Notas iniciais
Velas negras pelo altar
Criancinhas vem brincar
Grite virgem louca
Grite a soluçar
A espada te fere o demônio a te chamar
Vem brincar...Vem brincar...

O que uma brincadeira inocente pode levar...René vai descobrir que a infância é um doce que se acaba quando menos se espera...
Castigo

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A paisagem era a mesma de todos os dias, a diferença, era que agora estava nevando e o ônibus da escola estava indo bem mais devagar, o que gerava lá dentro uma pequena algazarra entre os alunos enquanto que René era o centro das atenções, Vitor tinha seus olhos focados na paisagem branca, tentava passar desinteresse por aqueles montes de neve branca e gelada e por aqueles flocos brancos que nunca possuíam a mesma forma... Era novo para ele tudo aquilo, e no fundo queria correr e brincar lá fora, mas por conta de René, se fizesse isso com certeza a avacalhação não faltaria, por isso era melhor fingir que aquilo e chuva era a mesma coisa...

-Hei! Vejam só...Lá está o bestão do Vitor olhando a neve, que foi nunca viu? Ah esqueci que no teu país pobrinho não tem neve!

E muitas crianças riram, e Vitor só suspirou com um pouco de raiva tentando ignorar o idiota do René, por que diabos esse garoto tinha tanto que importuná-lo? O que tinha demais ser brasileiro? Era um país como outro qualquer, com seus problemas e tudo, mas era um belo país, sem guerras, sem terremotos ou outras catástrofes.... Mas... Tinha a violência e a tal da política que o pai vivia falando nas refeições.... Mas mesmo assim, ele não tinha direito de falar mal do país dele...

No final da esquina, no horizonte se via a escola entre algumas casas de gosto requintado, um colégio religioso muito antigo que décadas atrás era um convento.

As aulas seguiram normais, por sorte René ficara ocupado boa parte do tempo com uma menina e se esquecera dele, foi o bastante para Vitor descansar um pouco a cabeça e no intervalo, sentou-se isolado para conversar com Jaques. Segurou o espelho de bolso entre as pequenas mãos protegidas pelas luvas de frio e sussurrou baixinho para que Jaques aparecesse e logo lá estava a imagem nítida dos cabelos ruivos, e seu sorriso jovial a cumprimentar Vitor, esse lhe sorriu também, mas logo, seu sorriso virou uma expressão aborrecida...

-Esse René tem passado dos limites.... Se o meu pai não fosse tão chato com esse lance de bater nos outros, eu sei lá o que já tinha feito....

-Tente ignorá-lo Vitor, se você der corda vai ser pior...

-E você quer que eu faça o que? Ele se acha o bom por ser mais velho, só por que tem onze anos, acha que é melhor que todo mundo e nem se toca que ele é um atrasado que nunca estuda!

-É isso que você tem que dar valor, você é superior a ele Vitor!

-Mas ele me irrita demais da conta!

-Shh.... Não fale tão alto, ou vão achar que você é maluco!

-ARGH! Odeio essa escola!

E como Jaques pressentiu... Logo quem tinha ouvido a voz de Vitor? René vinha por trás e arrancava o espelho da mão de Vitor, Jaques nem teve tempo de avisar, só teve tempo de desaparecer...

-Ora, ora! Vejam só, além de idiota ainda é esquisito! O cara tá falando com um espelhinho, de mulher ainda por cima!

-Mulherzinha! Mulherzinha! ─ Diziam outros meninos que agitavam ainda mais a gozação com Vitor

-Devolve isso agora René!

-Devolver o que? O seu espelhinho pra você retocar a maquiagem?

E as outras crianças riam dele, enquanto mais outras corriam agitadas para ver o que estava acontecendo.

-Me devolve isso seu idiota ou eu vou esquecer do que meu pai mandou e arrebentar a tua fuça!

-Auhahuahuahua Fuça? Não entendi, ah sim é linguagem de roceiro brasileiro gente, desculpa aí ô mulherzinha é que eu não entendo essa língua de gentinha baixa!

-Desgraçado!

E Vitor realmente se esquecera das palavras do pai de nunca partir para violência e já se atracava contra o pescoço de René. Os dois garotos rolaram pelo chão entre chutes e socos enquanto as outras crianças fizeram uma roda ao redor deles gritando e agitando ainda mais a confusão, duas freiras tentavam passar pelas crianças para impedir que os dois continuassem, Mas Vitor estava cego de raiva e assustado, pois lembrava a todo o momento que o espelho em que Jaques aparecesse não podia ser quebrado, estava mais era desesperado para recuperar o espelho da mão de René, este que logo em seguida escapou dos dedos dele e rolou para longe... Vitor se ergue para ir buscar, mas o René o agarrou pelas pernas o fazendo bater de queixo no chão, que resultou num machucado aberto e mesmo assim Vitor continuou tentando se arrastar até o canto onde estava o espelho e quando faltava pouco para seus dedos tocarem aquele objeto tão precioso, uma das freiras pisara bem cima o reduzindo os cacos...

