Canto I — As Quatro Legiões!

“A única fonte de poder que não corrompe a alma é o amor. Com ele serás capaz de transcender o tempo e realizar o inimaginável sem se perder em devaneios.”

O cavaleiro de touro e seus dois acompanhantes de bronze já haviam caminhado por toda Manaus a busca de informações sem obter êxito. Será que a grande Athena teria interpretado errado as estrelas? Era uma possibilidade que o trio se negava a acreditar. Entretanto o cansaço de dois dias de procura juntamente com o sol do meio dia lhes fez parar e procurar um lugar para descansar. Inicialmente entraram em um boteco de esquina para comer alguma coisa. Novamente o acaso sorri para os cavaleiros de Athena quando Aldebaran escuta um bêbado dentro do bar dizer:

–Eu ‘tô’ falando sério! Vi um índio vestido estranho arrancar a cabeça de um pescador na minha frente! Foi nojento! – Falou em tom embriagado.

–Claro, claro. E eu tomei ‘ceva’ com o papai Noel e com o coelhinho da páscoa ontem de noite. Te juro! – Outro bêbado retrucava enquanto gargalhava.

–Porra! É sério! Ele arrancou a cabeça do cara só com as mãos! E não pareceu fazer a mínima força ‘pra’ isso. O índio era doido! Falava que não sei quem ia voltar e governar a terra. Não entendo merda nenhuma desses índios mesmo. – Insistia na história com o olhar arregalado.

–Acho que ‘cê’ tem que parar de beber. ‘Tá’ começando a ver coisas. – Continuava a debochar do companheiro de mesa.

–A onde você viu esse cara? – Aldebaran se levantou de sua mesa e perguntou.

–Caralho! ’Cê’ é alto ‘pra’ caralho! – Ambos ficaram impressionados com o porte do cavaleiro de ouro.

–A onde? – A montanha com braços bate na mesa que se quebra.

– Saindo daqui, basta seguir pela transamazônica durante uns 50 km. Existe uma reserva de índios do lado direito. Acho que o barco do cara que foi decapitado ainda deve estar lá. – O bêbado teve sua embriagues consumida pela adrenalina e falou prontamente.

–Obrigado. –Touro deu as costas para eles e chamou os outros- Shiryu e Geki. Vamos! Já sei para onde ir!

–Ei! e nossa cerveja? – questionou o bêbado debochado. – Você quebrou nossa mesa e a nossa cerveja. Quem vai pagar?

–Você está me cobrando? – Aldebaran olhou com imponência.

–Não, não. Eu tava falando comigo mesmo. Deixa ‘pra’ lá.

Os três santos de Athena saíram do bar. Shiryu e Geki que não entenderam bem o ocorrido, afinal só falavam japoneses e gregos, procuravam respostas. Aldebaran foi indicado para esta missão, pois era o único que falava português e poderia se comunicar com os nativos. De fato a escolha foi essencial para encontrar informações do paradeiro do primeiro batalhão de Ares.

Não foi necessário muito esforço para encontrar o lugar indicado, pois os Berserkers estavam tão confiantes que deixaram o barco ensangüentado a beira do rio. Sem sequer tentar esconder as pistas o rastro de sangue mostrava o caminho. E seguindo aquela trilha de sangue os cavaleiros observaram um corpo sem cabeça estirado ao chão, as marcas no pescoço sugeriam que um lobo tivesse atacado aquele homem, mas o corpo ainda tinha restos de um cosmo repleto de raiva. Obviamente foi um trabalho de um Berserkers.

–Estamos sendo vigiados. — Informou Aldebaran – Vocês siguam para aquele lado.

–Mas Sr. Aldebaran... – Shiryu tentou contestar.

– Não parece ser muito perigoso. Apenas faça o que eu digo. – Os cavaleiros de bronze se separaram do dourado.

Não deram mais do que uma dúzia de passos quando foram abordados por uma dupla de índios com armaduras vermelhas. O estilo da proteção não deixava duvidas, eram Berserkers. Uma luta corpo-a-corpo começou, com vários socos e chutes rudimentares por parte dos guerreiros de Ares. Os cavaleiros de Athena por sua vez demonstravam superioridade em relação às técnicas de combate.

As defesas e ataques dos defensores de bronze pareciam decidir a luta, até o momento em que um dos socos dos seguidores do maléfico deus entrou na defesa de Geki. O Urso sentiu seu peitoral ser destruído com apenas um golpe. Seu corpo estremeceu e foi jogado a duzentos metros, arrastando todas as arvores que tinham pelo caminho. Enquanto levantava, recuperando-se do ataque, Shiryu era atacado pelos dois Berserkers.

Apesar de técnicas mais elementares, os adversários do Dragão tinham uma força descomunal. E mesmo com toda a destreza do cavaleiro de longos cabelos negros, um momento de vacilo contra dois oponentes foi o suficiente para ser atingido na nuca e desmaiar. Geki ao longe não foi capaz de impedir que levassem seu companheiro seqüestrado.

O cavaleiro de urso estava sozinho em sua primeira missão em nome de Athena e já deixara que um companheiro fosse seqüestrado, sem duvida a vergonha dominava seus pensamentos. Ele tentou alcançar os seqüestradores, mas além de mais fortes, eles eram mais rápidos. O ponto forte de Geki nunca fora sua velocidade, contudo seu treinamento contra ursos no Canadá o forneceu habilidades suficientes para seguir os rastros da trilha dos bastardos de Ares.

Com as pegadas e marcas deixadas, o Urso chegou aos limites de uma clareira. Onde se encontrava uma tribo de índios, todos com armaduras areanas. Aquele com certeza era um quartel general de Ares, mas uma pergunta apareceu em sua mente: -“Já obtive a informação desejada, meu objetivo está concluído. Devo me arriscar e salvar meu companheiro colocando a missão em perigo?”

–Olá seus fracotes! – Gritou Geki tomando uma decisão. – Ares não tem vergonha de ter servos tão fracos assim?

Quatro guerreiros escutam Geki falar e mesmo sem entender o que ele dizia avanção contra o guerreiro de Athena que foge pela floresta. Quando estes estão prestes a alcançá-lo. Ele para e se vira contra eles gritando:

–Mata Urso! – O cavaleiro de bronze de urso agarra e quebra os pescoços de dois Berserkers. Um golpe limpo e fatal. – Dois já foram só faltam vocês.

–Ele matou nosso irmão com um golpe! – Falou um deles.

Uma luz dourada brilha atrás dos guerreiros de Ares restantes que caem inconscientes ao solo. Era o cavaleiro de Touro salvando seu companheiro, uma fonte de esperança finalmente se mostrava presente. Aldebaran apareceu atrás dos corpos caídos de forma sorridente e descontraída.

–Não é que descobrimos onde está um dos quartéis de Ares? – Falava o brasileiro enquanto sorria para Geki.

–E por que este ar de felicidade? Shiryu está com eles!

