O Melhor Das Piores Intenções
24 Capítulo 22 - Uma conspiração, um constrangimento e nenhuma coincidência
Notas iniciais
Izaya acabou se deitando novamente às quatro e meia da manhã. Shizuo ficou no sofá da sala, uma vez que era pesado demais para ser levado de volta ao quarto e Izaya ficou com pena de acordá-lo quando estava dormindo tão profundamente (e tão bonitinho).
O informante preferiria mil vezes dormir ao lado de Shizuo, especialmente depois do pesadelo que tinha tido, mas o sofá era tão pequeno... Ele acabou por voltar ao seu quarto e deitar-se na cama. Escolheu dormir especialmente no travesseiro em que Shizuo tinha deitado a cabeça anteriormente, pois, por mais bobo que isso parecesse, tinha o cheiro dele. Uma mistura de colônia e cigarro.
Izaya se sentia estúpido pensando em coisas pequenas como aquelas. Porém, não era como se ele conseguisse evitar.
Já é tarde demais para tentar escapar.
Mesmo cansado e apesar do horário, Izaya demorou para pegar no sono novamente. Quando fechava os olhos, as imagens daquele sonho surgiam na sua mente mais uma vez. Ele pensou que enlouqueceria se tivesse aquele pesadelo horrível de novo. Depois de um certo tempo, graças à exaustão, o informante adormeceu.
O moreno acordou algumas horas depois, mais especificamente, às sete da manhã. Izaya quase sempre acordava cedo. Era assim que o seu relógio biológico era programado, ou algo do tipo. Tinha se acostumado a acordar cedo, mesmo quando ia dormir tarde.
Shizuo era geralmente o oposto de Izaya, e isso não era diferente quando se tratava se horários: quando Izaya saiu do quarto e foi para a sala, o loiro ainda estava lá, não só dormindo como roncando também.
– Como esperado de Shizu-chan — Izaya murmurou, observando o ex-barman por alguns segundos. — Tenho que acordá-lo antes da Namie chegar.
Ele ligou a cafeteira e fez uma xícara de café para si mesmo, em seguida pegando uma maçã para comer enquanto o café fumegante esfriava um pouquinho.
Eu e Shizu-chan temos nos visto com frequência demais ultimamente, ele pensou, antes de cravar os dentes na fruta.
Isso só está acontecendo por causa do plano ou... ?
É só o plano. Definitivamente. E algumas circunstâncias que não me deixam ficar longe dele mesmo quando quero.
Certo?
Essa proximidade em excesso está me deixando sentimental demais. Eca.
Ainda comendo a maçã, Izaya pegou seu celular que havia deixado na sala. Deu uma olhada na sua lista de compromissos para o dia e resolveu ligar para a sua secretária.
– Namie-san?
– Sim? — Ela respondeu, do outro lado da linha. — Mmm, posso tentar adivinhar onde você dormiu a última noite?
– Como assim? — Ele perguntou, uma ruga de confusão rapidamente formando-se sobre sua sombrancelha.
– Você está no apartamento de Shizuo-san?
Izaya quase cuspiu.
– Não. Estou no meu próprio apartamento. Aliás, por que você não está aqui ainda? Já era para você estar chegando.
Apesar de estar criticando o atraso de Namie, Izaya não queria que ela já estivesse ali, na verdade. Seria péssimo se ela chegasse e encontrasse Shizuo. Ela já tinha conhecimento, de certa forma, do 'relacionamento' deles — da parte que envolvia ódio e relações sexuais frequentes. Já era mais do que o bastante e Izaya não queria passar mais nenhum constrangimento.
– Tive um probleminha... Mas estarei aí em meia hora. — Disse Namie. — Se você não está no apartamento de Shizuo-san, então ele está dormindo aí?
– Não — Izaya mentiu. — Como se eu fosse deixar um monstro dormir no meu apartamento. Por que você acha isso?
– Izaya — ela soltou um suspiro de irritação. — Eu consigo ouvir ele roncando daqui.
O informante ficou mudo por alguns instantes. Apesar de não querer mais qualquer constrangimento, isso era o que ele tinha acabado de ganhar.
– ... Isso não é importante. Enfim, tem uma coisinha que quero que faça.
