Notas iniciais
Site não deixando por números romanos e o nome do capítulo em Caps. Desculpe por isso, mas aproveitem a leitura.

LAYLA NÃO DEIXOU QUE QUALQUER UM DE NÓS PUDÉSSEMOS DAR UM PALPITE SEQUER do caminho em que estávamos fazendo. Ela só pediu a Peter que desse a direção em que o vento estava indo e mais nada. Ela parecia que estava completamente chateada ou com raiva, ou com alguma coisa do tipo. Talvez ela não devesse ter gostado de ser salva e cuidada pelo filho do deus do mar. Estranha.

De qualquer maneira, quando Ian conseguiu roubar outro carro — também com a ajuda de Peter novamente —, após ter feito uma 4x4, prata de quatro portas, parar e ferir o dono com uma forte pancada na cabeça, Layla lhe deu a direção em que realmente tínhamos que ir; e ele partiu com o carro para ela quase em toda a velocidade. Ele corria como um louco.

— Tem certeza que estamos certos em ir para Oklahoma de carro? — perguntei a eles completamente indeciso se estávamos fazendo a coisa correta.

— Também tenho essa desconfiança — disse Peter.

— Também acho — disse Ian.

— Lógico que estamos — disse Layla. — Já estamos, de acordo com essa placa que acabou de passar — disse ela apontando para a placa que passou —, na Pensilvânia.

— Ainda acho que deveríamos ir de avião — falei.

— Iremos — disse Layla. Ela parecia mais calma. — Mas só quando chegarmos à Virginia. Fora isso, avião está fora de cogitação — disse ela mais séria. A mudança de humor dela acabava comigo.

— O.K. — foi só o que eu disse.

Por incrível que pareça desta vez, não teve nenhuma explosão, bicho ou criatura estranha nos atormentando até a metade de nossa viagem para a capital da Pensilvânia. Eu não era o único a achar aquilo.

De canto de olho, eu via Peter olhar para todos os lugares do lado de fora do carro; Layla não estava diferente, ela também olhava como uma águia atrás de sua caça — totalmente vidrada em perceber alguma atividade fora do comum na estrada; Ian, coitado, não podia desviar os olhos da frente do carro, mas eu podia jurar eu o via segurando sua lança com força com a mão livre. Ele também estava pronto para qualquer coisa.

Mas quando chegamos a Pittsburgh, que foi o problema. Quando realmente pensamos que poderíamos estar em paz, algo aconteceu.

Ian parou em um bairro nobre da cidade e descemos para arrumar algum lugar para dormir. Achamos um hotel péssimo, mas era o único que conseguiríamos pagar com o nosso dinheiro. Bem, era melhor aquele do que nenhum, certo? — mesmo Layla dizendo que tínhamos barracas o suficiente, mas Ian e Peter não queriam abrir mão de uma cama bem aconchegante. Eu duvidava que aquele lugar tivesse alguma coisa assim, mas eu questionei.

Eu não me importava de dormir em uma barraca. Não mesmo. Mas também não queria abrir mão de uma cama bem aconchegante — se ali tivesse alguma — para poder dormir de verdade.

Aquele era o problema.

Quando entramos naquele hotel de segunda mão, a recepcionista — uma senhora chamada Zoey — nos atendeu.

A recepção do hotel era um cubículo. A recepcionista ficava atrás de um balcão de mármore com a tintura descascando. O teto parecia que iria desabar sobe nossas cabeças — sem contar que ele também estava descascando e faltava um pedaço nele, onde podíamos ver as fiações das luzes. O sofá da recepção estava rasgado e faltava um pedaço em um dos braços. As paredes eram sujas e aquele local fedia. Era completamente repulsivo de estar na recepção, quer dirá nos quartos.

— O que posso ser útil? — perguntou ela com um sorriso branco e radiante.

Passavam-se das onze da noite quando chegamos àquele local, tínhamos acabado de derrotar dois monstros que quase tiraram nossas vidas por conta de um martelo idiota — que Ares me perdoe —, viajado durante horas dentro de um carro, e quando chegamos ali, tínhamos que sorrir? Isso não foi bom para mim.

— Queremos um quarto com quatro camas — falei com sono e certa impaciência na voz.

Zoey fechou a cara para mim no mesmo instante em que ela me olhou.

— Ter educação seria bom, semideus — disse ela.

Assim que ela disse aquilo, todos nós nos preparamos. Sabíamos que não era nada bom ouvir a palavra “semideus” vindo de alguém que aparentava ser... normal? É, por uma pessoa que aparentava ser normal.

— Quem é você? — Ian perguntou tomando a nossa frente.

Ele estava com a lança já nas mãos pronto para um combate.

Zoey riu.

— Apenas uma criatura que procura paz — disse ela. — Mas não posso recusar comida fresca quando ela vem até minha casa.

Tudo aconteceu muito rápido.

Quando Zoey havia se transformado em um escorpião com cara de velha na nossa frente, Ian empurrou-nos para trás bem a tempo de bloquear o ferrão da megera e empurrá-la — não me pergunte como — para longe, destruindo o balcão daquele cubículo imundo que chamavam de recepção.

Levantei-me em um pulo, já com o arco e flecha prontos — mesmo ainda sentindo uma pequena parcela de dor; Layla estava com sua adaga de bronze em punho, mas não no esquerdo. Ela ainda, também, deveria estar sentindo pequenas dores; Peter estava com a espada à mão e pronto para a luta. Ele não parecia estar sentindo dor. Se estivesse, não queria demonstrar.

Apesar do sono, todos nós estávamos despertos. Não queríamos morrer a beira do sono, disso eu tinha certeza. Ian parecia o mais vidrado ali, então ele daria uma boa vantagem para pensarmos em um plano.

— Fiquei sabendo que vocês viriam, semideuses — disse ela. — Onde está o martelo?

— Que droga de assunto! — explodi com raiva. — Não estamos com essa droga de martelo! Será que ninguém acredita em nós? — perguntei mais para mim mesmo do que para meus amigos.

— Não acredito em vocês — disse ela e atacou.

Seu ferrão veio em minha direção, mas eu consegui desviar me jogando para a direita e disparei uma flecha, mas ela havia pegado no lugar errado, alojando-se na parede; Peter deu partida para cima dela, mas ela tinha habilidade com aquele ferrão. Ela fez com que Peter desviasse várias vezes de seu ferrão, enquanto, com suas garras, ela lutava comigo, com Ian e com Layla.

