O Martelo De Ares.
5 V — Trevor
TUDO ACONTECEU MUITO RÁPIDO PARA SER VERDADE.
A quimera — que tinha voz de homem —, passou pelo rio em um salto e veio em nossa direção. Quando eu fiz menção em pegar minha adaga, ela já estava numa pequena batalha com Ian; meio minuto depois, Peter e Layla já estavam ao meu lado e juntos fomos lutar ao lado de Ian contra a quimera. Mas a quimera foi esperta e (eu não acreditei que ela tinha feito aquilo), com a cauda, empurrou Layla, Peter e eu para longe.
Eu bati com força em uma árvore atrás de mim e senti uma dor inacreditável na cabeça; Peter tinha caído por cima de mim e, com o meu tremendo azar, Layla havia caído por cima dele. Ou seja, duas pessoas caíram por cima de mim e eu bati a cabeça com força em uma árvore. Legal.
Mas os empurrei e logo em seguida já estávamos de pé novamente. Ian foi jogado a nossos pés, mas ele também se colocou de pé em um pulo. Assim que ele se pôs de pé, nós olhamos a quimera e ela andava de um lado para o outro a nossa frente — algo muito estranho para um monstro que disse que iria nos matar, mas eu deixei passar aquilo. Eu só queria matar aquele bicho e dormir. Eu estava morrendo de sono.
— Podem ser crianças, mas são difíceis de morrer — balbuciou a quimera.
— O que quer conosco? — perguntou Peter apertando sua espada com mais força.
A quimera bufou. Ao menos eu acho que ela bufou, pois eu não sabia se quimeras podiam mesmo bufar.
— O martelo, é claro! — disse ela com aquela voz masculina.
Eu já estava de saco cheio dessa droga de martelo!
— Afinal, você é homem ou mulher? — perguntei confuso. — Você é chamada de a quimera, não o quimera. E ainda tem voz masculina.
Senti uma pontada em minhas costelas esquerda e vi que Layla tinha me dado uma cotovelada.
— Ai! — reclamei.
— Trevor! — vociferou ela.
— O quê? — perguntei esfregando as costelas.
— Que tipo de pergunta é essa em meio a uma batalha?
— Mas o que eu posso fazer? — perguntei levantando uma sobrancelha. — Isso me deixou confuso.
A/O quimera rugiu para mim completamente com raiva.
— Sou do sexo masculino — disse o quimera. — Mas pode me chamar de Gatrix.
— Certo... Gatrix — falei. — O martelo não está conosco.
— Como se eu fosse acreditar — disse Gatrix. — Me entregue, ou morram.
O ar começou a esfriar e eu sabia que Peter estava por trás daquilo. Provavelmente ele estava invocando um de seus trovões ou raios, ou sei lá mais o quê, para tentar deter aquela quimera ridícula.
Mas eu também não o deixei ficar com todo o crédito. Eu comecei a fazer com que a água do rio se agitasse sem que Gatrix percebesse; Ian estava ficando mais definido e aumentando de tamanho para lutar; Layla estava com uma cara pensativa excepcionalmente parada. Ela não se mexia. Deveria estar tramando alguma estratégia para acabar com aquela quimera.
— Não está com a gente — disse Ian um tanto aborrecido. — Ele já disse.
— Não acredito em seu namorado — disse a quimera e senti meu rosto esquentar no mesmo instante. — Entreguem-me o martelo que eu deixo vocês irem embora.
— Como se você realmente fosse deixar — disse Ian.
Assim que ele disse aquilo, ele partiu para cima de Gatrix com sua lança e tudo. Um raio passou por cima de meu ombro e acertou Gatrix momentos antes de Ian acertá-la, mas aquilo não foi ruim, e, sim, bom. Com o raio atingindo Gatrix, Ian lançou a quimera no rio com sua lança. Aquela foi minha deixa.
