O Medo Persiste Naqueles Que Necessitam
10 Parte de mim ecoa nos sonhos
Notas iniciais
mas ta ai, segue mais um capítulo....
Corro. Eles estão quase me alcançando. Ouço cada sola de tênis encostando no chão. Continuo. Escalo, escorrego e repito o processo. Cada vez mais perto. Minhas pesadas pernas começam a ceder. Não posso parar. A respiração fica ofegante. As pedras batem de leve no mar. Rochas. Ondas. O caminho não tem fim. Tenho de encontrar uma saída. Tropeço em um galho e caio. É o fim. Antes de tentar inutilmente me levantar... eles chegam. Uma dor alarmante atrás da cabeça. Minha mão está manchada de vermelho. Sangue. Os gritos ecoam. Não foi só eu que pegaram. Mais sangue. O mar avança novamente. Arrastam-me de volta. Alguém os param. Estou livre. Corro. Corro como se o mundo estivesse atrás de mim, algo que não é exatamente uma mentira. Um rapaz grita:
– Não esqueça de quem você é de verdade.
Vejo o final do caminho se aproximando. É de uma altura absurda. Pulo? Não há mais saída. Aquilo ainda está gravado em minha mente. Não esqueça de quem você é de verdade. Quem sou eu de verdade? Estremeço e pulo. O chão cada vez mais perto e minha vida cada vez mais longe...
Acordo.
Parece que isso não tem fim! A janela está aberta e um vento devastador invade o quarto. O dia ainda está noite. Que horas são? Não posso voltar a dormir... Encolho-me novamente na cama. Por que estou tendo esses sonhos estranhos? O que aquele rapaz queria me dizer? Não posso me preocupar com isso... Não agora. Não com tudo isso acontecendo. Há mais de uma semana eu esfaqueei James e salvei-o no mesmo momento. Impressionantemente ele não veio se vingar... ainda. Mas não quero pensar nele ou em qualquer outra coisa.
Estou com sede.
Levanto-me sorrateiramente e abro a porta. O corredor está um breu. Não posso acender a luz, embora não esteja fazendo nada de errado, eu acho. Já passei por aqui várias vezes, tenho um mapa mental. Vire à esquerda e conte quatro passos. Voilà! Desço as escadas e, desagradavelmente, os degraus rangem quando encosto meus pés neles. Chego na sala. Conto sete passos e quase prestes a chegar na cozinha... Ouço um barulho. Luzes se acendem e uma silhueta se forma em minha frente. James.
– Acordada a essa hora, Emma?
– E-eu não... E-eu não consigo dormir. – gaguejo.
– Oh, teve um pesadelo? Sente-se. – ele diz, indicando uma poltrona na sala.
Sento-me e um medo habitual percorre minha veia. O que ele quer? Maldita hora que vim beber água.
– Você anda tendo muitos pesadelos ultimamente?
Ele sabe quando estou mentindo, mas não posso contar do sonho de hoje. Não sei porquê, mas não posso. Porém devo lhe contar uma parte da verdade, só uma parte.
– Sim. Com bastante frequência... – respondo. Dessa vez não gaguejo como antes.
– Interessante. E você sonha os mesmo sonhos ou são aleatórios? – eu não me lembro...
– Você também tem pesadelos? – tento desviar da pergunta.
– Quem faz as perguntas sou eu. Então...Você sonha os mesmos sonhos? – pergunta rispidamente.
– Não. São aleatórios... Eu acho que estou com sono, vou voltar pro quarto. – digo enquanto me levanto.
– Não! Sente-se e continue aqui. – ele diz, apertando meu braço com severidade.
– Agora, diga-me... Sobre o que são esses sonhos?- não conte sobre o de hoje, não conte. Uma voz ecoa pelo meu cérebro.
– Alguns são eu correndo de algo. Já outros são como se eu fosse uma outra pessoa e estivesse vivendo uma outra vida. – digo com confiança. Boa garota.
– Hum. Como se fossem memórias? – pergunta. Parece mais uma afirmação do que uma pergunta de verdade.
– Sim. Como você sabe? – estremeço e me encolho na poltrona.
– Acho que você deveria voltar a dormir. Teremos bastante afazeres nos próximos dias. Boa noite.
Levanto-me e vou em direção à escada. O que foi essa conversa? Será que esses sonhos têm algum real significado? O piso de mármore está um pouco liso. Relembro-me vagamente do incidente ocorrido aqui. Do dia em que cravei aquela faca em peito dele. Antes de eu subir o primeiro degrau...