Layla conseguiu desviar por um triz das garras da megera se jogando para frente e, com um movimento rápido, feriu a barriga de Zoey, onde começou a sair poeira dourada. A mesma gritou e deu um empurrão em Layla, com uma de suas garras, fazendo com que ela batesse na parede e deslizasse no chão.

— Não! — berrou Ian e foi até Layla.

Mas antes que ele pudesse chegar até Layla, ela se levantou completamente com raiva e partiu para cima de Zoey, tentando golpeá-la. Zoey tentava desviar, mas os movimentos de Layla eram rápidos e precisos. Ela conseguia acertar Zoey, mas com dificuldade, pois a megera também era rápida.

Comecei a disparar flechas em sua direção, mas Zoey conseguia bloquear as flechas com as garras. Quando dei um mortal para frente, pronto para golpeá-la com uma flecha já pronta para atirar, ela fez um movimento com uma de suas garras e ela me acertou em cheio, jogando-me para trás e batendo em uma parede. Eu ouvi um estalo de algo se partindo e eu desejei que não fosse meu arco. Mas, sem sorte. Quando olhei, meu arco havia se partido em dois. Era o fim para ele.

— Não adianta lutarem, semideuses — disse Zoey um tanto ofegante. — Eu irei matá-los facilmente. Não adianta tentarem me matar...

Antes que ela pudesse terminar a frase, uma trovoada estalou do lado de fora do hotel e um raio surgiu pela porta, indo em direção a Peter. Quando o raio chegou até ele e fez voltas em seu corpo, ele lançou o raio em Zoey, onde a eletrocutou e a fizera ficar imóvel.

Mas antes que eu pudesse sacar minha faca de bronze para atacar, uma lança atravessou o lugar e acertou Zoey bem em seu rosto. Ela explodiu virando poeira de monstro e todos nós desabamos no chão, completamente exaustos.

Eu poderia dizer que tínhamos dormido bem naquele hotel mixuruca, mas eu estaria mentindo.

Após todos nós termos lutado com Zoey, Ian, Layla, Peter e eu decidimos que seria menos perigoso dormirmos em qualquer lugar longe da civilização daquela cidade. Então, depois de andarmos de carro por mais meia hora, conseguimos encontrar, o que seria, uma pequena floresta bem escondida de tudo e montamos acampamento ali.

Não foi nada agradável, claro.

Todos nós estávamos completamente mortos de sono, exceto Peter. Ele parecia mais disposto, então ele decidiu fazer a primeira vigia de nossa primeira aventura e o resto de nós não questionou quando ele se voluntariou para ficar de guarda.

Quando entramos dentro da barraca absurdamente grande — não me pergunte como Ian havia conseguido aquilo, porque eu não sabia —, entramos desesperadamente em nossos sacos de dormir e o meu sono veio logo em seguida após que depositei minha cabeça em meu travesseiro.

Eu também poderia dizer que tinha sonhado com meus irmãos no Acampamento Meio-Sangue nos divertindo em um dos jogos do acampamento, mas eu também estaria mentindo.

Uma vez que Percy havia dito que ele mais tinha pesadelos (revelações, visões ou qualquer outra coisa que você possa chamar, mas pesadelos) com monstros, e coisas do tipo, do que sonhos. Eu não duvidei nenhum segundo. Afinal, eu também tinha e esse não foi diferente.

Eu estava em um local escuro, que mais parecia uma caverna, e as únicas coisas que iluminavam o local eram tochas acesas em alinhamento pelo local e duas ao lado de um trono grande de pedra que tinha ali.

Quando adentrei mais no local, eu vi dois lagartos (ao menos era como eles pareciam para mim) como Rex e Dex Future, mas eles eram diferentes. Ao invés de terem seus corpos humanos, eles tinham corpos peludos; suas garras nas mãos eram mais assustadoras e seus rostos eram, também, uma mistura de leão com a boca de um crocodilo, porém bem mais tenebroso. E, como os irmãos Rex e Dex, eles pareciam ter sido costurados pedaço por pedaço e também eram idênticos como os outros irmãos.

Eles estavam curvados e de joelhos de frente para o trono, mas antes que eu pudesse pensar o porquê eles estavam curvados e ajoelhados, um monstro surgiu ali.

Um monstro todo reptiliano apareceu de trás do trono e se sentou nele. Ele não parecia ter sido costurado. Era completamente como um crocodilo. Era verde, com escamas e cauda. Seus pés eram garras muito mais afiadas e assustadoras do que os irmãos Rex e Dex e do que os dois ali presentes. Seus cabelos (aquilo era mesmo cabelo?) eram cobras. Grandes cobras verdes sibilavam ali. Ele tinha espinhos por volta dos ombros e sua boca de crocodilo mostrou vários dentes afiados e amarelados quando ele bocejou.

— A espera desses semideuses idiotas está me cansado — disse ele com uma voz sibilante.

— Meu senhor — disse o monstro da direita —, eles estão para chegar. Chegou aos meus conhecimentos que eles derrotaram Rex e Dex Future.

— Se eles realmente passaram por eles — começou o monstro da esquerda —, significa que eles estão em nossa direção. Vindo direto para nós.

— Assim espero — disse o monstro no trono e logo em seguida ele bocejou mais uma vez. — Estou preso dentro dessa caverna há éons. Não vejo a hora de sair daqui. O martelo me ajudaria.

— Senhor? — disse o monstro da direita.

— O que quer, Tracus? — perguntou o monstro no trono.

— Ouvimos dizer que o são quatro a nosso caminho — disse Tracus.

— Um filho do deus da guerra. Uma filha da deusa da sabedoria. Um filho do deus do céu e um filho do deus do mar — disse o monstro da esquerda.

— Tem certeza disso, Dracus? — perguntou o monstro do trono.

Ele pôs as garras sobre os braços do trono de pedra.

— Sim, senhor — disse Dracus.

O monstro do trono pareceu sorrir.

— Por isso que vocês são os meus filhos especiais — disse ele. — Sempre me mantêm informado de tudo. Por isso os mantenho perto de mim. Meus filhos especiais. Infelizmente seus irmãos Rex e Dex não conseguiram ter a mesma sorte de vocês. Acabaram mortos por um banho de pirralhos semideuses — ele pareceu raivoso ao terminar a frase. Ele deveria estar completamente com raiva de Ian, Layla, Peter e de mim. Afinal, havíamos matado seus filhos. Ao menos eu matei um e Ian outro.

— Pai — disse Tracus. — Os que os mataram foram o filho do deus do mar e o filho do deus da guerra. Eu mesmo quero matar o filho do deus do mar.

— E eu a filha da deusa da sabedoria e o filho do deus do céu — disse Dracus.

