O Melhor Das Piores Intenções

34 Capítulo 32 - A sombra de um homem


Notas iniciais
Oie de novo! Atrasei algumas horas porque não estava em casa. Boa leitura!

"Aquele que luta com monstros deve tomar muito cuidado para não tornar-se também um monstro. Porque quando você olha por muito tempo para um abismo, o abismo olha de volta para você." — Friedrich Nietzsche

– O que você queria discutir comigo?!

Shizuo tinha acabado de chegar ao escritório de Matsubara Shouichi. Ele deixou claro que estava irritado, fechando os punhos e olhando para o homem mais velho de maneira ameaçadora.

– É um prazer conhecê-lo em pessoa, Shizuo-kun — disse o chefe da Shouichi Pharmaceuticals, sentado à sua escrivaninha.

– Não posso dizer o mesmo — respondeu Shizuo. — Quero acabar com isso o mais rápido possível. O que você quer comigo?

– Ah, vamos com calma. Temos bastante tempo, sim? Primeiro deixe-me apresentar o meu sócio-

– Eu já conheço esse cara — disse Shizuo, olhando com nojo para o outro homem que estava ao seu lado. — Itsuki... Makoto, não é?

– Exato — Makoto respondeu, com um sorriso amarelo. Prazer em co-

O ex-barman sentiu a raiva dentro de si aumentar. Queria arrebentar os dentes daquele cara ridículo para que ele nunca mais pudesse abrir um sorriso falso como aquele.

– Não me venha com isso — disse. — Eu sabia que você não prestava desde a primeira vez que olhei pra sua cara nojenta.

Itsuki Makoto riu.

– Tenho que admitir que seria tudo mais fácil se você tivesse me deixado sair com o seu... hm... namorado? Izaya Orihara, naquela noite. E aquele soco doeu bastante... Mas isso não importa agora.

– Então foi tudo planejado.

– Claro que foi. Se bem que Izaya Orihara tem uma cara bonitinha para um homem. Eu sairia com ele mesmo sem ter um plano~

– DESGRAÇADO!

Shizuo não resistiu o ódio e deu um soco na parede, bem ao lado do rosto de Makoto, que pareceu um pouco assustado. Shouichi continuou sentado e manteve a mesma expressão, como se nada tivesse acontecido.

– Sente-se, Shizuo-kun — disse ele. — Eu vou te contar uma história.

O loiro sentou-se na cadeira em frente à escrivaninha, mantendo sempre a expressão desconfiada nos olhos.

– Do que você está falando?

– Você, junto de Izaya, tem pesquisado bastante sobre a minha empresa não é? Mais especificamente, sobre o 'assassino da katana', certo?

Shizuo não respondeu, nem mexeu um único músculo da face.

– Vamos lá, Shizuo-kun, não fique em silêncio. Eu sei o que vocês estavam fazendo. Eu estive espionando vocês esse tempo todo.

– Então foi você que sabotou-

– O carro de Izaya? Não fui eu. Porém, eu mandei alguns homens que trabalham para mim fazerem esse serviço.

– ISSO É A MESMA COISA!

– Meus funcionários não fizeram o trabalho no carro direito, não é? — Shouichi ignorou o comentário. — O acidente foi muito leve. Tive que mandar matar todos, no fim das contas. Bando de inúteis.

Os dedos de Shizuo coçaram para dar um soco que deveria desfigurar o rosto de Shouichi.

– Eu vou acabar com você.

– Ah, você não iria querer fazer isso agora. Não quando eu estou explicando o meu plano para você. Deixe-me continuar, sim?

O ex-barman ficou em silêncio e se sentou de maneira mais confortável na cadeira, dando seu melhor para não dar uma surra no homem que estava na sua frente.

– Então... Dizem que se você quer algo do seu jeito, você mesmo tem que fazer. Aí eu fui lá e fiz aquela bagunça no apartamento. Veja só, aquilo era um aviso. Eu estava sendo cortês com vocês! Avisando que haveriam consequências.

Shouichi abriu um sorriso malicioso.

– Mas vocês ignoraram completamente... É uma pena, mesmo. Mas não era exatamente disso que eu queria falar... O que era mesmo...

Ele não é velho o bastante para ter perda de memória, pensou Shizuo. O que esse cara está planejando?

– Ah, sim — Shouichi continuou. — Já que vocês estavam se esforçando tanto para descobrir minha relação com o assassino da katana, eu resolvi que iria contar tudo para você. Mesmo porque é algo que eu tenho muito orgulho de ter feito. Eu deveria compartilhar isso com mais pessoas.

Tem coisa nisso.

– Se você acha que vai me convencer com essa baboseira, está muito errado — disse Shizuo, cerrando os dentes. — Nem uma criança da pré-escola acreditaria que você está dizendo isso por 'boa vontade'.