-Vitor! René! Parem agora mesmo!

Os olhos de Vitor ficaram estreitos de dor e de raiva, ele tivera a nítida sensação de ouvir um grito em seus ouvidos, um grito de dor como se muitas vozes estivessem amaldiçoando aquela bruxa em hábitos religiosos.

-Maldito... Maldito René.... Por quê? Por sua culpa... O Jaques.... POR QUE VOCÊ NÂO MORRE NUM BURACO QUALQUER DESGRAÇADO!!!!!

Mas mal terminara de falar e se sentiu ficar atordoado com aquele grito que ainda ressoava em seus ouvidos e teve a sensação de que ele havia sido atingido por um tiro no peito, apenas foi sentindo-se ser erguido pelas freiras e sentia o chão faltando e tudo girando...

-Oh meu Deus! Ele está sangrando! Vitor! Vitor!

A escuridão veio como um flash diante dos olhos cansados de Vitor, e tudo ficou extremamente silencioso....

-Vitor.... Vitor....

-Ma... Mamãe?

-Ah! Você acordou! Graças a Deus menino quer matar sua mãe do coração...

-Onde eu estou?

-No hospital querido... Você desmaiou na escola, machucou o queixo e torceu o tornozelo...

-Papai... Está bravo não está?

-Mais ou menos... Mas algumas crianças disseram que foi o outro menino que começou tudo, e como você já tinha reclamado sobre isso com ele, ele não está assim tão bravo....

-Que bom...

Logicamente que ele tomara uma bronca depois e que aquilo resultou num bom castigo, mas ficou sabendo que René tinha levado uma bronca pior ainda e que ainda por cima ficaria uns bons dias sem ir à escola... Em casa Vitor invocou Jaques, mas ele não aparecia, tentou várias vezes e nada nem sombra, ficou tão triste que não conseguia comer ou assistir filmes com Vó Odete... Só ficava no quarto... E aquilo durou quase três dias....

René por sua vez estava irritado em casa, de castigo por causa do idiota do brasileirinho, cansado de ficar em casa resolveu fugir pela janela e se encontrou com alguns amigos, estavam empolgados com a briga que acontecera e contavam a René o quanto machucado Vitor saíra, e René orgulhoso contava vantagem de não ter tido nem mesmo um arranhão, voltou para a casa a Tarde, os pais não estavam e a empregada estava lá embaixo limpando, nem se dera conta de que ele havia saído... Orgulhoso caminhou até o quarto dos pais e foi se olhar no grande espelho que tinha lá, fazia poses fingindo ter músculos diante do espelho.

-E então senhoras e senhores! Quem é o bom hã? René o Forte derrotou o idiotinha! O paspalho ficou nervosinho por causa de um espelho, que palerma, é mesmo um mulherzinha auhahuahuahuahuahu!!!!!

E rindo-se todo não foi percebendo que o quarto foi ficando mais escuro, só percebeu quando a janela do quarto fechou-se bruscamente interrompendo a luz lá de fora.

-Ahn? Que foi isso?

Olhou assustado a janela,sentindo uma lufada de vento gelado, que fez com que a porta também batesse...

-Ah... Haha... É só o vento....

Caminhou até a porta para abri-la, mas ela estava trancada.... Tentou ascender à luz, mas elas não ascenderam... Ele olhou aquilo sentindo um estranho calafrio em seu corpo, como se alguém estivesse passando uma pedra de gelo por suas costas... Sentiu frio, um frio intenso como se o lugar estivesse congelando... Ele riu para si mesmo, meio nervoso, e novamente tentou abrir a porta...

-Que droga! Além de Emperrar ainda faltou luz? Deve ser a neve....

-Não... Caro René.... Não é a neve...

René virou-se assustado e quase sentiu os ossos congelarem, ao ver que a única luz que existia agora no quarto provinha do espelho... Por mais impossível que aos olhos de René, parecesse, ele via que a luz fantasmágorica surgia de lá, daquele antigo espelho de sua mãe, um espelho oval de corpo inteiro.... E lá no espelho estava uma forma distorcida, um ser pequeno de aspecto frágil, com um sorriso de orelha a orelha, e olhos brancos como a neve que caia lá fora, o quarto inteiro pareceu congelar e René gritava por socorro tentando abrir a porta desesperado, batendo nela com força

Mas a Porta não cedia e parecia que ninguém o ouvia....

