União

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O dia nasceu calmo como sempre era naqueles campos onde longe, bem longe se via as plantações douradas de trigo alto.

Vitor pulou da cama animado, sem mais nenhum pesadelo, com a graça do bom senhor Deus, e sorrindo correu como um louco para o espelho, dando leves batidas por cima da face refletora. Ouvindo-se um tuc tuc vago e repetitivo, ele ria animando-se de que aquilo, ah aquilo não era um sonho.

-Jaques? Jaques? Acorda o dia começou, vem falar comigo? Eu sei que não foi sonho! Jaques!?

Mas ninguém respondia, a não ser seu próprio reflexo imitando tudo que ele fazia, teria então, sido mesmo um sonho na noite passada? Aquilo deixou Vitor muito triste, ele desceu do banco da penteadeira e foi se vestir...

-Foi só um sonho idiota.... Que droga... Hn... Imagine... Acreditar que tem um menino morando dentro do espelho...

Terminava de vestir o agasalho de moletom bem quentinho, por que o inverno estava se aproximando, vestiu uma calça jeans azul marinho e calços os tênis pretos com faixas vermelhas, era só escovar os dentes e pronto mais um dia podia começar, e mais coisas na mudança para arrumar...

Quando ele abriu a porta e viu sua vó no corredor sorriu grandioso para ela, e ela retribuía o sorriso com uma caixa de bibelôs que levava para o quarto ao lado, onde ela passaria a ficar. Vitor estava fechando a porta quando ouviu aquela mesma voz da noite anterior lhe falando.

-Vitor? Onde você está? Vitor?

E Vitor corria empolgado e feliz subindo em cima do banco da penteadeira novamente, vendo aquela mágica voltar a acontecer bem diante de seus olhos, seu reflexo se transformando no menino ruivo de olhos claros.

-Que bom! Que bom! Não foi sonho!

-Claro que não, patavinas eu aqui sou o que?

-Patavinas?

-Deixa pra lá. Então lembra do combinado... Você não pode tirar esse espelho do quarto tá bom?

-Tá bom Jaques, eu tenho que descer pra tomar café, mas eu peço pro papai me deixar ficar com o espelho.

-Obrigado, quando quiser falar comigo, você sussurra bem baixinho no espelho....

-Sussurrar o que?

-Calma menino apressado –rindo-se jaques continuou – Então como eu dizia, você sussurra bem baixo assim: Eu invoco...Jaques Danton, entendeu?

-Entendi sim, então é só falar isso que você aparece?

-Sim, mas você tem que repetir isso três vezes...

-Ahn... Tá bom parece coisa de mágico de circo isso, mas tudo bem...

-Depois de um tempo, quando eu e você formos muito unidos, se você tiver em perigo, ou sentir-se ameaçado, é só dizer isso, que eu vou tentar aparecer num espelho que esteja mais perto de você.

-Nossa! Que legal! Então vou fazer de tudo pra ficarmos unidos!

E o menino ruivo sorria com um jeito dócil e belo, capaz de deixar anjos com inveja de suas sardas espalhadas nas maças vermelhas... Lá embaixo o som áspero de uma voz masculina, chamava Vitor, e ele se despedia do amigo descendo apressado as escadas para o café da manhã, Jaques novamente desaparecia do espelho com aquele sorriso estranho e todo cheio de uma malicia sedutora e ar vitorioso...

O café da manhã seguiu tranqüilo, os pais estavam animados com a cidade, muito ao longe da capital da França, bem tranqüila, onde se podia ouvir lá longe o som de um rio cortando os campos, todos falavam sem parar e Vó Odete era a mais tagarela, recomendando a filha, caminhar um pouco lá pela boca da tarde, para sentir o ar nos pulmões doentes, quando finalmente após muito esforço, Vitor conseguia alguma atenção de seu pai, que achou estranho, ver o filho, que até ontem estava todo emburrado com a casa nova, estar animado daquele jeito.

-O que foi Vitor? Por que essa agitação, menino?

-Papai, sabe aquele espelho grande lá no meu quarto?

-Sim sei vou trazê-lo pra sala essa tarde, não se preocupe...

-Não papai, quero que ele fique!