Quando Gatrix entrou na água, eu fiz questão de fazer o rio mexer de um lado para o outro, impedindo da quimera voltar à superfície. Aquilo exigia bastante de minha energia, mas eu fiz questão de continuar a fazer aquilo com o rio por um período curto, mas o suficiente para afogar Gatrix.
Mas, como eu disse, período curto. Minhas energias estavam esgotadas. Eu não consegui fazer tanto esforço por mais de cinco minutos. Quando parei de fazer movimentos repentinos com as mãos, sentei-me no chão de exaustão.
Porém a minha ideia não fora o suficiente.
Gatrix, de alguma forma, tinha conseguido fôlego e voltado à superfície com vida. Ele olhou diretamente para mim com raiva e, quando pulou da água para mim, uma faca de bronze passou por cima de minha cabeça e acertou Gatrix bem entre os olhos. Quando olhei para trás, Layla ainda estava parada no mesmo lugar. A única coisa que mudava em sua posição era o braço estendido. Ela tinha jogado sua adaga em Gatrix, que, naquele momento, tinha virado poeira de monstro.
— Bela mira — disse para ela ainda exausto.
— Obrigada — disse ela um pouco sem graça. — Até que esse foi rápido.
— Quem dera que os dois anteriores e os próximos fossem assim — falei. — Seria mais fácil.
Deitei-me no chão completamente exausto; Ian tinha voltado ao seu tamanho normal e ficara em pé na procura de algum sinal de outra criatura entre as árvores, juntamente com Peter, que estava com algumas correntes elétricas visíveis em seus pulsos para iluminar um pouco o caminho entre as árvores; Layla tinha ido até onde Gatrix estava e pegou sua adaga de bronze.
— O que Gatrix quis dizer com namorado? — perguntou Peter sentando-se ao meu lado esquerdo.
— Também quero saber — disse Layla, sentando-se ao lado de Peter.
Sentei-me imediatamente e olhei para Ian, e depois para eles dois.
Eu não sabia como contar. Nunca houve um caso de dois semideuses do mesmo sexo se gostarem antes e não sabia qual seria a reação de Peter e Layla. Provavelmente nos julgariam.
— Pois é — disse Ian antes que eu pudesse dizer alguma coisa. — Trevor e eu estamos, a partir de hoje, juntos — ele se colocou ao meu lado e pegou em minha mão. — Algum problema com isso, galera? — perguntou ele sério.
Prendi a respiração quando olhei para Layla e Peter, mas, com sorte, eles balançaram a cabeça em negativa com indiferença.
— Por mim, tudo tranquilo — disse Peter dando de ombros. — Não tenho preconceitos.
— Nem eu — disse Layla dando de ombros e com um sorriso amigável. — A vida é de vocês. Façam delas o que quiserem. Se ambos se gostam, então não vejo o porquê estarem separados.
Meu rosto esquentou novamente. Eles não me julgaram ou, tampouco, julgaram Ian.
— Ahn... obrigado, gente — falei levantando o polegar com a mão que Ian não estava segurando.
— É, valeu mesmo — disse Ian levantando o polegar também. Ele se inclinou na minha direção e disse baixinho em meu ouvido: — É melhor você dormir. Está com a cara péssima. Você precisa descansar.
Descanso...
Assenti para ele e disse:
— O.K. — bocejei. — Mas e a vigia?
— Não se preocupe com isso — bufou ele. — Eu cubro hoje. Estou sem sono.
— Ahn... O.K. — disse em seu ouvido baixinho para que só ele ouvisse: — Tome cuidado.
— Pode deixar — ele abriu um sorriso perfeito e branco para mim.
Eu sorri de volta e, naquele instante, ele me deu um beijo rápido e me empurrou na direção de nossa barraca.
A única coisa que eu lembrei antes de dormir era de ter pegado um travesseiro de algum deles e no instante seguinte eu já estava dormindo.
Quando eu finalmente que poderia ter um sonho tranquilo, me enganei.
