O Melhor Das Piores Intenções
30 Capítulo 28 - Era só o que me faltava
Notas iniciais
Quando Izaya acordou, estava deitado no sofá marrom. Ele coçou os olhos e se sentou, murmurando palavrões nas mais diversas línguas.
– Droga... Não acredito que dormi a noite inteira.
Ele se espreguiçou e olhou em volta procurando por Shizuo, mas ele não estava lá.
– Shizu-chan, onde você está? — Chamou, em voz alta.
Por um instante, sentiu certo medo de algo ter acontecido durante a noite, o que era esperado, na verdade. Mas era impossível que ele não fosse acordar enquanto alguém estivesse invadindo a casa.
E realmente, não havia acontecido nada. Shizuo estava na cozinha, lavando a louça que tinha usado para o café da manhã. Não havia sinal das gêmeas na casa, já estavam na escola. O que queria dizer que ele tinha acordado tarde...
Izaya entrou na cozinha.
– Ohay- SHIZU-CHAN?! O QUE ACONTECEU COM OS SEUS OLHOS?
Os olhos do loiro estavam bem vermelhos e inchados, além de fundos.
– Bom dia — ele respondeu, fechando a torneira e secando as mãos. Tinha uma expressão cansada. — Eu não dormi. A noite inteira.
– Shizu-chan... Seu idiota... — Izaya suspirou e passou uma mão pelo próprio cabelo, totalmente preocupado, mas sem querer demonstrar. — Por que você me deixou dormir? A gente podia revezar ou algo do tipo. E porque você não foi dormir ainda?Durante a manhã não dá para acontecer nada.
– Não sei — disse Shizuo, bocejando. — Eu queria esperar você acordar. — Bocejou mais uma vez. — Sua secretária ligou, falou que temos que voltar para Shinjuku.
– Shizu-chan, você tem que dormir.
– Eu durmo no carro, ou quando chegarmos em Shinjuku, sei lá. — Shizuo deu de ombros. — Ela disse que era importante. Parece que encontrou um jeito de você se infiltrar na Shouichi Pharmaceuticals facilmente.
– E como seria isso?
– Eu não sei, tch. Deveríamos ir lá para saber. Não é bom você falar essas coisas por telefone, agora que a gente tem quase certeza de que Shouichi está na nossa cola.
– É verdade. Shizu-chan está ficando esperto, huh?
Shizuo virou o rosto, tentando evitar que Izaya visse o rubor nas suas bochechas.
– É porque está andando muito comigo, claro. — Izaya aproveitou a oportunidade para provocar um pouquinho.
– Metido — Shizuo resmungou, fingindo estar bravo.
Ele realmente estava muito cansado; seu corpo inteiro estava fraco e seus olhos ardiam. Mesmo assim, estava feliz. Era difícil de explicar.
'No fim das contas, você nem é um monstro de verdade.'
Aquela frase fazia com que se sentisse mais leve. Ele passou alguns instantes repetindo a cena em sua mente, até que o moreno acabou por tirá-lo de seus devaneios.
– Foi um blefe, no fim das contas — disse, a respeito da ligação que suas irmãs tinham recebido. — Ou queriam nos deixar longe do centro da cidade. Mas se tiver sido isso, não adiantou nada para eles porque a yakuza está lá.
– Aham — o loiro respondeu, com outro bocejo. — Eu estou grato por ter sido um blefe, embora tenha sido inútil ficar acordado. Bom, melhor prevenir do que remediar.
– É — Izaya concordou. — Seria complicado se Mairu e Kururi realmente acabassem envolvidas nessa situação.
– Você se importa com as suas irmãs, não é?
Izaya não respondeu, Shizuo já sabia a resposta. O moreno pegou a chave do carro que tinha deixado sobre o balcão da pia e fez menção de sair da cozinha.
– Vamos embora daqui, Shizu-chan.
* * *
Após meia hora de viagem, chegaram em Shinjuku. Shizuo dormiu durante todo o caminho e, quando chegaram ao apartamento de Izaya, este o levou até seu quarto.
Shizuo imaginou que o informante fosse lhe arrumar um futon no chão, mas ao invés disso ele o ajudou a se deitar na sua cama king size. Ah, aquilo era o paraíso; lençóis brancos macios, travesseiros macios... e o cheiro de Izaya, claro. Foi ali que o loiro dormiu pelas cinco horas seguintes.
Durante seu sono, ele foi perturbado com um sonho estranho. Nesse sonho, ainda estava na deitado na cama de Izaya, mas havia uma mulher no quarto.
Ela estava em frente a um espelho de corpo inteiro, vestindo uma saia preta de comprimento próximo aos joelhos, uma blusa branca e um blazer preto por cima. Seu cabelo era liso, preto e não muito comprido, mas também não muito curto; seu comprimento chegava até os ombros.
Shizuo observou a mulher curiosamente, sem se levantar. Então, ela resolveu se virar e revelar uma surpresa-
Não era uma mulher. Era... Izaya?
Izaya vestido de mulher?
O loiro fechou os olhos novamente, acreditando que aquilo encerraria o sonho. Parecia ter dado certo, e dessa maneira ele continuou a dormir por mais meia hora.
