O Melhor Das Piores Intenções

15 Capítulo 14 - Desarmado


Notas iniciais
Olá leitores!

Espero que gostem desse capítulo. É um pouquiiiinho longo mas acho que isso não é algo ruim, certo? Boa leitura ♥

Tom Tanaka caminhava pelo centro de Ikebukuro ao lado de Shizuo Heiwajima. Virando uma esquina e muito incomodado com o comportamento recente de seu guarda-costas, resolveu finalmente perguntar-lhe o que havia de errado.

– Shizuo, você parece triste.

O homem loiro, alto e forte não respondeu, apenas continuou andando no mesmo ritmo.

– SHIZUO?! — Tom o chamou novamente, balançando sua mão na frente do rosto dele como se tivesse que tirá-lo de um estado de hipnose ou algo do tipo.

– Ah! — Shizuo finalmente pareceu voltar ao mundo real e reagir à interação. — Me desculpe, Tom-san. Eu... Estava destraído...

Shizuo passou a mão por seus cabelos tingidos, sentindo-se culpado e liberando um suspiro pesado logo em seguida.

– Hoje os seus pensamentos estão longe, huh?

– É — o loiro respondeu, com um sorriso amargo. — Eu sinto muito.

– Relaxa — disse Tom, dando-lhe um tapinha solidário no ombro. — Você realmente está estranho hoje. Nem parecia estar com raiva quando estava chacoalhando os endividados. Está com a expressão do seu irmão. Digo, sem expressão...

Que coisa mais ridícula, pensou Shizuo. Ficar assim por causa daquele maldito.

– Você deveria sair para beber, falar com algumas mulheres — Tom piscou um olho. — Aquele bar daquela outra esquina, — apontou — é ótimo.

– Não sei... — Shizuo respondeu, coçando a nuca.

– Ah, Shizuo, vamos lá! — O chefe insistiu. — Vai fazer bem para você. Você não sai muito e precisa de mais aventura na sua vida. Aliás, de uma garota.

Tom-san está completamente por fora, Shizuo pensou, e teve vontade de rir. Ao mesmo tempo, porém, talvez seu chefe estivesse certo — por mais que não fizesse ideia do que realmente estava acontecendo. Talvez ele realmente devesse deixar de lado a pessoa que tanto atormentava seus pensamentos e tentar se socializar... Ou algo do tipo.

Hah, como se fosse fácil. Mas ele poderia pelo menos tentar.

– Ok — respondeu, por fim, tirando a cartela de cigarros do bolso.

– Ótimo! — Disse Tom. — Você deve aparecer lá aproximadamente às nove, nove e meia, é um bom horário. Eu vou lá quase sempre e vou hoje também para te dar um apoio moral de longe.

Shizuo assentiu, sem mostrar muito ânimo.

– Não fique com essa cara, Shizuo. Você tem estado muito estranho ultimamente. Por acaso tem alguém quebrando seu coração?

Tom estava só brincando, mas aquela sugestão fez o estômago de Shizuo se revirar.

– Não — disse ele. — Claro que não.

* * *

A noite chegou e junto dela o horário em que Shizuo planejava sair. O ex-barman raramente frequentava esse tipo de espaço: bares, clubes, etc; exceto quando estava trabalhando em algum deles. Shizuo não gostava muito da atmosfera desses ambientes, das músicas, do aglomerado de pessoas, muitas bêbadas e falando alto, algumas se aproveitando das que tinham bebido mais. Para ele era no mínimo... Desconfortável.

O loiro na verdade nunca tinha tido muito jeito para lidar com as pessoas; devido à sua força e intemperança, sempre tinha arrumado muitas brigas desde os tempos da escola e era temido por quase todos que o conheciam. Além disso, por ter medo de causar problemas ou simplesmente machucar as pessoas com quem simpatizava, Shizuo preferia ficar longe, tornando-se assim um homem quieto e reservado.

Aqueles que tinham apenas ouvido falar dele, de seus ataques de fúria e de sua força, mas que não o conheciam de verdade, provavelmente pensavam que ele era uma pessoa extrovertida. Mas quem convivia com Shizuo quase que diariamente percebia que ele era o completo oposto. O medo de se relacionar com as pessoas o fazia perder a vontade de conhecê-las, e portanto ele simplesmente não tinha vontade de abordá-las.