Eu estava de pé, diante dos três monstros estranhos que atazanaram meu antigo sono. Eles não estavam mais na antiga “sala” (digamos assim) de antes. A sala era maior, tinha tochas iluminando o local. Tinha um pequeno rio ao lado direito da sala, mas ele parecia podre. Totalmente sujo. Foi aí que me dei conta de que aquilo era um rio de esgoto.
Os dois filhos (Dracus e Tracus) estavam ajoelhados diante do pai (Roxonus), e ele estava de pé, andando de um lado para o outro. De vez em quando, Roxonus passava o pé na água suja, a água saia de perto dele, como se corresse de sua presença. Ele não gostou nada, nada, daquilo. Ele emitiu um som de fúria que chegava ser agonizante.
— Não vejo a hora de sair daqui — disse Roxonus completamente raivoso.
— E irá, pai — disse Dracus.
— É só uma questão de tempo, pai — disse Tracus. — Os semideuses estão a caminho.
— Eu sei, meus filhos — disse Roxonus saindo de perto da água suja e voltando a andar de um lado para o outro. — Tudo culpa daquele deus da guerra miserável! — disse ele revoltado. Ele continuou andando de um lado para o outro.
O que Ares tinha a ver com aquilo? Ares não podia ter perdido o seu precioso tempo lutando com Roxonus, o senhor dos esgotos. Tinha? Mas o que Roxonus tinha feito para Ares poder ter feito aquilo com ele? Provavelmente não tinha sido boa coisa, porque, quem mais iria querer arrumar briga com um ser que se chamava “senhor dos esgotos”? Só mesmo Ares para não recusar uma boa briga.
— Como andam nossos queridos semideuses? — perguntou Roxonus.
— Estão a caminho, pai — disse Tracus. — Pelo que sei, eles acabaram com Gatrix em Memphis.
— Pelo que sei — disse Dracus —, eles estão a caminho do Arkansas. Dentro de um dia devem pisar em Oklahoma...
— E virão para mim — disse Roxonus triunfante cortando o filho. — Mal vejo a hora. Eles têm que vir direto para mim, sem nenhum arranhão. Assim que pisarem em Oklahoma, vocês dois têm permissão para trazê-los para mim. Mas sem matar.
Dracus e Tracus assentiram com a cabeça e disseram em uníssono:
— Sim, pai.
— Ótimo — disse o pai. — Tragam todos para mim, especialmente o filho de Ares. Se o pai é tão covarde para me enfrentar pessoalmente, ele verá a morte do filho.
Roxonus virou-se para os filhos, mas seus olhos estavam exatamente na direção em que eu estava. Ele abriu um sorriso triunfante e, logo em seguida, eu acordei.
Não era nem manhã quando eu tinha acordado. Eram — parecia ser, na verdade — quatro da manhã. Nem todos estavam acordados, na verdade, apenas Ian estava e ele ainda não parecia exausto. Ele parecia bem acordado. Quando olhei para o lado dele, tinha uma garrafa de café e um copo.
Aproximei-me dele e lhe apertei o ombro, mas ele me pegou pelo braço, me colocou em seu colo e me beijou. Ri daquilo, mas me sentei ao seu lado.
— Bom dia — disse-me ele. — Dormiu bem?
— Bom dia — falei. — Nem tanto. Consegui descansar, mas tive um sonho estranho.
— Que tipo de sonho? — perguntou ele curioso.
— Revelador. Parecia mais uma visão do que sonho. É a segunda vez que tenho um sonho assim — contei. — Mesmos monstros, porém o local era diferente.
— Conte-me mais — falou Ian concentrado.
Mas eu neguei com a cabeça.
— Não quero contar isso duas vezes — falei, o que era tecnicamente verdade, porque eu não queria contar aquele sonho novamente. Já era desagradável tê-lo, contar, então, era pior ainda. — Precisamos acordar os outros e ir embora. Faltam três dias para o prazo expirar. Temos que seguir caminho. Assim que eles acordarem, eu conto para vocês.
