O Medo Persiste Naqueles Que Necessitam
9 A omissão de socorro
Notas iniciais
Segue mais um capítulo, yay
Soltei a faca. E uma jorrada de emoções percorreram meu corpo. Raiva. Medo. Alívio? Nem um pouco.
James ainda me olhava com tanto espanto do que acabara de fazer. Ele desafiava-me a todo instante, mas não sabia do que eu era capaz. Não sabia da minha coragem e do meu ódio. Sim. Ódio. Quando fiz o que fiz, não foi apenas por vingança, por raiva ou por outra coisa que possam chamar. Foi por medo e tensão de meu corpo. Foi pelas pessoas que esse monstro matou e pelas famílias que ele fez sofrer. Foi por tudo. E foi por nada também. Seria mentira minha se dissesse que fiz apenas pra acabar com isso. Pois não. Fiz para começar isso. Começar o fim do meu medo.
John segurava James e tentava estancar seu sangramento. Ele estava perdido. Não sabia o que fazer e muito menos como fazer. Eu apenas fiquei parada assistindo ao sofrimento de James que não parou, um segundo sequer, de olhar pra mim. Ele finalmente soube o que eu sentia por ele.
Após aquele minuto que pareceu, talvez, um século. John pediu minha ajuda. Ajuda? Sério?! Depois de tudo que fizeram pra mim?
– Por favor! Você sabe como salvá-lo. Ajude-o que eu te ajudarei. Por favor! – disse John, clamando pela minha piedade. Ele por um acaso teve piedade daquela pobre criança?!
Eu não posso ajudar o homem que acabou com minha vida e a vida de minha família. Não posso salvar alguém que só sabe matar e machucar pessoas. É como se eu estivesse colaborando pra tamanha crueldade. Mas... Mas não posso omitir socorro pra uma pessoa. Por mais que seja “essa” pessoa. Quis ser quem eu sou para salvar vidas, independente de qual vida seja essa, certo?
Mesmo com uma parte de mim gritando e esperneando para que eu o deixasse morrer... Meu corpo já estava agindo como o “correto” deve agir. Corri para cozinha e encontrei uma tesoura, álcool e peguei um pano. Pedi para John deitá-lo no chão e pressionar o ferimento.
Minhas mãos tremiam e eu sentia que a cada segundo podia cair morta, ali mesmo. Rasguei a camisa de James e limpei seu peito com o álcool. Um sentimento estranho e nada conveniente entrou em meus pensamentos. Mas continuei a seguir os procedimentos. Mandei John encontrar analgésicos.
Vi que o corte não estava tão profundo quanto parecia. Era como se eu não tivesse tentado matá-lo. Pois, se eu realmente quisesse fazê-lo teria feito. A questão é: por que não fiz? Eu queria ele morto mais que qualquer um! Não sirvo nem pra matar a pessoa que mais odeio?! James ainda sangrava, era impossível estancar aquilo. Subi por cima dele e pressionei meus punhos em seu peito.
– Olha, eu já sonhei com essa cena... Porém, em um outro “contexto”. – sorriu sarcasticamente.
– Cala a boca e fique vivo. – respondi com dúvida de meus pensamentos.
O sangue começou a parar de escorrer e aos poucos ia diminuindo. James estava pálido e gelado. John voltou com os remédios e encontrou linha e agulha. Tive que fazer o que tinha que ser feito.
Passei novamente o álcool pelo seu peito e comecei a costurá-lo pouco a pouco. Quando terminei, dei os analgésicos a James e com a ajuda de John o deitamos no sofá. Devido a toda “operação” e tudo mais, Ele adormeceu.
– Obrigado, mesmo. – falou John, sem graça...
– E agora, como vai ser? – disse rispidamente.
– Vai ser o quê? – ele estava se fazendo de desentendido.
– Você disse que iria me ajudar, caso eu ajudasse o James. Bom, eu ajudei. Agora quero saber. Como vai me ajudar? Pois, ficar aqui como um “experimento”, escrava e sendo torturada, não é exatamente uma forma de “ajuda” da sua parte. Então, como vai ser?
– Eu, e-eu, não sei... Digo, posso conversar com ele, sabe? Posso tentar mudar o seu papel aqui. — falou com tamanha ansiedade que pareceu mesmo preocupado.
– Falar com ele? Sério?! Eu estou sendo TORTURADA! Sabe o que é isso? Sabe o que ele fez comigo? Eu não posso ficar aqui. Ele vai me matar ou fazer coisa pior! Você disse que ia me ajudar. Você disse!! Você é um mentiro....
Foi quando o inexplicável aconteceu. John segurou meus ombros entrelaçando-os em seus braços. Tapando minha boca com a sua. E inimaginavelmente eu não o impedi. Nos beijamos. Era algo tão... tão estranho. Digo, estranho, mas bom... Bom?! Como isso era possível?! Esse cara é tão louco quanto James! Então minha consciência voltou e junto dela o controle de meu corpo também. O empurrei para longe de mim.
– D-desculpa... – falou baixinho.
– T-tudo bem...
Então fomos para lados opostos. Ele ficou na sala ao lado de James e eu subi para o “meu” quarto. Passei pela sala de jantar. Vi aquela pobre criatura na mesa e vi o sangue no piso. Vi o que fiz. Subi as escadas antigas e ,de certa forma, bonitas. É engraçado isso. Digo. Eu achar a casa da pessoa que contribui pra minha dor, bonita. É algo tão irônico e medonho.
Deitei-me na cama e fechei os olhos. Pensava nos meus pais e em minha irmã. Como será que eles estão? Será que estão juntos em algum lugar que as pessoas chamam de “céu”? Ou estão apenas dormindo? Essa coisa de vida pós-morte, sempre me intrigou. A fé que as pessoas tinham, ou melhor, têm em Deus, é algo que me intriga. Pois, como sabem que ele está lá? Ou, como sabem que ele quer o “nosso” bem? Se ele realmente quer o nosso bem, por que não impede tamanhas crueldades que ocorrem na Terra? Se ele realmente é do “bem”, por que nos criou? Digo, por que criou esse monstro que é o ser humano?
São tantas perguntas e tantas respostas distantes. São tantos os por quês sem porquês. É tanta vida sem vida que a morte é apenas um mero fim de algo que jamais nasceu. E por mais que sinto tanto ódio no meu coração, fiquei abalada com aquilo que as pessoas ousam chamar de “beijo”. Pois pra mim não foi apenas um beijo. E sim... um possível recomeço.
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