Os dois monstros curvados levantaram suas cabeças e ambos olharam o pai com raiva, sede de vingança pelos irmãos.

Seu pai riu — ao menos foi o que pareceu, pois seus dentes apareceram, mas ele não abriu a boca.

— Vocês me impressionam com essa sede de vingança, meus filhos — disse ele o monstro do trono. — Mas, para a infelicidade de vocês, somente eu posso matar o filho do deus da guerra. Principalmente quando ele trará o martelo para mim. Vocês podem se contentar com os outros três. O filho do deus da guerra tem contas a acertar com o Roxonus. O grande senhor dos esgotos!

Seus filhos ficaram de pé e eles gritaram em comemoração.

Eu realmente não acreditei quando ele havia falado aquilo. “Senhor dos esgotos”? Jura? Eu sabia que os monstros podiam ser bastante idiotas e desprezíveis, mas... “senhor dos esgotos”? Isso já era de mais. Eu tinha que correr atrás de um martelo idiota (e, mais uma vez, que Ares me perdoe) e ainda tinha que lidar com um crocodilo idiota? Dá para acreditar? Não!

— Quanto tempo eles devem chegar? — perguntou Roxonus.

— Não sabemos, pai — falou Dracus.

— Não aguento mais ficar aprisionado nessa caverna nesse maldito Estado — disse Roxonus revoltado. — Não vejo a hora de minha liberdade...

— E a terá, pai — disse Tracus. — O senhor voltará a comandar os esgotos de todo esse país e do mundo! — ele parecia feliz com esse plano.

— Também acho, pai! — disse Dracus.

— Acha? — perguntou seu pai com certa raiva na voz.

Dracus pareceu se encolher.

Roxonus, com um movimento rápido, chutou o rosto reptiliano de Dracus e ele voou longe. Tracus não ousou se mexer — provavelmente ele sabia que se questionasse ou se metesse, iria ter o mesmo destino que o irmão.

Primeiramente, eu não sabia que conseguiria sentir pena de um monstro. Segundo, eu não pensava que o pai monstro de uma criatura horrenda — e monstruosa — como Dracus poderia fazer isso com ele. Afinal, Dracus era seu filho e fazer aquilo com um filho não era nada legal. Ao menos eu achava.

Roxonus levantou-se do seu trono e foi até Dracus, se ajoelhando ao lado dele. Dracus estava liberando um líquido verde de sua boca, que presumi ser seu sangue. Roxonus agachou-se ao lado do filho e disse:

— O que você disse?

Dracus tremeu.

— Pai, me perdoe — apressou-se Dracus em dizer. — E-eu, eu... eu não queria...

— Shhh — Roxonus passou a mão pelo rosto de Dracus. — Eu também não queria fazer isso com você, meu filho — Roxonus já estava com seu tom de voz normal. — Perdoe-me?

Ele estendeu a garra para o filho e Dracus a pegou, levantando-se com um pulo. Roxonus abraçou o filho e, segurando em sua garra, o levou de volta para perto do trono, onde se sentou e Dracus ajoelhou-se e curvou-se para o trono novamente.

— Pai, eu realmente não queria...

— Shhh — silenciou Roxonus. — Eu entendo, meu filho. Você não queria dizer aquilo. Eu sei que você queria dizer que eu iria reinar como antes.

Sério que Roxonus havia reinado uma vez? Não parecia. Eu nunca tinha ouvido falar sobre ele. Ninguém no Acampamento Meio-Sangue havia mencionado um senhor dos esgotos. Tampouco mencionou que ele tinha filhos. Mas, como sempre, Layla poderia saber sobre ele. Ela sempre sabia de tudo. Eu tinha que perguntar à ela depois.

— Eu irei reinar novamente — começou Roxonus. — E, desta vez, farei com que o filho do deus da guerra, a filha da deusa da sabedoria, o filho do deus do céu e o filho do deus do mar curvem-se de ante de mim.

— Como pretende fazer isso, pai? — perguntou Tracus.

— Isso, meu filho, será uma surpresa — disse Roxonus. — Na hora certa, você e seu irmão terão que me ajudar. Mas isso só acontecerá no momento certo.

Os dois irmãos se olharam e ambos pareceram dar um sorriso — mas parecia uma careta ao invés de sorriso —, logo em seguida olharam para o pai e disseram:

— O que o senhor quiser, pai.

Roxonus também tentou sorrir.

— Ótimo — disse ele e logo em seguida bocejou. — Agora se me derem licença — ele se levantou do trono de pedra — irei dormir.

— E quanto a nós? — perguntou Tracus.

Roxonus virou-se para eles.

— Façam com que os semideuses cheguem ilesos até a mim. Não deixem que os outros tentem matá-los. Eles têm que vir a mim.

Dizendo isso, Roxonus olhou diretamente em minha direção — eu sabia que ele não poderia me ver, mas de qualquer maneira aquilo me fez sentir medo. Mesmo em através de um sonho, eu consegui ter medo.

Roxonus virou-se para trás do trono e meu sonho ficou escuro e depois eu não vi mais nada.

Na manhã seguinte, Peter estava tão cansado que ninguém se importou quando ele começou a dormir ao meu lado no banco de trás do carro — logo após de termos apagado a fogueira, desmontado a barraca e guardado nossos sacos de dormir.

Mas quando pegamos a estrada, Layla deu a direção correta em que deveríamos seguir — após vasculhar todo o carro atrás de um mapa — e Ian a seguiu sem questionar. Ele ainda estava concentrado em recuperar o martelo do pai. Contando com aquele dia, fazia dois dias que tinham se passado e só tínhamos mais três dias. Então Ian pisou fundo no acelerador e em questão de horas, já estávamos no aeroporto da Pensilvânia.

— Eu não posso ir — falei para eles quando saímos do carro dentro do estacionamento do aeroporto. — Ao menos eu acho que não.

— Por quê? — perguntou Ian.

— Uma vez.... — comecei — Percy me disse que certo deus não gostava dos filhos do deus do mar nos ares...

— Zeus — disse Layla e eu assenti. — Eu esqueci completamente!

Ela pôs a mão na testa.

— Pois é — confirmei. — O senhor dos céus não gosta muito de mim.

— Não acho que meu pai teria alguma objeção por ter você se transportando pelo céu — disse Peter com certa raiva. — Você está tentando ajudar Ares e tentando impedir de ter uma guerra em pelo Olimpo. Meu pai não iria querer te matar no céu. Ele não seria tão idiota assim.

Assim que ele disse aquilo, um trovão estalou no céu.

— Cuidado com suas palavras — o alertei. — O pai pode ser seu, mas o céu pertence a ele.