Ele assentiu com a cabeça e foi para a barraca acordar os outros. Não demorou muito para eles aparecerem de volta. Ambos sentaram ao meu redor e eu contei para eles os dois sonhos. Não escondi detalhes. Eu não podia esconder detalhes, porque, de uma maneira ou de outra, aqueles sonhos estavam ligados a nossa missão, então eu não podia esconder nada.
— Temos que ir logo — falei para eles. — Eu sei que é perigoso, mas a cada minuto que passamos aqui, é tempo perdido. Não temos muitos dias.
— Concordo com você — disse Layla. — Temos que ir logo e acabar com esse Roxonus.
— E seus filhos — acrescentou Peter. — Pode chamar os pégasos novamente?
Assenti.
— Vou desmontar a barraca — disse Ian sério.
Acho que ele não tinha gostado da parte em que Roxonus tinha chamado seu pai de covarde.
— Vou com você — disse Peter e foi se juntar a Ian.
Layla foi se juntar a eles, mas não para arrumar a barraca, mas sim para juntar nossas coisas — ela gostava das coisas bastante organizadas. Mas eu não me dei o trabalho de ir. Assobiei o mais alto que eu podia e esperei.
Por um momento, eu pensei que Blackjack não nos acharia, pois Layla havia arrumado um lugar bem escondido na cidade de Memphis. Eu também quase não acreditava que ele poderia nos encontrar — mesmo ele sendo um garanhão inteligente. Porém, se Gatrix havia nos achado, com certeza Blackjack iria nos achar. Torci para que isso acontecesse logo.
Por sorte, depois de dois minutos que eu tinha chamado Blackjack, ele relinchou bem acima de mim e, no segundo depois, ele já estava a minha frente.
Chefe!, disse ele feliz.
— Olá, Blackjack! — sorri para o pégaso e fiz carinho em sua cara.
O que manda dessa vez?, perguntou ele levantando as patas da frente.
Ri.
— Olhe, o favor que eu vou te pedir será bem complicado — falei sério.
Pode dizer, chefe! Eu encaro, disse ele convencido.
— Precisamos ir direto para Oklahoma. Sem pausa em Arkansas. Direto para lá. Estamos em missão, como você pôde reparar, e não temos muito tempo. Você consegue?
Ele relinchou alto.
Mas é claro que eu posso, chefe!, disse ele.
Sorri.
— Ótimo! — falei. — Tem como chamar seus amigos? Será que eles irão concordar?
Blackjack fez um barulho estranho e eu entendi aquilo como uma gozação com minha cara.
Mas é claro que eles irão concordar, chefe, disse ele. Espere um segundo.
Dizendo aquilo, ele relinchou de novo, porém, como antes, mais alto e demorado para chamar seus amigos.
Em questão de meio minuto, os antigos pégasos que tinham nos dado carona, haviam aparecido. Todos eles pararam a minha frente e fizeram uma mesura para mim. Fui até eles e fiz neles o mesmo carinho que havia feito em Blackjack.
Não demorou muito para partirmos.
Blackjack havia explicado tudo para os outros pégasos que a nossa viagem seria longa, mas eles não pareceram se importar. Eles disseram que nos levariam direto para Oklahoma sem tempo para descanso. Eu me sentia mal por fazer um pedido daqueles para aqueles pégasos, mas nós não podíamos perder tempo. Tínhamos que ir direto para Oklahoma recuperar aquela merda de martelo.
Assim que todos nós montamos em nossos respectivos pégasos — eu em Blackjack, Peter no azul, Layla no branco e Ian no marrom, igual à antiga viagem —, os pégasos levantaram voo e partiram em direção a Oklahoma.
Blackjack tinha dado a ordem para que todos eles fossem rápidos. Todos nós estávamos tranquilos a respeito dessa viagem, estavam, talvez, já acostumados. Bem, ao menos Peter, Ian e Layla estavam, pois eu não conseguia aguentar a tremedeira de medo. Eu tinha contado para eles que tinha medo de altura — e mesmo estando em uma altura bem menor que um avião, eu sentia medo. Um avião tinha banco e sinto para eu poder me segurar. Blackjack não tinha nada disso. As chances de eu cair e morrer eram enormes.