– O que é?
– Pelo visto, hoje eu tenho que me encontrar com um homem chamado... mhm... — ele tirou o celular do ouvido por um segundo e olhou a lista de eventos na tela. — Ah, Endo Akira. Você tem a minha agenda de compromissos, então encontre o local do encontro e o endereço.
– Ok... — Namie respondeu, levando um minuto para localizar as informações. — O local do encontro é o Tsunahashi Tempura. O endereço é a 5-24-2 Sendagaya, em Shibuya. Você poderia ter procurado você mesmo, já que está no seu apartamento e com o seu computador aí.
– Estou com preguiça — Izaya disse, simplesmente. — E você é a minha secretária, eu te pago pra isso, nee.
– Idiota — Namie murmurou, do outro lado da linha, e Izaya não tinha certeza se ela queria que ele escutasse a ofensa ou não. — Enfim, era só isso? Eu vou terminar de me arrumar e pegar o metrô pra chegar aí.
– Falando em metrô... A Sendagaya é longe — Izaya suspirou, meio que falando para si mesmo. — E eu não quero pegar o metrô na hora do almoço. Vai estar lotado.
– Vá de carro, oras.
– Ah, é verdade. Às vezes eu esqueço que tenho um carro.
Não era como se ele realmente 'esquecesse', Izaya apenas não ligava muito para o próprio carro. O trânsito de Tóquio não era lá muito agradável e geralmente era mais fácil andar de metrô — a não ser quando se tratava das horas mais movimentadas. Além disso, ele geralmente preferia ir a pé, observando seus humanos, mas era algo totalmente inviável quando se tratavam de longas distâncias.
Resumindo: o carro de Izaya passava mais tempo na garagem do prédio do que nas ruas de Tóquio.
– Você, mm, tem certeza que quer que eu chegue logo? Não quer passar mais um tempo aí com o seu... amante? — Namie provocou. Essa era sua vingança por ter que aguentar o informante a importuná-la quase o tempo todo quando estavam juntos no escritório.
– Vou descontar isso do seu salário, Namie-san — Izaya disse, fingindo estar irritado. — Apareça aqui logo, sua preguiçosa.
– Babaca — Namie murmurou.
– Eu ouvi isso!
Izaya finalizou a ligação e guardou o celular na sua jaqueta. Em seguida, foi até a sala e sentou-se ao lado de Shizuo — ainda adormecido — no sofá. Passou a cutucá-lo de leve e mexer no seu cabelo, para que acordasse.
– Shizu-chan~ — ele cantarolou. — Eeei. Shizu-chan. Acorde, nee...
O loiro nem se movia, por mais que Izaya o tocasse nas bochechas ou em outros lugares que normalmente incomodariam uma pessoa que está dormindo. Sem muita escolha, o moreno se inclinou e levou os lábios ao pescoço do outro, pressionando-os com certa intensidade, dando um beijo estalado.
– Por que você... Nn... Não acorda...
Já que no pescoço não funcionava, Izaya resolveu mirar em outro lugar dessa vez. Colou seus lábios aos lábios de Shizuo e os esfregou, em seguida lambendo-os sem vergonha alguma.
Shizuo grunhiu e abriu os olhos rapidamente, um pouquinho assustado, estendendo a mão para limpar sua boca e acabando por encostar no rosto de Izaya.
– ... Pulga? — Ele perguntou, em meio a um bocejo. — Mas que diabos é isso...
– Bom dia pra você também, Shizu-chan. Você não estava acordando, então eu tive que tomar minhas providências. — Izaya sorriu maliciosamente.
– Que horas são? Por que você me acordou tão cedo...
– Sete e meia não é tão cedo assim, nee. A Namie vai chegar daqui a pouco. Você não quer que ela te veja assim, quer?
– Pra mim tanto faz — Shizuo grunhiu, virando-se para o outro lado com planos de voltar a dormir.
– Sh-Shizu-chan! — Izaya se irritou. — Pra mim não é 'tanto faz'!
– Tá bom, tá bom, eu vou levantar, só fale mais baixo, tch. — O loiro coçou a nuca preguiçosamente. — Nunca vi uma pulga tão barulhenta.
