O Livro das Eras
5 Ferida
Canto I — Acerto de Contas
“Ficar junto de Esmeralda era um sonho e uma ilusão. Minhas lágrimas escureceram minha visão e meu coração. As feridas, que ainda doem, vão curar e me tornar mais forte.”
Com a chegada do último cavaleiro de ouro, estavam todos no salão do grande mestre, todos menos um, pois Ikki ainda estava desaparecido. Mú contou apenas para Shaka o acontecido, que demonstrou grande nervosismo ao pensar que as vesperas de uma possível guerra santa, além de perderem mais um cavaleiro, ganhariam um poderoso inimigo. Por isso virgem motivou o inicio a grande reunião sem a presenção de Fênix.
–Onde está meu irmão? – Shun logo sentiu a falta.
–Ele desapareceu durante a luta contra um Berserker. Não o vimos desde então. – Mú respondeu.
–E o que descobriram lá? – Athena questionou.
–Em toda Madri só havia um único Berserker desperto. E acredito a segunda legião ainda não despertou.
–Estranho... – Saori parecia confusa com aquele resultado. – Miro, você interrogou todos os que conseguimos capturar?
–Quase todos. Falta a general da primeira legião. – Respondeu o Escorpião.
–E o que já descobriu?
–Pouca coisa. E se continuar seguindo sem utilizar metodos mais... – Ele fez uma pausa olhou fixamente para Athena. – Persuasivos, assim como mandaste, não teremos grandes informações.
–Já disse que sou contra tortura! – Exclamou a deusa. – Prefiro não obter as informações.
–Mas eles já são prisioneiros de guerra e vamos selar as suas almas. Não existe compaixão nessas horas. – Biorn retrucou.
–Tortura é um limite que não quero que meus cavaleiros cruzem. Simples assim! E não quero ouvir de novo esta hipótese! – Pontuou Saori de forma decisiva. – Então diga o que já descobriu.
–São quatro legiões, cada uma comandada por um dos filhos de Ares. Abaixo dele cada comandante, enquanto estes não despertam, elas são lideradas por um general. Os generais sempre estão nos principais frontes de batalha junto de seu primeiro-tenente, que repassa as informações e ordens para os bersekers de mais baixo nivel.
–Calma, então onde estava o general da segunda legião? – Shaka perguntou olhando para Mú. – Você não disse que ele era o segundo tenente?
–Eu sei, mas lhes garanto que não havia outro berserker naquela cidade. – Afirmou o Aries. – E o que você descobriu sobre os segundo-tenentes?
–Em geral eles são o braço direito dos generais. Ou são designados para uma missão muito específica ou ficam para trás como chamariz. A princípio, toda a primeira e terceira legiões estavam despertas e delas agora só restaram os prisioneiros. Contudo eles continuam bem confiantes na vitória. Particularmente me parece que eles tem um belo plano nos guardando.
–Certo. Belo trabalho Miro, estou muito orgulhosa de você. Peço a gentileza de que vá interrogar a última prisioneira enquanto eu e Shaka selamos os outros Berserkers.
–Obrigado senhorita Athena! – Miro fez uma reverencia. – Fico contente em saber que neste tempo obtiveram sucesso com os selos.
A reunião se encerrou, Miro foi ao encontro de Eritro e os outros cavaleiros de ouro foram para suas respectivas casas. Os demais santos de prata e bronze seguiram para a guarda na entrada das doze casas, logo antes de Aries, em um grande salão. Hyoga, Seiya e os outros queriam contar sobre suas aventuras com o alto escalão do santuário.
Shaka ao chegar em seu templo, se deparou com a porta que leva para o jardim das árvores gêmeas aberta. Indicando que havia algo de errado, pois ninguém além dele mesmo se atrevera a abri-la. Não sentia nenhuma cosmo energia inimiga no local, por tanto adentrou e lá se encotrou com Ikki que o esperava sentado em uma das raises das belas árvores.
–O que fazes neste jardim?-Perguntou Shaka.
–Certeza que é você que tem o direito de fazer as perguntas aqui?
–Este é o jardim da casa de Virgem. Por tanto, sim sou eu.
–Se não fosses um dos únicos cavaleiros de ouro que despertaram o oitavo sentido, eu mesmo iria matá-lo aqui e agora. Cumprindo a profecia da morte de Buda entre essas árvores.- Fênix se levantou. – Mas você terá um papel fundamental nos próximos planos de Athena.
