O Massacre
1 Quinta-Feira
Notas iniciais
Quinta-feira
Marcela estava sozinha em casa assistindo ao noticiário da sua cidade, Silverton, uma cidade pequena, porém com um passado sangrento e triste.
Vinte anos atrás um homem fugiu do manicômio de uma cidade vizinha e cometeu inúmeros assassinatos, se intitulava de corvo vermelho, um dia a polícia recebeu uma denúncia anônima e encontraram o criminoso que fugiu pela floresta e quando se viu cercado jogou-se da ponte jurando que um dia iria retornar e fazer mais vítimas. Seu corpo nunca foi encontrado, mas desde então a pequena cidade comemora sua morte como um feriado.
— o feriado é terça feira Ana, a maioria das pessoas está viajando — Marcela mordeu a sua maçã enquanto falava no telefone com sua amiga — tudo bem, tchau.
Marcela sentiu um arrepio terrível ao escutar relatos de pessoas que viveram a época do massacre enquanto colocava seu telefone na mesa de centro.
A campainha tocou fazendo-a dar um pulo de susto.
— não acredito que esqueceram as chaves de novo — revirou os olhos — pai é você?
Ninguém respondeu, Marcela ficou impaciente então perguntou novamente e continuou sem respostas, respirou fundo e voltou ao sofá. Estava começando a ficar assustada e então desligou a televisão.
A campainha tocou novamente, Marcela pegou uma vassoura e perguntou novamente quem estava em sua porta.
— amor? — falou Cauã.
— você está querendo me assustar? — perguntou abrindo a porta.
— do que você está falando? — perguntou confuso.
— você tocou a campainha e não respondeu — revirou os olhos e arrumando seus cabelos.
— eu acabei de chegar — defendeu-se.
— deve ser alguma criança idiota — ela falou abraçando seu namorado.
— sim — concordou — o feriado do massacre está se aproximando então as pessoas ficam mais obscuras.
— não vejo a hora de sair dessa cidade e deixar tudo isso para trás — ela lhe deu um beijo.
De repente algo aconteceu no andar de cima da casa.
— o que foi isso? — perguntou.
— a janela do meu quarto está quebrada — explicou.
— vamos ver um filme? — ele propôs colocando a chave do carro em cima da mesa.
— você escolhe, enquanto eu vou trancar a janela do meu quarto.
Marcela subiu a escada, foi até seu quarto e encontrou sua janela entre aberta, abaixou-a por completo e trancou-a, em seguida foi em direção ao banheiro. Bufou ao ver que sua franja estava desarrumada, pegou a escova perto da banheira e voltou ao espelho. Ela estranhou o silêncio, chamou pelo namorado e não obteve resposta. Ligou a torneira e lavou seu rosto. Quando chegou a sala minutos depois, encontrou a sala vazia e o controle em cima da mesa.
— você também está querendo me assustar? — perguntou — amor? Cauã?
Ao chegar na cozinha encontrou um pé do chinelo de Cauã.
Próximo a geladeira tinha um papel, Marcela estranhou, pois não lembrava daquilo ali, abriu o papel e encontrou letras que pareciam recortadas de revistas com os dizeres “Está prestes a começar...”
— o que está prestes a começar? — perguntou revirando os olhos, o telefone tocou — alô?
— o massacre — falou uma voz rouca do outro lado da linha.
— quem é? — perguntou.
— alguém que voltou do inferno — respondeu a voz.
— trote é crime idiota — respondeu.
— fala assim comigo de novo e eu arranco sua cabeça! — gritou.
— espera — suspirou — é você Cauã?
— ele está na piscina — Marcela bufou e foi até a janela e ao olhar a piscina viu o corpo do seu namorado boiando e seu sangue se misturando a água.
Ela gritou e trancou as portas.
— você achou mesmo que eu ainda estava do lado de fora? — Marcela sentiu uma pancada em seu braço e caiu.
Um manto vermelho com uma máscara que tinha um bico ficou a sua frente, ela pensou rápido e deu um chute, o mascarado caiu no chão. Marcela correu e pegou a chave do carro de Cauã ao olhar pra trás no local onde deveria estar o assassino não havia nada. Marcela saiu pela porta da cozinha e correu em direção ao carro do seu agora falecido namorado com medo daquilo ser uma armadilha, ao entrar no carro começou a chorar e encostou sua cabeça no banco. Neste momento sentiu algo gelado passar por sua garganta, colocou suas mãos sobre o ferimento, mas o sangue extravasava por seus dedos, ao olhar pelo retrovisor viu o assassino no banco traseiro balançando a faca e ela então caiu sobre o volante e morreu ali.
Em outra casa no fim da rua Nayara se preparava para encontrar seu namorado Thomas.