O pai estranhou aquilo, assim como a mãe e a avó, por que um menino de nove anos iria querer um espelho antigo em seu quarto? O pai fez uma expressão severa, encarando o menino, que se encolheu todo na cadeira, com medo daqueles olhos sobre ele, o pai coçou suavemente a barba e soltou um tipo de suspiro.

- E por que você quer aquele espelho velho no seu quarto?

- Er... Ahn... É que.... Bem, papai, de noite, quando o abajur ascende, ficam umas sombras bonitas e o espelho reflete...Quando eu por meus planetas no teto vai ficar ainda mais legal e eu vou poder ver enquanto to deitado pelo espelho....

-É só isso mesmo Menino?

-Sim papai... Você deixa? Por favor?

O pai olhou a mãe com um ar pensativo e esta apenas sorriu fazendo que sim com a cabeça, era só um espelho velho mesmo, a vó só concordou, gostava de ver o neto se interessando por coisas do passado, cultura, era algo que faltava na maioria das crianças e enquanto ela vivesse faria o neto, não ser um alienado como a maioria das crianças era hoje em dia...

Não é preciso dizer como aquilo deixou o menino quase pulando de felicidade, e como ele ajudou na mudança com tanto gosto, só não voltou correndo para Jaques por que a avó lhe pegara para cristo, o chamando para ver com ela aqueles filmes antigos e em preto e branco, depois foi a mãe querendo atenção e as aulas de xadrez com o pai, então só conseguia voltar para o quarto por volta das 18 horas... Chamou Jaques como ele lhe dissera para fazer e contou a ele as boas novas...

Os dois riram muito entre cochichos, e Jaques contou muitas coisas para ele da época da revolução francesa, das guerras civis e de como as crianças tiveram que fugir para os campos, para não acabarem mortas enquanto que Vitor contava de coisas ruins de guerra, de tal presidente Busho, que tinha esse nome engraçado que ele nunca conseguia dizer corretamente, um homem feio com cara de tomate amassado brigando por um treco preto que mais parecia lama de fim de tempestade, o pai lhe explicara que era petróleo, um líquido que fazia carros andarem e servia para muitas outras coisas, era claro que Jaques não entendia quase nada daquelas coisas modernas que Vitor lhe falava, mas não gostou muito do tal Busho...

Ficaram naquilo por quase duas horas, Vitor desceu para jantar e voltou a chamar Jaques perto da noite, lendo para ele mais poesias do livro que o pai lhe dera, e Jaques sorria gostando de ouvir aqueles poeminhas engraçados e divertidos da literatura brasileira, aliás, gostara de saber sobre o país de contrastes de onde Vitor nascera e depois ainda, Vitor contara que só mudaram para a França por causa da Mãe que estava com um negócio estranho nos pulmões que a deixava muito doente, uma tosse que nunca tinha um fim, um cansaço sempre presente e uma expressão sempre de dor...

Mas Jaques fazia o menino de cabelos pretos pensar em outras coisas ensinando-o novas brincadeiras e travas línguas engraçados...

Os dias foram passando e Jaques e Vitor ficavam cada vez mais amigos, mais unidos, tudo claro em segredo, de dia fazia suas obrigações em casa e a noite fechava-se no quarto, conversando com Jaques, mas a fantasia tem sempre que dar espaço a realidade... E a realidade tinha que se chamar escola...

Sim o dia de voltar a estudar chegara, e era um dia péssimo para Vitor, nova escola, novas pessoas e novos alunos...

Nunca se dava bem com gente nova, todos o achavam esquisito, meio nerd, meio estranho, por que nunca sabia dessas coisas de NET e lan house, jogava videogame e tudo, mas eram geralmente jogos que quase ninguém conhecia, mais de um jogo conhecido como RPG... Por essas e outras, Vitor estava agoniado no quarto e Jaques o olhava indo para um lado e para outro...

-Se eu disser que vou com você para a escola... Você para de andar que nem um rato dentro de uma caixa?

-Como assim ir comigo? Não posso levar esse espelho enorme para escola!

-Heheheh, mas pode levar um espelho de bolso.

-De bolso? Como assim?

-Já esqueceu que eu disse? Agora estamos unidos, agora você pode me invocar de qualquer espelho....

-É mesmo! Eu tinha me esquecido! Com você lá vai ser bem mais legal! Vou pegar aquele espelho da minha mãe... Ela nunca usa mesmo!