O homem de meia idade soltou uma risada.

– Paciência, Shizuo-kun, paciência. Deixe-me contar do começo. Você sabia que, até recentemente, minha empresa estava falindo, certo?

Shizuo não respondeu; Shouichi tomou o silêncio por uma afirmação e resolveu continuar.

– Nossos remédios estavam vendendo muito pouco, havia vários laboratórios na nossa frente. Não conseguíamos desenvolver nada que fosse inovador ou que ao menos funcionasse. Em meio a várias experiências que não funcionaram, houve uma que foi especial.

O loiro começou a ouvir atentamente.

– Eu desenvolvi uma substância que deveria se tornar um medicamento para induzir ao sono, algo que pudesse ajudar as pessoas a dormir um sono mais 'pesado', tranquilo e sem pesadelos. Mas, como quase tudo que tentávamos criar naquele momento, deu errado. Quando testei aquela substância em um roedor, notei que eles se debateu por algumas horas e, no fim do dia, estava morto.

O olhar de Shouichi, que antes transmitia certa malícia e ironia, transformou-se em um olhar desanimado, quase triste.

– Como se não bastasse a frustração de comandar uma empresa que estava indo à falência, descobri que minha esposa planejava me abandonar. Um dos empregados que trabalhava na nossa casa me contou que tinha visto ela conversar sobre isso com a mãe, ao telefone. Então, eu resolvi que ela merecia uma punição. Peguei a mesma substância que tinha testado e obriguei minha esposa a ingeri-la.

– Você é um homem doente — disse Shizuo, dando um soco na escrivaninha e quebrando parte dela. — Quem você acha que é, pensando que tem o direito de 'punir' sua esposa por deixar você? Dizendo que ela 'merecia' isso? Homens como você me dão nojo.

Um cara como esse merece muito pior do que uma surra.

Ele merece apodrecer na cadeia.

Mesmo depois de ver a madeira de sua escrivaninha ser esmigalhada em frente aos seus olhos, junto com o macbook que estava em cima dela, Shouichi não pareceu estar com medo de Shizuo. Por outro lado, Itsuki Makoto estava quase urinando nas calças.

– Estamos chegando à melhor parte, por favor, deixe-me terminar. — Disse o chefe da SP, cuja expressão outrora triste já tinha voltado a ser um sorriso. — Eu queria assistir minha esposa sofrer, se contorcer, se debater, enquanto a vida deixava seu corpo, devagar... E foi isso que aconteceu, no início.

Shizuo estava ficando com vontade de vomitar. Seus dedos tremiam, vibravam para arrebentar aquele lugar e aqueles caras. Mas ele queria ouvir até o final, quem sabe entender o que estava acontecendo desde o começo.

– Depois de todo o sofrimento, achei que ela fosse morrer, como o rato miserável do meu laboratório. Mas ela se levantou. E quando ela se levantou, já não era mais a mesma. Seus olhos pareciam vidrados, paralisados. Ela parecia forte de uma maneira que nunca tinha sido. Então, em uma fração de segundo, ela saltou na minha direção e tentou me atacar com uma estatueta da nossa sala de estar. Foi assim que eu consegui essa cicatriz.

Shouichi apontou uma longa cicatriz em seu pescoço.

– Para a minha sorte, meus homens me ouviram gritar e conseguimos acorrentá-la antes que ela pudesse me matar. Então, passamos as semanas seguintes tentando 'domesticá-la', para que não me atacasse mais. Foi difícil, tivemos que usar diversos tranquilizantes e outras drogas, mas funcionou. Minha esposa se tornou um animal; como sou eu quem lhe dou comida, ela não tenta mais me ferir. Só as outras pessoas... E foi assim que eu a soltei na cidade. A katana é só para deixar as coisas mais emocionantes... Como nos filmes.

– Isso não faz o mínimo sentido — disse Shizuo. — O que você consegue de bom soltando uma criatura como aquela na cidade, matando pessoas inocentes?

– Ah... Alguém como você não entenderia — o homem de meia idade abriu um largo sorriso. — Agora eu tenho o controle sobre boa parte dessa cidade. Com o 'assassino da katana', posso matar quem eu quiser. Posso me livrar de qualquer um que fique no meu caminho.

Nisso, Shouichi estalou os dedos e Itsuki Makoto se jogou sobre Shizuo por trás, perfurando seu braço esquerdo com uma agulha grossa, conectada em uma seringa com um líquido amarelado. Shizuo se virou no mesmo instante, jogando o homem contra a parede e deixando-o inconsciente.

O ex-barman arrancou a seringa que tinha ficado presa em seu braço e a esmagou na palma da mão, em seguida se virando na direção de Matsubara Shouichi, preparado para acabar com a raça dele. Agora ele já tinha todas as informações e precisava contar tudo para Izaya. Se bem que...