–Calma. Porque será que cavaleiros de bronze sempre são muito apressados? Eu estava junto de vocês o tempo todo, eles são apenas Berserkers fracotes. Não terá a menor graça enfrentá-los.

–Como você sabe que são todos fracos? E mesmo assim, são vários deles. Acho que devemos utilizar de táticas de guerrilha para eliminá-los aos poucos e assim resgatar Shiryu! – O Urso se mostrava inconformado com a situação.

–Continuas ansioso. Em primeiro lugar, Athena pediu para não eliminá-los. Em segundo lugar, são tantos que não poderemos levá-los daqui para o santuário. Teremos que pedir a ajuda do Mú. Por tanto vamos apenas resgatar Shiryu e passar as informações para a deusa Athena.

–E quanto a estes dois? – Geki apontava para os nocauteados.

–Estes levaremos para o Santuário. – Respondeu enquanto caminhava de volta para a tribo. – E alias... Gostei bastante do seu golpe, você tem estilo. Talvez você possa aprender alguma coisa nesta missão.

–Sério? Obrigado senhor Aldebaran! – O cavaleiro de bronze ficou feliz e sorridente pelo elogio recebido de um cavaleiro de ouro.

–Sim. Quando chegarmos à tribo, mantenha os olhos bem abertos.

Logo eles chegavam novamente aos limites da clareira onde estavam os Berserkers e após poucos instantes de observação, Aldebaran salta para uma área totalmente aberta e visível, chamando a atenção dos guerreiros. Um grande círculo se formou entorno daquele gigante dourado, eram aproximadamente vinte guerreiros de traços indígenas com armaduras que reluziam um cosmo apavorante.

–Procure o Shiryu, sinto que o cosmo dele está em uma daquelas ocas! – Apontou para um par delas e depois cruzou seus braços.

–Certo! – Respondeu o Urso.

A postura do cavaleiro de ouro era muito conhecida entre as doze casas, mas para aqueles selvagens aparentava ser um descuido e uma imprudência cruzar os braços envolto por inimigos. Motivo mais que o suficiente para todos eles avançarem juntos em um ataque massimo contra o Touro. Que apenas sorriu brevemente antes do:

–Grande Chifre! – Um ataque brutal foi desferido contra os vinte inimigos que tombaram inertes. – Espero que tenha visto, pois não repetirei.

Mesmo sendo um cavaleiro de ouro, um golpe daquele porte e intensidade, contra tantos guerreiros ao mesmo tempo, acabou esgotando-o. Geki que viu a cena e arregalou os olhos com tamanho poder, nunca sentira um cosmo tão poderoso excetuando-se o de Athena. Mas ele não podia ficar parado boquiaberto, pois devia salvar seu companheiro de bronze.

–Shiryu? – ele entrava na primeira oca.

–Não. Seu tolo insignificante. – Um Berserkers com traje preto com detalhes em vermelho se virou de frente.

–Quem é você? – Ele sentia uma energia totalmente maligna e aterradora.

–Pff... Apesar de seu porte, não passar de um rato. E ainda por cima que tirar satisfações. Pelo menos este ratinho sabe falar grego.

–Ratinho? – Geki perdeu a paciência e atacou – Abraço do Urso! – Tomou o pescoço do inimigo tentado estrangulá-lo.

–Força física não significa nada para mim. – O guerreiro de ares criou uma bola de energia entre as mãos e disparou contra o peito do cavaleiro que foi lançado para fora da oca. — Agora é o momento de acabar com isso.

–Esta luta ainda não acabou! – Geki se levantava.

–Isso não é uma luta. Uma luta requer dois oponentes em pé de igualdade. Você não tem nenhuma chance de ganhar. Acabou antes mesmo de começar.

–Você é o Berserkers da arrogância por acaso? Isto é uma luta e ela ainda não acabou! Mata Urso! – O golpe fatal que buscava o pescoço do inimigo falhou. Elegantemente seu oponente, que tinha um peitoral preto com um ser de chifres e asas de morcego desenhado em vermelho, desviou.

–Não é que esta criança pode oferecer algum perigo?

–Me diga logo quem é você!

–Está bem. Se que saibas de quem foi o ultimo rosto que vistes. Eu sou o General Demono da Quarta Legião!

–General da Quarta Legião? Então os quatro comandantes são...

–Vejo que de ignorante só tens a cara. Sim: Eros comanda a primeira legião. Anteros a segunda, Fobos a terceira e Deimos é o nosso comandante. Agora entendes que o exército de Ares é imbatível? Quatro deuses são os comandantes e eu estou logo abaixo deles.

–Se Ares precisa de quatro deuses é porque ele sozinho não dá conta. – Provocou Geki entre risos forçados.

–Já falamos demais. Morra! Encruzilhada demoníaca! – Geki viu toda a floresta desaparecer, estava ali apenas ele e mais ninguém. Imerso em uma escuridão sem fim sentiu seu corpo pesar, como se a gravidade tivesse aumentado. De repende surgem do meio das trevas bestas selvagens que mordem ferozmente, lembrando cães raivosos. O cavaleiro tem a impressão de ter suas entranhas abertas e cai de costas no chão. O ambiente volta ao normal e ele se vê deitado numa poça de sangue com as pernas e os braços dilacerados.

–Que ataque foi esse? Foi uma ilusão? – Questiona o santo de Athena.

–Que importa? Já estas praticamente morto. Aceite seu destino enquanto eu vou e cuido de outro cavaleiro.

–Praticamente morto? Não diga bobagens. – O Urso faça um grande esforço para ficar de pé. – Vou matá-lo e será com um único golpe.

–Deve estar delirando pela perda de sangue.

–Se todos os generais forem como você. Não temos com o que nos preocupar. – Ao terminar de falar, ele ria enquanto cruzava os braços.

–Acredita que vou acreditar neste blefe? Você vai morrer agora, pois não resistirá a outro golpe. Encruzilhada Demoníaca! – Nesse instante, quando tudo começou a escurecer, uma luz brilhou vinda de Geki ao abrir os braços e as mãos estendendo-as contra Demono.

–O Grande Urso! – Uma fera de luz azulada no formato de um grande urso brotou das mãos do cavaleiro que atingiu o peito do Berserkers. A floresta prontamente voltou ao normal e o general de Ares foi ao solo tossindo sangue.

–Como? Ele estava à beira da morte, mesmo assim foi capaz de evitar meu golpe e desferir um contra-ataque tão poderoso.

–Seu ataque tem um ponto falho. Você fica exposto quando submete o adversário a ilusão, e quando este fica preso nela. Você aproveita para atacá-lo desprotegido, uma técnica bem covarde em minha opinião. – Respondeu o Urso já pálido. – Bastou eu atacá-lo com tudo o que eu tinha enquanto preparavas a ilusão. Infelizmente acho que não me sobrou energia para continuar. – Ele despenca moribundo.

–Não acredito! Atacou-me sem pensar em si mesmo. Ainda bem que tenho forças para um último golpe. Será o suficiente para terminar com o que lhe sobrou de vida. – Deitado, o guerreiro de Ares esticava a mão concentrando cosmo nela.

