O Melhor Dia de Todos
2 Exigindo explicações
As aulas seguintes foram chatas como sempre. Matemática, Literatura, Geografia, Filosofia, Sociologia e para acabar o dia, dobradinha de Física.
Quando o sinal bateu ela guardou as coisas na mochila e esperou Beatriz fazer o mesmo. Ela ainda escrevia algo no seu caderno da Hello Kitty. Era estranho, Beatriz ter um caderno da Hello Kitty já que Beatriz tinha medo dela. Ela achava que a Hello Kitty era uma espécie de demônio das trevas que durante a noite iria lhe atacar e costurar sua boca. Talvez ela estivesse fazendo isso para perder o medo.
–Mais um dia se passou e eu não usei a fórmula da velocidade – Essa foi a deixa de Beatriz. Ela se levantou, colocou sua bolsa nas costas e seguiu Sofia pelo corredor até a escada.
–Por que Enzo faltou hoje? – Perguntou Sofia. Ela começou a se sentir culpada porque só perguntou sobre Enzo na hora da saída da escola.
–Talvez ele estivesse com preguiça. Você sabe como ele é – Respondeu Beatriz.
Ao chegar à escada, Sofia viu o professor Bruno na entrada do elevador que ficava do lado da escada. Ele estava com cara de abatido, cabeça baixa e usava um casaco marrom. Ela nunca o tinha visto desse jeito. Bruno sempre foi um professor alegre, que gostava dos seus alunos. Ele jamais andaria de cabeça baixa. Sofia estava muito desconfiada. Na semana passada ela estava muito feliz. Ele chegou até a dançar na sala de aula. Sofia riu a aula toda. Mas hoje, ele chegou desanimado, triste. E ainda fez um discurso sobre como a vida é malvada e que a gente tem que aproveitar o máximo que pode. Até parece que ele nunca mais daria aula.
Quando Bruno entrou no elevador, Sofia desceu a escada correndo. Ela ignorou completamente os gritos de Beatriz que vinha atrás dela. Ela chegou ao primeiro anda e ficou parada na frente do elevador. Em cima da porta, o painel marcava 2º andar, depois 1º e agora T.
Bruno saiu do elevador sem olhar pra frente e acabou se chocando com Sofia, o que fez com que ele derrubasse sua mochila no chão. Ao olhar para Sofia ele ficou espantado e perguntou:
–Algum problema Sofia?
–Eu deveria fazer essa pergunta.
Nesse momento Beatriz chegou ao térreo, mas ficou parada na frente da escada. Sofia fazia uma cara parecida com a de um policial ao investigar um criminoso pego no flagra que continua dizendo que é inocente. Ela sabia que quando ela fazia essa cara, ela jamais poderia interferir na conversa.
–Do que você está falando? – Retrucou Bruno
–Professor, você sempre foi uma pessoa alegre, cheia de vida. Quando você entrava na sala, tudo parecia se iluminar com sua presença. Contudo, hoje você chegou e pareceu que em todo lugar que você pisava um demônio sugava a vida e deixava um rasto de destruição por onde você passava.
–Por que você está usando tantas metáforas? – Perguntou Bruno.
Usar metáforas para expressar seus sentimentos era uma característica básica e muito importante de Sofia. Por mais que elas fossem ridículas e em alguns momentos (como nesse exato momento) não fizessem sentido algum, ela gostava de usá-las, era a parte da Língua Portuguesa que ela mais admirava.
–O que eu quero dizer é – continuou Sofia – O que aconteceu com o senhor?
–Você é jovem Sofia, não precisa se preocupar com os problemas dos adultos.
–Mas eu quero saber professor. Você é meu professor favorito. E eu me lembro de que você disse que era meu melhor amigo. Você ainda é não é?
–Claro. Pode contar comigo.
–Se eu posso contar com você, você deve contar comigo também. Sou muito curiosa, diga-me, por favor.
–Sofia. Você não precisa saber de tudo. Ninguém sabe de tudo. Se você sabe de tudo você já viveu o suficiente. Se você sabe tudo você já pode morrer, porque a vida só tem sentido quando você não sabe de nada. A busca do saber é o que move a vida, e você está fazendo isso agora. Buscando saber. Porém Sofia, você jamais saberá de tudo.
–Se eu uso muita metáfora, você usa muita hipérbole.
Bruno deu uma risada. Foi a primeira vez que ele riu hoje.
–Isso não foi uma hipérbole. Agora tchau Sofia. Tenho que ir.
Sofia chegou a sua casa. Sua mãe preparava comida. A mãe de Sofia, Helena, era Chefe de Cozinha e tinha uma rede de restaurantes de luxo por todo país. Ela era alta, tinha um cabelo ruivo sedoso igual ao de Sofia. Branca como neve, a mãe de Sofia tinha olhos verdes e um nariz pequeno. Ao ver sua filha ela perguntou:
–Como foi a escola hoje querida?