–Está falando do que está escrito no livro? – Shaka pareceu surpreso. – Como sabe do oitavo sentido?
–Novamente se achas no direito de fazer as perguntas. Creia-me, quando o ultimo deus estiver selado daqui dez anos, se você não estiver morto. Eu mesmo o matarei... Lentamente. – O cavaleiro de bronze fitou Virgem com ódio no olhos. Shaka sabia que ele estava falando seriamente.
–Dez ano? Quer dizer que de acordo com o livro em dez anos o último deus será selado por Athena. Me parece totalmente improvável, ainda mais com o santuário nas atuais condições.
–É inacreditavel como o orgulho pode cegar até mesmo o homem mais próximo de Deus. Considera os outros como macacos primitivos, como é mesmo que você diz?-Ikki passou ao lado de Shaka indo em direção a saída. – Somos como macacos na palma de Buda.
–Você falando em humildade? Se me lembro bem, já não dissestes que os fracos devem perecer?
–Se ainda não entendeu o que eu disse. Não farei a menor força para que entenda. – Ele parou logo depois de Virgem. – Juro que tentei...
–O que? – Virou-se para Ikki.
O cavaleiro de bronze olhou com a mesma raiva anterior e desferiu diversos socos no rosto de Shaka. Estes fizeram com que o elmo de Virgem salta-se para longe, os lábios e a maçã do rosto do cavaleiro de ouro começacem a sangrar. Buscando defender-se dos socos, o santo salta para longe de Fênix em direção oposta a porta.
–Realmente alguns socos dessa sua cara escrota me fizeram muito bem. – Ele se riu e falou em tom sarcástico. — Adeus, senhor todo poderoso, ó magnifíco cavaleiro mais próximo de Deus.
–Acreditas que pode invadir a minha casa, me agredir e sair assim? – Shaka assumiu uma posição mais agressiva.
–Ave Fênix! – Ikki lança o golpe contra o solo próximo de Shaka que apenas se protege com uma barreira de cosmo.
–Que vergonhoso este cosmo! – Mas quando as chamas desaparessem e a poeira baixa, o santo de bronze já desapareceu. – Maldito seja este verme petulânte!
O golpe disparado na casa de Virgem chamou a atenção de todos que logo perceberam o retorno de Ikki. Estranharam tal atitude e quando questionaram Shaka o ocorrido, este desconversou dizendo que era um mal entendido entre ele e Fênix desde a guerra interna do santuário. Entretanto Mú sabia da verdade e temendo que algo pior acontecesse, decidiu falar com o indiano a sós.
–O que foi aquilo? De verdade? Achei que quando fossemos nos encontrar acabaria com a nossa morte ou com a morte dele. – Mú demonstrava certa aflição.
–Ele não vai virar nosso inimigo, pois acredita de verdade nos planos das Athenas. E nós temos papeis fundamentáis nestes planos.
–Os planos contra Hades, Ares e Poseidon?
–Penso que os planos de Athena são muito mais ousados. Ele falou algo sobre o último Deus. Não sei se ele falou pensando no último desdes, ou no último... “O” último.
–Estás falando de... –Aries pauso pensativo.
–Sim, de Cronos.
–Mas selar Cronos não é impossível?
–Talvez naquele livro existam segredos que jamais sonhamos.
Canto II — Ataque ao Santuário
“Mas que bela, apenas de olha-la meu coração se aquece. É uma pena ter que crescer deste jeito.”
Ikki estava no orfanato ao qual deixara a bisneta de Albert, a pequena Sophie. Entrando nas instalações, encontrou a jovem Mino com um bebê em seu colo, sim era ela. Os olhos do santo de bronze logo se encheram de lágrimas, mas ele segurou o choro e apenas sorriu. Uma profunda felicidade invadiu seu peito.
–Olá Ikki. Como está Seiya?-Perguntou e menina.
–Deve estar no santuário.
–Veio ver esta belezinha aqui?
–Sim!- Respondeu eufórico, com os olhos brilhantes e um sorriso de orelha a orelha, mas logo se recompôs. – Digo, vim ver se ela está sendo bem cuidada.
–Diga-me Ikki. Ela não é sua filha né?
–O que? – Ele arregalou os olhos e espantado quase caiu para trás. – Não! Óbvio que não! Que história é essa?
–Sabe como é... – Ela pausou e rindo-se olhou para a pequenina. – Muitos viram pais sem poder cuidar de seus filhos e deixam aqui. Como foi você quem trouxe e sei que você é um cavaleiro e não tem condições de criar uma criança, pensei que...
