há ali – Eu não sabia que você gostava tanto assim de música. Você não fez curso de teatro?

– Fiz. – Blake se senta num banquinho alto que há no quarto e pega o violão que está encostado num suporte próximo a ele – Sempre gostei muito de teatro, mas sempre tive uma paixão secreta pela música também.

– Então, além de ator você também é músico?

– Bem – ele ri –, atualmente eu sou apenas professor.

– Sim. Eu sei. – reviro os olhos, impaciente – Mas você tocava anteriormente ou isso é apenas um hobby secreto?

– Eu tive uma banda quando estava no colegial. Ela se chamava “Joker’s Smile” e nós tocávamos punk rock. Não era exatamente a minha praia, porque eu curto mais R&B, então eu saí . Depois disso comecei uma carreira solo, cujo público alvo se resumia ao meu cachorro e, às vezes, aos meus pais. – Blake explica com um sorriso divertido – Acho que isso torna a música o meu hobby secreto, não é?

– Super secreto. – eu me sento em uma poltrona confortável que há no meio do quarto, próxima a um teclado – Será que eu posso te ouvir cantar?

– Agora? – ele se volta para mim, pego de surpresa.

–É o momento perfeito, não acha? Eu estou aqui e você está aí e você já está até segurando um violão, então, não falta mais nada.

Blake me encara por um momento, seus olhos azuis me fitando enquanto ele fica tão constrangido que é como se, ao invés de pedir que ele cantasse, eu tivesse pedido que ele se despisse para que eu o desenhasse nu. Percebo rapidamente que cantar para alguém que não seja ele próprio é algo que ele não costuma fazer e isso só me faz querer ouvi-lo ainda mais.

– Eu cantei para você na aula. – digo para incentivá-lo – Não se esqueça disso.

Ele revira os olhos, mas sorri e ajeita melhor o violão no colo.

– Tudo bem – diz inclinando-se para pegar um palheta –, mas saiba que isso é uma grande chantagem, viu?

Apenas dou de ombros como quem diz que não está nem aí e cruzo minhas pernas numa posição de lótus imperfeita, enquanto aguardo que ele comece. Blake respira fundo uma última vez, ajeita melhor sua postura e então começa a dedilhar algumas notas no violão.

Percebo que conheço o ritmo suave da canção, mas não consigo descobrir de qual se trata até que Blake começa a cantar o primeiro verso e então eu já não sei dizer se o que me encanta mais é o fato de ele estar fazendo uma versão acústica de All Of Me, minha música favorita do John Legend, ou o fato de que a voz dele é simplesmente a coisa mais linda que já ouvi.

Observo-o, boquiaberta, enquanto cada um dos versos que ele entoa me atinge como uma flecha certeira e quando o refrão começa sinto o meu coração disparar.

“Cause all of me loves all of you”

“Porque tudo em mim ama tudo em você”

“Love your curves and all your edges”

“Ama suas curvas e todos os seus limites”

“All your perfect imperfections”

“Todas as suas imperfeições perfeitas”

Os belos olhos azuis de Blake pousam nos meus repletos de intensidade e me vejo completamente presa ao magnetismo que emana deles. Aquela sensação de estar sendo arrastada pela correnteza, que senti enquanto ele me encarava antes de minha apresentação na última aula, está de volta e parece ainda mais forte.

“Give your all to me, I’ll give my all to you”

“Dê o seu tudo para mim, eu vou dar tudo de mim para você”

“You’re my end and my beginning”

“Você é o meu fim e o meu começo”

“Even when I lose I’m Winning”

“Mesmo quando eu perco estou ganhando”

“Cause I’ll give you all of me and you give all of you”

“Porque eu te darei tudo de mim e você me dá tudo de você”

Aquelas palavras me invadem como um veneno fluindo por minhas veias. Posso senti-las se apoderando de cada célula de meu corpo, embrenhando-se por dentro de minha alma sem me dar espaço para qualquer tentativa de fuga e então, sem que eu perceba, estou prendendo a respiração e tentando conter as lágrimas que se formam em meus olhos.

“Give me all of you”

“Me dê tudo de você”

E, naquele momento, Blake me tem. Ele me tem física e emocionalmente e tudo o que eu posso fazer é aceitar e me deixar cair de bom grado sob o seu feitiço, pois não há como e nem porque lutar contra ele.

Ao desembarcar em San Diego, três dias antes, tudo o que queria era cursar a faculdade de música e esquecer que havia um coração partido sangrando em meu peito, mas o destino – esse monstrinho imprevisível e, muitas vezes, inconveniente – quis fazer algo mais por mim.

Blake surgiu em meu caminho da maneira mais inesperada e surpreendente que eu poderia ter imaginado e o que era para ser apenas um jogo de desafio, se tornou um jogo muito mais sério que, agora, eu não sei se ganhei ou se perdi. Tudo o que sei é que encontrei em San Diego muito mais do que vim procurar e não me arrependo.

Quando as últimas notas da canção são tocadas e a voz de Blake se torna apenas um sussurro, eu ainda estou encarando-o em silêncio, completamente emocionada com tudo aquilo. Quero dizer a ele que a voz dele é linda, que ele toca muito bem, que adorei a forma como a música ficou na versão acústica... quero até dizer que ele deveria repensar a ideia de ter a música apenas como um hobby secreto, mas não consigo pronunciar uma única palavra, então faço a única que me vem a cabeça naquele momento: levanto-me da poltrona e me jogo em seus braços.

Em um segundo a boca de Blake está na minha e ele está largando seu violão num canto e envolvendo minha cintura com as mãos. Não perco tempo em enfiar minhas mãos sob sua blusa e ele também não hesita em se livrar de minha jaqueta. Um momento depois nós estamos caídos sobre o tapete macio do quarto de música e o corpo quente de Blake está sobre o meu. O fato de que ele é meu professor passa mais uma única vez por minha cabeça e, então, é arrastado rumo a escuridão do esquecimento e, ali mesmo, no tapete, eu e Blake fazemos amor e, então, eu adormeço nos braços dele, sentindo-me amada e segura como nunca havia me sentido e pronta para amá-lo da mesma forma.

Notas finais
Notas explicativas: 1) Sukiyaki é um cozido originário do Japão e que, mais tarde, foi adotado também pela culinária chinesa. Ele leva os seguintes ingredientes: carnes (bovina e/ou suína) fatiadas bem finas, verduras (acelga, couve-flor, shinkiku, moyashi, agrião, alho poró, hourenso), macarrão, cogumelos (shiitake e shimeji), konnyaku e ito konnyaku e kamaboku *não faço nem ideia do que vem a ser essas últimas três coisas*. 2) Fortaleza da Solidão é um local fictício dos quadrinhos da DC Comics, que serve como quartel-general para o Superman e seus artefatos de Krypton. Tradicionalmente, essa fortaleza se posiciona em algum ponto do Ártico e, em seu interior, há estátuas de Jor-El e Lara segurando um globo representando Krypton. **** É isso minha gente. Espero que tenham gostado do capítulo e gostaria de agradecer a todas as leitoras que deixaram comentários nos últimos capítulos. Acho que respondi todos (exceto os novos que chegaram), mas se você tiver me mandado review e ainda não tiver sua resposta, não hesite em me mandar uma MP cobrando, ok? Pode cobrar capítulo novo também, se quiserem, por mim está tudo bem =D Então beijos e até o próximo.