Mas eu tentava disfarçar isso, mesmo Blackjack me intervindo com a tremedeira de minhas pernas. Ele disse que aquilo estava lhe causando cócegas por estarem batendo em suas costelas, e lhe causava desconcentração. Tentei me controlar, respirando várias e várias vezes, mas não deu muito certo. Mas, como Blackjack mesmo havia dito, tinha melhorado.
De qualquer modo, Blackjack seguiu para dentro de Oklahoma, passando por Fort Smith e adentrando mais em Oklahoma. Passamos por Arkansas com uma velocidade incrível. Eu sabia que Blackjack era muito veloz, mas não sabia o quanto. Não deveria nem ser meio-dia quando Blackjack e seus amigos haviam terminado de cruzar o Arkansas. O sol ainda não estava bem no alto.
Contudo, quando Blackjack pensou em aterrissar, eu pedi para que ele nos deixasse em Oklahoma City, pois era a capital, então seria melhor para termos uma ideia de onde monstros podiam estar — o que eu achei meio estranho, pois Quíron disse que tinha uma grande concentração de monstros lá, e olhando de cima, a cidade parecia completamente pacata.
— Valeu, Blackjack — falei para ele, assim que pousou e pus os pés em terra. Bem mais seguro que voando. — E a vocês também.
Que nada, chefe, disse o pégaso azul.
Não por isso, chefe, disse o pégaso marrom.
De nada, chefe, disse o pégaso branco.
Se precisar, é só assobiar, chefe, disse Blackjack.
— Pode deixar — falei levantando o polegar para ele. — Podem ir. Assumimos por aqui.
Até mais, chefe!, disse Blackjack e, levantando as patas dianteiras, levantou voo e partiu com os seus amigos.
Virei-me para Ian, Layla e Peter.
— Temos que começar a procurar por onde Roxonus está — falei.
— Segundo Quíron, isso aqui deveria estar cercado por monstros — disse Layla.
— Aqui está muito calmo... — falou Ian observando os prédios a nossa frente.
— Eu não teria tanta certeza disso — disse Peter.
Quanto Ian, Layla e eu viramos para onde ele estava, cerca de quinze monstros estavam parados olhando para nós.
Monstros que eu nunca tinha visto na vida e uns sim. Havia duas quimeras como Gatrix. Havia três criaturas reptilianas como Rex e Dex. Também havia dois escorpiões como Zoey A Megera; havia três minotauros e cinco criaturas com corpos de homens e rostos, braços e pernas de animais — um tinha a cara de um leão, o outro tinha a de um tigre, um de um elefante (eu não acreditei que poderia existir um ser como aquele), um com a cara de uma águia assustadora e outro tinha a cara de macaco assassino. Totalmente esquisitos.
Todos nós sacamos nossas armas. Mas quando eu peguei minha adaga, preferi na hora ter meu arco que de volta. Era bem melhor tê-lo por perto. Ter uma boa distância nos ajudaria a correr dos monstros — não que nós fôssemos covardes, muito pelo contrário. Tínhamos que recuperar o martelo de Ares, então quanto menos tempo gastarmos, melhor.
Ian tinha sido o primeiro a dar um passo à frente, mas eu o impedi com um puxão no braço.
— Nem pensar — falei para ele. — São quinze contra quatro...
— E daí? — interrompeu-me ele sem tirar os olhos dos monstros. — Eu posso acabar com eles sozinho.
Eu não duvidava. Uma luta para um filho de Ares era como se fosse honrar o pai. Eu sabia que Ian não sairia daquele local sem uma boa briga. Layla também não estava tão diferente assim, para falar a verdade. Assim que olhei para a garota de olhos cinzentos, ela está completamente fixada nos monstros, possivelmente bolando alguma ideia para acabar com todos ali, um de cada vez.
— Eu sei — admiti para ele. — Mas temos que ir...
— É tentador não lutar — cortou-me Layla.