Dessa maneira, você já deve imaginar que Shizuo era tudo menos um homem conquistador.

E agora lá estava ele, indo para um bar, de certa forma à força, sim- sentindo como se aquilo fosse uma obrigação. Uma provação ao seu orgulho, em relação a Izaya. Se o desgraçado estava saindo com outra pessoa, por que ele também não poderia ir a um bar e arrumar alguém?

Não que ele tivesse certeza de que Izaya estava saindo com outro cara. Mas haviam muitas possibilidades. Izaya dizia que Shizuo era imprevisível, mas o informante também não era fácil de prever, no mínimo. Por mais que pudesse entender as expressões de Izaya e desmascará-lo quando este estava na sua frente, não poderia fazer isso estando longe dele.

Se não bastassem essas ideias negativas, Shizuo também sentia falta dos aspectos físicos do relacionamento deles. Por mais ódio que sentisse, fazia-lhe falta o toque daqueles lábios finos, o gosto daqueles beijos, a sensação de segurar aquele corpo magro, macio e quente sob o seu. Por mais que naquele momento tudo o que quisesse fazer fosse acabar com aquele maldito, esses pensamentos não o deixavam em paz.

Mas agora tinham que deixar. Porque ele estava saindo, tentando curtir uma noite, tentando não se ocupar com ideias negativas e estava determinado a conseguir isso.

Shizuo vestiu suas melhores roupas casuais, usou uma colônia masculina que seu irmão havia lhe dado e arrumou cuidadosamente o cabelo que já estava precisando de um novo corte. Ainda não se sentia muito seguro mas sabia que estaria pelo menos apropriado.

Chegando ao bar, o ex-barman suspirou fundo, inalando aquela atmosfera de bebida, música e excesso de pessoas falando em aglomerados diferentes. Não estava tão cheio, porém, e pensando pelo lado bom, era melhor do que uma boate, pelo menos.

O loiro atravessou os grupos de pessoas, analisando o local. Logo avistou Tom, próximo a algumas mulheres. Ele acenou e Shizuo respondeu o aceno, em seguida saindo dali.

Não demorou muito para que uma onda de desânimo passasse por Shizuo, fazendo-o se sentir patético por estar naquele lugar, naquela situação, em volta de várias mulheres bonitas mas sem vontade de falar com nenhuma. O ex-barman logo se arrependeu de ter saído de casa e teve vontade de dar o fora imediatamente, embora isso apenas soasse mais ridículo.

Shizuo acabou por sentar-se à bancada onde eram servidas as bebidas e pediu um drinque. Ele não gostava muito de álcool, por ser amargo, mas o drinque que tinha pedido tinha açúcar e várias coisas misturadas então não seria ruim. Além disso, ele estava a fim de anestesiar a sensação ruim que percorria sua mente.

Alguns minutos depois, uma moça se aproximou do lugar onde ele estava sentado e fez menção de sentar-se no banco ao lado. Ela era loira, magra, baixinha e estava bem vestida e maquiada. Deveria ter aproximadamente a mesma idade que Shizuo ou menos, o sorriso inocente em seus lábios tornava difícil determinar.

– Posso me sentar aqui? — Ela perguntou, apontando para o banco.

– Ah, claro — respondeu Shizuo, de certa forma surpreso.

A garota era bonita, mas Shizuo não estava muito interessado em sua aparência. Não estava interessado em nada naquela noite, na verdade. Mas ela parecia ser bastante simpática, também.

– Você parece triste — ela notou, um sorriso melancólico formado no canto de seus lábios de batom. — Seus olhos...

– Eu não pensei que estivesse tão evidente assim — Shizuo respondeu, retribuindo o mesmo tipo de sorriso e tomando mais um gole de seu drinque.

– Não está. É que eu tenho uma boa intuição — ela deu uma risadinha, em seguida chamando o barman para pedir um drinque também. — Como é o seu nome?

– Shizuo — ele respondeu, em dúvida se deveria dar o sobrenome ou não, pois ela poderia imediatamente reconhecê-lo e sair correndo dali. — Shizuo Heiwajima. E o seu?