— Pouco me importo — disse Peter dando de ombros. — Vamos logo.

Eles viraram para o aeroporto, mas eu não me movi.

— Eu não vou — falei.

— Ah, você vai, sim! — disse Peter com raiva e ele pôs a mão em meu ombro esquerdo. Mas, quando ele fez isso, tirei sua mão no mesmo instante, pois ele passou a corrente elétrica de sua mão para mim, me dando um choque que me deixou agoniado.

Peter caiu no chão desajeitadamente.

— Não repita isso — falei com raiva quando o empurrei com força, onde ele bateu em nosso carro e o alarme disparou. — Isso dói.

— Desculpe — falou ele se colocando de pé. — Não foi minha intenção. Não quis descontar minha raiva em você. Tenho raiva do meu pai por conta dessa rixa que tem com o seu. Isso é completamente ridículo.

— Eu também acho — falei dando de ombros e outro trovão estalou no céu. — Mas é o que eu sei.

— Temos que arrumar outra forma de irmos para Oklahoma — falou Layla.

— Não temos muito tempo — interveio Ian. — Só temos hoje e mais três dias.

— Vão vocês de avião — falei. — Eu arrumo outro jeito de ir para lá.

Peter balançou a cabeça freneticamente.

— Não! — disse ele com raiva. — Você vem conosco...

— Só se eu quiser assinar a sentença de morte de todos nós — o interrompi.

Todos ficaram em silêncio por um momento.

Eles sabiam que eu estava certo.

Percy me disse que, em uma de suas visitas ao Acampamento Meio-Sangue, ele nunca havia viajado de avião para qualquer lugar. O senhor dos céus não gostava nenhum pouco de meu meio-irmão mais velho e provavelmente não gostaria de mim. Principalmente sabendo que eu era filho do deus do mar. Filho de seu irmão (ou seja, meu tio, para todos os efeitos), cujo qual tinha uma rixa — que nem eu sabia qual era direito, vale lembrar.

Todavia, Percy sempre viajou de carona em carros, barcos e, ou até mesmo, de cavalos. Como em seu pégaso Blackjack...

Blackjack!

Estalei os dedos e todos eles olharam para mim.

— É isso! — falei já com a ideia em minha cabeça.

Eles franziram a testa para mim, me olhando como se eu fosse um louco.

— Isso o quê? — perguntou Ian.

— Pégaso — resumi tudo. — Percy nunca viajou de avião, mas sempre tinha seu pégaso. O Blackjack! — falei com um sorriso no rosto.

Eles me olhavam como se não entendesse nada.

— Você está bem, Trevor? — perguntou Peter.

Revirei os olhos com certa raiva.

— Estou — falei para ele. — Vocês vão de avião e eu vou de pégaso! — resumi tudo novamente. — Ideia perfeita!

Eu quase pulava de euforia.

— E ele voaria tão rápido do que um avião? — perguntou Layla.

Dei de ombros.

— Não sei. Talvez sim. Percy sempre dizia que Blackjack sempre voava rápido — falei mais esperançoso. — E é a única opção que temos.

Dessa vez, foi Ian que estalou os dedos.

— Tenho uma ideia — disse ele. — Blackjack não teria mais quatro amigos para se juntar a ele? Daí todos nós iríamos como ir juntos.

— Talvez ele possa trazer — disse Layla esperançosa.

— Verdade — disse Peter.

— Não parece uma má ideia — falei.

Assim que falei, pus o dedo indicador e o polegar da mão direita na boca e assobiei. Bem alto para que Blackjack pudesse me escutar.

Como eu já esperava, ele não veio no mesmo instante. Meus amigos já estavam começando a desconfiar que Blackjack pudesse aparecer. Mas uma vez que Percy disse que ele me atenderia quando eu pedisse — ou melhor, assobiasse —, ele iria me atender. E eu esperava que ele realmente viesse. O futuro, não só do Olimpo, mas como o de todo o mundo (se duvidasse) estava em jogo. Tínhamos que resolver aquilo.

Nem dois minutos se passaram quando eu ouvi o relinchar de um cavalo vindo do alto.

Quando olhei para cima, lá estava ele. O pégaso de meu irmão, Blackjack.

Blackjack era um garanhão bem bonito. Suas asas negras eram tão grandes quanto seu próprio corpo. Ele desceu do céu e aterrissou bem a nossa frente. Os humanos pareceram não notar. A névoa estava fazendo o seu trabalho muito bem.

Olá, segundo-chefe!, disse Blackjack relinchando. Ou só chefe, como você preferir.

Ri dele.

— Ei, Blackjack! — falei para o pégaso. — Pode me chamar do que quiser — falei acariciando sua cara.

Ótimo!, disse ele levantando as patas da frente. Segundo-chefe é muito grande para eu poder falar. Tenho certa preguiça. Ele emitiu um som que parecia ser uma risada.

Ri com ele.

— Como você preferir — falei rindo ainda acariciando ele e vi meus amigos me olharem torto. — O quê? — franzi a testa para eles.

— Você fala com um pégaso? — perguntou Ian.

— Óbvio, não? — arqueei uma sobrancelha para ele. — Meu pai também é o deus dos cavalos e pégasos.

— Não sabia — disse Ian.

— Nem eu — afirmou Peter.

Crianças ignorantes, disse Blackjack relinchando de raiva.

Concordei com a cabeça com o que Blackjack disse sem que os outros notassem.

— Que seja — disse Layla. — Será que tem como ele trazer mais amigos? Pergunte a ele, Trevor.

Eu posso ouvir você, garota, disse Blackjack. Chefe, diga a ela que eu consigo ouvi-la. Que ela não precisa fazer você de interprete, disse ele com raiva. Ele também relinchou.

— Está tudo bem, Blackjack. Sem raiva — falei para ele acariciando seus pelos negros. — Blackjack disse que pode te ouvir, Layla. Que não precisa me fazer de interprete — passei o recado.

— Ah, desculpe — disse ela alisando o pelo negro de Blackjack. Ele gostou do carinho, pois abaixou a cara para que ela pudesse alisá-la. — Tem como você trazer mais três amigos?

Mas é claro que posso!, disse Blackjack com entusiasmo. Ele relinchou mais uma vez. Mas aquele relincho não foi um relincho normal. Foi mais longo. Mais demorado e mais alto.

— Ele está chamando os amigos — falei para eles.

Todos nós olhamos para o céu atrás dos pégasos e, em menos de dois minutos — como Blackjack —, os outros três aterrissaram graciosamente no chão a nossa frente. Três pégasos de cores diferentes. Um azul, um branco e um marrom.