–Acredito que eu não vá deixá-lo concluir este ataque. – Shiryu aparece atrás do inimigo e pisa em seu braço. – Achou que eu fosse permanecer dormindo por quanto tempo? Vocês foram muito descuidados.

Após tomarem o controle da situação, Shiryu e Aldebaran levaram Geki e Demono até o santuário. Desafortunadamente não conseguiram trazer os outros Berserkers, no entanto aquele que trouxeram certamente tinha muitas informações a esclarecer. O urso, com a ajuda de Athena, foi salvo da morte quase certa, ainda que permanecesse inconsciente e em péssimas condições.

Canto II – Um Sonho

“Se deixar um sonho morrer, vais lutar sem um propósito. Começar uma guerra para obter a paz é como trair por amor: Uma tolice.”

Aiolia e seus companheiros de bronze chegavam ao local indicado por sua Deusa, um grande templo no meio do deserto. Parados na frente da entrada já podiam sentir um cosmo sinistro dominando o local. A realidade parecia se confundir nas proximidades mesmo do lado de fora, parecendo diferente a cada olhar.

–Essa sensação. Parece com o labirinto da casa de Gêmeos! – Seiya declarou.

–Não se iluda. Este lugar tem um cosmo muito mais poderoso que o da casa de Gêmeos.

–Estou com calafrios só de olhar para lá dentro. – Ban estremeceu.

–Não vamos perder mais tempo! Eu vou entrar. – Seiya saiu correndo e entrou no local.

–Espere! Ban fique aqui e guarde a entrada! – Aiolia tentou alcançar Seiya, mas já haviam se perdido na difusão da realidade criada dentro do templo.

O Leão estava completamente perdido, não reconhecia nada. A entrada sumira e nem sequer sabia onde era o chão ou as paredes, tão pouco conseguia avistar pégasus. Por mais que gritasse e chamasse pelo cavaleiro de bronze, não obtinha resposta. Com certeza o poder utilizado para deixa o ambiente daquele jeito era muito poderoso. Felizmente a estabilidade emocional do cavaleiro de ouro era algo digno de seu posto.

–Mostre-se seu covarde! Diga-me, onde estas! – Gritou buscando seu oponente.

–A pergunta é a onde nós estamos. Estamos ao norte do tempo e a leste da realidade. Onde qualquer sonho se torna verdade. – Respondeu uma voz vinda do nada.

–Não gosto de charadas. Apareça e lute! – Insistiu Aiolia.

–Sonho Desperto... – Sussurrou a voz.

O cavaleiro até então vestido com a armadura de ouro de leão se viu despertando em uma cama de hospital, usando apenas com um avental para pacientes. Ao lado estava sentado seu irmão Aiolos que ao vê-lo se pôs de pé com um sorriso e o abraçou.

–Você finalmente despertou! Que alegria!

–Aiolos! Meu irmão! Como é possível? Você está vivo! – Aiolia sorriu e respondeu ao abraço.

–Mas é claro que estou! Achei que você nunca mais sairia do coma!

–Côma? Que côma?

–Você sofreu um acidente de carro e entrou em côma, mas não importa. Pois agora estamos bem. Não agüentaria perder você depois de perdermos nossos pais.

–Do que você está falando? Onde estou? Shura não havia te matado?

–Você está no hospital, oras. Shura? Quem é Shura?

–O cavaleiro de ouro capricórnio! Que tentou te matar quando...

–Ah! Você deve ter sonhado! Sua mente deve ter sonhado com isso se lembrando de quando brincávamos de ser defensores mitológicos. – Aiolos colocou a mão sobre a cabeça de seu irmão e começou a rir.

–Não encoste em mim! – Aiolia deu um tapa no braço de seu irmão e saltou da cama. – Isto deve ser uma ilusão! Vou acabar com você e esta farsa! Cápsula do Poder! – O recém desperto deu um soco no ar e nada aconteceu.

–Eu acho que a batida em sua cabeça foi muito forte. Deite-se e descanse um pouco.

–Mas como? – O caçula uniu os braços rente ao corpo e tentou se concentrar. – Cosmo queime! Eleve-se para que eu possa revelar meu oponente! – Ele tentava com todas suas forças, mas nada acontecia.

–Aiolia, calma. Você deve estar confuso. Acredite, foi só um sonho ruim! Tudo está bem agora.

–Um sonho, será? – o cavaleiro de leão parecia confuso. – Talvez. Pode ser. Mas e todos aqueles anos... Nada foi real?

–Descanse irmãozinho. Provavelmente aquele desenho animado¹ dos ‘Defensores da Mitologia’ que víamos quando éramos crianças deve ter influenciado esses seus delírios.

–Defensores da Mitologia?

–Claro! Nós brincávamos de proteger os deuses. Cada um escolhia um deus para proteger e depois lutávamos em nome dele. Você sempre escolhia a.

–Athena!

–Isso! Está se lembrando agora?

–Não sei estou tão confuso... Mas ver você aqui... Vivo.

–Mas é claro que eu estou vivo! Foi só um sonho. Vem cá me dá um abraço! – Aiolos abriu os braços.

–Meu irmão! – Aiolia o abraçou e seus olhos lacrimejaram.

–Calma... Agora tudo vai ficar bem... Para sempre... Para todo o sempre.

Enquanto aquele momento parecia ser eterno para o irmão mais novo, um som bem baixo, parecido com o de centelhas elétricas, começou a ecoar pela sala. Os dois se afastaram e começaram a observar a sala tremer. Uma das paredes do quarto começou a trincar, quando uma voz conhecida gritou do além:

–Meteoro de Pégasus! – Seiya aparece destruindo a parede que se quebra como cacos de vidro. Uma luz vermelha ofuscante brilha atrás de Seiya. – Vamos embora! Isso é só uma ilusão!

–Mas... Seiya? – Aiolia volta a ter seus pensamentos claros. Olha para seu irmão mais velho e sente uma tristeza muito grande. Mas parte para fora da ilusão seguindo pégasus.

Do lado de fora, os dois se encontram de volta a realidade no templo em que entraram. Agora tudo parecia normal, sem múltiplas dimensões ou algum paradoxo temporal.

–Seiya, como você também caiu na ilusão?

–Sim. É Óbvio! Era bem convincente. – O cavaleiro de Bronze ria ao responder.

–E como percebeu que era uma ilusão saiu de lá? Eu não tinha nem cosmos naquele lugar!

–Ah! É que vim me dizer que a Saori não existe? O que eu sinto por ela... — Seiya gaguejou e ficou vermelho. — Digo como nossa deusa né... Não tive duvidas que fosse uma ilusão! Também me vi sem cosmos, mas comecei a soquear a parede com todas minhas forças até quebrá-la. Então percebi que na verdade eu tinha cosmo, só parecia não ter.

–Que vergonha. Um cavaleiro de bronze foi capaz de perceber isso e eu não. – Aiolia apertava fortemente o próprio punho com raiva de si mesmo.