– Momo. Momo Kamukura — disse a jovem, sorrindo. — Então, Heiwajima-kun-

– Pode chamar só de Shizuo — ele afirmou, levemente envergonhado, tentando disfarçar com um riso.

– Ah, sim! Shizuo-kun, posso te perguntar o motivo de você estar triste?

– Mmm — Shizuo pensou, passando a mão pelo cabelo. — Não é nada demais...

– Tem certeza? Sabe como é, às vezes se abrir para um estranho faz bem.

– Acho que é mais complicado do que isso.

Shizuo refletiu por um momento se deveria ou não falar o motivo de seu desânimo. Se ele não citasse nomes, estaria tudo bem, certo? E ele não planejava voltar àquele bar outras vezes então havia uma grande chance de que não se vissem outras vezes.

– Certo — o loiro suspirou, escolhendo cuidadosamente as palavras. — Talvez, bem talvez, eu goste de uma pessoa. E essa pessoa provavelmente também gosta de mim. Mas essa pessoa é covarde e tenta se afastar de mim o tempo todo, provavelmente porque tem medo de relacionamentos ou alguma coisa do tipo. Eu já tô de saco cheio disso e... Não é só isso...

Ele fechou o punho, com uma vontade incrível de dar um soco na bancada de madeira escura.

– Na verdade é muito desanimador, também. Embora eu deteste pensar que estou deixando algo assim me deixar desanimado.

A situação era bem mais complicada do que aquilo e, ah, Deus — ele nem tinha certeza se Izaya realmente gostava dele de alguma maneira e estava se afastando por medo de um relacionamento, ou se simplesmente estava saindo com outra pessoa e tinha realmente 'cansado de brincar'.

Pior ainda: ele tinha mesmo acabado de admitir a possibilidade de 'gostar' da pulga? Shizuo mal podia acreditar nas palavras que tinha acabado de pronunciar.

Mas aquilo deveria explicar as coisas por enquanto. Depois ele ainda teria muito tempo para ficar debatendo com si mesmo se realmente sentia algo por Izaya ou não.

– Ah, entendi... — A garota respondeu, levando uma mão ao queixo e ficando pensativa por alguns segundos. — Eu sinto muito. Isso é bem chato.

– Eu que o diga — disse Shizuo, com um leve riso.

– Pois é... Mas algumas pessoas são assim, não são? — Momo sorriu, bebendo um gole de seu drinque. — Alguns tem medo de relacionamentos porque não querem correr o risco de se machucar; outros tem medo de perder a liberdade de sair, ter uma vida social, flertar... Às vezes ambas as coisas.

– Isso é verdade.

No caso daquele filho da puta, devem ser ambas as coisas.

Quase sem perceber, Shizuo já estava conversando naturalmente com uma pessoa desconhecida. Ela estava certa ao dizer que talvez fizesse bem externar os problemas a uma estranha; Shizuo realmente já se sentia melhor por poder pelo menos botar para fora aquela sensação incômoda.

– Eu não sou muito boa com conselhos mas... Eu acho que, se essa pessoa de quem você falou está se afastando de você, você não deveria simplesmente deixar isso acontecer. Isso é exatamente o que essa pessoa quer, não é? Quando tenta se distanciar, espera que você também não vá atrás, então as coisas funcionam da maneira que quer.

Shizuo continuou ouvindo-a atentamente. Era estranho falar sobre aquilo mas... Fazia sentido.

– Nesse caso, acho que você deveria convencê-la de que não vai deixá-la se afastar de você. Mesmo porque provavelmente está fugindo porque tem medo de se apaixonar, então você é o único que pode mostrar a ela que não precisa ter medo de nada. E que não vai conseguir se livrar de você por motivos tão bobos.

– Você, na verdade, é boa com conselhos — Shizuo respondeu, espantado.

– Obrigada — a garota sorriu, envergonhada.

Era um alívio para Shizuo poder ter uma conversa assim, normal, sem ter de se preocupar. E os conselhos de Momo realmente fizeram alguma coisa 'clicar' na sua mente e ele percebeu que tinha feito tudo errado até ali.