— Sabemos — disse Peter. — Temos que ir embora!
Ele pôs as mãos no ombro de Ian e de Layla e eles estremeceram. Possivelmente ele tinha dado uma descarga elétrica para eles acordarem para a situação. Eles olharam Peter com tamanha fúria que eu pensei que eles iam atacá-lo.
— Mas o quê...? — disse Ian furioso.
— O que você estava... — disse Layla com certa fúria em sua voz e com a expressão totalmente séria.
— Eu tinha que fazer — disse Peter cortando os dois. — Temos que ir embora!
Layla e Ian voltaram a olhar os monstros e quando eu também olhei, eles estavam mais próximos do que gostaríamos que estivessem.
— Vamos! — disse Layla.
— Tenho uma ideia melhor — falei me pondo na frente deles e olhando para os monstros.
— Trevor? — chamou a voz de Layla atrás de mim.
— O que está pensando? — perguntou Peter.
— O que você vai fazer? — perguntou Ian baixinho segurando meu braço.
Virei-me para ele e forcei o sorriso mais sincero que podia.
— Ganhar tempo — disse e indiquei os outros dois para ele com a cabeça.
Ian assentiu para mim e, no instante seguinte, voltei a olhar os monstros. Eles eram tão horrorosos e tenebrosos que me dava repulsa de olhá-los, mas, de uma maneira ou de outra, eu tinha que olhar.
Os encarei com a maior seriedade que eu podia e eles me olharam com caras famintas.
— Pai, me ajude... — pedi a Poseidon baixinho para que ninguém me ouvisse.
Dei um passo à frente e respirei fundo. Juntei as mãos e fechei os olhos para me concentrar. No instante seguinte, eu comecei a sentir um formigamento começar pelo meu umbigo e logo em seguida o formigamento passou por todos os meus braços e pernas, e eu sabia o que tinha que fazer.
Assim que abri os olhos e encarei os monstros horrendos, comecei a sentir os tremores na terra no instante seguinte, fazendo com que aquelas criaturas feias e tenebrosas ficassem fora de si.
Virei para meus amigos e gritei para eles:
— Vão!
— Ficou louco? — perguntou Ian aos berros por conta do tremor.
— Você tem que vir conosco! — gritou Layla.
— Venha, Trevor! — gritou Peter.
— Vão! — repeti para eles. — Estou ganhando tempo. Eu alcanço vocês!
Ian me olhou por um bom tempo, mas pegou os outros dois pelos ombros e seguiram para o norte de Oklahoma, entrando no meio da civilização Okie.
Continuei olhando para os monstros — que agora pareciam tão indignados para acreditarem que eu estava realmente causando aquele terremoto de alta escala —, e me deu vontade de rir.
Uns caíram em cima dos outros. Alguns simplesmente caíram no chão e alguns pareciam que estava chorando. Mas aquilo não era o bastante para abalá-los de verdade. Eu tinha que realmente atrasá-los. De alguma maneira, mas eu tinha.
Porém, dentre os quinze, apenas um que me estudava com seriedade. Um minotauro. O do meio dos três que estavam ali. Ele era o maior e o mais assustador, provavelmente ele era o chefão dali, mas eu preferi não perguntar.
Ele me olhava de tal maneira que eu quase perdi a minha concentração, porque, quando eu me perdi por um simples segundo, o tremor que eu estava causando tinha parado. Mas, quando voltei a me concentrar, ele tinha voltado no instante seguinte. Obrigado, pai, agradeci a Poseidon mentalmente.
O minotauro deu um passo à frente, mas eu não me intimidei. Continuei concentrado, mas ele continuava avançando. Mas eu tinha que resolver aquilo, ele não podia avançar na frente de seus companheiros caídos. Ele tinha que parar de andar. Não podia mais avançar em minha direção.