–Relaxa! Certamente você iria perceber mais cedo ou mais tarde! – Pegasus tentava reconfortá-lo.

Sons de saltos pareciam se aproximar, com certeza era mais de uma pessoa. Os cavaleiros se colocam em posição de ataque esperando o inimigo aparecer. Surge então dobrando um dos corredores de dentro do templo duas mulheres, uma loira e outra ruiva, e um homem também loiro. Todos bem vestidos, apenas usando roupas de festa, nada parecido com uma armadura. A ruiva notavelmente mais elegante que os demais, coloca-se a frente.

–Deixe-me apresentar-nos. Eu sou Eritro e esta é Sela e aquele é Somni. Fico impressionada que sejam capazes de se livrar da ilusão criada por ter Bersekers de elite como nós! – A ruiva indicou seus colegas.

–Mas isto só quer dizer que vão morrer de um jeito mais trágico. Poderiam ter ficado naqueles sonhos para sempre! Eram tão belos... – A loira se pronunciou.

–Eu não gosto de bater em mulheres... – Seiya provocou.

–Sela, não se preocupe eu acabo com ele. – O homem de smoking atacou Pégasus com socos e chutes, elegantes e precisos.

Seiya se defendia muito bem e contra-atacava com socos firmes e potentes. A luta corpo a corpo parecia tender para Pégasus. Um soco errado do Berserker foi o suficiente para o santo de bronze atingi-lo com um potente golpe que o fez voar para o outro lado do salão. De imediato a loira arrancou seu vestido longo de festa, mostrou a armadura escondida por de baixo e atacou.

Aiolia observava a luta de seu companheiro sem fazer nada além de olhar e cuidar dos movimentos da ruiva que também apenas analisava a situação. Seiya estava apenas se defendendo, pois não conseguia impor sua verdadeira força em seus ataques contra aquela mulher extremamente atraente. Tal comportamento levou pegasus a ser atingido por uma seqüência de golpes caindo no chão escarrando sangue.

–Seu amigo foi tolo em deter seus golpes contra mim. – Falou Sela olhando para Aiolia.

–Vocês têm duas alternativas: Virem comigo até o santuário por bem, ou por mal. – Advertiu o Leão.

–Deve estar brincando. Vou dar-lhe uma lição! – A moça atacou Aiolia com um soco.

–Não estou aqui para brincar. – Ele segurou o punho dela com a mão esquerda. – E eu sou bem diferente de qualquer santo de bronze. Eu sou Aiolia o cavaleiro de ouro de Leão! – Uma intensa luz brilhou do ombro direito do santo de ouro fazendo a Berserker ser jogada desacordada ao longe e ter sua armadura lascada.

–Irmã! – Somni se levantava do golpe de Pégasus. – Vou acabar com você!

–Eu acho que não! – Seiya se levantava. – Sou eu o seu adversário. Receba o Meteoro de Pégasus! – O berserker não teve chances contra o golpe e caiu inconsciente.

–Fiquei impressionada com a força de vocês, mas é fácil lutar contra peões. Gostaria de ver se serão tão eficazes contra uma general. – Eritro se pronunciou.

–Me acompanhe até o santuário e não precisaremos lutar. – Aiolia tentou convencê-la.

–Não seja ridículo. Aqui será o tumulo de vocês dois!

–Não irei me segurar como antes! – Pégasus tomou uma posição ofensiva.

–Não Seiya! Você não consegue! Pare! – Aiolia tentou avisar.

–Meteoro de Pégasus! – Ele não ouviu e atacou. A donzela ruiva apenas sorriu enquanto erguia se braço, absorvendo todos os meteoros. – Como será possível?

–Pobre criança. Receba seu próprio poder, com o bônus da: Espelho Rubi! – Todos os meteoros voltaram contra Pégasus, mas agora vermelhos e mais potentes. Seiya não resistiu e desmaiou. – Só resta o último. O gatinho dourado de Athena.

–Você observou o golpe dele quando o usou contra Somni. Sem isto não terias o derrotado. Eu mesmo já lutei contra Seiya, ele não seria derrotado assim.

–Não seja tão patético. Eu o teria derrotado de qualquer maneira. Apenas usei o melhor meio para isso. Assim estarei mais disposta para uma luta realmente interessante.

Eritro retirou seu largo e belo vestido revelando sua armadura totalmente na cor escarlate. Uma intensa luta corpo-a-corpo começou, mas felizmente Aiolia não demonstrava ter grandes dificuldades em se defender e atacar, dominando a batalha. Bastou apenas um chute no rosto da adversária para esta se afastar do leão aos saltos.

–Seu treinamento marcial é admirável. – Ela sangrava pela maça do rosto devido ao golpe. – Pena a brincadeira ter acabado. Não posso permitir que um qualquer como você fira meu lindo rosto.

–Eu avisei que não sou como meu companheiro.

–Mas vai perder como ele! – Ela demonstrava um autocontrole absurdo. Elevou seu cosmo avermelhado, dominando o templo. – Ruby Laser!

–Light Plasma! – Revidou Aiolia instintivamente. Formando uma batalha que mais parecia um show de luzes douradas e escarlates. Ambos não paravam de atacar, mesmo sendo atingidos pelos golpes do adversário.

Quando os dois cessaram o ataque, o ambiente estava totalmente destruído. Eritro com várias escoriações por todo o corpo e Aiolia caído de joelhos, tossido sangue e visivelmente ferido. A luta estava terminando e não com a vitória do Leão.

–Foi um adversário além das expectativas. Talvez doze de vocês fosse um problema, ainda bem que Já não são doze.

–Você tem nos observado?

–Sim. Eu sou uma espiã e sei de cada passo de vocês. Para onde cada um foi e o que pretendem. Esta guerra santa vai terminar antes mesmo de Ares e seus filhos despertarem!

–Então é você está liderando o exército de Ares? – Tossiu mais sangue e teve de apoiar ambas as mãos no chão para não cair.

–Não. Só lidero a primeira Legião. Estás prestes a morrer! Que isso importa? Vou adiantar o processo. Ruby Las... – Ela elevou o cosmo e prestes a atacar pode observar um sorriso brotar em Aiolia.

–Ainda não! Cápsula do Poder! – O poderoso ataque a atingiu antes de ser capaz de dar o golpe de misericórdia.

A ruiva caiu convalescente, metros a frente do santo de ouro que mal podia ficar de pé. Seiya que despertara com o cosmo e o estrondo do ultimo golpe, foi até Aiolia e o acudiu. Em poucos momentos, chamaram Ban e com sua ajuda foram capazes de levar os três moribundos para um jato da fundação Kido que os esperavam com destino ao santuário.

Canto III — Um Ninho

“Eu já sabia tanto. Mesmo esquecendo a maior parte, poucas coisas eram tão importantes como alguns nomes: Esmeralda, Shun, Albert e...”

Nas ruas de Sidney um trio caminhava em busca de pistas da possível localização dos Berserkers. Contudo o lugar parecia extremamente civilizado sem grandes perturbações no fluído cósmico. Nenhum deles sentia ameaça alguma.

