O Melhor Das Piores Intenções
23 Capítulo 21 - Vermelho sangue, vermelho amor
Notas iniciais
Havia muito sangue.
Sangue demais. Sangue vermelho-escuro. Sangue que parecia ser infinito, escorrendo pelas paredes e se espalhando pelo chão de um quarto sujo e escuro, com luz suficiente apenas para que o espectador fosse capaz de notar a cor do líquido quente que se propagava.
Não era preciso ver a cor para saber do que se tratava, porém; o cheiro enferrujado impregnava o ar quente e abafado do lugar. Invadia e inebriava os sentidos do homem que ali estava, sentado no chão, cabelo preto e olhos tão vermelhos quanto o chão lavado de sangue.
Izaya Orihara.
Ele tremia de frio, visto que o calor do ambiente não o aquecia, apenas dificultava sua respiração. Líquido quente escorria de seus olhos e ele já não sabia se aquilo era sangue ou lágrimas. Medo tomava conta de toda a sua miserável existência naquele momento.
Não era capaz de pensar o motivo pelo qual estava ali, ou o que exatamente tinha acontecido, de onde vinha aquele sangue, por que tanto sangue? Não era capaz de pensar, não tinha raciocínio, apenas o desespero que crescia em sua alma a cada segundo crescente.
Queria gritar. Queria muito gritar. Mas voz nenhuma saía de sua garganta seca, que ardia, como se aquele ar fosse tóxico, como se estivesse lhe corroendo, como ácido. Seus músculos não se moviam, seus olhos não se moviam, o mundo parecia congelado, não fosse pelo sangue que pingava do teto e escorria pelo chão.
Em meio ao mar de sangue que o assoalho tinha se tornado, ele avistou seu celular. Alguns metros adiante, seu canivete, com uma folha de papel transpassada nele. O chão tremeu e vários frascos de remédios emergiram, passando a boiar. Todos estavam vazios e tinham em seu rótulo o nome do mesmo laboratório: Shouichi Pharmaceuticals.
Quando seu braço pareceu recuperar os movimentos, Izaya o esticou para alcançar seu canivete que boiava sobre o sangue. Ele o segurou e retirou a folha de papel que estava presa na lámina afiada.
Havia uma frase escrita com sangue no papel. Uma frase que deixou o informante completamente sem ar.
犠牲が必要である。
Gisei ga hitsuyōdearu.
Sacrifícios são necessários.
Ele soltou a folha e tentou se afastar, desejando poder se levantar e sair correndo dali o mais rápido possível. Porém, por mais desesperado que estivesse, o resto de seu corpo não parecia se mover.
Não lhe restando outra maneira de escapar, Izaya fechou os olhos com força, dessa vez certo de que haviam lágrimas escapando deles. Quando os abriu novamente, o que havia na sua frente acabou por ser a pior visão que já tinha tido em sua vida.
Shizuo.
O loiro estava encostado em uma parede, meio sentado, a cabeça pendendo para um lado. Haviam repetidas manchas de sangue em seu uniforme de barman, como uma estampa monstruosa de diversos assassinatos.
Haviam entranhas nas suas mãos, mas não as dele. Órgãos humanos, enrolados, misturados, retorcidos. Sangue. Cheiro de ferrugem. Podridão. Morte.
Por último, havia uma grande katana de cabo vermelho enfiada em seu olho esquerdo, transpassando sua cabeça, seguida por uma grande mancha vermelha e disforme na parede atrás de si. Sangue escorria pelo cabo da katana e pingava de sua extremidade.
Náusea percorreu o seu corpo e um grito de terror que nem sequer soava humano escapou pelos lábios trêmulos do informante.
– NÃO!
Izaya se levantou repentinamente, dando de cara com a escuridão do próprio quarto. Ele se sentou na cama e levou as mãos ao rosto, chorando, suando e tremendo muito.
– Izaya...? — Shizuo perguntou, com a voz sonolenta, ainda acordando. Ao notar o estado do informante, levou um susto e se levantou rapidamente. — Izaya, o que foi? Por que você está... chorando?
O moreno não respondeu — não conseguia responder. Ainda sentia o desespero daqueles instantes de puro terror e as imagens continuavam em sua mente, repetindo e recriando-se em um filme de terror que ele não conseguia pausar.
– Izaya, você teve um sonho ruim?
Então até alguém como ele tem pesadelos.
– Ah... Haaa...
O informante soluçava compulsivamente e seu corpo todo tremia. Essa era a segunda vez que Shizuo o via chorar — mas a primeira na qual ele o via chorar dessa maneira.
O ex-barman ficou sem saber o que fazer por um momento. Estava surpreso e tinha medo de que qualquer ação sua fosse apenas desencadear uma reação pior no moreno. Ele parecia estar em total choque.
Shizuo levou uma mão até a cabeça de Izaya e, vendo que ele não reagia de maneira negativa, passou a acariciar suas mechas escuras devagar e cuidadosamente. Ele não sabia muito bem o que estava fazendo, mas também não queria parar.
A vontade de proteger o menor pareceu crescer dentro de si e o loiro acabou por deixar de lado qualquer tipo de constrangimento. Ele envolveu Izaya em seus braços, segurando-o junto a si e fazendo com que o moreno descansasse a cabeça em seu ombro.
O corpo de Shizuo estava quente e Izaya parou de chorar, surpreso, ao se entregar àqueles braços fortes que o envolviam como se fossem protegê-lo. No entanto, ao se lembrar dos acontecimentos de seu sonho, ele voltou a chorar, segurando com força os braços do loiro, para que não o soltassem.
Eu estou com medo... Eu estou com tanto medo...
