O Melhor Dia de Todos
1 Vivendo a vida
Assim como a maioria dos adolescentes de 17 anos, Sofia odiava acordar cedo. Odiava ter que acordar cedo para ir à Escola. Escola era um lugar que ela odiava. Odiava as pessoas. Odiava os professores. Odiava a comida. Odiava a localização da escola e o pior de tudo era que ela odiava odiar tudo.
Não que ela fosse uma menina arrogante do tipo “Faço o que eu quero”, muito pelo ao contrário, ela era uma garota muito educada, gentil e solidária. O problema era que o povo da sua escola pedia para ser odiado. É claro que existia as exceções, como Beatriz e Enzo, seus dois melhores amigos. Gostava deles por eles serem quem eles são. Não eram aquelas pessoas que mudam sua personalidade só para agradar alguém ou na pior das hipóteses aquelas que mudam sua personalidade porque está na moda. E o que ela mais odiava nesse sistema capitalista dos hipócritas era que odiar as chamadas “modinhas” e ser quem você é estavam na moda. E ela odeia estar na moda.
Depois desses pensamentos rotineiros, ela resolveu levantar da sua cama. Seu quarto era muito simples. A cama ficava no meio do cômodo. Ao lado esquerdo havia uma mesa que ia de uma lateral da parede até a outra. Em cima dela havia seu notebook e alguns dos seus livros. Ela adorava ler. Em cima da cama ficava uma prateleira cheia de livros. Eles estavam enfileirados de forma alfabética, porém eles começavam do “z” e iam até o “a”. Como disse Sofia não gostava ser igual. Na frente da cama havia uma porta que dava acesso ao corredor e do lado esquerdo da porta cor de rosa – porta que ela odiava por sinal – estava seu guarda-roupa de correr também cor de rosa. As paredes do seu quarto eram rosa. Seu jogo de cama era cor de rosa. Sua sandália era cor de rosa. Tudo era rosa. E ela odiava isso também.
Cansada de odiar as coisas, Sofia saiu pela porta do corredor e foi em direção ao banheiro que ficava na frente de seu quarto. Mas antes, ela parou no meio do corredor e olhou para a direita onde se encontrava uma mesa de vidro com um crisântemo amarelo em cima e atrás da mesa, encontrava-se uma janela que dava vista para a cidade. Esse era o lado bom de morar no 19º andar do prédio. Tinha uma vista bonita.
Entrou no banheiro e encarou o espelho que se encontrava na esquerda do cômodo em cima de um lavatório. Todo banheiro era branco.
Ao se olhar no espelho, pela primeira vez prestou atenção em si mesma. Ela tinha um rosto fino, com um queixo retangular. Sua boca era pequena e seu nariz também. Tinha olhos pretos hipnotizantes, qualquer um que os olhasse poderia achar que estava sendo abduzido ou recebendo uma lavagem cerebral.
Seu cabelo era liso e ruivo natural. Por mais que as meninas de sua escola falassem que era pintado, ela simplesmente pensava “É tudo requalque”.
O cabelo chegava até os seios. Seios. Seios era uma coisa que ela sempre quis ter. Ela parecia uma tábua. Eles começaram há crescer um pouco aos 14 anos, mas pararam de novo aos 16. E hoje com 17 anos, ela se considera uma menina sem peitos. Seu pai falava que era porque ela era muito alta. Uma menina de 1,70. Ela se considerava um monstro por ser mais alta que alguns meninos. Pelo menos ela parou de crescer um pouco.
Sofia tomou banho, vestiu uma calça jeans, colocou uma camiseta toda branca, calçou um All Star preto, pegou sua bolsa e foi em direção a cozinha.
Seus pais já tinham ido trabalhar, mas sua mãe deixou para ela um sanduiche. Ela o pegou e foi em direção a porta pronta para mais um dia massivo de aula. Ela não via a hora disso acabar.
A van escolar chegou três minutos atrasada. Como Sofia era a última a ser pega, ela não tinha o extraordinário direito de escolher um lugar para sentar. Ela acabou sentando no fundo quando a “tia” da van pediu para que eles apertassem um pouquinho para que ela pudesse sentar. Mais um item para a lista, odiava atrapalhar a vida dos outros. O caminho até a escola era um pouco longo então ela simplesmente colocou o fone de ouvido, escolher a opção aleatório do celular e claro, passou todas as músicas até chegar na sua música preferida.
Chegou à escola 25 minutos depois.
Sua escola era enorme, assim como ego das pessoas que estudavam ali. Por ser uma escola particular, todos lá se achavam melhor que todos. Achar alguém que se pudesse confiar era mais difícil do que achar sinal de internet 3G.