Quando acordou, o quarto estava vazio. Shizuo se espreguiçou e levantou, caminhando em direção ao banheiro da suíte. Quando tentou abrir a porta, estava trancada.
– Pulga? — Perguntou.
– Não, Kanra.
– Izaya, é você?
– Claro que sou eu, Shizu-chan. Quem seria? Meu novo amante?
– Hmpf — Shizuo grunhiu, coçando os olhos e se encostando na parede, enquanto esperava Izaya sair. — Eu tive um sonho engraçado.
– O que aconteceu nele?
– Você estava vestido de mulher.
Izaya riu alto e compulsivamente dentro do banheiro. Pareceu até ter derrubado algo.
– Pois é — disse Shizuo, coçando a cabeça.
Logo em seguida, a porta foi destrancada por dentro e finalmente se abriu. Shizuo quase caiu para trás quando viu o informante sair.
Izaya realmente estava vestido de mulher. Saia preta, blusa branca, blazer preto. Cabelo até os ombros. Delineador, batom. E... seriam aquilo cílios postiços?
Meu. Deus.
Shizuo esfregou os olhos rapidamente. Vai ver era outro pesadelo — ou sonho? Ele não conseguia muito bem decidir qual dos dois se aplicava à situação.
– Não foi um sonho, Shizu-chan — disse Izaya, ainda rindo. — Você acordou enquanto eu estava me trocando, ficou me encarando por um minuto e voltou a dormir.
– Perturbador... — Shizuo murmurou.
– Você diz isso mas parece bem interessado, nee?
– C... Como assim interessado?! É claro que não. Eu não estou-
– Ah, Shizu-chan, você deveria pelo menos fazer um esforço para não encarar as minhas pernas desse jeito se não quiser que eu perceba.
Era realmente difícil não encarar aquelas pernas quando estavam tão atraentes. Izaya tinha as depilado, claro, e tinham uma aparência macia. Shizuo queria tocá-las. Mais do que isso, queria subir aquela saia e morder as coxas de Izaya. Deixar marcas.
Espera aí, por que eu estou pensando nisso? Eu definitivamente não estou excitado com isso. Impossível. De jeito nenhum.
– Eu... não... — Shizuo tentou disfarçar, mas foi inútil. — Enfim. Por que diabos você está vestido assim? É medonho.
– Namie tinha encontrado um jeito de eu me infiltrar na Shouichi Pharmaceuticals, certo? Esse é o jeito.
– Como assim? O que isso tem a ver com-
– Vai ser uma entrevista de emprego — Izaya revirou os olhos bem delineados, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Estão contratando uma secretária lá. Uma secretária. Então eu resolvi me candidatar para a vaga, nee~
Uma expressão horrorizada formou-se no rosto de Shizuo. Seus dedos quase tremiam para quebrar algo ou alguém no meio.
– Outros homens vão olhar para você.
O rosto do informante ficou vermelho.
– I-Isso faz parte do plano, Shizu-chan. Eu preciso conseguir as chaves ou o cartão magnético de alguém para ter acesso aos laboratórios.
– Eu não acredito...
– Shizu-chan, isso é sério.
– Eu também estou sério.
– Você não pode deixar seus problemas de possessividade afetarem o nosso trabalho, nee.
– Eu não tenho problemas de posses-
Izaya lançou a ele um olhar irritado.
– Tá bom, talvez eu tenha um pouco, mas-
Shizuo suspirou pesadamente.
– ... Você tinha mesmo que botar uma saia?
– Fica mais convincente — Izaya deu de ombros.
E realmente estava convincente, Shizuo detestaria admitir. Por ser magro e não muito alto, a roupa não parecia tão estranha no informante. Suas feições eram naturalmente mais redondas, delicadas e a maquiagem cobria as poucas imperfeições que poderia ter. Quem não conhecia Izaya de perto provavelmente nem iria suspeitar.
Que saco.
– Maldito — Shizuo murmurou. — Chegue mais perto.
Apesar de estar um pouco desconfiado, Izaya se aproximou de Shizuo. Foi então que, antes que pudesse escapar, o loiro levantou sua saia, vislumbrando por um instante a calcinha cor-de-rosa e cheia de lacinhos que ele estava vestindo.
– SHIZU-CHAN! SEU PERVERTIDO! — Izaya gritou, abaixando a saia e afastando-se rapidamente, tentando deter o rubor que subia pelas suas bochechas.
– ATÉ ISSO, PULGA?!
– É CLARO, ANIMAL ESTÚPIDO... Se eu usasse uma cueca normal a saia ficaria toda marcada...
– E SE ALGUÉM VER ISSO?
– Ninguém vai ver, Shizu-chan.
Bom mesmo, porque eu vou arrancar os olhos de quem ver.
– Bom mesmo... d-digo, porque eu teria pena de quem visse isso. É perturbador. — Shizuo tentou disfarçar o constrangimento, em seguida tirando o isqueiro do bolso e acendendo um cigarro.
– Shizu-chan, não fume no meu quarto.
– Só fumando para aguentar uma coisa dessas.
– Rude — Izaya murmurou, saindo do quarto.
Logo que o moreno deixou o ambiente, Shizuo soltou um suspiro pesado, expelindo muita fumaça. Em seguida, deitou-se novamente na cama confortável que pertencia ao outro.
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