–Estaremos no lugar certo? – Hyoga questionou Miro

–Sim. Tenho certeza que estamos na cidade certa. – Respondeu o dourado.

–Será que Athena viu corretamente as estrelas? – Nachi duvidou.

–As previsões de Athena são inquestionáveis! – Afirmou Miro segurando seu companheiro pelo braço, como se fizesse uma repreensão da conduta do cavaleiro.

–Certo, certo. Só perguntei, perguntar não ofende! –Tentou se desculpar o Lobo.

–Mas tu és um ignorante completamente retardado? – Perguntou o Escorpião irritado.

–O que?! – Ambos cavaleiros de bronze se espantaram.

–Perguntar ofende? – Miro começou a rir e voltou a caminhar. – Não se preocupe. Eu respeito ambos como cavaleiros, só não duvidem das decisões de Athena.

Após aquele estranho momento, eles continuaram a procura do covil em silêncio durante horas. Já estavam ali há dois dias e nenhuma pista sequer. Quando de repente Miro novamente para de andar e se vira em direção a uma avenida. Ele começa a correr desesperadamente sem dizer uma única palavra e os outros cavaleiros o seguem.

O cavaleiro e ouro para em frente a um edifício garagem, faz sinal de silêncio para os dois e entra sorrateiramente no prédio. Ele sentira por um instante o cosmo agressivo e sinistro vindo dali. Fora algo tão rápido que ele mal conseguiu identificar de que tipo de pessoa seria: amiga ou inimiga. Alguns andares acima encontraram várias pessoas, homens e mulheres, vestidos com armaduras areanas, dormindo enroscados.

–Achamos o QG deles. Mas são vários e parecem em transe. O que faremos? – Nachi perguntou.

–Hyoga, crie quatro paredes de gelo eterno entorno deles. – Miro ordenou.

–Mas eu nunca...

–Agora! Antes que eles percebam nossa presença!-A mera entonação de Miro foi o suficiente para a montanha de corpos começarem a se mexer. Hyoga Ergueu seu braço e construiu uma espessa parece circular entorno do grupo que despertava aos poucos.

–Muito bem Hyoga! – O Lobo parabenizou, mas Hyoga caiu exausto pela técnica.

Nachi acudiu o companheiro caído, mas logo teve que se voltar para os inimigos, que com o intenso e poderoso cosmo de Cisne utilizado, acordou todos os Berserkers. Várias investidas eram feitas contra a parede que nem se arranhava. Entretanto, um seguidor de ares que usava uma armadura que lembrava escamas, com duas presas que saiam de seu elmo, explodiu o chão do andar. O edifício começou a ruir e a desabar, Miro agarrou Hyoga e junto com o Lobo, saltaram por uma abertura e pousaram em uma varanda do prédio ao lado.

Com o golpe o prédio de 11 andares eclodiu. Dificilmente alguém sobreviveria a tal desastre, mas eles não podiam dar ao luxo de não ir conferir se todos os Berserkers estavam mortos e foram até as ruínas, que logo se encheram de curiosos e bombeiros.

Algumas pedras começaram a se mexer, parecia que havia um sobrevivente, no entanto dali surgiu cinco deles intactos. Aquele que destruiu o próprio prédio e outros quatro — As armaduras deles lembravam um rato, uma abelha, um cavalo e um peixe. Nem mesmo uma palavra foi dita e eles partiram para o ataque, com poderosos golpes, sem se importar com todas as outras pessoas envoltas.

O Rato e a Abelha atacavam Miro, com rajadas cósmicas; O Cavalo atacava Hyoga com socos e chutes, em um equilíbrio entre força e destreza; Já o Peixe usava um golpe cósmico contra o Lobo, que até então estava conseguindo evitá-lo. Rapidamente a maioria das pessoas não envolvidas saíram para não serem machucadas, enquanto outras ficaram para filmar ou observar uma luta que parecia inacreditável.

Quando o Escorpião foi atingido por uma rajada no rosto, que fez seu elmo voar e seu lábio sangrar, ele parou, limpou seu sangue, se pôs em posição de ataque e disparou seu golpe imobilizaste. Agora suas duas presas estavam paralisadas e podiam esperar, afinal havia um inimigo que apenas o observava, este era o Berserker que destruiu o edifício junto com os próprios companheiros.

Hyoga se vendo perder na luta corpo a corpo, foi obrigado a utilizar seu ‘Trovão Aurora’ para congelar as pernas do adversário, também o imobilizando sem o matar. Nachi que apenas estava se protegendo, ao ver uma brecha na defesa do oponente que atacava sem grandes cuidados, bastou um golpe na nuca para desacordá-lo. Neste momento eram três santos contra um Berserker.

–Vejo que resolveram poupar meus companheiros Ictio, Equino, Melisso e Muso. Quando nem mesmo eu poupei os outros.

–Me pergunto que tipo de verme mata os próprios amigos de luta. – Miro se colocou a frente.

–Ofidio, general da terceira legião do mestre Fobos. A seu dispor. — Respondeu ele rindo-se.

–Mas por que você fez isso? –Hyoga entrou na conversa.

–Por que eu quis. Era daquele jeito que eu me veria livre da sua parede de gelo.

–Porque está dizendo isso? E seus companheiros? – Hyoga não acreditava no que ouvia.

–Eu digo o que eu penso. Faço o que acredito, e tenho o que eu quero.

–Quanto absurdo! – Miro começou a rir do inimigo.

–Absurdo? Absurdo é você não ser o que realmente é! Você é um caçador, selvagem e agressivo! Gostaria de ter matado pessoalmente os soterrados. E aqueles dois ali? O que foi aquilo? Eu vi a morte deles eu seus olhos. Porque não os matou? Eu digo o porquê. É por que você finge ser o que não é. Um cãozinho obediente de Athena. – Ofidio apontava para Miro com um olhar de reprovação.

–Não seja tolo! Ele fez isso por que é o certo! Independente de nossa vontade! – Nachi defendeu o aliado ao ver que este ficou sem reação ao ouvir o Berserker.

–Pobre lobinho... Lutando e arriscando a própria vida por uma causa que nem sequer acredita de verdade. Será que eles sabem seu nome para escrever na lápide? Seu punho é fraco por que não acredita. E quando questionado não tem nem a coragem de assumir a incredulidade. Saia agora e pouparei a sua vida. – Desta vez as palavras saíram entre risadas.

–Sua fala é o seu verdadeiro veneno não é mesmo? Mas esta forma de agir é prova da sua própria visão deturpada do mundo e profunda infelicidade. Pessoas assim não podem ir muito longe. – Hyoga esclareceu enquanto sorria para o oponente.

–Você vindo me falar de infelicidade? Buscas o que criança? Tem o olhar de quem perdeu alguém muito importante e não aceita esta perda. Quer ter aquilo que não tem e nunca poderá ter! – Ao terminar de falar, ele se viu com o peito perfurado por Hyoga. Que começava a congelá-lo de dentro para fora. – Como?

