O Medo Persiste Naqueles Que Necessitam
5 Sangue nas mãos
Notas iniciais
O sol incendiava o quarto com certa claridade de fragilizar os olhos. Olhos. “Os olhos são janelas para a alma”, dizia minha mãe. Mãe. Como sinto falta dela. Como sinto falta da minha família e de mim. Eu. Quem sou eu agora? Quem habita esse corpo frágil e cheio de cicatrizes que jamais irá sarar? Há alma dentro de mim? Há algo parecido com o resto de um ser humano aqui dentro? Restou algo de mim em mim, após a chegada de James? James. O monstro mais impiedoso que existe na face da Terra.
Dava para ouvir os passarinhos cantando e batendo asas do lado de fora. Ouvi-los me dava paz e certa vontade de viver. Mas de que adianta viver se não tem ninguém para compartilhar os momentos importantes que ocorrem nisso que chamam de vida?
Foi então que ouvi o ranger de passos na escada de madeira velha. Era o James. Antes mesmo dele entrar eu estava encolhida na cama, fingindo estar dormindo. Ele se aproximou em meu ouvido e pude sentir sua respiração quente e até inspirar seu hálito de morte.
– Bom dia, bela adormecida. Trouxe comida. Hoje teremos um longo dia. – Disse.
Virei e fiquei sentada no canto da cama. Olhei em seus olhos e vi que eles brilharam como o diabo brilha no inferno.
– B-bom d-dia. – Gaguejei. Já se tornara um hábito, gaguejar quando falo com ele.
Ele segurava uma bandeja cheia de comida. Havia bolo, morango, iogurte, leite, chocolate e muitas outras coisas. Comi quase tudo e então o acompanhei.
Fomos ao jardim. Era muito grande e plano. A grama era muito verde e brilhava ao refletir no sol. James disse que tinha uma surpresa para mim. Pôs uma faixa preta, vendando meus olhos e me guiou até um lago, não sei ao certo. Ouvi latidos. Meu coração acelerou e tinha quase certeza que era o Sammy.
Tirei a venda dos olhos e vi o Sammy parado a 3 metros de mim. Corri até ele e ele a mim. Abracei-o com força e ele lambeu meu rosto. Sentia falta disso. O pelo estava tão macio quanto um urso de pelúcia. Meu Sammy estava novamente em meu braços. Olhei agradecida ao James. E nisso ele se aproximou. Fez carinho no Sammy e colocou uma coleira nele. Puxou-o forte que ouvi um latido de dor. Disse que ainda não. Que nada é de graça. Se eu quiser realmente o Sammy de volta, teria de fazer algo.
James me arrastou até o porão. Nisso o Sammy começou a latir, sempre tentando me defender. James o acertou com um chute e meu coração doeu muito. Era impossível não morrer vendo o Sammy sofrer. Ele quebrou a patinha do Sammy. Lágrimas escorreram por meu rosto. Queria matar aquele desgraçado que só fazia mal às pessoas que eu amava. Nisso ouvi um grito. Um grito de mulher. Vinha do canto do porão. Tinha uma mulher presa em uma mesa de ferro.
Foi então que a reconheci. Era a Melissa. Uma das melhores amigas de minha irmã. Como aquele psicopata a tinha pego?! Estava tentando raciocinar a lógica que tinha de pegar uma amiga da minha irmã. James deixou o Sammy preso em uma barra de ferro ao lado e andou em direção a mim. Colocou uma faca em minha mão e disse:
– Você ama o Sammy? Você quer protegê-lo? Quer ele de volta para você? Então terá que fazer exatamente o que eu disser! Quero que você mate essa mulher. Você é capaz disso? É capaz de tirar uma vida por outra? É capaz de matar alguém? Pois bem, faça-o. Contorne lentamente a faca entre as veias do pescoço dela. Após isso, fure e rasgue até o local do coração.
Não conseguia pronunciar uma única palavra. Não sabia o que fazer. O Sammy está comigo faz 3 anos. Ele é como um filho, um amigo. Alguém que tenho o dever de proteger e amar. Ele é família. Mas eu também não posso tirar a vida de uma pessoa. Não posso ter esse sangue nas mãos. Estava perdida e sem saída. Antes de eu raciocinar ou tentar convencê-lo de outra coisa... Minhas mãos já estava seguindo as ordens. Entre lágrimas dela e lágrimas minhas, a faca fazia seu trabalho. Contornei a lâmina entre suas veias e abri um corte até seu coração. O sangue escorria pela mesa indo ao chão. Meus dedos estavam vermelhos e minha roupa também. Mais lágrimas e lágrimas saiam de meus olhos. Não sabia mais quem eu era. Uma culpa e devastação invadia meu peito. O ódio também era presente. Ódio de mim e desse psicopata.
Corri até o Sammy e desamarrei-o. Improvisei uma tala em sua patinha quebrada. Ele lambeu meu rosto e se afundou em meus braços. Ficamos assim por um tempo. Então levantei e olhei diretamente para Ele.
– Meus parabéns! Você tem potencial, garota. O cachorro pode ficar contigo. Agora vá tomar banho que na hora do jantar eu lhe chamo. – Fez um sorriso sínico e monstruoso. Como se nada tivesse acontecido. Como se eu não tivesse acabado de matar uma pessoa.
Subi ao quarto e deixei o Sammy deitado em minha cama. Entrei no banheiro e liguei o chuveiro. Ao entrar no box, minhas lágrimas voltaram. Estava com nojo de mim. Nojo do que fiz. A culpa me devastou por completo. A água gelada escorria por meu corpo. E no chão havia o sangue de Melissa. O sangue que jamais iria sair de mim. O sangue que seria a evidência do crime que eu acabara de cometer. Assassinei a amiga de minha irmã. Assassinei uma pessoa. E dessa culpa eu jamais iria escapar. Agora eu já não era apenas a vítima, me tornara parecida com ele. Parecida com o que mais odeio. Parecida com a morte.
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