O Medo Persiste Naqueles Que Necessitam
8 A comida não será mais a mesma
Notas iniciais
Uma curva formava o contorno de um corpo em minha frente. Quem era essa pessoa? Estava escuro e não sabia ao certo se era coisa da minha cabeça ou se realmente existia alguém ali. Carreguei meu fraco corpo até uma distância mínima desse ser que estava presente. Ele se aproximava como a morte se aproxima durante uma leve depressão de alguma crise existencial. Não estava com medo, pois a morte era o que eu mais queria naquele momento. Respirei fundo...E segui em frente. Aos poucos, a velocidade foi aumentando e aquilo começou a se aproximar mais e mais... Como o vento ela me arrastou. Estava presa a ela. Tentei me soltar, mas ela não deixava. Senti minha vida sendo sugada e aos poucos minha alma deixava aquela carne que eu julgava ser meu corpo...
Acordei! Esse sonho mais uma vez. Parece que não é só o meu ser querendo ser livre, mas o meu corpo também. Uma dor fraca e agonizante percorreu minhas veias que estavam presas a alguns fios ligados em um aparelho. Era o soro sendo injetado. Tentei me lembrar do que acontecera. Crianças em tubos. Chuva. Tempestade. Acidente... Morte? Não...
Ao meu redor havia uma lareira distante. Algumas poltronas e um tapete bizarro de pele de zebra. Não sabia ao certo que lugar era esse. Lembrava de algum flash na qual John segurava a minha mão. Será possível? Estava tão aterrorizada que não sabia o lembrar ou o que fazer. Arranquei todos os fios que prendiam minhas veias. Andei a procura de não sei o quê. Não sabia em que direção andar, apenas ia e seguia o fluxo do ar. Parei em um quarto totalmente escuro e quente. Havia alguém mexendo na lareira. Puta merda! Era o James...
Ele estava tão vivo quanto um lobisomem em lua cheia. Por que senti esse alívio de vê-lo outra vez? Devem ser os remédios... Tem que ser os remédios. Não sabia se ia e falava com ele ou se apenas voltava para o quarto do qual eu não devia ter saído. Antes de tentar voltar, ele me viu.
– Emma! – disse com tanta exclamação que não sabia se era felicidade ou raiva mesmo. – Não sabia que horas você iria acordar. Fiquei tão preocupado.
– Oi – falei com tanta entonação...
– Sente-se aqui. – disse apontando para uma espécie de cadeira ao seu lado.
– Você se lembra do que aconteceu? – o que ele queria dizer com isso?
– Sofremos um acidente de carro... – não sabia o que dizer. Era isso que ocorreu, certo?
– Hum, certo. Isso. Foi apenas um “acidente”. Pode ir descansar agora, minha querida. Mais tarde lhe chamo para jantarmos.
Voltei para o quarto com mil perguntas se formando na minha cabeça. O que ele quis dizer com: apenas um “acidente”?! Será que tem alguém por trás disso? Será que James tem inimigos desejando a sua morte? Muito provável. Aquele sociopata maluco deve ter mais do que uns milhares de inimigos por aí. Mas... E o John? Quero dizer... Ele não é tão “ruim” assim, certo? Ele não criou essas coisas. Ele não é como o James, certo? Não! Não! Não! Claro que ele é. Ele faz parte disso! Pare de se preocupar com ele. Ele não é seu amigo.
Enquanto discutia comigo mesma, nem vi que alguém entrou no quarto. Por ironia ou não, era o John.
– Emma! Você se sente melhor? – disse com um ar tão atencioso...
– Ah, s-sim. Obrigada por... Você sabe... – idiota! Você não pode agradecer ele por ter tirado a única coisa que você mais desejava...Sua morte!
– Não foi nada. É apenas o meu trabalho... – disse tão sem graça.
Ele então se virou e foi indo em direção à porta. Queria questioná-lo sobre tudo isso. Sobre James e essas coisas que eles fazem. Sobre o porquê de eu estar aqui. Eu sei que sou o “ experimento torturous” e blá blá blá, mas sei também que não é apenas esse o motivo. Quero saber o real significado de ter que ser eu!
Cochilei por alguns minutos ou mais. Tive o mesmo sonho novamente. Aquelas coisas que James injetava em mim ainda devem estar fazendo efeito. Do lado da cama tinha uma caixa amarrada com um fio dourado. Aquilo não estava ali antes. Estava? Devido à minha curiosidade, própria de família, fui ver o que era.
Roupas?! Pra mim? Devem ser, pois é tudo do meu tamanho. Não sabia se isso era algum tipo de gentileza da parte deles ou apenas uma parte do experimento. Mas se são para mim... Devo usar, certo?
Vesti uma camisa branca com uns desenhos estranhos. Nunca vi algo parecido. Pus uma calça jeans escura e calcei aquilo que se pode chamar de tênis. Estava mais para uma bota de exército do que outra coisa. Escutei alguém me chamar...
– Emma! Venha jantar...- uma pessoa gritou.
Passei por quatro quartos (essa casa é muito grande). Virei o corredor ao fundo e desci as escadas de madeira escura. Andei um pouco e cheguei em uma sala. Provavelmente sala de jantar. James e John estavam já sentados e,como cavalheiros,levantaram-se quando cheguei.
– A roupa serviu perfeitamente, não? Você está bela como sempre, minha cara. – disse James.
Esse cara deve estar em um nível de sociopatia muito alto, porque seu humor muda como o céu em dia de verão. Há duas ou mais semanas, não sei ao certo, ele estava me esfaqueando e utilizando todo o tipo de tortura que pode existir... E hoje, está preocupado comigo, preocupado com minha roupa. Afinal, o que ele está fazendo?!
Fiquei tão em choque com a atitude de James que mal percebi o que estava à mesa. Veio uma vontade de vomitar. Uma vontade de chorar. Correr. Morrer. Não sabia como reagir ou como raciocinar direito. Se um dia estive com fome, perdi o apetite para sempre depois do que vi. Algo tão monstruoso e nojento. Uma criança, meu Deus! Até a pior pessoa do mundo não seria capaz dessa atrocidade.
Olhei para o John, na esperança de reconhecer uma angustia nele, ou não sei, qualquer coisa que só de ver em seus olhos, pudesse fazer eu ter... Fé? Qualquer coisa. Mas não. Ele era tão ruim quanto James. Tão louco quanto Ele.
John cortou uma fatia do corpo de alguém que devia estar vivendo a sua infância. Alguém que devia estar respirando. Alguém que devia, não sei, brincando. Simplesmente alguém que devia estar vivo! E não morto e queimado desse jeito. Como se fosse algum animal. Como se fosse apenas comida! Isso é doentio.
Não sei se eles esperavam-me ter como convidada no seu jantar canibal ou apenas uma observadora. Mas não estavam prontos para eu faria em seguida. Corri tão rápido antes de John raciocinar o que eu poderia causar. Peguei a faca grande e afiada que havia na mesa e como num piscar de olhos, cravei-a no peito de James...
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