–Eu descobri como você age. Deixa seu oponente sem reação com suas palavras, para destruí-lo facilmente. Mas pude observar sua tática duas vezes e foi o suficiente para perceber que fica tão focado em observar a verdade por de trás do oponente que sua guarda fica totalmente aberta. Não lhe darei uma oportunidade de envenenar o santuário com sua língua maldita. – Cisne terminou de congelar o corpo do adversário, fazendo-o virar uma estátua de gelo.

Os três cavaleiros de Athena prenderam os Berserkers sobreviventes e partiram em direção ao santuário. Sabiam que Aldebaran e Aiolia já tinham voltado com seu grupo intacto e outros seguidores de Ares. As missões de Athena estavam quase todas realizadas com sucesso. Faltava agora somente Mú.

Canto IV- Verdade Revelada

“O céu se cobriu de sombras, uma intensa chuva de fogo começou a devorar Madri e de um profundo sono ela despertou. Para me libertar da sede de vingança e novamente salvar a minha alma.”

O último trio estava no meio da multidão no centro de Madri. Um grande número de pessoas transitava apressadas sem olhar para os lados, excetuando-se os enviados de Athena. Quem quisesse, bastava olhar que identificariam os forasteiros, pois estes caminhavam com calma e atenção, diferentemente de todos os cidadãos espanhóis envolvidos em seu dia-a-dia estressante.

Em uma das praças se ouvia alguém discursar em voz alta e tom raivoso. Um aglomerado de pessoas logo se formou para ouvir o discurso. Os cavaleiros sentiram um cosmo emanar do centro daquela roda de dezenas de pessoas. E ao se aproximarem viram um mendigo, bêbado e mal vestido. Ele estava de pé sobre um banco forrado com papelão que provavelmente utilizava de cama e abrigo. E apesar dessas condições, o morador de rua falava com grande propriedade e clareza, seus olhos continham um brilho de razão e notavasse a sua raiva a flor da pele.

–Eu vejo todos os dias! Tantos homens tristes caminhando pela rua, em seus ternos de grife, tentado esconder sua infelicidade atrás de viajens às Malvinas, ao Rio de Janeiro, à Miami ou qualquer outro lugar que precisem trabalhar o ano inteiro para pagar! – Falava o homem envolto em trapos apontando para alguns senhores grisalhos de terno.

–Está sentindo Mú?- Ikki sussurrou para o santo de ouro.

–Sim, mas vamos ver até onde ele vai. – Respondeu em voz baixa Áries.

–E para nós? O que posso eu ou você conseguir? Eu não gosto daqui, e sei que você também não. Nós nunca encontramos o que procuramos e aquilo que encontramos nunca nos agrada! Que país é este? Que planeta é este? Derrubemos as fronteiras, pois são nelas que a paz é assassinada! Mas derrubemo-nas com golpes de amor e tolerância! Que nossa política seja a liberdade e nosso juiz o coração!- Continuou o discurso em meio a aplausos e gritos de apoio.

Quanto mais discursava, mais pessoas paravam para ouvir e maior apoio era oferecido. Os cidadãos deixavam de ir para onde estivesse indo, para escutar aquela notável figura. Suas palavras cativavam o público, eles queriam ouvir aquilo, a revolta contida em cada um por terem que engolir aquele sistema de vida, onde eram obrigados a fazerem o que não queriam, despertava e agitava as centenas de pessoas que já tumultuaram o lugar.

–Nós não devemos ser cárceres de nossos medos e de nossas ignorâncias! Que não tenhamos que rezar todas as noites pedindo ter um prato de comida no dia seguinte, ou que consigamos vaga em um leito de hospital. Que morra esse falso moralismo de que o sexo é vergonhoso e fonte de pecado! Façamos mais amor, pois esse é o verdadeiro caminho da vida!- Sua fala já esta levando o povo ao delírio. Era unânime, todos estavam concordando com o desconhecido.

–Apesar do discurso populista, o que ele fala tem fundamento. – Falou Ikki.

–Verdade. – Concordou Jabu.

–Sim, mas ele está usando seu cosmo para levar estas pessoas de acordo com sua vontade. – Esclareceu o dourado.

–Eu sei. Melhor agir agora! Jabu crie uma distração e disperse a multidão.

–Certo, vou arrebentar aquele hidrante e direcionar o jato d’água para cá, ok?

–Sim. E eu vou isolar ele da multidão com minha parede de cristal. Ikki, você fica com ele do lado de dentro?

–Claro. Acredito que ele esteja sozinho aqui. Não senti nenhuma outra cosmo energia diferente.

E assim como planejado, foi feito. Grande parte da multidão foi embora com os banhos de água, mas alguns ficaram para entender o que estava acontecendo, afinal surgiu um homem ‘do nada’ com uma armadura de ouro e com braços abertos formando uma barreira que brilhava como o cristal.

–Eles querem acabar com a nossa liberdade! Eles querem calar nossa voz! Não deixem!- O mendigo gritou enquanto revelava uma armadura por debaixo da roupa velha e surrada. – Quero ver vocês lutarem contra essa multidão. Serão capazes de ferirem tantos inocentes?

Jabu não conseguia mais controlar as pessoas com os jatos de água, eles estavam o atacando e também ao seu companheiro dourado. Mú tentou se controlar, mas a população estava alucinada, logo sua concentração terminou e sua parede sumiu. Ikki viu a cena e não se conteve como os outros cavaleiros e lançou um suave bater de asas da fênix que lançou todos os cidadãos ‘normais’ a metros de distância.

–Ikki você está louco? Quase matou aquelas pessoas! – Jabu questionou.

–Eles eram um empecilho e agora estão mais a salvo do que antes. E qualquer um que se coloque no meu caminho deve ser retirado, não importa quem seja. – Fênix respondeu com seu tom impositivo de sempre.

–Gosto de pessoas obstinadas. O que alguém assim faz ao lado de Athena? – Falou o Berserker.

–Se entregue! Venha conosco e evite esta luta! – Mú tentou persuadir.

–Não seja tosco. Eu jamais me renderia. Mesmo perante os doze cavaleiros de ouro e a própria Athena!

–Bela fala... Quem é você? Diga-me e te darei o prazer de ser vencido por mim.

–Eu sou o segundo tenente da segunda legião do senhor Anteros! Sou Eleutero. Mas acredito que não serás capaz de me matar.

–Deixe ele comigo! Galope do Unicórnio! – Jabu tentou atacar de surpresa, mas o rival se desviou do golpe e contra-atacou com um chute. O cavaleiro de bronze voou cem metros até colidir com um prédio próximo.

–Pobrezinho, ele não sabe o verdadeiro nivel desta luta. E eu não te entendo Fênix. Athena diz proteger a Terra, mas deixa-a nas mãos de poderosos que criam batalhas sem fim no oriente médio. Milhões morrem de fome na África, outras milhões de crianças sofrem trabalho escravo na china e sem falar na corrupção que o mundo inteiro está envolvido. É por uma deusa omissa assim que você luta?