– É porque você fic-
– Nah, cale essa boca...
Shizuo interrompeu Izaya no meio de sua frase e beijou-o de repente. Foi um beijo rápido, sem língua, apenas os lábios pressionando um ao outro várias vezes. Porém, foi o bastante para deixar o informante mudo e fazer seus batimentos cardíacos acelerarem.
– Heh, funcionou — Shizuo murmurou, quando se separaram. — Você calou a boca. E está vermelho.
– SHIZU-CHA-NGH!
Izaya foi interrompido com um beijo mais uma vez.
– Você não pode fazer isso toda vez qu-
Outro beijo.
– Eu estou tentando fal-
Mais um.
– SEU PROTOZ-
E outro.
– Tem mais alguma coisa para dizer, pulga? — Shizuo provocou, com um sorriso malicioso.
A campainha tocou, interrompendo-os.
– Sou eu — Namie disse, do outro lado da porta.
Izaya lançou um olhar irritado para Shizuo.
– Droga — ele sussurrou.
– O que você quer que eu faça? — Shizuo respondeu com outro sussurro.
– Esconda-se no armário. Ou sei lá. Em primeiro lugar você não deveria nem est-
– Ah, é? Eu não deveria estar aqui? Se eu não estivesse aqui quem ficaria te abraçando e te consolando depois daquele pesadelo, ã? Seu filho da mãe ingrato.
Do lado de fora do apartamento, o som de Namie pigarreando para que alguém a atendesse foi claro. Izaya desistiu e foi abrir a porta depois de um suspiro irritado.
– Bom dia — ele disse, obviamente nada animado, enquanto Namie entrava apressadamente segurando várias pastas.
Ela não respondeu, apenas deixou as pastas em uma poltrona que havia ali perto, em seguida notando a presença de Shizuo.
– Shizuo-san? — Ela disse, sorrindo, como fosse um cumprimento. Depois, dirigiu seu olhar para Izaya, rindo apenas com os olhos, como quem diz 'eu sabia'.
– Yo, Yagiri-san — Shizuo respondeu, tentando fazer o mesmo sorriso, mas sem sucesso. Sem contar que ele ainda tinha aquela cara de quem acabou de acordar e o cabelo todo bagunçado.
– Pode me chamar só de Namie — disse a secretária, dirigindo-se à escrivaninha onde costumava trabalhar.
– Eu não preciso apresentar vocês... Então... Hm...
O clima no apartamento ficou de certa forma engraçado — e para Izaya, um pouco constrangedor. Shizuo estava parado como se não soubesse o que fazer, e ele também estava na mesma posição.
– Certo — Izaya falou, por fim. — Eu vou sair. Tenho várias coisas para fazer e um encontro depois-
Shizuo lançou-lhe um olhar ameaçador depois da palavra 'encontro'.
– Com um cliente — o moreno completou, suspirando.
Namie riu baixinho de trás do computador.
– Vou descontar isso do seu salário, Namie — ele ameaçou, abrindo a porta.
– Eu não estou fazendo nada — disse a secretária, teclando rapidamente.
Ela olhou para Shizuo e continuou:
– Depois que o Izaya sair eu vou te contar todos os podres dele que você ainda não conhece.
– Parece interessante — Shizuo respondeu.
O informante revirou os olhos com tanta intensidade que eles poderiam ter saído de suas órbitas. Era só o que lhe faltava: aqueles dois virarem aliados ou algo do tipo.
Isso é uma conspiração.
Depois de poucas palavras, Izaya deixou o apartamento. Enquanto descia pelo elevador, resolveu verificar as notícias mais recentes de Ikebukuro no seu celular.
Assassino em série faz três novas vítimas na última semana
Na madrugada desta terça-feira (12) o assassino em série nacionalmente conhecido como assassino da katana matou três pessoas à golpes de espada. As vítimas eram homens com idades entre 48 e 50 anos que estavam saindo de um bar em Shimokitazawa, periferia de Tóquio. Testemunhas locais afirmam que o crime ocorreu aproximadamente às três horas e que durou apenas cinco minutos.
Na manhã de ontem, a prefeitura de Tóquio anunciou que está contando com a Agência Nacional da Polícia do Japão no processo de investigação dos assassinatos que aparentam seguir um padrão semanal. Estima-se que o assassino da katana tenha feito mais de trinta vítimas no último mês.