Um silêncio constrangedor invadiu o ambiente, afinal Fênix não podia contar o que estava acontecendo e de onde viera aquele bebe. Um bebe com mais de 700 anos! Quem acreditaria em tal história? Mesmo Mino estando a par dos feitos que os cavaleiros são capazes, ele se passaria por louco ou mentiroso.
–Não, não sou o pai dela. Eu cuidaria dela, mas não tenho nem os atributos psicológicos nem financeiros para cria-la. – Soltou um sorriso sem graça.
–Entendo. Mas mesmo assim é um absurdo os pais abandonarem seus filhos. É por causa de pessoas assim que este orfanato está cheio!
–Cala es... – Ele bradou, entretanto conteve-se.
–O que foi? – A menina estranhou a reação.
–Algumas crianças nascem sob uma estrela de azar. Ou com pais nojentos, ou com pais que morrem cedo de mais. – Ikki baixou a cabeça de tristeza, pois lembrara de seu irmão, seus amigos e da pobre Sophie. – Neste caso, trata-se da filha de um herói. Quem morreu praticamente no anonimato.
–Mas não se preocupe! Prometo cuidar dela e dar todo o meu amor! – A jovem observou o olhar cabisbaixo do amigo e tentou alegra-lo. – E era obviu que ela não era sua filha. É muito bonitinha, como uma coisinha tão fofa pode ter um pai brucutu como você?
–Muito obrigado!- Ele riu da tentativa da Mino, que buscava deixa-lo mais à vontade. — Nem sei como agradecer.
–Tudo bem! Quer segura-la um pouco?
–Claro! – Ele esticou os braços e pegou-a em seus braços.
Mesmo segurando o máximo que pode, não foi capaz de conter suas lágrimas. O cavaleiro mais duro e ríspido, também tinha seus pontos fracos para o coração. Sua infância sacrificada e dolorosa atormentava-o ainda. Todas as dificuldades que passou para cuidar de seu irmão quando este ainda era um bebê inocente e indefeso. Mesmo o peso de toda aquela responsabilidade que carregava sob seus ombros por ser um cavaleiro de Athena e ter de proteger o mundo, não se comparava a angústia sentida ao pensar no futuro que Sophie teria de enfrentar imersa na sociedade que pouco se preocupa em ajudar crianças órfãs.
Durante aquele belo momento com a pequenina em seus braços, uma centelha de cosmo chega até Ikki e o avisa da batalha iniciada no santuário. Era seu irmão que estava lutando e pensou fortemente, buscando avisá-lo e requisitá-lo. A raiva que Fênix sentia pela traição dos cavaleiros de ouro não tinha passado, mas a ocasião era séria de mais para deixar um atrito pessoal deixar a perder todo um plano milenar. Nesta linha de pensamentos, o cavaleiro partiu para o santuário na forma de um cometa de fogo.(1)
Chegando na casa de Áries, Mú e Aioria estavam conversando na entrada. De aspectos tensos e espantados mal perceberam o visitante. E seguiram com o assunto:
–Isso não poderia estar acontecendo!
–Como você deixa sua casa desprotegida? Aldebaran não teve a mínima chance sendo atacado de surpresa!
–Eu estava com Miro cuidando do interrogatório da prisioneira.
–O que aconteceu aqui? – O cavaleiro de bronze dirige-se aos de patente superior.
–Fomos atacados! – Aries respondeu.
–O exército de Ares se arriscou em nos atacar? Mesmo depois das condições em que os deixamos!
–Não foram eles. Foi um outro inimigo, que até hoje imaginávamos ser um poderoso aliado. – Continuou o Carneiro.
–Quem foi então? Não faça cerimonias, conte-me logo ovelha maldita! – A paciência de Fênix estava curta com aquele dourado em especifico.
–Os guerreiros deuses de Asgard! – O leão se pôs entre eles, percebendo a tensão criada. – Enquanto Mú estava com Miro no interrogatório, um deles entrou com a maior facilidade no santuário e derrotou Aldebaran.
–Mas eu senti o cosmo de meu irmão me chamar! Cadê ele?
–Quando o Argardiano voltava, ele se deparou com Athena e os outros cavaleiros de bronze. Estavam todos lá: Nachi, Jabu, Ichi, Ban e os outros. Mas só o seu irmão e o Seiya estavam com suas armaduras... –Aioria pausou e olhou fixamente para Ikki.