De repente, algo me ocorreu. Uma ideia absurdamente absurda. Separei minhas mãos e fechei meus punhos completamente com raiva do minotauro que avançava — o que fez o terremoto ser mais forte ainda — e bati os punhos no chão. A terra tremeu ainda mais, mas, no instante seguinte, uma rachadura apareceu na minha frente e logo em seguida ela havia se tornado uma grande cratera de cem metros de diâmetro e cinquenta de largura.
Ele pareceu surpreso. Parou por um instante e eu sorri inteiramente satisfeito comigo mesmo. Pus-me de pé e lhe lancei um sorriso debochado. Mas meu sorriso logo se desfez quando ele pulou os cinquenta metros de largura da cratera que abri e parou bem a minha frente.
— Prazer, filho de Poseidon — disse ele numa voz grave e animal.
— Não tenho prazer nenhum em te conhecer... seja lá quem for você — rebati dando uns passos para trás e com raiva.
Ele riu, eu acho. Ao menos foi o que pareceu, mas eu estava me corroendo demais para poder ter prestado mesmo atenção se aquilo era uma risada. Como ele poderia ter pulado aqueles cinquenta metros? Era completamente impossível. Eu sabia que ele era uma criatura que poderia — se realmente poderia — fazer alguma coisa, mas eram cinquenta metros.
Os tremores não pararam, ainda continuavam. Aquilo tomava dez por cento da minha concentração, mas eu conseguiria detê-lo com noventa. Ele não poderia ser tão bom assim sozinho, se fosse, não estaria naquele grupinho.
— O que você quer? — perguntei com raiva.
— O que todos os monstros querem, semideus — disse ele calmamente. — O martelo.
— Não estou com ele — falei com mais raiva ainda.
Será que teríamos que dizer que não estamos com o maldito martelo para todos os monstros que encontrássemos? Sim, eu sabia que sim.
— Eu sei — disse ele. — Eu sei de tudo.
Ri debochadamente.
— Então por que perguntou? — minhas mãos tremiam.
— Eu queria ter a certeza... antes de te matar.
Assim que ele disse aquilo, ele veio para cima de mim com tal velocidade que eu não imaginei que ele possuía e me acertou um soco bem no rosto. O que me fez recuar de dor e, perdendo o equilíbrio, cair no chão.
Saquei minha adaga e me coloquei de pé, assim que vi que tudo tinha se focalizado em seus devidos lugares. Ele estava parado e com o semblante calmo. Parecia que tudo aquilo não fazia diferença para ele.
Ele se aproximou rapidamente de mim de novo, mas eu já estava preparado. Assim que ele apareceu — como um raio — a minha frente e preparou o soco, eu me abaixei no mesmo instante, deu uma cotovelada em seu abdômen, um soco em seu queixo e depois tentei golpeá-lo com a faca, mas ele tinha sido mais rápido.
Desviando-se rapidamente de meu último golpe, ele sumiu de minha frente e eu parei no mesmo instante. Olhei para os lados e ele não estava, mas quando me virei de costas, desejei não ter feito aquilo. Ele havia me dado um grande soco no queixo que me fez ver estrelas e voar para trás, onde minha adaga saiu de minha mão. Senti meu nariz queimar e um líquido sair por ele, igualmente em minha boca. Sangue.
Por um instante, eu pensei que tinha desmaiado. Eu só me dei por mim quando ele tinha me segurando, com uma só mão, pelas duas mãos, me pendurando. Agora que eu estava frente a frente com o monstro, eu podia ver seus olhos negros terem um leve toque de triunfo.
— Você não é como seu irmão, pelo que dizem — disse o minotauro e me jogou com brutalidade contra o chão. Ele andou alguns passos para longe de mim. — Ele deveria ser mais divertido de lutar.
Aquilo só me fez encher mais de raiva. Minhas mãos tremiam de tal maneira que eu mal conseguia abrir as mãos para me apoiar para me por de pé. Mas eu consegui. Pus-me de pé com certa dificuldade e o encarei.
— Nunca. Mais. Me. Compare. Com. Percy! — rebati cuspindo as palavras.
