O Melhor Dia de Todos

3 O nome dele é John


Sofia não conseguiu pensar em nada nas horas seguintes. Bruno, o cara mais legal que ela já conheceu na vida, do nada, desmaia no corredor como se ele tivesse levado um tiro de bala perdida ou coisa do tipo. Enquanto os professores que passavam pelo local o ajudavam a se levantar, a única coisa que Sofia conseguia fazer era ficar parada na entrada do corredor. Sem mostrar nenhuma reação. Sem falar uma única palavra ou fazer algum som. Dentro de sua cabeça havia um caos total. Ela queria chorar e sair correndo, mas ao mesmo tempo ela queria correr até lá e ajudar seu professor favorito. Ela então se lembrou dos anos anteriores quando Bruno a havia ajudado.

Na sexta série, por exemplo, Bruno deu aulas particulares de graça para Sofia quando ela não conseguia fazer as lições de matemática. Na sétima série, ele ensinou Sofia a jogar vôlei, ele era o melhor treinador que ela já teve. Mas a coisa mais gratificante que Bruno havia feito para Sofia foi na oitava série. Enquanto Sofia, sua mãe e seu pai voltavam de uma viagem ao interior, seu pai perdeu o controle e o carro capotou sete vezes consecutivas. até ele parar no meio da rodovia. Estava chovendo muito e seu pai não havia feito vistoria no carro antes de eles voltarem. Seu pai e sua mãe saíram quase ilesos, mas Sofia teve um corte profundo na barriga por causa de um canivete que estava ao seu lado no banco de trás. Seu pai usava aquele canivete para cortar as embalagens de comida durante a viagem, mas naquele dia, a única coisa que o canivete cortou foi a barriga de Sofia. O sangue corria pelas pernas da garota, como a água. Ela foi rapidamente socorrida e levada ao hospital, mas como ela perdeu muito sangue, uma transfusão de sangue era necessária. Seu pai e sua mãe não tinha o sangue compatível com o de Sofia (não, ela não é adotada), a única pessoa da família que tinha o mesmo tipo sanguíneo de Sofia era sua vó, que tinha morrido cinco anos atrás. Um doador desconhecido doou sangue para Sofia. Quando ela acordou no hospital ela fez questão de saber quem era seu doador, mas o nome não foi revelado. Querendo saber de qualquer jeito, Sofia saiu do quarto. Ela viu a recepção e passou direto. Virou a esquerda em um corredor branco cheio de portas. Todas fechadas. O corredor estava vazio também. Ela passou em uma porta e viu uma placa que dizia “Banco de Dados”. Provavelmente lá estaria o nome do seu doador. Ela entrou na sala, que por sorte estava vazia, ligou o computador e digitou seu nome. Na tela do computador apareceu o seu histórico do hospital. Ela entrou às 20:59 do dia 11 de Janeiro, entrou na sala de cirurgia 21:22 do mesmo dia e a transfusão de sangue ocorreu às 23:45 do mesmo dia. Ela clicou em um link que dizia “Detalhes” e lá havia o nome do seu doador.

Hoje, sentada na escada da escola, com a mão esquerda sobre a cicatriz que o canivete fizera em sua barriga, ela ainda custava a acreditar que Bruno havia lhe doado sangue. Até hoje ela se pergunta o porquê, já que Bruno não passa de um amigo dela. Ela se lembra de que no dia seguinte viu sua mãe conversando com ele, mas ela não se lembra do assunto. Mas ela simplesmente ignorou esse pensamento. No momento ela queria fazer alguma coisa para ajudar Bruno, mas seu pensamento foi interrompido quando Beatriz gritou seu nome da escada. Ela levou um susto, e ficou espantada com a cara de Beatriz. Ela estava com uma cara que provavelmente Cristovão Colombo fez ao descobrir a América.

–Você tem vir comigo! – Beatriz intimou Sofia. Ela pegou a mão de Sofia e a puxou sem dizer nada e a levou correndo pelos corredores da escola.

Elas subiram a escada até o terceiro andar. Correram pelo corredor cheio de alunos que voltavam do intervalo. No final do corredor viraram a direita e entraram direito na biblioteca.