Sua escola tinha uma fachada toda de vidro. Possuía 6 andares. E os alunos não tinham direito de usar o elevador. Mais uma coisa para odiar. Ela estava meio atrasada então saiu na frente de todos. Ao subir a escada que dá acesso à entrada principal se deparou com Beatriz que a esperava no final da escada.
Beatriz sempre bonita. Cabelos loiros sedosos, olhos azuis como o mar, uma boca rosada, ela era quase pálida de tão branca que era. Não muito alta, mas também não tão baixa. Usava uma calça jeans da Levi’s, usava um Nike rosa, usava uma camiseta preta da Dolce & Gabbana e portava uma bolsa preta da Channel comprada nos EUA. Beatriz era filha de um empresário que até hoje Sofia tenta descobrir de qual ramo ele era. Por esta razão, chamava Beatriz de “Chefa do Tráfico”. Só para manter a informalidade com a amiga.
-E aí Dona do Morro! – Disse Sofia cumprimentando Beatriz
-Fica quieta e vamos logo para a aula, estamos atrasadas – Beatriz agarrou o braço de Sofia e a levou em direção as escadas que ficavam do lado esquerdo da entrada.
Subiram 3 lances de escada e chegaram ao terceiro andar. A sala delas, sala 21, ficava no fim do corredor e quando chegaram lá, elas viram que a sala estava cheia. A única mesa vazia era a de Enzo. Ela sentava na fileira da parede na segunda mesa, atrás dela sentava Beatriz e a mesa da frente costumava ficar vazia. Enzo sentava do lado de Sofia.
Primeira aula era Projetos. Nessa aula, os alunos costumavam fazer projetos desde mais simples, como redações e apresentações de teatro, até preparar um TCC completo.
O professor chegou à sala. Seu nome, Bruno. Ele ela muito liberal. Naquele dia usava trajes sociais, porque além de professor ele trabalhava em um escritório na Avenida Paulista. Ele tinha olhos verdes e Sofia era apaixonada por ele.
Bruno estava diferente naquele dia, entrou na sala sem dar um sorriso se quer. Jogou seus cadernos na mesa, apoiou na mesa e bufou por um longo tempo.
-Vocês são felizes? – Perguntou ele
Todos ficaram com uma cara parecida com a que você faz quando se perde da sua mãe no supermercado. O silêncio era profundo e assustador. Sofia jurava ter escutado um lápis cair na sala ao lado.
-A gente passa vida fazendo planos para o futuro – continuou o professor- Sonha com coisas incríveis. A imaginação humana é uma arma poderosa. Mas na hora H a gente acaba tendo medo de arriscar e perder tudo por causa de um sonho besta que tivemos alguns anos atrás. No mundo de hoje a gente só pensa em ganhar dinheiro e esquece o verdadeiro significado de viver. Ao chegarem em casa vocês provavelmente vão estudar ou ficar o dia na internet. Vão para a faculdade daqui a dois, três anos. Terão um emprego. Família. E quando você estiver no seu leito de morte você se perguntará. “Valeu a pena?” “Eu vivi o que queria ter vivido”.
A sala permanecia em um silêncio absoluto. Bruno parecia estar com uma dor insuportável por dentro. Ele fazia uma cara de que fosse chorar a qualquer momento. Continuou dizendo:
-É por isso que quero dizer a vocês. Vivam enquanto pode. Pois a vida é um jogo onde todos jogam e no final todos morrem. Ela é como um vírus que entra no seu corpo e te mata a qualquer momento. A vida é feita para ser vivida cegamente, pois não adianta você fazer planos para vencer esse jogo. Você sempre perde no final.
Tá, Sofia estava mesmo muito chocada. Ela sabia que um dia todos nós íamos morrer, ela já estava acostumada com isso. Mas mesmo assim não entendia o que o professor queria dizer, ou será que sabia.
-Por isso, o projeto desse semestre será o seguinte – continuou Bruno – Quero que vocês vivam “O Melhor Dia de Todos”
O espanto tomou conta de todos. “O Melhor Dia de Todos”? Nada estava fazendo sentido na cabeça de Sofia até que Bruno continuou:
-Façam sua vida valer a pena.
Sofia refletiu sobre isso. Ela viveu 17 anos. Em todas as suas memórias ela tentou procurar uma que fosse boa, que ela realmente tivesse se divertido, tivesse literalmente aproveitado a vida. Ela entrou em pânico, pois percebeu que em todos esses anos, ela não fez nada que fosse digno de um projeto escolar. 17 anos e ela ainda não tinha começado a aproveitar a vida, e se ela continuasse desse jeito, ela iria morrer sem ter conhecido o lado bom de viver.
Sofia olhou para Beatriz e percebeu que ela pensava a mesma coisa que ela. Estava determinada então. Sofia iria ter “O Melhor Dia de Todos” e não ira ser só mais uma escrava do jogo que a vida é.
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