Chefe, conheça meus amigos, disse Blackjack. Galera, conheçam o chefe!

Prazer em conhecê-lo, chefe, disse o pégaso azul.

Prazer, disse um pégaso branco.

Prazer em conhecê-lo também, chefe, disse o pégaso marrom.

Todos os três se curvaram diante de mim assim que me aproximei deles e alisei seus respectivos pelos.

— Não precisam se curvar — falei para eles e eles voltaram a me olhar. — Prazer em conhecê-los também — sorri para eles e todos relincharam inclusive Blackjack.

— Trevor, não temos muito tempo — falou Layla.

Assenti para ela.

— Blackjack, eu tenho uma missão para você e seus amigos — falei sério para ele.

Pode mandar, chefe!, disse ele. Topamos qualquer coisa.

Assenti para ele.

— É uma viajem para Oklahoma. Temos que ir para lá.

O que houve, chefe?, perguntou ele com certa preocupação na voz.

— Nada que possamos resolver — afirmei. — Vocês conseguem?

Os quatro pégasos relincharam.

Mas é claro que podemos, disse o pégaso azul.

O que acha que somos, chefe?, perguntou o pégaso marrom.

Acha que somos um bando de maricas?, perguntou o pégaso branco.

Somos fortes, chefe, disse Blackjack. Claro que conseguimos!, ele relinchou de novo.

Ri.

— Ótimo — comemorei. — Podemos montar?

Claro!, disseram os quatro juntos.

Quando olhei para eles três, os três estavam me olhando esquisito. Franzi a testa para eles no mesmo instante.

— É, ao mesmo tempo, incrível e bizarro — disse Ian e aquilo me fez revirar os olhos para ele com raiva.

— Não querendo desprezar seus talentos, Trevor — disse Peter.

— Mas é absurdamente extraordinário — disse Layla. — Incrível.

Aquilo me fez sorrir, mas meu sorriso logo desapareceu.

— Eles estão esperando a gente montar — falei para eles.

Eles três assentiram e montaram.

Layla montou no pégaso branco e ele havia dito que havia gostado dela, pois ela não era agressiva em sua montaria. Muito pelo contrário. Ela era delicada e graciosa na hora de montar; Ian montou no pégaso marrom, onde ele havia dito que Ian era um rapaz de grande porte e forte, então eles tinham uma química especial — Blackjack interveio dizendo que o pégaso marrom era louco por guerras. Era um tanto estranho pensando que um pégaso gostaria de uma guerra; Peter montou no pégaso azul. O pégaso azul havia gostado de Peter. De alguma maneira, Peter sabia montar e tinha pulso firme com o pégaso; e eu montei em Blackjack. Blackjack parecia que me conhecia, pois ele não parava de me chamar de chefe e fazer com que eu me sentisse a vontade com ele. Ele era o maior pégasos ali, então ele parecia ser o chefe.

Todos prontos, chefe?, perguntou ele.

— Prontos? — perguntei para Ian, Layla e Peter.

Eles assentiram com as cabeças.

— Prontos, Blackjack — falei para o pégaso negro.

Vamos nessa!, disse Blackjack

Vamos!, disse o pégaso marrom

Demais!, disse o pégaso azul

Legal!, disse o pégaso branco.

Quando olhei para trás, consegui ver o três pégasos levantando as patas dianteiras, assim como Blackjack estava fazendo. Eles correram em direção à estrada, mas antes mesmo de chegarem ao viaduto, eles bateram as asas e levantaram voo.

Eu podia jurar que sentia os olhos de Zeus em mim. Mas eu não precisei avisar para Blackjack que eu não podia voar tão alto, senão o deus do céu iria me matar, pois ele havia dito que o mesmo era com Percy. Eles podiam voar, mas não podiam ir tão alto e eu também não queria. Como eu havia dito, eu tinha medo de altura.

Blackjack e seus amigos voaram em uma velocidade que eu não conseguia calcular. Não era na velocidade da luz, mas eu sabia que conseguia chegar a uma determinada velocidade que eu não conseguia calcular. Percy também havia me dito isso.

De qualquer forma, quando olhei para trás para ver meus amigos, eles estavam firmes em seus pégasos. Ian estava mais centrado do que eu poderia imaginar; Layla estava totalmente tranquila e concentrada; Peter era o que estava mais relaxado além de Layla. Se ele caísse, ele conseguiria sobreviver? Provavelmente sim. Ele era filho do deus do céu. Ele tinha algum truque que o faria sobreviver; e eu estava seguro com Blackjack — mesmo eu tendo montado nele pela primeira vez na vida naquele dia. Blackjack era um garanhão amigo. Disso eu sentia e já sabia.

Quando Blackjack disse que havíamos chegado em Virgínia, eu olhei para o tempo e estava começando a escurecer. Parecia que se passavam das cinco da tarde. Provavelmente teríamos que acampar em Virgínia e, além do mais, Blackjack não poderia viajar direto para Oklahoma. Blackjack e seus amigos precisariam de descanso. Afinal de contas, ele também era um ser-vivo.

Mas Blackjack não gostou muito da ideia de descansar. Ele seguiu, com os amigos, direto para Oklahoma, mas, como eu previa, ele não iria conseguir viajar por muito tempo. Quando ele realmente precisou descansar, ele já estava sobrevoando Tennessee, mais precisamente em Nashville. A terra do country. Que ótimo.

Todos nós aterrissamos no solo caipira — bem longe da cidade, pra ser mais exato, porque eu não queria que Blackjack fosse visto pelos humanos —, Blackjack e os amigos sumiram de nossas vistas para descansar. Na verdade, eles se foram quando eu os liberei para descanso, quando precisasse deles, eu os chamaria — e Ian, Layla, Peter e eu fomos procurar algum local para poder descansar.

Eu não tinha reparado que Peter e Layla estavam com ataduras até eles tirarem os casacos.

— Porque as ataduras? — perguntei a eles.

— Minha queimadura foi tão feia e a cicatriz me incomoda tanto que nem quero vê-la — disse Peter. — Você fez um ótimo trabalho, Trevor, mas mesmo assim, eu não gosto muito de olhá-la.

— Justo — admiti. — Você terá que olhá-la de qualquer maneira — falei dando de ombros.

— É, mas não agora.

— Que seja — dei de ombros novamente. — E você? — virei-me para Layla.

— Eu não gosto de ter a sensação de meu braço estalando — disse ela. — Aqui tem madeiras como talas. Não ajuda muito, mas já é um bom progresso.

— Hmmm — falei.