A biblioteca é um lugar agradável. As paredes todas coloridas, no meio havia uma grande mesa onde ficava a recepção. Havia várias prateleiras cheias de livros. A direita da recepção havia uma escada em forma de “s”. Elas subiram e chegaram a uma área cheia de computadores enfileirados um do lado do outro. Sofia viu Enzo de longe e Beatriz a levou a seu encontro.

–O que foi? – Perguntou Sofia.

–Tive uma ótima ideia pro nosso trabalho de Projetos – Respondeu Enzo.

Sofia estava indignada, eles a haviam tirado de um momento triste que necessitava muitos pensamentos complexos para falar sobre trabalho.

–É só isso? – Perguntou Sofia.

–O que você achou que seria? – Perguntou Beatriz.

–Algo referente ao professor. Ele acabou de desmaiar no corredor e parece que todos nessa escola estão nem aí para isso.

–Somos apenas alunos – disse Enzo – Não podemos fazer nada em relação a esse infortúnio.

–ENZO! – gritou Sofia – Nenhum adolescente normal fala “infortúnio”!

–SHIIIIIII! – esse foi o barulho que a biblioteca inteira fez. Todos estavam com o dedo indicador na boca. Sofia esqueceu que estava na biblioteca.

–Desculpem! – disse ela.

–Tanto faz – continuou Enzo – Mas pensem comigo. Esse trabalho sobre “O Melhor Dia de Todos” é sobre, basicamente, termos um dia feliz. Todos irão falar sobre isso. Mas e se o nosso “Melhor Dia de Todos” fosse fazer outra pessoa feliz.

–Quer dizer que a gente vai fazer uma espécie de “Trabalho Comunitário”? – Beatriz perguntou.

–Sim! É um trabalho bem esmerado.

–Adoro esmeraldas – disse Beatriz.

–Ele disse “Esmerado” – explicou Sofia – Não “Esmeralda”. Esmerado é algo que tem boa qualidade, ou seja, é um trabalho “mô da hora”.

–Ah, entendi.

–O que acham? – Perguntou Enzo.

–Por mim tanto faz – disse Sofia – Eu tenho que cuidar de umas coisas, qualquer coisa pra mim serve.

Sofia se virou rapidamente na esperança de sair dali o mais rápido possível, porém nesse momento ela se esbarrou em um garoto que ela nunca tinha visto. E foi a melhor coisa do mundo. Ao se esbarrar nele, parecia que ela tinha batido em uma parede, só que macia.

–Desculpe – disse Sofia com muita vergonha.

–Tudo bem – A voz dele era como a Sinfonia de Beethoven. Ele era quase três centímetros maiores que Sofia. Tinha um cabelo preto sedoso liso e bem arrumado. Era bronzeado na medida certa. Tinha olhos verdes lindos e uma boca que só de olhar dá vontade de beijar. Além de ser forte – Sou novo aqui – continuou ele – Bela maneira de conhecer alguém. Jonh. Prazer em conhecê-la.

Pela primeira vez na vida, Sofia não sabia o que responder. Estava totalmente fascinada pelo rosto daquele menino.

–So...So...Sofia – disse ela – Prazer.

“E que prazer” pensou ela. John se despediu de Sofia e desceu a escada em direção ao andar de baixo da biblioteca.

–Quem era o gato? – Perguntou Beatriz. Ela apareceu do nada atrás de Sofia. Mas ela não respondeu. Estava observando John andar pela biblioteca, pegar um livro e sentar em um sofá ao lado da prateleira.

–Parece que alguém se apaixonou – disse Enzo.

–Quem? – disse Sofia – Eu? Hã! Já disse que não quero namorar. Isso é uma coisa que está na minha lista de coisas que odeio.

Realmente Sofia não se interessava por meninos. Ela nunca se apaixonou, pois sempre teve o pensamento de que namorar só ia atrapalhar seus sonhos. Vários garotos já tinham flertado com ela, mas ela sempre os rejeitava. Ela era aquele tipo de menina que não quer ser dependente de um homem. Mas hoje, ao conhecer John ela sentiu em seu corpo uma coisa que ela nunca sentiu antes. Uma explosão de dopamina, substância que libera prazer, aconteceu em seu corpo. Na busca do “Melhor Dia de Todos” ela começou a se perguntar se conhecer alguém que ela goste poderia ser um dia esmero, como diria Enzo. Será morrer sem namorar ou se relacionar valia a pena? Amar vale a pena?