Izaya poderia tentar se afastar o quanto quisesse. Shizuo apenas provaria, mais uma vez, o quão imprevisível ele era e não permitiria que as coisas acontecessem do jeito que ele queria.

Falando no diabo, o informante tinha combinado para aquela noite um encontro com um cliente — não, não um 'encontro' no sentido romântico, mas um encontro para negócios, apenas para que ele pudesse entregar as informações que lhe tinham sido pedidas anteriormente.

A vida é cheia de coincidências e a impressão que se tem é de que, exatamente quando você não quer ver alguém, você acaba encontrando essa pessoa. Izaya não era um homem de muita sorte, apenas habilidade, para piorar, e portanto uma enorme coincidência acabaria por atingi-lo naquela noite.

O informante chegou ao bar tranquilo, cumprimentando pessoas que conhecia, tanto 'amigos' (na verdade, clientes anteriores) quanto inimigos (pessoas que o odiavam e o deixavam ciente disso).

Confiante, Izaya passou por entre alguns grupos de pessoas, procurando seu cliente. Foi então que avistou algo muito estranho na bancada de bebidas. Mais especificamente, alguém.

A última pessoa que Izaya esperava encontrar no bar em que tinha combinado seu encontro com aquele cliente era Shizuo.

E não era simplesmente Shizuo: era Shizuo falando com uma garota.

O moreno coçou seus olhos uma ou duas vezes por não acreditar no que estava vendo. Só poderia estar confundindo-o com outra pessoa. Shizuo Heiwajima? Em um bar — isto é, como cliente, sem ser o barman? Shizuo Heiwajima com uma GAROTA?

É o fim do mundo?

O sistema de Izaya deu pane quando finalmente caiu-lhe a ficha. Conhecia aquele rosto e aquele homem bem até demais e não estava enganado. Realmente tratava-se de Shizuo. Mas o que ele estaria fazendo ali? Desde quando frequentava bares? Oh céus, desde quando paquerava mulheres?

Não fazia sentido. Izaya não queria que fizesse sentido. E enquanto tentava mastigar aquela ideia, compreender o que diabos estava acontecendo na cena em frente aos seus olhos, porque diabos Shizuo estava falando com aquela loira oxigenada, porque diabos Shizuo, porque diabos... o informante sentiu o sangue em suas veias borbulhar.

Como algo que nunca tinha experienciado, suas pernas ficaram bambas e um nó formou-se em sua garganta seca. Seus punhos se fecharam e suas unhas arranharam com força as palmas de suas mãos, como se causando dor a si mesmo ele fosse capaz de anestesiar a outra dor que começava a lhe provocar.

Rezando para que não tivesse sido avistado, Izaya saiu do bar em um ritmo acelerado. Não chegava a estar correndo, mas seus passos eram rápidos e ininterruptos. O ar que respirava não parecia chegar aos seus pulmões e ele não parecia sequer perceber as pessoas que passavam na sua frente, esbarrando em algumas.

Algumas lágrimas densas e quentes escaparam de seus olhos, traçando uma linha salgada sobre sua face delicada.

– Por quê... Eu estou chorando...? Eu não... Não faz sentido...

Ele acelerou o ritmo de sua caminhada, sentindo como se cada ser humano que passava ao seu lado fosse capaz de ver que estava chorando. Sentindo-se ridículo. Humilhado. Mas humilhado por quem?

– O que... Está acontecendo comigo...

Notas finais
Preciso admitir que gostei um pouco de fazer o Izaya chorar (ao mesmo tempo que me sinto culpadíssima ; __ ;). Se bem que, depois de o Shizu-chan correr atrás dele e ele o tratar mal, acho que foi meio justo, não foi? Por mais que eu ame o Izaya-kun mais do que tudo, já passou da hora de ele admitir que gosta do Shizu-chan e parar de fazê-lo sofrer (enquanto ele mesmo sofre também por ser tããão complicado, né).

O capítulo seguinte vai continuar exatamente da parte em que esse parou, tentarei postá-lo logo. Até o próximo, então! ♥

Ah, e seja bem vinda a nova leitora Hikari Aya! Obrigada por todos os seus comentários super fofos!