–Suas palavras não me tocam. Eu não me importo com nenhuma dessas pessoas. Se elas estão nessa situação é por que a aceitaram. Se o seu País está em uma guerra sem causa, ou não tem condições de ter comida, ou se deixa seus filhos trabalharem como escravos, saia dele. Se viver sozinho é melhor do que na sociedade em que está envolvido, vá viver sozinho e pare de chorar. – Ikki respondeu sem alterar o tom de voz, demonstrando uma frieza assustadora.

–E Athena faz o possível para manter a paz e a justiça na Terra! Talvez se ela não tivesse que se preocupar tanto com os outros deuses tentando destruir e dominar a Terra ela conseguisse melhorar outras coisas. – Apoiou Mú.

O cavaleiro de bronze se cansou daquela briga de palavras e agiu. Com vários socos tentou acertar o inimigo, mas não acertou um único golpe. Eleutero era muito ágil, se esquivava de forma precisa e ainda por cima conseguia contra-atacar. Felizmente para Ikki, os punhos do Berserker eram fracos e sequer arranhavam a armadura. Em um dos ataques do inimigo, Fênix foi capaz de segurar a perna do adversário e arremessá-lo contra uma árvore.

–Golpe Fantasma de Fênix! – Atacou tentando aproveitar o momento. Um pequeno raio de fogo cruzou a cabeça inimiga.

–Não! – Eleutero gritou. Parou por um momento e começou a rir. – Um golpe interessante, mas para alguém como eu, é totalmente inútil.

–Ele recebeu seu ataque em cheio e não sofreu nada? – Mú estava surpreso.

–Será que você não tem mais nenhum medo? Não teme nenhum inferno? – Ikki questionou.

–O inferno já é aqui! – O Berserker respondeu.

–A Terra é um lugar ótimo! Com pessoas boas e amáveis! – Mú retrucou.

–Não se iludam! Hoje a soberba do mundo é tal que quebra qualquer homem valoroso e a avareza propaga a desonra. Dói-me ver tantas pessoas perdidas, com uma amargura que destrói o próprio destino. Escravos do próprio sistema que criaram, já não têm futuro.

–Da sua boca é que saem ilusões. A verdade não é essa! A maior parte das pessoas ainda é honrada, valorosa e honesta! – O cavaleiro de ouro argumentou.

–Você falando isso? – Eleutero parou e começou a gargalhar descontroladamente. – Então diga a verdade o que você e Virgem fizeram para Fênix.

–O que? Do que você está falando? – Ikki perguntou.

–Ele está blefando! Não o escute!

–Não, não estou. Eu tenho o poder de ver a verdade por detrás do povo, das pessoas. E a verdade Fênix... É que este seu valoroso, honrado e verdadeiro amigo de ouro, juntamente com o cavaleiro de Virgem, invadiram seu sono há algum tempo, para implantar um sonho que o fizesse tomar uma decisão. Eles decidiram por você... Privaram-te de duas coisas inestimadas... A liberdade de escolha e a mais importante: Esmeralda.

Toda e qualquer expressão desapareceu do rosto de Ikki. Ele estava chocado, seu rosto ficou pálido, seus lábios ficaram entre abertos, seus olhos arregalaram e seus ombros curvaram-se. Um silêncio mórbido se criou e durou apenas alguns segundos, mas que pareceram uma eternidade para o cavaleiro de bronze.

–É verdade Mú?-Questionou sem sequer olhar para o companheiro.

–Sim. – Áries respondeu relutante.

Nesse instante Fênix cerrou os punhos, seus olhos se encheram de sangue, suas veias da testa saltaram assim como a do pescoço e dos braços. Ele rangia os dentes amostra, como um cão raivoso. Seu corpo começou a tremer e seu cosmo começou a tender para o roxo, indo em direção para as chamas azuis. A sanidade do cavaleiro estava indo embora, mas ele tentava a todo custo não descontrolar-se. O Berserker vendo a cena aproveitou-se para dar a alfinetada final:

–Mú. Eu só não sei se foi você ou se foi o Shaka que selou a alma da Esmeralda. Ou será que foram vocês dois?

Agora não importava mais nada. Verdade ou mentira, aquela hipótese era mais que o suficiente para a pequena parte que mantinha o cavaleiro sob controle fosse por água a baixo. O cosmo tomou totalmente a cor azul, queimando com uma intensidade próxima da de um deus. A tal ponto que o próprio Berserker começou a se arrepender de ter provocado aquela situação.

–O que foi que eu fiz? Pare cavaleiro! Vais destruir toda Madri se continuar a espalhar suas chamas!

O parque em que se encontravam estava sendo totalmente devastado, as arvores eram arrancadas do solo enquanto pegavam fogo pelo furacão de chamas que brotavam de Ikki. O dia virou noite, o medo paralisava os dois observadores, aquele parecia ser o fim do caminho para aquela pobre alma sem esperanças que agora não sabia mais a aonde ir.

–Ikki, controle-se! Sua raiva só vai acabar destruindo todos a sua volta! – Mú tentou argumentar, mas contra o ódio cego não existem argumentos.

Mais amargo que a própria morte era saber que não poderia mais vê-la por causa daqueles em quem ele mais confiava. Ele não escolhera isto, um grande vazio invadia seu ser e toda a fé que restava foi embora. Agora Ikki só queria que tudo desaparecesse e no lugar viesse sua amada. Mas como isso não era possível, então que pelo menos tudo ao seu redor queimasse!

–Este poder não pode vir de um ser humano! – O seguidor de Ares caiu de joelhos sucumbindo ao intenso calor. – Será que você realmente é a reencarnação da Fênix mitológica?

Os corpos dos cidadãos que estavam mais próximos começaram a queimar, assim como o Berserker e o cavaleiro de ouro. Mú ainda conseguia se proteger elevando seu cosmo ao máximo, queimaduras surgiam em seu rosto e braços. No entanto Eleutero não agüentou a proximidade das chamas intensas e tanto sua carne como sua armadura viraram cinzas. E quando Áries estava prestes a sucumbir, Fênix simplesmente desapareceu no ar junto com todo o caos, restando apenas a destruição causada.

Ikki apareceu em uma praia vasta, onde ao longe no mar se avistava golfinhos saltando por entre as ondas. As nuvens brancas formavam belas figuras em contraste com o forte azul do céu. A areia macia acariciava os pés descalços do cavaleiro que não entendia como fora parar ali. Mas logo entendeu onde estava ao avistar aquela singela garota que se aproximava com um sorriso meigo e olhos brilhantes.

–Esmeralda! Meu amor! Como estou feliz! – Fênix abraçou-a forte.

–Ikki! Você conseguiu vir! Que bom!

–Pensei que nunca mais veria seu belo rosto, nem ouviria sua doce voz...

–Depois de seu amigo vir me avisar, também achei que não voltarias mais aqui.

–Vir avisar?

–Sim. Um amigo seu, vestido com uma armadura dourada, de longos cabelos loiros, veio e me disse que não poderias mais me ver.