— Mas eu tirarei depois. Não agora, mas por enquanto prefiro ficar com as talas. Depois irei só removê-las, mas a atadura continuará — finalizou ela.

Dei de ombros também. Pessoas esquisitas, reclamei mentalmente.

— Você fez um excelente trabalho, Trevor — disse Ian. — Mas aquilo foi demais para nós. Não conseguimos acreditar direito que realmente tinha curado a gente com água — ele me olhou com cara tristonha. — Por mais que sejamos gratos a você, ainda achamos aquilo surreal que o trabalho manual que nós fomos designados a fazer quando nós feríssemos feridos foi mais por hábito — finalizou ele.

Dei de ombros e, virando-me de costas para eles, dei alguns passos à frente.

Se eles quisessem o “trabalho manual” sendo feito, porque não simplesmente recusaram a minha ajuda? Eu poderia ter poupado tempo e, a essa altura, já estaríamos em Oklahoma, teríamos recuperado aquele martelo idiota (dessa vez, eu não me importava mais com Ares) e teria voltado para meus irmãos no Acampamento Meio-Sangue.

A raiva tomou conta de mim com certa rapidez que senti minhas mãos tremerem e seguido de um grande tremor no solo a meus pés. Eu não sabia o que estava provocando aquele tremor. Provavelmente aquele tremor seria alguma placa tectônica se chocando, mas eu não dei importância e não tinha nada a nosso redor para poder quebrar.

— O que está acontecendo? — ouvi Peter perguntar.

— Terremoto? Há essa hora? — perguntou Ian.

Como se terremotos só ocorressem em plena luz do dia. Burrice da parte dele.

— É o Trevor — disse Layla para eles e eu compreendi. — Trevor, acalme-se — disse Layla.

Ela estava certa. Eu não poderia me zangar por um motivo bobo. Além do mais, tinha caído a ficha. Eu era o causador daquele tremor. Afinal, meu pai também era o deus dos tremores e maremotos, certo? Então eu também tinha conseguido aquela habilidade dele. Isso seria bom em alguma luta, só me perguntei o porquê eu não tinha manifestado esse poder antes. Como eu queria brigar com alguém agora, pensei com certa raiva de mim mesmo agora. Não deles.

Mas eu tinha que me acalmar. Respirei fundo duas vezes e os tremores começaram a diminuir e, depois de uns segundos, finalmente acabaram. Virei-me para eles completamente sério e disse:

— Temos que arrumar um lugar para dormir.

Peter e Ian pareceram engolir em seco. Layla era a única que parecia normal. Sem parecer se importar com o tremor.

— Primeiramente, não podemos ficar em Nashville — disse ela. — Aqui é muito movimentado. Monstros podem estar em qualquer lugar e sem contar que aqui é muito country.

Arqueei uma sobrancelha para ela.

— Precisamos de um local para ficar. Um que não chame muita atenção e que disfarce nosso cheiro.

— Cheiro? — perguntou Ian.

— Que cheiro nós temos? — Peter fungou o próprio sovaco.

Fiz uma careta para ele.

— Não entendi a parte do cheiro.

— Vocês são burros demais — explodiu ela. — Semideuses têm um cheiro especial para os monstros. Por isso eles conseguem nos encontrar. Disfarçando nosso cheiro, conseguiremos descansar melhor. Vamos para Memphis. Lá é o melhor lugar em que posso imaginar para descansarmos e é longe da capital. Mais perto do Arkansas. E assim estaríamos mais perto de Oklahoma e pouparíamos tempo de sobra.

Ela realmente era uma sabichona. Agora, finalmente entendia o que aquele verso da profecia queria dizer. Uma por conta de sua sabedoria e estratégia. Aquilo só podia se referir a ela. Disso eu já sabia, tendo em conta que ela era a única menina ali e a frase estava julgada no feminino. Mas não era por conta disso que eu sabia que ela era a menina da profecia. Layla era completamente esperta e sábia. Suas estratégias nunca falharam, ao menos foi o que ela tinha demonstrado na batalha que travou com a megera escorpião no dia anterior. Percy havia me contado de sua irmã, Annabeth, era a filha preferida de Atena e eu sabia que Layla seria a segunda, pois eu não via como outro filho ou filha de Atena poderia fazer as coisas que Layla fazia em combate, inteligência e, acima de tudo, sabedoria.

Ian era a mesma coisa. Um por ter força o suficiente para um combate corpo a corpo. Aquela também eu entendia. Ele havia travado uma luta justa com Dex dois dias atrás. Ele parecia que tinha aumentado de tamanho e de massa muscular. Ele era um bom lutador. Isso era completamente visível. Afinal, ele era filho do deus da guerra, era de se esperar que ele fosse um bom lutador.

Sem contar Peter. Quando ele estava voando no pégaso azul, ele não parecia se importar com a altura e o vento tampouco parecia incomodá-lo.. O outro por conta de saber guiar-se pelo ar. Peter não era nenhum idiota. Todos sabiam que ele poderia se guiar pelo ar. Também era notório. Sem contar que ele podia invocar um raio, trovão, ou tempestade que quisesse. O ar o guiaria de qualquer maneira e o confortaria também. Se ele caísse do pégaso — se ele caísse —, ele poderia voar. Eu sei que parece loucura, mas eu não duvidava.

Todos nós ali realmente tínhamos que ir a essa missão. Sem dúvidas Quíron estava certo em nos selecionar para essa missão baseado na profecia de Rachel Elizabeth Dare, o nosso Oráculo.

Eu também não via outro filho de Poseidon designado para a frase que cabia a mim. Eu era o único filho de Poseidon que poderia fazer aquilo que fiz com eles. Somente eu. Nem mesmo Percy, o filho favorito/preferido de Poseidon fazia cura com as mãos através das águas. Ele mesmo disse isso para mim. Então aquela missão também era minha.

De qualquer modo, quando Ian, Layla, Peter e eu fomos para mais perto de Nashville, como de costume, Ian e Peter roubaram mais um carro, mas desta vez era uma BMW preta. Eu me perguntava como eles conseguiam esses carros, mas Ian garantiu que havia feito com que o dono do carro não perguntaria mais sobre ele, mesmo eles tendo quase sido pegos pela polícia, então eu nem reclamei de nada.

Quando entramos dentro do carro, Peter dormiu logo em seguida e, como antes, não nos importamos. Ele não havia conseguido descansar de forma adequada na noite anterior por conta da vigia. Ele realmente deveria estar bastante cansado.

