O Melhor Amigo do Meu Irmão
2 Domingos, arrepios e tempo
Notas iniciais
Era domingo, um dia depois da maior festa do ano, ou seja, do aniversário de Kalena. Passei o sábado inteiro ajudando minha amiga com a ressaca, já que os pais dela estavam passando o final de semana no sítio dos avós de Kali e a coitada passou o dia enjoada e com enxaqueca. Acabei ficando na casa dela o dia inteiro e quando cheguei em casa de noite, meus pais já dormiam e Harry havia saído. Como nós e os meninos não nos vimos no dia anterior, decidimos que iríamos passar o domingo em Santa Mônica todos juntos, para aproveitar o sol e o calor. Eu estava de biquíni no meu quarto, passando o bronzeador, quando Kali entrou sem aviso. Levei um susto, obviamente.
— A gente se conhece há 13 anos, você tem que se acostumar comigo invadindo sua casa. — Ela falou se jogando na minha cama e eu ri. — Os tios abriram a porta pra mim e os meninos já estão todos lá embaixo. — Acrescentou ajeitando os óculos de sol no topo da cabeça. Kalena tinha o tipo de beleza diferente e mesmo assim indefectível, o que eu de certa forma invejava, já que para simplesmente ser notada ao lado dela eu tinha que me produzir 10x mais. O pior é que ela não estava nem aí pra isso, se perdia em seus livros e escrita e ignorava o resto.
Coloquei um short claro rasgado e um cropped branco sem mangas escirto “anti-you” por cima do meu biquíni, coloquei meus enormes óculos de sol rose gold e chinelos rosa claro com a tirinha brilhante e estava pronta. Olhei para Kali que investigava algo na minha estante de livros. Ela não estava muito diferente de mim, usava um short largo de lavagem escura, uma regata amarrada na barriga, por baixo um biquíni preto e chinelos cinza. Peguei minha bolsa que já estava preparada para passar o dia na areia e virei para minha amiga antes de sair.
— Vamos, miga, cê tem tempo pros seus livros depois. — Falei debochando e ela revirou os olhos divertida. Pegou um dos meus óculos de sol e sorriu como se pedisse. — Você sabe muito bem que não precisa pedir, agora vamos logo.
— Ela tá apressada, ela. — Kalena riu de mim colocando os óculos escuros e enganchou o braço no meu antes de sair.
Descemos as escadas e nos deparamos com os meninos jogados no sofá sem se mexer muito, completamente entediados. Quando estávamos nos degraus finais, meu irmão bateu os olhos em mim.
— Finalmente! Nunca vi demorar tanto pra colocar tão pouca roupa. — Harry reclamou irônico e eu ignorei ele.
— Cadê mamãe e Christopher? — Perguntei colocando meus óculos sobre a cabeça. Christopher era meu padrasto e pai de Harry. Minha mãe namorou com Christopher muito jovem, depois que Harry nasceu eles se separaram por alguns anos, nesse meio tempo meu querido pai engravidou minha mãe e caiu fora. Dois anos depois que eu nasci, ela e Chris se reencontraram amorosamente e são casados até hoje. Ela ganhou um marido amoroso, e eu um pai e um irmão implicante que eu amo com amigos além de incríveis. Em todos os sentidos.
— Acabaram de sair. Eles foram fazer umas compras no mercado, parece que mamãe quer inventar algo diferente no jantar hoje. — Meu irmão deu de ombros e Dougie sorriu largo antes de falar.
— Já sabemos onde vamos jantar hoje então. — O loirinho falou e o braço de Kalena que estava enganchado no meu me apertou. O dia que ela admitir que sonha com Poynter e eu finalmente parar de ter que fingir que não percebo esses sinais vais ser incrível. Meu irmão deu um pedala nele e nós rimos.
— A gente vai no meu carro e no do Jones, três em três. — Tom disse girando a chave em um dos dedos. Franzi o cenho sem entender. Sempre que saíamos, para qualquer lugar, íamos os seis no carro do Tom, apertados e com a Kalena no meu colo ou vice-versa. — Tem bastante coisa pra levar hoje.
— Eu e o Harry vamos com o Tom. — Dougie falou levantando. — Danny dirige feito louco, não sou obrigado.