– Já que não dá para botar as mãos nessa criatura para descobrir o que ela é — Izaya pensou em voz alta -, eu vou ter que dar um jeito de entrar na Shouichi Pharmaceuticals e recolher o máximo de informação. Eu já tenho uma hipótese do que possa ser, mas falta-
Exatamente no instante em que chegou ao térreo, seu raciocínio foi interrompido pelo toque de seu celular.
– Moshi moshi, Izaya desu. Shiki-san?
– Alô, Orihara. Preciso lhe contar sobre duas coisas.
– Ora ora, o que seria~? Talvez uma declaração do quanto você aprecia o meu trabalho-
– Estou falando sério, Orihara. Tenho informações sobre Matsubara Shouichi e sua empresa.
– Ah, é por isso que eu a~mo a yakuza. Conte-me.
– Shouichi se separou da esposa, certo? Pois bem. Não foi só isso. Uma semana depois da separação, a esposa dele desapareceu.
– Neste caso, ele não deveria estar sob investigação da polícia?
– Não se faça de bobo, Orihara. Você sabe muito bem que um cara como ele que tem contato com todos os tipos de pessoas da cidade, como eu, escaparia da qualidade de 'suspeito' facilmente.
– Prossiga.
– Eu falei com um funcionário antigo da Shouichi Pharmaceuticals, um homem que trabalhou lá por dez anos e conheceu o dono um pouco mais de perto. Primeiramente, eu queria saber sobre a empresa em si, mas ele não quis falar sobre isso. Em seguida, por livre e espontânea pressão, acabou me contando sobre a mulher de Shouichi. Ele disse que a maior parte das pessoas acredita que ela tenha se suicidado depois da separação.
– É ótimo que você tenha conseguido falar com um funcionário, embora eu obviamente fosse estar mais interessado em saber sobre a empresa. E qual é a opinião pessoal desse homem em relação ao sumiço da esposa de Shouichi?
– Ele acha que seu chefe deu cabo da mulher. Na verdade, ele disse que tinha quase certeza disso, e quando lhe perguntei o porquê, disse que tinha algo que poderia 'provar' sua suspeita.
– E o que seria isso?
– Eu não sei. Ele ficou de me trazer o objeto hoje, mas já não está mais vivo para cumprir nosso combinado. — Shiki deu uma risada seca, como se tivesse chegado à melhor parte da história. — Foi morto ontem à noite.
– Shimokitazawa? Saindo de um bar? Assassino da katana?
– Exatamente. O pobre diabo foi gastar todo o dinheiro que lhe dei com bebida e logo em seguida resolveram fazê-lo calar a boca. Para sempre.
– Interessante. Hah, muito interessante...
– A relação entre a criatura e a S.P. está ficando cada vez mais óbvia. Seja lá o que Matsubara Shouichi esteja fazendo, ele não está se esforçando para esconder da gente.
– Preciso contar essas coisas para o Shizu-chan...
– O quê?
– Ah... Nada. Eu preciso investigar a S.P. logo.
– Vá com calma, Orihara. Cuidado com onde vai meter o nariz.
– Nee, o que é isso? Shiki-san me dando conselhos... A idade está subindo à sua cabeça? Você é meu pai agora?
Shiki se esforçou para ignorar as provocações e manter a seriedade da conversa, embora isso fosse sempre difícil quando se tratava de Izaya Orihara.
– Infelizmente, eu preciso do seu trabalho para fazer o meu. Há vários informantes nessa cidade mas, tenho que admitir, nenhum deles vai tão longe quanto você. Seria um incômodo para mim se você acabasse morto.
– Não se preocupe demais, Shiki-san. Vai envelhecer mais rápido.
Dessa vez, o yakuza não conseguiu se segurar.
– Pare de fazer piadas sobre a minha idade seu-
– Eu tenho que desligar, vou atender um cliente daqui a pouco.
– Eu tenho só quarenta e oito anos-
– Bye bye, Shiki-san.
O informante guardou o celular no bolso da jaqueta e destravou as portas do carro preto e luxuoso à sua frente.
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