Nós estamos meio que brigados.

Mas foda-se, isso é muito mais importante.

– O que diabos você está pensando em fazer agora? — Ele rosnou, agarrando a escrivaninha de Shouichi e levantando-a sobre si, pronto para arremessá-la.

O homem de meia idade começou a rir como se tivesse acabado de ouvir a melhor piada do mundo. Seus ombros tremiam conforme sua risada ficava cada vez mais alta e perturbadora, como a de um homem louco.

– Por que você está... ngh...

A sala em volta pareceu se duplicar na visão de Shizuo. Ele foi tomado por uma tontura forte e repentina, de modo que a escrivaninha que segurava voltou ao chão, causando alto estrondo e desmontando-se em vários pedaços de madeira.

Shizuo tentou se encostar na parede para não cair, mas o esforço foi inútil. Em poucos segundos, ele perdeu total noção de equilíbrio e seu corpo também foi ao chão, assim como o móvel que segurava anteriormente.

– Ah... Não...

Sua visão, que antes estava apenas embaçada, escureceu-se completamente. Ele quis se mover, levantar, mas não tinha equilíbrio e toda a força de seu corpo parecia tê-lo deixado. Sem qualquer noção de espaço, restava-lhe apenas a risada de Shouichi a ressoar por seus ouvidos, estridente e ensurdecedora.

De repente, Shizuo sentiu uma dor de cabeça insuportável subir por sua nuca. Era a pior dor que já tinha sentido em sua vida, como se tivessem enfiado canivetes na parte de trás de sua cabeça, ou tentado abrir seu crânio com uma machadinha. Lágrimas escorreram involuntariamente de seus olhos e ele gritou, desesperado, cobrindo os ouvidos com as mãos.

A risada já não estava mais ali; os gritos desumanos de Shizuo foram o único som que preencheu o ambiente pelos minutos seguintes. Enlouquecido pela dor excruciante, Shizuo bateu sua cabeça contra o chão repetidas vezes, como se quisesse arrebentá-la para se livrar daquela tortura.

A cada minuto, a dor ficava mais forte e parecia se espalhar por uma área maior. Logo o resto de seu corpo também doía, cada músculo, cada artéria; era como se seu próprio sangue tivesse se tornado ácido, pois queimava e ardia por onde passava. Em meio à aflição, Shizuo arranhou os próprios braços até sangrar e rasgou partes das próprias roupas.

Ele parecia se afastar mais e mais da realidade a cada instante, perdendo-se em si mesmo, em seus gritos, em seu desespero. Em um último momento, seu corpo foi afetado por um forte tremor e ocorreram alguns espasmos. Espuma branca escorreu de sua boca.

Então, tudo parou. A dor e os tremores cessaram imediatamente. O mundo ao redor de Shizuo ficou escuro e silencioso.

O que... aconteceu...

Aquela droga... ele... aquela droga... ele injetou... em mim...

Não...

Preciso fazer parar...

Ele parecia ter retomado seus movimentos e, dessa forma, se levantou. Em volta de si, havia apenas uma escuridão que parecia infinita. Shizuo deu alguns passos, mas a 'paisagem' não mudou. Tudo continuava escuro e vazio.

– Onde é que eu estou...?

Foi então que, em meio a escuridão, ele ouviu uma voz:

– Monstro.

Shizuo olhou para os lados, procurando a pessoa que teria dito aquilo. Uma única palavra com um forte significado; algo que ele já tinha ouvido mais vezes do que poderia contar, em todas as fases de sua vida e que continuaria escutando até a sua morte.

– Shizuo-kun é assustador, nee– disse uma voz diferente.

– Tenho pena da garota que se tornar namorada dele. Se é que algum dia alguém vai querer assumir essa posição!

– Imagine quando eles forem fazer sexo. Será que ele vai quebrá-la ao meio?

Ele procurou as pessoas responsáveis pelas vozes por todos os lados, até que viu um grupo de três adolescentes vestindo uniformes escolares. Eram garotas com quem ele tinha estudado no primeiro ano do ensino médio.

– O que elas estão... O que é isso... ? — Shizuo murmurou para si mesmo, totalmente confuso.

– Ele é um monstro. Alguém como ele deveria ser proibido até de sair de casa — disse a garota de cabelos mais longos.

As outras duas riram, alto e escandalosamente.

– Acho que vamos ter que economizar esse mês — disse uma voz que não pertencia a nenhuma das garotas. — Talvez precisemos de um empréstimo...

Shizuo se virou e viu os próprios pais. Eles estavam sentados à mesa da cozinha, mexendo com envelopes de contas e fazendo cálculos.