Pus as mãos na cintura e tirei a tampa dos cantis que eu tinha com reservas de água. As águas saíram dos seus respectivos cantis e foram de encontro com ele, batendo em sua cabeça de touro como um chicote. Ele se virou no mesmo instante completamente irritado.
Ele respirou tão fundo que saiu fumaça de suas narinas e veio em minha direção correndo. Mas eu estava preparado. Com um movimento com as mãos, fiz a água bater em seu queixo, levando-o para cima e, assim que seu queixo subiu, congelei a água no ar, formando uma estaca de gelo — não me pergunte como, eu apenas desejei e assim ela fez —, e fiz a ponta de gelo cravar em sua cabeça. Eu sabia que aquilo não iria matá-lo, mas me daria tempo para achar minha adaga de bronze.
Quando eu finalmente tinha conseguido achar a adaga, pois de meio minuto, eu notei que o terremoto havia cessado e, quando olhei para o minotauro, ele tinha conseguido se livrar da estaca de gelo — ela tinha virado água, provavelmente.
Ele correu para mim como uma fera, mas eu também estava preparado para o seu golpe. Ele veio para me dar uma chifrada, mas eu me abaixei e lhe dei uma rasteira. Quando ele caiu, cravando os chifres no chão, corri até ele e lhe esfaqueei com força nas costas, soltando o líquido amarelado que era o sangue dos monstros.
O monstro gritou e aquilo fez com que os outros dois minotauros que estavam junto com os outros monstros também gritassem, fazendo com que eu os olhasse. Eles eram mais terríveis de se olhar daquela maneira do que antes. Criaturas horrendas e com raiva. Pior visão do mundo.
O minotauro conseguiu se livrar do chão e me olhou com completa fúria, mas eu não me intimidei com aquilo. Ele tinha me comparado com Percy e, se ele realmente sabia de tudo como tinha dito, eu odiava ser comparado com os outros.
— Você vai pagar caro por isso, filho do deus do mar! — berrou ele.
— Cai dentro! — gritei para ele.
Fumaças saíram de suas narinas novamente e ele correu diretamente em minha direção. Quando me agachei para golpeá-lo, ele me dera uma joelhada no rosto, seguido de dois socos no peito e um chute que me fez voar metros de distancia, caindo perto da cratera que eu tinha aberto. Aquilo era um bom sinal. Coloquei-me de pé, mas logo coloquei um joelho no chão, ficando agachado para não perdê-lo de vista.
— Você já era, semideus! — disse ele.
— Veremos, Cara-Feia! — falei.
Ele veio para cima de mim com os chifres apontados para mim. Mas, assim que ele chegou perto, com um giro, consegui me desviar e tirar a água do cantil, fazendo um muro de água sua frente. Ele acertou o muro e, assim que sua cabeça passou para o outro lado do muro de água, congelei o muro logo em seguida. Ele estava preso.
— Tire-me daqui! — gritou ele.
— Eu acho que não... — falei e me coloquei na frente dele.
Peguei minha adaga a mão e perfurei sei crânio de baixo para cima e o minotauro explodiu, virando poeira de monstro no mesmo instante.
Ouvi o grito de quatorze monstros atrás de mim e eles estavam dispostos a pular os cinquenta metros da cratera, mas causei outro terremoto de alta escala e, pegando a adaga que tinha voado para longe por conta da explosão do monstro, corri em direção ao norte, entrando na civilização Okie atrás de meus amigos, sem olhar para trás.
Não foi tão difícil encontrar Ian, Layla e Peter. Eu apenas precisei correr para o maior prédio que eu consegui ver, virar a primeira esquina à esquerda dele e eles estavam lá, dentro de um Del Rey preto — que logo presumi, como sempre, ter sido saqueado por Ian e Peter. Típico.
— Trevor! — disseram os três juntos em uníssono.
Adentrei no carro rapidamente.
— Corre! — falei olhando para Ian e ele entendeu no mesmo instante.
Ele pisou fundo no motor, cantando pneu e seguimos em direção ao norte.
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