–Shaka! Aquele bastardo!

–Ele não é seu amigo? Então você não me enviou isto? – Ela mostrava uma pulseira com escritas indianas.

–Ah! Este deve ser o selo que me impedia de te chamar com meu cosmo! Dê-me isso para que eu destrua. – Ikki esticou a mão esperando Esmeralda lhe entregar.

–Não.

–O que? Por quê?- Essa era uma resposta que ele não esperava e não entendia.

–Sabe, eu estive pensando, acho melhor você me abandonar. Eu te amo, mas você tem uma missão e eu sou uma pedra em seu caminho. É melhor que não possamos mais nos ver. – Ela ficou na ponta dos pés e beijou Fênix.

–Mas Esmeralda... – Os corpos colados faziam ambos sentirem a pulsação acelerada um do outro.

–Adeus Ikki... Espero que cumpra sua missão e consiga ser feliz. Vou torcer por você daqui. – Ela se desvencilhou dos braços de seu amado e começou a caminhar em direção ao mar.

–Você não pode simplesmente... – Após o choque que levou ao ouvir aquelas palavras, ele foi segura-la pela mão, mas não o fez. — Jamais te esquecerei Esmeralda. Adeus.

Mesmo sentindo uma profunda dor pela despedida, o coração do santo de bronze estava um pouco mais sereno. Afinal, conseguiu ter a oportunidade de dizer adeus e de despedir-se daquela que mais amou. Ele ainda tinha uma longa e tortuosa estrada pela frente ao lado de seus amigos e daqueles que o ludibriou. Sua alma clamava por vingança.

A traição dos cavaleiros de ouro era imperdoável, mas os fins justificavam os meios? Ikki se lembrou da terceira regra de seu falecido mestre, que não seria possível cumpri-la se ele seguisse aquele caminho. Engolindo seco, colocando o bem maior da Terra a frente de seus desejos pessoais, decidiu deixá-la ir embora. Contudo outra certeza lhe surgiu neste momento, pois salvar a humanidade agora não se tratava mais de seguir Athena, uma deusa ou o ideal de um cavaleiro. A partir dali ele lutaria apenas para tornar o mundo um belo lar para seu irmão caçula, seus verdadeiros amigos e a pequena Sophie.

#Diário de Athena: Página 632

Ao mesmo tempo em que, escrevo estas linhas, já posso perceber vocês que lêem estas palavras de diferentes séculos e milênios. Vejo com claridade certa parte do futuro, pois ele para mim, é óbvio. Assim como sabes que se soltares esta xícara em suas mãos ela irá cair, eu sei o que irá acontecer por mera dedução lógica.

Estamos no segundo século Draconiano (1) e eu (Athena) estava encarnada na terra e tinha meus seguidores. Ainda que poucos e estes não fossem santos e tão pouco tivessem como se defender dos deuses, eles dariam a vida em prol deste ideal, tal como nos dias que virão. O mais notável entre eles era Sócrates. Sim, um dos maiores filósofos desta época é tido como o maior fiel.

A Grécia vive em uma época de paz e os deuses tinham total controle sobre a humanidade. O poder, em certo aspecto, se tratava na capacidade argumentativa e persuasiva. Ainda não haviam acontecido as grandes guerras que necessitariam a criação das armaduras sagradas. Todavia, eu já buscava livrar a Terra da tirania dos deuses e Sócrates tinha um papel fundamental para isso.

Devido ao machismo imposto pelos deuses, uma mulher, ainda que dizendo-se uma deusa, teria pouca influência na sociedade. No entanto, além de me omitir na história e ganhar força politica por deixar um respeitado filósofo tomar os méritos, não chamaria a atenção nem as suspeitas dos deuses, a própria Athena estar envolvida em assuntos humanos.

–“Não importa o que os livros dirão amanhã ou em qualquer época, Sócrates busca apenas que os homens pensassem por si mesmos e amassem o próximo. Sem ter que se sacrificarem em nome dos deuses”.

Esta era fala de outro dos meus seguidores, o qual tomou o lugar do anterior. Platão era um grande homem, talvez não tão bom quanto seu mestre, mas com certeza mais esforçado. Junto dele haviam outros como Críton que seguiram com o trabalho de libertar a pessoas. Infelizmente com a morte de Sócrates, entendi que os deuses não deixarão os humanos em paz, não sem luta. Hoje, dois dias depois dele ser executado(2), prometo livrar a Terra do fardo que são os deuses.

Depois de uma semana, analisando as estrelas, as probabilidades e os possíveis cruzamentos do destino, formulei um plano para acabar com toda essa repugnante influência que os fanfarrões que vivem tranquilos no olimpo e se divertem vendo a humanidade sofrer. Muitos irão morrer, dar suas vidas em prol desta causa e a dor invadirá os corações de pais e filhos que perderão seus entes queridos em guerras, contudo, acredito que em menos de dois mil e quatrocentos anos tudo estará terminado.

Minha idade já avançada irá limitar minhas ações sobre esta Era, no entanto deixo claro para você, Platão, o que deve ser feito. Lhe peço, mesmo sabendo que quando lerdes isto já estarei morta, que siga as seguintes instruções:

–Escreva tudo que lembrares sobre os ensinamentos meus e de Sócrates, todavia não me mencione em nenhum texto. Espalhe as nossas palavras pelo mundo.

–Saia da Grécia e viaje, para o leste. Para o extremo leste, onde as montanhas são altas e repletas de perigos. Lá deverás encontrar a última aldeia da raça que vivia no antigo continente de Atlântida: Os Lemúrianos.

–Dentre todos um em específico se destacará dos demais. Traga-o para a Grécia, e realize o ritual descrito na página 212(3) e lhe entregue este livro. Os itens necessários, a adaga e meu sangue, estão na mesma ânfora em que encontraste este livro.

Desde as Eras mitológicas, é sabido da capacidade excepcional do povo de Atlântida. Portadores de virtudes, conhecimentos e dons desconhecidos até mesmo pelos deuses. E esta foi a razão do despertar da ira dos Olimpianos que afundaram o continente. Sinto que algo parecido irá decorrer com toda a humanidade no próximo milênio se nada for feito. Por isso imploro que consigas achar um jeito de equilibrar esta luta.

Existe uma centelha de cosmos no interior de cada pessoa, que se aproxima do poder divino. Sinto que existe uma maneira de despertar esta centelha e faze-la queimar mais forte, ainda que por meio de um objeto externo. Vou precisar de homens vestidos e armados para lutar ao meu lado. Santos, que defendam a paz, a justiça e o amor na Terra.

Adeus nobres homens! Athena.

(1)Queda do sistema monárquico de Atenas e começo do período legislativo criado por Drácon, daí o nome do período.

(2)Historicamente ele tomou cicuta (um veneno) após ser julgado culpado, pelo tribunal de Athenas, por desacreditar nos deuses gregos e envenenar a mente dos jovens.

(3)Trata-se do mesmo ritual que foi feito com Dohko, Ikki e Radamantis.