– Nós temos que pagar uma idenização aos pais daquele garoto — disse a mãe, com um olhar preocupado. — Shizuo quebrou os dois braços dele e, sem poder escrever, ele vai precisar de aulas particulares mais tarde.

– Ah não, de novo não — o pai de Shizuo soltou um longo suspiro.

– Querido, você sabe que não é culpa dele...

– Eu sei. Mas por que ele tem que ser assim? Como se já não nos faltasse dinheiro, ainda temos que arcar com todos os problemas que ele causa...

– Eu sinto muito — disse Shizuo. — Eu sinto muito mesmo...

Ele notou que seus pais não conseguiam ouvi-lo. Aquilo deveria ser apenas uma ilusão; portanto, era impossível interagir com eles.

– Você é o irmão mais novo de Heiwajima Shizuo-kun, não é?

Dessa vez, quem estava falando era um garoto vestindo um uniforme de beisebol. Ele estava parado em frente a Kasuka, que segurava um papel com uma inscrição para o clube de beisebol.

– Sou — disse o irmão de Shizuo. — O que tem isso?

– Então você não pode entrar para o time. Não queremos qualquer relação com aquele cara, por menor que seja.

As mãos de Shizuo começaram a tremer e ele sentiu um nó se formar na sua garganta.

– Eu sinto muito... — Ele murmurou. — Por estragar as coisas para você também, Kasuka...

Então, a cena mudou pela última vez para algo familiar.

Shizuo estava em frente à uma loja; dentro dela haviam várias mesas viradas, cacos de vidro, objetos quebrados e estantes derrubadas. Embaixo de uma das estantes de madeira, estava uma mulher, a vendedora da loja que uma vez tinha oferecido garrafas de leite a ele e a seu irmão.

Ele tinha tentado defendê-la de alguns homens que estavam assaltando o estabelecimento. Entretanto, no fim das contas, foi ele quem acabou por feri-la.

– Eu sinto muito.

Shizuo se sentou no chão e fechou os olhos. Mais vozes começaram a se repetir na sua mente.

Monstro.

Você é um monstro.

Alguém como você deveria m o r r e r

– Isso deve ser um pesadelo, hah...

Ninguém p r e c i s a de alguém como você

Você só causa p r o b l e m a s

M o n s t r o s não podem viver entre h u m a n o s

E você é um m o n s t r o

– Calem a boca. Eu estou cansado de ouvir isso. Não é como se eu quisesse ser assim...

M O N S T R O

Você q u e b r a tudo o que toca.

Você f e r e pessoas inocentes.

Não há lugar no mundo para m o n s t r o s como você.

– Eu sinto muito... Eu sinto muito... Eu sinto muito...

E se algum dia alguém a m a r você

Você vai q u e b r a r essa pessoa

Do mesmo jeito que você q u e b r o u todos que você ama

– Me deixem em paz...

Você vai p e r d ê — l o

Você já o p e r d e u

Não há s a l v a ç ã o para alguém como você

– CALEM A BOCA, TODOS VOCÊS!

Um m o n s t r o não é digno de algo b e l o como o a m o r

Shizuo cobriu os ouvidos e gritou, desesperado. Sangue escorreu de seu nariz e misturou-se às lágrimas que banhavam seu rosto. Se aquilo era real, ou uma ilusão, ele já não mais sabia.

Shizuo estava perdido em si mesmo.

Shizuo tinha se tornado o monstro.

– Me desculpe, Izaya.

O mundo que antes era negro tornou-se vermelho cor-de-sangue.

– Parece que eu sou mesmo o monstro.

Notas finais
Shizuo está tendo alucinações enquanto a substância provoca alterações severas em seu sistema nervoso. As partes em itálico com negrito são as vozes na cabeça dele. Eu coloquei negrito para deixar algumas palavras mais 'intensas' e 'pesadas'. Eu fico muito triste quando penso no passado do Shizuo. Ele já deve ter se sentido a pior pessoa do mundo tantas vezes... E nem é culpa dele ser do jeito que é. O Izaya na verdade sempre só piorou isso, mas é porque ele não sabia o que passava pela cabeça do Shizuo. Ah, e o motivo pelo qual Shouichi não notou a 'agressividade' no ratinho em que injetou a substância, é porque ele estava sozinho. Senão teria matado todos os outros. Foi por isso que ele só percebeu de verdade a burrada que tinha feito com sua esposa. O novo capítulo será postado quando este atingir oito comentários. Muito obrigada a todos que acompanham a história e comentam! ♥ EDITADO: Eu achei que postaria o capítulo quando desse oito comentários mas acontece que minha mãe acaba de me proibir de usar o computador por alguns dias. Então eu vou ter que postá-lo quando puder usar de novo. Eu sinto muito pela inconveniência.