O Lobo Azul
1 Capítulo 1
Notas iniciais

POV Luna
Dirigia pela estrada reta, rodeada por árvores altas, pesada por neve densa de inverno. O para-brisa trabalhava arduamente pelo vidro congelado, tentando me mostrar um campo de visão maior naquela tempestade, que na rádio já se ouvia dizer sobre ela.
Embora a estrada vazia, a neve me prolongava. Eram quase seis da noite, precisava chegar logo, mas não podia acelerar mais, pois a estrada não permitia e a neve me engolia.
Ouvi o meu celular tocar dentro da bolsa no assento ao lado. Tentei ser ardilosa e peguei-o dentro da bolsa, após abri-la apenas com uma mão. Mantive os olhos na estrada.
Ligação on:
— Luna falando.
— Mana, sou eu!
— Ah, Tom! Pode falar.
— Onde você está? Os convidados já chegaram, sua banda, só falta você.
— Ah... Eu já estou chegando, é que com essa neve toda, está meio complicado. – tentei explicar, nervosa com tal apresentação.
— Hm, se você tivesse vindo comigo antes dessa tempestade, seria mais plausível, mas escolheu vir no carro do James, sua boba. – ele reclamou.
— Tom, o carro do papai não é uma lata velha, seu idiota. – retruquei.
— Tá, tá. Vem logo sua rabugenta, o show já vai começar. – retrucou.
— Por que você não pede para adiarem por 30 minutos? Você é meu irmão mais velho, podia quebrar esse galho para mim, né?
— Sou. Mas não serei eu que irei cantar e nem subir naquele palco. Você acha mesmo que eu vou pagar esse mico? Os pais da minha namorada estão aqui.
— Seu egoísta!
— Ah, suas inimigas estão aqui e pelo jeito, aquele carinha feio que tu gosta, também. CHAD... – ele imitou minha voz.
— O quê? Ah, que ótimo. Quem mais está na plateia? Barack Obama? – o sarcasmo me engoliu.
— Seria hilário, mas não. Assim você está querendo demais, não acha? – ele sempre me caçoou.
— Claro... – revirei os olhos.
Eu ouvi o barulho da plateia agitada, parecia começar as apresentações e o temor de não chegar a tempo me invadiu como a neve em volta do carro.
— Maninha, tenho que encerrar que o show vai começar. Não demore.
— Cara, eu estou tentado, mas essa estrada está cada vez mais branca. Eu vou empacar. – vociferei.
Ligação off
Segurei firme no volante e acelerei. Meu campo de visão estava branquicento e o para-brisa pareceu congelar.
— Vamos lá... Por favor! Não me deixe na mão... – murmurava cada vez mais nervosa. Notei que a estrada estava totalmente vazia desde o sinal, então não tive escolha – Quer saber... Que se dane.
Eu acelerei totalmente, que cheguei a ir para trás e o meu violão deitou no assento de trás. Com a rapidez, meu campo de visão havia melhorado até que...
Notei o vulto azul passar pela minha frente, fazendo-me frear rapidamente. No entanto, o freio foi em vão, pois pelo barulho brusco eu havia atropelado.
Tomada pelo susto, o corpo não se levantou, então eu automaticamente saí do carro.
— Ah, droga! DROGA! Se já não me bastasse... – reclamei irritada e aflita. Fechei a porta do carro e pisei na neve até o corpo anônimo que já pensava no pior – Perd...
Paralisei ao ver um corpo nu no chão frio, de costas para mim, em posição fetal, todo encolido sobre a neve. Era um garoto, ele tinha manchas vermelhas nas costas e tremia como um cão cheio de frio. Podia ouvir seus dentes batendo e seu cabelo enrolado e castanho, todo sujo de neve.
Incrédula, aproximei-me pelo desespero de ver um corpo ali, que poderia estar ferido. Cheguei a sua frente e seus olhos fechados com força.
— Ei! Ei, eu te feri? – indaguei, sacudindo-o.
Ele apenas tremia, todo encolhido de olhos fechados. Seus cílios eram longos e o cabelo também; tampara quase toda sua testa. Notei o sangue pela neve e vi que sua coxa e sua canela direita estavam sangrando.
— Ah não! Você está ferido! – vociferei querendo tremer, pois seu sangue estava em meus dedos. Tirei minha jaqueta e o cobri ali mesmo no chão. – Espera! Eu vou chamar a ambulância.
Levantei e fui até o carro. Peguei meu celular e tentei manter a calma para discar os números, mas eu estava tão nervosa que quase deixei meu celular soltar de minhas mãos trêmulas.
— Vamos... Atende... – eu murmurava, voltando para o garoto ferido no chão e vi que ele parou de tremer. Abaixei em sua frente, enquanto aguardava atendimento. Ele respirava alto e rápido. – Eles não atendem. Deve estar fora de área, preciso te levar até lá. Você não pode ficar assim. Consegue se levantar?
Tentei tocá-lo novamente, quando ele me impediu, segurando meu pulso com força. Sua mão era imensa, assim como seus olhos que que abriram num lindo azul. Era tão chamativo... podia ver o reflexo da chuva de neve passando por seus olhos. Deixou-me admirada.
— Eles estão chegando... – ele sussurrou escondendo a dor e eu não entendi de quem falava.
— Quem?
— Os caçadores...
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