— Eu vou com você, sardento. — Constatei apertando a bochecha de Jones, que sorriu pra mim largamente. Maldito sorriso perfeito. Tirei minha atenção de Daniel e olhei pra Kalena que parecia querer ir com Dougie, mas não ia dar o braço a torcer. — Maninho, por que você não vem com a gente? Kali tem medo de velocidade.
— Porque só você é louca o suficiente pra andar com o Jones. Kali, pode vir com a gente, aí nós colocamos as coisas todas no carro do Danny. — Meu irmão respondeu e Kalena sorriu aliviada. Safadinha.
— Frescos. — Falei junto com Daniel e nós rimos.
E foi assim, com todo mundo debochando um do outro, que guardamos todas as coisas no carro. Cadeiras, toalhas, guard-sol e até um violão. Tom resolveu sair primeiro, já que ia demorar mais para chegar e eu e Dan ficamos para trancar a casa. Bom, eu tranquei e ele me seguiu pela casa me fazendo rir o tempo inteiro.
— Jones, você me mata. — Eu brinquei rindo da última piada dele e ele sorriu de orelha a orelha.
— Admite que minhas piadas são as melhores, princesinha. — Ele respondeu com os braços cruzados, esperando eu trancar a última porta. Revirei meus olhos. Odiava quando ele me chamava desse jeito. Virei pra ele e respirei fundo pra não mandá-lo a merda. — Vamos lá. — Jones me deu um beijo na testa e saiu em direção a porta do carona.
— Brigada, sardento. — Agradeci dando um sorrisinho de canto enquanto entrava no carro. Joguei minha bolsa no banco de trás, junto com as outras tralhas e me ajustei no banco. Preciso dizer que eu amava o carro de Jones, mas que amava mais ainda vê-lo dirigindo. Com aqueles óculos de sol, os cachinhos voando e o sorriso enorme dele ao cantar as músicas que passavam na rádio. Já disse que tenho uma queda por ele? Talvez um abismo. Talvez ele seja o tema mais recorrente das minhas músicas. Mas de nada importava, já que eu era a “princesinha” dele.
Ele fechou a minha porta e enquanto ele dava a volta no capô para entrar pelo lado do motorista, eu abaixei os meus óculos e ajeitei meu cabelo com uma mão, me olhando no espelhinho. Jones entrou no carro e me olhou divertido. Não entendi, mas não perguntei.
— Faz mó tempão que a gente não vai na praia todos juntos. — O moreno falou e eu tive que rir.
— Nós, no caso eu, Kalena, seus amigos e meu irmão, sempre vamos. Você que sempre tá ocupado com alguma loira chupando sua cara e só Deus sabe o que mais. — Eu disse cruzando os braços e ele gargalhou.
— Acho você um amor quando fica com ciúme de mim, toda emburradinha. — Ele brincou apertando meu rosto e eu bufei. — Acho que a última vez que a gente foi pra praia junto eu tava no ensino médio.
— Até parece que faz tanto tempo assim, Jones, liga o carro logo. — Eu disse sem acreditar, jogando meu corpo contra o banco de couro. Eu adorava aquela textura na pele. Pisquei algumas vezes pra afastar o pensamento de banco de couro e Danny Jones da minha mente e voltei a prestar atenção na realidade.
— Claro que faz, baixinha. Pensa comigo, foi quando a gente foi apresentar Santa Monica para aquela namorada do seu irmão. — Ele reforçou dando partida no carro. Coloquei meu cinto e fiquei pensando um pouco, tentando lembrar. Era verdade. Eu estava quase fazendo 14 anos, na oitava série, e os meninos estavam no último ano. Harry arranjou uma namorada francesa até a formatura e os meninos queriam mostrar pra ela todos os lugares legais de ir por aqui. Eu e Kalena fomos junto porque meus pais não estavam na cidade e os meninos estavam extremamente paranoicos sobre nos deixar sozinhas. Ou seja, a última vez que Jones me viu de biquíni foi há no mínimo 3 anos atrás, isso vai ser no mínimo interessante.