– Ah, Emma, eu queria lhe agradecer por ter feito o que tinha de ser feito. E tenho boas notícias: amanhã irei buscar umas coisas em casa e trarei Sammy comigo. Feliz? – diz entre sorrisos que parecem quase sinceros.
– Sammy! Oh, ob-brigada. Muito obrigada. – respondo novamente e um sorriso surge em meu rosto.
Não preciso andar como se fosse uma criminosa, me escondendo por aí. Subo as escadas e atravesso o corredor normalmente. As luzes não foram acendidas, mas não estou com medo. Sammy virá pra cá! Os sonhos e a conversa são esquecidos em alguma porta na minha mente. Ando mais três passos e abro a porta. Uma mão tapa minha boca e tento gritar e me soltar, mas não consigo. É muito mais forte que eu.
–Emma! Sou eu, John. – sussurra em meu ouvido.
– Olha, eu vou lhe soltar e você tem que prometer que não irá gritar, promete? – pergunta quase retirando sua mão de meus lábios. Inclino a cabeça concordando.
– O que você está fazendo?! – pergunto em um tom baixo.
– Ué, vim conversar. – responde como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo.
– Conversar?! Você? – minha raiva começa a aumentar.
– Eu disse que ia te ajudar. E vou. – responde.
– Oh. Certo. E você tem algum plano? – diminuo novamente minha voz e a raiva começa a desaparecer.
– Você vai fugir.
– O quê? Como assim?! Como farei isso? – ele está louco.
– Daqui dez dias os empregados de James virão para abastecer a cozinha e tudo mais. Nisso, um dos portões ficará aberto. Deixarei um carro na rua de trás. Distrairei James com alguns projetos; um dos empregados, o Ben, irá lhe ajudar. A partir daí você estará por conta própria, entendeu? Terá algum dinheiro no porta-malas e duas passagens de avião para um lugar que eu não faço ideia. Assim, caso descubram o que fiz, não poderão saber para onde você foi. – ele diz, ofegante por ter falado tudo tão silenciosa e rapidamente.
Minha cabeça gira. Isso está acontecendo? Eu estarei mesmo livre? É algo tão surreal. Não sei o que pensar. Eu voltarei a ter uma vida! Uma vida de verdade. Eu o abraço com força. John está se arriscando... por mim. Calma. O que irá acontecer com ele caso James descubra? Ele irá matá-lo.
– Por que você quer me ajudar?
– Porque ele já foi longe demais com você. Não merece isso. – ele diz. Suas palavras parecem ser sinceras.
– Como assim: “longe demais”? Comparado com o que ele fez com aquelas crianças, eu não fui exatamente tão condenada assim... Ou tem algo que eu não saiba disso tudo? Pois eu me lembro de uma das conversas que tive com ele e sei que tem algo escondido, algo que não me contaram.- pergunto mostrando o medo em minha voz.
– Eu, e-eu não posso lhe contar. Ele vai ficar sabendo. Ele sabe de tudo. Esqueça isso. Aja normalmente esses dias e tudo sairá bem. – posso sentir o tremor em sua voz.
E após dizer isso, ele saiu. Deito-me novamente na cama, mas sei que não vou dormir. Todas essas conversas ecoam na minha cabeça. Ele vai ficar sabendo. Ele sabe de tudo. O que ele quis dizer com isso?! Não tem como James saber de “tudo”, tem? Como se fossem memórias? Ele disse aquilo como uma afirmação. Eu sei. Meus sonhos têm alguma ligação com James? Eu tenho alguma ligação com ele? Mais perguntas... E menos respostas do que eu queria.
Minha cabeça está explodindo, parece até que eu... Não. Não é possível. Passo a mão atrás da cabeça e sinto um líquido no meu cabelo. Tem cheiro de metal enferrujado. Sangue? Como?! Eu não me machuquei esses dias. Oh! O sonho... Mas, mas isso não é possível! Não. Não é. Tem de ter outra explicação. Não pense. A voz continua na minha cabeça. Como se fosse um outro eu se comunicando comigo mesma. Será que falta uma parte de mim? Besteira. Dorme, Emma. Tudo isso não tem importância. Logo, logo você estará livre. Logo, logo,digo a mim mesma. Qual parte de meu ser está se anunciando?
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