— como vocês vão manter esse relacionamento à distância? — perguntou Tina sua melhor amiga sentando-se na sua cama.
— não faço ideia, mas precisamos tentar — Nayara respondeu penteando seu cabelo que ia até seus ombros — e você e o Miguel? — perguntou mudando de assunto.
— eu tenho uma novidade — Tina sorriu, mostrando sua mão.
— que aliança linda! — Nayara abraçou a amiga.
— eu o amo desde os doze anos — suspirou — estou realizada!
— fico feliz por vocês! — Nayara terminou de se arrumar.
— você está linda — Tina sorriu.
— obrigada.
Nayara abraçou sua mãe na cozinha.
— quando chegar no restaurante me manda mensagem — sua mãe pediu.
— sem problemas — Nayara sorriu.
— acho que o Thomas vai querer noivar — Tina disse pulando de alegria.
— calma, ainda sou muito jovem para casar— Nayara riu.
O telefone de Nayara tocou.
— que estranho — Nayara disse olhando quem estava ligando — Marcela Duarte.
— achei que vocês não se gostavam — Tina riu.
— não nos gostamos — Nayara respondeu antes de atender a ligação — alô?
— está prestes a começar — falou a voz rouca no outro lado.
— começar o que? — perguntou Nayara.
A ligação foi encerrada pela outra linha, Nayara olhou o celular confusa.
— quem era? — perguntou Tina.
— alguém falando que “algo iria começar” — Nayara fez aspas com os dedos.
— é essa coisa de massacre — Tina revirou os olhos — acho isso uma besteira sem fim.
— foi muito difícil viver naquela época — a mãe de Nayara refletiu.
— nunca falamos sobre isso — começou Nayara — como foi viver aquilo tudo?
— ainda bem que acabou — ela levantou as mãos aos céus — perdi muitos amigos.
— sinto muito — Nayara abraçou a mãe.
— a sorte foi seu pai.
— como assim? — questionou Tina.
— meu pai que fez a denúncia.
— ele é um herói! — Tina bateu palmas.
— falando nisso — a mãe voltou sua atenção a filha — seu pai chega amanhã.
— finalmente — ela abriu um sorriso enorme.
A campainha tocou. Nay foi em direção à porta e quando a abriu não havia ninguém. A noite escura estava começando a ficar mais fria que o normal.
Quando Nayara virou-se para fechar a porta sentiu alguém pegar seu braço e gritou.
— você se assusta muito fácil prima — um garoto alto de cabelos negros falou rindo.
— não tem graça Gustavo — Nayara deu um soco em seu ombro.
— o que aconteceu? — Tina chegou com um controle remoto na mão enquanto a mãe de Nayara estava com a mão no peito recuperando o fôlego.
— só quis fazer uma surpresa — Gustavo disse sorrindo.
— não se brinca com isso! — a mãe de Nayara parecia brava.
— desculpe tia Jô — Gustavo a abraçou— só acho que se eu já estivesse nascido quando esses assassinatos aconteceram eu mataria o corvo vermelho!
— felizmente ele não está mais vivo — Tina — mas com certeza você salvaria a todos nós — ironizou, fazendo Nayara e Jô rirem enquanto o garoto fez cara feia.
A campainha tocou e Jô foi atender, Gustavo se aproximou de Nayara e Tina e entregou dois convites.
— eu vou lutar depois do feriado, gostaria que vocês fossem — falou sorrindo tímido.
— seus pais sabem disso? — Nayara perguntou.
— eles não gostam que eu faça boxe — revirou os olhos — devem ter medo que alguém machuque meu belo rosto — fez charme.
— você é tão engraçadinho — Tina riu.
— já entreguei o convite do Miguel e do Pedro...
— onde vocês estavam? — perguntou.
— eles foram me ver treinar — Gustavo pegou um copo d’água — eles me apoiam...
— nós também te apoiamos — Nayara respondeu sem paciência.
Jô voltou a cozinha acompanhada de um garoto tatuado e com boné.
— Thomas — Nayara lhe deu um beijo.
Thomas cumprimentou todos e então, voltou a sua namorada.
— vamos? — perguntou, sua namorada assentiu e os dois e Jô foram em direção à porta quando viram varias viaturas da polícia passarem.
— o que está acontecendo? — ela perguntou.
— não sei.
Um rosto conhecido passava de bicicleta no sentindo contrário as viaturas e então Nayara o chamou.
— Henrique o que aconteceu?
— a Marcela e o Cauã estão mortos! — ele parecia desesperado.
— de novo não — Jô falou perplexa atrás da filha, ao cogitar que o seu pior pesadelo aconteceria de novo.
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