–A mesma coisa. O professor enchia a lousa de lição, chegava outro, apagava e colocava mais lição.
–Teve algum trabalho?
Nessa hora Sofia se lembrou do projeto que o professor Bruno tinha passado. Ela tinha ainda algumas dúvidas e esqueceu-se de perguntar para ele. Resolveu que ia fazer amanhã.
–O professor de Projetos passou um trabalho.
–Qual?
–Eu tenho que ter “O Melhor Dia de Todos”
–Como assim? – nessa hora sua mãe fazia uma cara de dúvida, mas para Sofia, parecia com a cara de alguém que como algo muito salgado.
–Eu também não sei. Vou descobrir amanhã.
Ela entrou no quarto. Tirou as suas vestimentas. Tomou outro banho. Comeu a comida que sua mãe havia feito e depois deitou na cama. Ela estava lendo um livro chamado “Segredos Carnais”. Contava a história de uma detetive que seguia homens casados que eram suspeitos de traição, mas a história muda de rumo quando ela acaba tendo um caso com um desses homens, e o pior de tudo era que a mulher que havia pedido os seus serviços era sua amiga. E assim começava uma história de traição, romance e terror. Porém ela acabou dormindo depois de ter lido 55 páginas. Aliás, dormir enquanto lia era outra coisa que Sofia odiava.
No dia seguinte, ela viu Beatriz e Enzo sentados na escada da escola. Enzo era o tipo de amigo que estava lá todas as horas, além de ser muito bonito. Ele tinha cabelos pretos lisos e sedosos, olhos azuis, branco na medida certa, alto de 1 metro e 78 centímetros. Tinha uma boca muito sexy e um sorriso branco feito neve. Ele era musculoso e tinha um abdômen definido, resultado de muitos treinos na academia. Ao ver Sofia, ele se levantou e a abraçou como um urso agarra sua presa, só que de um jeito mais carinhoso.
–Senti sua falta – Enzo começou o diálogo.
–Foi só um dia – respondeu Sofia.
–Então você não sentiu minha falta?! – Enzo gritou e fez uma cara de choro.
–Não chora garotão – disse Beatriz.
–É brincadeira Enzo – disse Sofia rindo – Senti sua falta também.
–Hey! Falem-me uma coisa. Que história é essa de “O Melhor Dia de Todos”? – perguntou Enzo.
Nesse momento, Bruno chegou na escola e Sofia foi correndo em sua direção, novamente ignorando os gritos de Beatriz.
–Professor, eu quero tirar umas dúvidas sobre o trabalho – disse Sofia.
Eles foram em direção para o refeitório.
O refeitório tinha uma forma oval, porém havia um corredor que levava para uma parte descoberta onde havia mais mesas e claro, mais pessoas. Eles sentaram em uma mesa que ficava bem no centro do recinto. Ao lado esquerdo, estava a cantina e do lado da cantina, um corredor de entrada por onde todos que querem entrar no refeitório passam.
–O que seria “O Melhor Dia de Todos”?
–O que é “O Melhor Dia de Todos” para você? – respondeu Bruno colocando uma leve entonação em “você”
–Para mim seria o dia em que eu fosse feliz. Algo parecido? – disse Sofia com muitas dúvidas ainda.
Num ato repentino, Bruno apontou para um menino que acabava de entrar no refeitório pelo corredor ao lado de Sofia.
–O nome dele é Carlos Oliveira – Bruno abaixou o dedo e continuou – Ele mora em uma comunidade do outro lado do rio. Ele entrou aqui pelo “Programa de Caridade”. Ele passou horas estudando, o sonho dele era entrar aqui nessa escola. E ele conseguiu. Para ele, o dia em que ele entrou aqui foi “O Melhor Dia de Todos”.
Dessa vez, Bruno apontou para uma garota que se sentava à mesa ao lado direito de Sofia.
–O nome dela – continuou Bruno – Elizabeth Rosenstock. Ela é filha de um empresário e economista alemão. Para ela, “O Melhor Dia de Todos” foi quando ela gastou trezentos e cinquenta mil reais em roupas e sapatos enquanto estava em Paris.
–Por que alguém gasta todo isso em sapatos? – Perguntou Sofia indignada com o que o povo da sua escola fazia.
–Não importa. Ela se sentiu feliz naquele dia. Então Sofia, “O Melhor Dia de Todos” não tem definição exata. “O Melhor Dia de Todos” será aquele dia que você achar que é o melhor de todos. Use sua imaginação.
Bruno fez um carinho na cabeça de Sofia, mas acabou bagunçando todo o cabelo dela. Ele se virou e voltou como se esquecesse de alguma coisa.
–Quero o seu dia escrito em uma redação com no mínimo cinco folhas. –Disse Bruno.
–O QUÊ?! –Gritou Sofia.
Bruno saiu rindo, mas sua risada alegre e contagiosa terminou quando ele desmaiou no meio do corredor.
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