Ian pisou fundo no acelerador novamente. Em questão de duas horas, já estávamos em Memphis. Uma das maiores cidades do Tennessee e me perguntei se Layla realmente queria ficar naquela cidade, mas, como ela era filha da deusa da sabedoria, sabia exatamente o que estava fazendo. Então eu nem questionei.

Assim que pisamos em Memphis, senti um tanto de calor. Aquele subtropical úmido era totalmente diferente do clima frio de Chicago, minha cidade. Mas eu tinha que me acostumar. Eu havia enfrentado monstros durante dois dias. Climas subtropicais não iriam me aterrorizar agora — apesar de eu querer voltar para o frio de Chicago.

Layla nos designou para um local um tanto abandonado da cidade de Memphis — depois de olhar no mapa que ela pegou do segundo carro saqueado por Ian —, onde poderíamos acampar. A decisão de acampar foi de todos nós. Não queríamos outro imprevisto por algum escorpião gigante ou crocodilo ambulante.

Conseguimos chegar em segurança — mesmo achando aquilo incrível — ao determinado local em que Layla nos designou. Montamos nossa barraca e Peter dormiu logo em seguida que a barraca havia sido montada, seguido de Layla. Ela era a que mais parecia exausta depois de Peter.

Contudo, Layla e Peter dormiram, onde Ian e eu fazemos nossa escolta da noite.

Do lado de fora, dava para ouvir os roncos de Peter — ele deveria estar em um sono profundo, por isso os roncos. No carro, ele não tinha roncado; quando olhei para dentro da barraca, Layla também parecia estar em um sono pesado, pois ela não se movia. A única coisa que dizia que ela realmente estava viva era o seu tronco se mexendo por conta da respiração.

Voltei-me para fora da barraca e bocejei. Eu estava começando a ficar com sono, mas não me dei ao luxo de dormir. Estava chateado demais com meus colegas de missão para poder dormir. E, para falar a verdade, eu nem sabia o porquê Ian estava de vigia comigo naquela noite.

— Então... — começou ele, mas eu não disse nada. Ainda estava fitando as árvores e o lago que tinha a nossa frente. — Você ainda está chateado?

— Com certeza — afirmei.

— Já pedimos desculpas...

— Não é por conta disso — menti. — Meu arco já era.

— Oh! — surpreendeu-se ele. — Não tinha reparado.

— Percebi.

Eu realmente estava chateado por conta daquilo. Eu não tinha a arma que mais me identificava. Eu não era tão bom como ele com uma adaga, faca, lança ou espada. Eu não era nem tão bom com uma espada como Charlie! Era horrível estar em uma missão e se sentir completamente vulnerável. Era completamente péssimo.

Eu queria voltar para o Acampamento Meio-Sangue, pois assim eu conseguiria um novo arco e uma nova aljava. Aljava não precisava, eu ainda tinha dez flechas. Mas eu queria meu arco de volta. Joguei todas as pragas gregas em Zoey A Megera. Ela havia sido a destruidora de meu arco.

Mas, por sorte, eu ainda tinha a adaga. Como eu havia dito, não era tão habilidoso com a adaga, mas eu conseguia abater qualquer um. Com muito esforço, mas conseguia. Eu já havia ganhado de Charlie uma vez. Ele tinha a espada e eu a adaga. Ele veio para cima de mim — ele era bastante habilidoso com a espada, excelente, no caso —, e eu havia conseguido desarmá-lo com um movimento tão rápido que ele só notou depois que a lâmina tocou sua garganta.

De qualquer maneira. Eu não me sentia tão à vontade com a adaga, mesmo ela sendo um grande reforço. Eu só queria meu arco de volta. Mais nada.

— Sinto muito por seu arco — disse Ian.

— Sem problemas — falei.

O silêncio tomou conta de nós por um instante e eu olhei para o céu. Pareciam ser quase dez da noite. O céu estava completamente iluminado com estrelas em todos os pontos no céu, uma lua excepcionalmente cheia e linda, e com poucas nuvens. Era uma linda noite para os casais humanos saírem para namorar.

Como eu os invejava.

Os humanos com suas vidinhas medíocres, mortais e normais. Quem dera eu ter a sorte que eles tinham. Não viam monstros, não tinha a sentença de morte quase assinada por ter sangue de um determinado deus... eles eram completamente sortudos. E eu os invejava por isso.

— Então... — começou Ian e ele se colocou ao meu lado, fazendo com que eu sentisse minhas mãos suarem.

Porque tenho essas drogas de sentimentos quando ele chega perto de mim?, perguntei a mim mesmo completamente revoltado com o meu organismo.

— Você tem alguém especial na sua vida? — perguntou ele.

Sério, Ian?

Virei-me para ele com a testa franzida e depois voltei a olhar o céu.

— Não, não tenho — falei um tanto triste. — Queria poder ter alguém. Mas não acho que conseguiria ter alguém.

E eu nem sei se eu poderia ter. Eu era totalmente inseguro com meus sentimentos e totalmente inseguro em relação a relacionamentos. Eu não tinha experiência nenhuma com garotas. E preferia nem ter nas condições em que eu vivia. E se eu namorasse uma garota que, em um determinado dia, virasse um monstro? Eu não arriscaria.

— Por quê? — perguntou ele e aquilo me fez olhá-lo.

— Porque eu sou um semideus. Não duraria muito tempo com alguém ao meu lado, não é mesmo? — rebati bufando.

— É, faz sentindo — disse ele balançando a cabeça em positivo.

— É — foi só o que eu disse. — E você, tem alguém?

— Hmmm... — disse ele e ele parou por um instante, fitando o rio a nossa frente com a testa franzida. — Tem um tempinho que eu venho observando alguém lá no Acampamento Meio-Sangue.

— Verdade? — perguntei um tanto surpreso e com o coração acelerado.

Mais uma vez, droga de sentimentos! Porque eu me sentia assim? Não tinha necessidade de eu me sentir assim dessa forma quando Ian falava aquelas coisas ou quando ele se aproximava de mim. Ele era bonito, corpo estrutural e de causar inveja, mas porque aquilo tinha influenciava sobre meus sentimentos? Isso eu não sabia e nem sei se saberia algum dia.

— Sim — disse ele rindo nervosamente. — Mas eu não creio que a pessoa tenha reparado em mim da mesma forma que reparei nela.

— Ah, é uma pena isso, cara — falei dando tapinhas em suas costas amigavelmente. — Já tentou dizer o que sente? — perguntei e desejei não ter perguntado aquilo.

Por mais que eu torcesse para que Ian conseguisse alguém que gostasse dele — assim como torcia por qualquer outro semideus da face da Terra —, eu não queria que realmente ele pudesse ter alguém, porque... porque eu não sei!