E Vitor saiu correndo animado para o andar debaixo, mexendo em caixas até achar um espelho pequeno, que a mãe usava antes para fazer maquiagem, excitado com tudo aquilo, Vitor colocou o espelho bem pertinho dos lábios e sussurrou baixinho....

-Eu invoco... Eu invoco Jaques Danton...

E repetiu isso três vezes, na terceira vez, o rosto de Jaques apareceu com um sorriso.

-Viu estou aqui

-Puxa que legal! Vamos juntos para a escola!

-Mas cuidado com o espelho, nada de deixá-lo quebrar ou deixar alguém pegar... Sou eu que estou aqui dentro!

-Sim, sim, vou tomar bastante cuidado...

Os olhos de Vitor reluziam de tanta empolgação e ele voltava para o quarto, pois já ouvia o pai gritando com ele para ir dormir, reviu tudo na mochila, ajeitou o uniforme colocou o espelho de bolso no criado mudo e viu Jaques no espelho oval novamente, sorriu e deu a ele boa noite, o menino do espelho fez o mesmo e só desapareceu quando Vitor pegou no sono...

Na manhã seguinte foi aquela agitação, correria e café da manhã engolido as pressas, lá fora se ouvia o som surdo e chato de uma buzina, e de crianças falando alto... O pai levou Vitor até o ônibus da escola e recomendou a ele juízo, algumas crianças já olhavam o menino novo com expressões curiosas... Vitor subiu para o ônibus e se viu num corredor cheio de crianças de um lado a outro, e sentiu um leve rubor tomar-lhe a face, algumas crianças já riram e o pobre tentava encontrar algum lugar para sentar, enquanto o ônibus já seguia pela estrada de terra batida, Vitor se aproximou de um banco que estava vago, mas um menino colocou a mão no acento.

-Esse lugar já tem dono... Cai fora mané!

E isso foi se repetindo, o mesmo garoto que era loiro de olhos claros, com o francês fluente ria de Vitor e fazia todos rirem, eram ofensas atrás de ofensas, chamou Vitor de caipira, de pé de lama, de roceiro, tudo isso por que o ônibus desviava muito para ir buscar Vitor na chácara e por conta disso muitas das crianças tiveram que acordar mais cedo... Acabou com Vitor sentado no fundo entre dois garotos de óculos que ficavam sempre jogando um minigame.... Logo ganhou o apelido de Nerd na escola....

Conforme passou os dias, Vitor começou a ficar cada vez mais irritado com a maldita escola, tinha dificuldade às vezes para entender o francês mesmo o pai sendo daquele país e o tendo ensinado desde que aprendera a ler, os sotaques de diferentes regiões o afetava e por isso muitos tiravam sarro dele, ainda mais depois que descobriram que ele era brasileiro...

O pior de todos era sem dúvida René, o menino loiro do ônibus, agora como se não bastasse os insultos, ele começou a empurrar Vitor que resultou em brigas e olhos roxos inchados, e muitas broncas em casa, já que o pai detestava Violência....

Irritado com tudo aquilo, Vitor desabafava com Jaques que acabou sendo seu único amigo....

-Aquele René me irrita Jaques, olha que o imbecil me fez!?

-É está bem Roxo mesmo o seu olho direito.

-Ele fica se achando só por que é francês e fala que brasileiro é tudo povinho ladrão! Eu não sou ladrão coisa nenhuma!

-Calma Vitor...

-Calma nada Jaques! Se eu pudesse... Eu juro que eu acabava com a raça dele!

-Hum? Acabava é? Como?

-Sei lá! Ele bem que podia escorregar na aula de educação física e se arrebentar, ou cair no lago gelado, ou simplesmente sumir quero que ele exploda!

-Nossa... Heheheh quanta raiva... Calma Vitor, calma....Cuidado com o que diz, seus desejos podem virar realidade...

-Que virem! Eu ia adorar se acontecesse! Odeio aquele garoto! Odeio! Mas agora chega de papo... Vou dormir que amanhã tenho aula, a gente conversa na aula de educação física se eu não brigar com o Mala de novo...

Vitor foi logo para cama, Jaques o observava com um sorriso.... Quando percebeu que Vitor pegara no sono, o menino sorriu novamente daquele jeito estranho.... Observando os planetas pendurados no teto...

-Interessante... Como um desejo pode conter tanta força.... Não é, meu querido amigo Vitor...

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Continua...