— Você tá certo. Era aquela namorada francesinha, né? — Ele confirmou com a cabeça e eu ri. — Harry tem um dedo mais podre que o outro, inacreditável. Só escolhe as que não duram. — Constatei preocupada com o coração do meu querido maninho. Ele quebrava a cara, amorosamente falando, pelo menos umas três vezes por ano, isso deve ser algum tipo de recorde.
— Ele vai achar alguma garota legal um dia. E você? Tenho que me preocupar com marmanjo te cercando? — Daniel perguntou como se fosse meu irmão mais velho. Revirei os olhos.
— Eu não sou mais uma garotinha, Jones. — Respondi já ficando irritada. Ele me olhou com o canto dos olhos, sem tirar a concentração da estrada. — Mas se você realmente quer saber, sim, tem “marmanjos” me “cercando”.
— Para com isso, Lou. Você é minha melhor amiga. É meu trabalho te proteger. Eu sei que você não é mais uma garotinha tecnicamente, mas você é a minha princesinha. Você sabe. — Ele disse colocando uma das mãos na minha coxa e fazendo carinho. Na cabeça dele, aquele foi um ato completamente inocente de demonstração de afeto. Mas só com o seu toque me arrepiei por inteira. — Você tá arrepiadinha, o ar tá muito gelado? — Perguntou e eu corei violentamente.
— Tá bom, só me deu um calafrio estranho. — Falei qualquer coisa, porém queria cavar um buraco no chão e me enterrar ali só pra não ter que encará-lo depois dessa. Ele riu baixinho e colocou a mão no volante mais uma vez.
Numa tentativa desesperada de esquecer o micão anterior, liguei o rádio. Tocava uma música animada qualquer e, sem querer pensar muito, deixei ali. Qualquer coisa era melhor do que o silêncio-pós-arrepio-inconveniente. Ele, por outro lado, pareceu se divertir horrores, já que tinha aquele sorrisinho de canto cafajeste estampado em seus lábios e voltou a colocar sua mão na minha perna. Não era de hoje que Danny se divertia com todo o efeito dele sobre mim, mas quando se tratava de finalmente colocar na prática as consequências desse efeito, ele dava um passo pra trás e falava sobre como eu era muito nova, como eu sempre seria a princesinha dele. Fato: eu já estava além de cansada de não poder fazer nada a respeito. Fato maior ainda: já estava na hora de tomar uma atitude. Mas como?
Independente dos meus pensamentos revoltados, o carinho que Daniel fazia com o dedão na parte interna da minha coxa me causava todo tipo de sensação. Ele tinha os olhos na estrada, mas eu sentia que me enxergava pela visão periférica e se deliciava com a vermelhidão do meu rosto e minha pele arrepiada. Já deu de inflar seu ego e não me ajudar, senhor Jones. Respirei fundo e aumentei o som, já que agora tocava uma música que eu adorava.
— Guys my age don’t know how to touch me, don’t know how to love me good — Cantei junto com a música e Daniel me olhou curioso. Sim, lindinho, é uma indireta. Garotos da minha idade não me tocam como você me tocaria. Continuei cantando, olhando para ele em alguns momentos da música e entendi porque ele me provocava tanto. Era realmente divertido vê-lo tímido. Logo a música acabou e segurei minha risada mordendo meu lábio inferior com a reação de Daniel. Era completamente ilegível, o que tornava ainda mais deleitosa a situação.
— Não conhecia essa música. — Danny falou estalando seu pescoço. Levei minha mão até sua nunca e fiz carinho ali com a ponta das unhas, sentindo sua pele arrepiar-se. Parece que o feitiço virou contra o feiticeiro, baby.
— É da Hey Violet. Muito boa por sinal. — Respondi de forma leve continuando o cafuné. Daniel adorava meu cafuné desde sempre, então eu realmente só queria fazer um carinho amigável nele, completamente inocente. É claro que não poderia fazer nada em relação aos seus arrepios ocasionais. Ele respirou fundo e sorriu de leve.
— O seu cafuné é o melhor do mundo inteiro, juro. — Ele disse completamente entregue e eu sorri agradecida pelo elogio. Na verdade, sorri por mais do que isso. Talvez não fosse tão difícil assim conseguir transformar toda essa situação. Daniel Jones iria ser meu, era só questão de tempo.
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