— Uma vez — disse ele interrompendo o meu conflito mental. — Mas eu não sei... sou completamente inseguro quanto a isso. Eu guardo um segredo comigo.

— Assim como todos nós — o lembrei. Por mais que seria doloroso, Ian tinha que conhecer alguém. Tinha que conhecer alguém. — Não desista. Você tem o quê? Dezessete anos?

Ele afirmou com a cabeça.

— Sim, dezessete — confirmou, ele. — Kyle tem dezoito — preferi que ele não tivesse tocado no nome do irmão mais velho.

Lembrar-se de Kyle me lembrava da promessa que fiz em deixar Ian ileso e consegui falhar naquela parte. Mas que se dane o Kyle! Eu não poderia deixar Ian completamente ileso em uma missão. Ele deveria saber disso. Afinal de contas, eu não tinha medo de Kyle por ele ter feito aquela ameaça. Eu não tinha medo algum. Quando chegássemos ao Acampamento Meio-Sangue, nos acertaríamos com uma boa briga e aquilo era tudo o que eu queria.

— Então — comecei —, você é jovem. Tem dezessete. Com certeza conseguirá a garota que quer.

— Esse é o problema — disse ele.

— Como assim? — perguntei com a testa franzida e tentando ficar com as pernas paradas quando elas começaram a querer tremer.

— Não é uma garota de quem eu falo — disse ele.

— Quer dizer que...

— Eu tenho pensado em você, Trevor — revelou-me ele.

Eu arregalei os olhos.

Por mais que eu tenha me sentido lisonjeado com aquela revelação. Eu não sabia o que fazer. Eu tinha medo do que minha mãe e meu padrasto pudessem fazer comigo e com Ian. Com que nossos pais podiam fazer conosco. E sem contar todo o Acampamento Meio-Sangue poderia fazer com nós dois. Sem contar o que Kyle podia fazer comigo quando descobrisse isso.

— Eu comecei a ter esses sentimentos por você desde que o seu chalé começou a aumentar e você começou adquirir uma postura mais séria e mais madura. Foi aí que eu vi que não eram só sentimentos bobos. Eu realmente tinha uma queda por você. Um desejo por você.

Aquilo não parecia real. Era mentira se eu dissesse que não senti nada em relação a ele ao decorrer dessa missão. Eu só não podia afirmar que sentia antes, pois eu não o conhecia antes — mesmo eu estando no Acampamento Meio-Sangue há três anos.

— E-eu...

— Não, deixe-me terminar? Por favor? — pediu ele e assenti com a cabeça. — É isso que eu venho sentindo. E eu tentei disfarçar esses sentimentos quando havíamos sidos convocados por Quíron — ele me olhou com a testa franzida. — Eu tentei esconder aquilo, mas ao decorrer dessa missão, estando mais perto de você, eu vi que realmente o que ria. E ainda o quero.

— Ian, eu...

— Olha, o que eu estou tentando dizer é que eu realmente estou gostando de você — interrompeu-me ele. — Eu não ligo para o que os outros no acampamento irão dizer. Não ligo para o que a minha mãe irá dizer. Não ligo para o que Layla e Peter irão dizer, não ligo para o que sua mãe irá dizer e nem ligo para o que Kyle irá dizer. E também não estou ligando para o que nossos pais possam dizer — ele me olhou com os olhos lacrimejados. — Eu só me importo com o que você irá dizer, Trevor. Para mim, isso é o que basta. Mais nada — finalizou ele.

O que eu poderia dizer? Ian também estava despertando sentimentos novos em mim que eu nem sabia que poderiam existir. Seria mentira se eu negasse o que eu sentia por ele, eu não podia negar Ele tinha se aberto para mim de tal maneira que eu nunca pensei que isso poderia acontecer na história dos semideuses. Ele tinha contado para mim que se interessava por garotos.

— Eu estaria mentindo se não dissesse o mesmo — consegui dizer.

— Verdade? — perguntou ele.

Assenti com a cabeça.

— Sim. Eu tenho sentido exatamente a mesma coisa desde que conversamos em frente ao seu chalé — confessei. — Eu também pensei que era sentimentos bobos, mas quando eu realmente o curei, percebi que sentia algo a mais. Mesmo eu venho tentando negar isso a mim mesmo por medo — falei e o olhei.

Ele estava prestando bastante atenção. Ele parecia que não iria me interromper nem por um decreto.

— Eu, por alguma coisa que eu não sei, me sinto exatamente a respeito dos outros. Eu não estou ligando mais para o que minha mãe, meus irmãos, o povo do acampamento, ou até mesmo os nossos pais pensam — contei, o que era tecnicamente mentira. — Eu só não sei o que fazer agora — admiti com um risinho nervoso.

Ele riu nervosamente também.

— Eu sei — disse ele.

— O que é? — perguntei olhando para ele completamente esperançoso.

Ele olhou diretamente para meus olhos e eu em seus olhos azuis incríveis.

— Isso.

Ele se inclinou e me beijou.

Seu beijo foi totalmente delicado. Algo que eu não esperava de um filho de Ares por conta de sua brutalidade. Mas Ian conseguiu fazer com que todas as expectativas de brutalidade que eu tinha sobre os filhos de Ares caíssem.

Seu beijo delicado, quente e carinhoso tomou conta de tudo para mim. Nada mais ao meu redor importava a não ser Ian. Ele tocou em minhas mãos e eu as apertei com carinho.

Quando ele parou o beijo, ele riu para mim e escondi o rosto rindo também. Ele pegou meu queixo delicadamente e me beijou outra vez e eu retribuí o mesmo. Delicado e carinhoso. Ian não podia ter me dado outra expectativa melhor de beijo.

Mas algo conseguiu interromper nosso momento.

Um barulho de galho se quebrado a nossa frente fez com que Ian e eu nos afastássemos, interrompendo o beijo. Quando nos soltamos e eu saquei minha adaga, e Ian sua lança, olhamos ao redor e nada apareceu. Quando outro barulho de galho se quebrado veio do outro lado do rio, Ian e eu focalizamos aquele ponto e uma risada cortou o ar.

— Que cena linda, semideuses — disse uma voz masculina.

Quando eu e Ian olhamos na direção da voz, não acreditamos que aquilo estava ali.

Das sombras, uma quimera surgiu e começou a rir novamente.

— Uma cena muito bonita para dois semideuses homens — disse a quimera. — Pena que vocês irão morrer.

Foi só o que a quimera disse antes de pular sobre o rio e ir ao encontro de Ian e ao meu.