-Não adianta gritar ou bater René... Sua empregada está com fones no ouvido ouvindo música alta....

-AHHHHNNN!!!!! O que é você??? O que você quer!!???

-Apenas Fazê-lo pagar pelos seus atos para com meu Invocador e pelo fato de ter me ferido...

-In.... Invocador?? Que diabos está acontecendo aqui! Eu to sonhando! É isso é só um sonho!!!

-Não, caro René...Huhuhuhuhuhu não é nenhum sonho, mas acho que talvez você possa chamar de pesadelo! Um pesadelo que nunca terá um fim!

Dizia a forma no espelho rindo e muitas outras vozes junto com ele riram mais alto ainda, as vozes eram arrastadas e pareciam gemidos de dor e lamentação, quanto mais o garoto tentava fugir, mais pânico ele sentia, mais o quarto paredia pequeno e frio foi quando então René sentiu seus ossos estralando e viu mãos saindo do espelho o puxando , ele se jogou no chão tentando se segurar no carpete, nos móveis, mas em vão, começou a sentir seu corpo todo doer e sangue saindo do nariz, gritou como um louco queimando em uma fogueira, mas ninguém veio...

-AHHHHHH!!!!! SOCORRO!!! MAMÃE!!! PAPAI!!!!!

Ninguém o ouvia... Ele estava sozinho, seus pais estavam no trabalho, a empregada lavava louça lá embiaxo... E os vizinhos? Porque ninguém vinha ver por que uma criança estava a gritar daquele jeito? Será que ele tinha pregado tantas peças que ninguém mais acreditava nele? A forma dentro do espelho só ria, diabolicamente, ele parecia só um garoto, mas seu rosto era distorcido num sorriso repuxado e comprido... As mãos continuavam a sair de dentro do espelho e o puxavam, e ele sentiu sua face sendo repuxada, ficando torta, seus ossos travarem, seus pés e mãos entortarem, enquanto esguichos de sangue saiam de suas juntas, logo todo o corpo começou a tremer como se ele estivesse tendo um ataque epilético e as mãos puxaram para fora do corpo a alma do infeliz René para dentro do espelho...

-NÃÃÃOOOO!!!!!

René gritara pela última vez, lá embaixo enquanto a empregada ouvia música um copo bem a sua frente estorou em pedaços, assustando-a a ponto dela fazer o sinal da cruz, sentiu a casa misteriosamente silenciosa... O que o pequeno René estaria aprontando? A jovem mulher foi até o quarto do menino mas não o encontrou lá... Então, procurou nos outros quartos até chegar no quarto dos patrões, quando estava para abrir a porta, percebeu uma mancha no carpete.... Uma mancha escura e vermelha, que a fez abrir a porta imediantamente.... Os vizinhos logo ouviram o grito de horror da mulher...

À noite, se pode ouvir o som de uma ambulância cortando as ruas aceleradas, levando para o hospital a menino René, que tivera um ataque epilético e por conta disso entrara num coma profundo do qual... Nunca mais acordaria....

Vitor acordou no meio da madrugada assustado... Sonhara com alguma coisa estranha...Um rosto distorcido, mas não sabia exatamente o que era aquele sonho...até ouvir uma voz conhecida...

-O que faz acordado?

-Jaques? Você voltou! Você está bem?

Correu até a penteadeira e viu novamente o velho amigo lá, com o mesmo sorriso, o mesmo cabelo de fogo e os mesmos olhos claros...

-Só precisei descansar alguns dias....

-Desculpe... Eu não quis que aquilo acontecesse.... Foi culpa daquele idiota do René....

-Não se preocupe com isso... Lembre-se... O mundo dá voltas... Ele vai acabar sofrendo algum dia por ser do jeito que é.... Agora volte a dormir....

-Vou sim, com você por perto eu me sinto mais seguro...Boa noite...

E Vitor voltou pára cama sorrindo e murmurou uma última coisa

-Sabe.... Agora que eu vi você de novo... Eu não estou mais me sentindo tão fraco...

-Que bom.... Durma um pouco, que eu também vou dormir.... Estou cansado...

-Boa Noite Jaques...

-Boa noite Vitor...

E como já era de costume... Jaques ficou lá com aquele sorriso observando o menino dormir, enquanto no cenário atrás dele, naquele imenso salão de festas, entre os tantos nobres que passavam lá, havia uma nova figura... Um novo bobo da corte para animar e ser torturado por aquelas almas abandonadas e fadadas eternamente a viver dentro daquele espelho.... Jaques se ergueu e voltou para lá rindo, desaparecendo do espelho da Penteadeira...

-O mundo dá muitas voltas...

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Continua...