Eu quero ir embora. Eu quero parar. Eu quero ir para algum lugar seguro.
Vamos embora, Shizu-chan... Embora dessa cidade... Longe daquela criatura maldita...
Eu estou com medo... Eu estava ansioso para ganhar esse jogo... Mas eu estou com medo de perder agora...
Eu não quero mais brincar, Shizu-chan...
– Caramba, você está tremendo tanto... Eu vou pegar um copo d'água-
– Não — Izaya murmurou, segurando o braço de Shizuo com a maior força possível, embora jamais fosse ser o suficiente. — Fique aqui...
– Tá bom — Shizuo disse, voltando a acariciar o cabelo do moreno. — Você quer falar sobre o que aconteceu no seu sonho? Talvez ajude...
Izaya virou a cabeça negativamente.
– Certo...
Ficaram daquela maneira por alguns minutos, até que Izaya finalmente fez menção de se afastar e em seguida saiu da cama, muito envergonhado.
– Onde você vai?
– Eu vou vestir alguma coisa e assistir televisão ou olhar meus e-mails — respondeu Izaya, a voz mais estável mas ainda um pouco embargada. — Não vou conseguir voltar a dormir...
– Eu vou com você.
– Não, Shizu-chan, você tem que dormir... Você vai trabalhar amanhã...
– Desde quando você se importa com isso?
Izaya ficou sem saber o que dizer. Para piorar, sentiu seu rosto ficar quente. Tinha quase certeza que estava vermelho. Ótimo!, pensou, ironicamente.
– Eu não... — Ele começou a falar, mas logo desistiu. — De qualquer maneira, Shizu-chan não tem que se importar comigo.
– Não tem como eu não me importar com você, pulga. Ainda mais depois... De agora pouco...
O moreno não estava com a cabeça boa para discutir, mas concordar com aquilo parecia muito distante da sua natureza e personalidade. Apesar disso, era ele quem tinha agarrado Shizuo e pedido para que não saísse do quarto e ficasse com ele. Dizer que não queria a companhia do loiro não fazia o menor sentido agora.
Mesmo porque, na verdade, Izaya queria. Só não parecia certo.
Estava ficando cada vez mais difícil reconciliar essas duas coisas ultimamente.
– Tá... — Izaya murmurou, vestindo um moletom cinza. — Você faz o que você quiser.
No fundo, bem no fundo, Izaya precisava da companhia de Shizuo. Depois daquele sonho horrível, ele sentia que precisava tê-lo ao seu lado, que precisava garantir que ele estava ali, garantir que estava tudo bem. Por mais estranho e constrangedor que fosse.
Depois de terminar de se vestir, ele saiu do quarto. Shizuo vestiu apenas suas calças e foi atrás, coçando o cabelo, ainda meio sonolento.
Izaya foi para a sala, enquanto Shizuo foi para a cozinha. Ele abriu a despensa de Izaya como se fosse a sua, procurando algo para comer.
– Onde você guarda o achocolatado? — Ele perguntou, elevando o tom de voz para que Izaya o escutasse do outro cômodo.
– Eu não tenho achocolatado.
– Chá, então.
– Segunda porta à direita.
Shizuo preparou uma xícara de chá para si mesmo e foi até a sala onde o moreno estava, assistindo televisão e mexendo em seu celular — ao mesmo tempo -, sentando-se ao seu lado no sofá preto em seguida.
Ele pensou que aquela situação seria de certa forma engraçada, se não fosse um pouco desconfortável: eles pareciam namorados do jeito que estavam. Só faltava estarem de mãos dadas, ou um deitando a cabeça no outro, mas Shizuo não faria isso. Ainda.
Estava passando um filme de romance na televisão, para 'melhorar' as coisas. O loiro conseguiu prestar atenção nos primeiros minutos, enquanto bebia seu chá, mas depois de um certo tempo começou a se sentir cada vez mais distante, mais sonolento... Seus olhos começaram a piscar lentamente, cada vez mais devagar, como se as pálpebras estivessem moles, e então se fecharam por completo.
– Shizu-chan, vai dormir — a voz de Izaya o acordou de seu cochilo.
– Uhn? — Ele grunhiu, coçando os olhos.
Preguiçoso demais para levantar dali, Shizuo apenas bocejou e acabou por se inclinar no sofá e deitar a cabeça no colo de Izaya, se aconchegando ali.
– Shizu-chan — o moreno disse, fingindo um pouquinho de irritação só pra não perder o hábito. — Eu não quis dizer que era para você dormir aqui, nee. Volte para a cama.
– Mhmhm...
– Shizu-chan, eu não sou seu namorado, você não pode fazer isso. Sério-
– Shhh...
Izaya tentou levantar a cabeça de Shizuo, mas parecia pesada. Então, desistiu de reclamar. Apenas suspirou e começou a acariciar mechas loiras devagar, quando achou que ele tinha adormecido por completo.
Essa é a primeira vez que alguém deita no meu colo.
É a primeira vez que toco o cabelo de alguém assim, também.
Shizu-chan é tão insistente...
O rosto do ex-barman parecia tão leve e sereno enquanto dormia, sua expressão totalmente relaxada, respiração calma e lenta.
– E pensar que é esse homem quem chamam de 'monstro de Ikebukuro'... Eu mesmo o chamo assim... Não quero perder o costume... Mas está muito longe de ser um monstro, nee...
Também está longe de ser um humano.
Porque os humanos que eu amo são tão... Nojentos.
Eu também, Shizu-chan. Eu também sou podre como eles.
Mas você não. Você é diferente. Diferente de tudo o que eu conheço.
– O que você é, Shizu-chan?
Fale com o autor