–E onde eles estão?
–Ele derrotou todos com um único golpe. Exceto Shun e Pégaso. – Mú respondeu. – Seu irmão se mostrou um adversário à altura e então a batalha seguiu em direção as montanhas.
–Como se não bastasse e exército de Ares estar prestes a nos atacar. Agora temos que lidar com mais lixo. – Ikki vira de costas para os dois.
–A onde você vai?
–Ver se chego antes dos meus amigos morrerem nas mãos inimigas. Não sou de ficar batendo papo furado. – Falado isso, disparou em direção as montanhas.
Sendo guiado pelo cosmo de seu irmão, ele encontra o local da batalha e mais uma vez salva seu irmão em um momento crucial. Carregando-o inconsciente em seu colo, observa o inimigo nórdico. De pele branca como a neve e cabelos esverdeados, utilizava uma armadura verde escura, com o elmo que lembrava um tigre de longos caninos.
–Quer dizer que vamos ter mais um cadáver para enterrar hoje? – Ikki escorra seu irmão, sentado ao chão em uma árvore. – Já temos alguns Berserkers para enterrar. Quantas covas teremos que cavar para vocês?
–Quanta confiança para um cavaleiro de Bronze! – Antes de ir buscar da cabeça de Athena resolvi atacar o mais alto escalão dos defensores da sua Deusa protetora. Uma verdadeira decepção. Acabei com ele com um único golpe.
–Serei seu adversário no lugar de meu irmão. Depois vou pedir para cavarem o seu túmulo por mim.
–Espere Ikki! – Seiya aparece, em posição de ataque. – Deixe este bastardo em minhas mãos. – Ele olha para intensamente para o adversário. – Se pensa que pode me derrotar com um único golpe esta enganado. Vou acabar com você. Meteoro de Pégaso!
O cavaleiro de bronze desenha a constelação protetora com as mãos, um forte cosmo aparece junto a ele com o formato do respectivo animal mitológico. Centenas de socos são desferidos em direção ao guardião do extremo norte. Este último cai devido aos golpes recebidos e quando pensa em revidar, erguendo-se do chão, observa que apareceram Athena junto de outros cavaleiros, Shiryu e Hyoga.
–Não serei tolo em enfrentar cinco cavaleiros de uma só vez. Venham ao extremo norte! Nós guerreiros deuses de Asgard estaremos esperando vocês! – O Asgardiano salta entre as montanhas desaparecendo entre as pedras.
Após o ocorrido foi feita uma reunião, onde devido a atual situação com Ares e a proximidade do despertar de Hades, decidiram deixar os cavaleiros de ouro no santuário para proteger caso houvesse um ataque de Ares ou Hades, enquanto Seiya, Hyoga, Shun e Shiryu foram para o extremo norte com Athena. Por outro lado os cavaleiros de prata, junto dos demais cavaleiros de bronze foram em busca do último general de Ares.
Ikki, para variar, decidiu agir por conta própria e disse ter que fazer outra coisa. A qual não revelou nem para seu irmão mais novo, pois ele mesmo não entendia direito o que sentia que precisava fazer. Certo lugar parecia o chamar, algo muito além da sua consciência ou do seu instinto, algo ainda mais primitivo, uma ligação direta de sua alma.
(1) Uma singela mudança: O atentado pela vida de Athena não se deu na mansão Kido, mas no próprio santuário. Acredito ser mais condizente com o fato de estar em meio a guerras.
Canto III – O Interrogatório
“Há alguns milênios, Athena depositou sobre este livro todo seu amor e cosmo, dando forma a letras cheias de dores e verdades. Uma receita para vivermos livres e em paz. Mas alguém converteu suas páginas iluminadas em sombras de manipulação.”
Na prisão da Grécia duas figuras se faziam presentes. A primeira amarrada a uma cadeira com correntes e a segunda se encontrava de pé com uma armadura dourada e em seu indicador direito uma enorme unha vermelha.
–Não vai me intimidar com essa unha. Sei muito bem que Athena proíbe seus cavaleiros de praticarem a tortura. – Dizia a bela prisioneira ruiva.
–O que vocês pretendem? Onde está o último general de Ares? Por que ele não se encontrava em Madri?
–A essa altura já posso falar... – A mulher sorria como se estivesse tomando chá em uma visita a um amigo. – Tivemos a infelicidade de sermos descobertos. Não íamos atacar vocês, ainda é cedo.
–Como assim? – Ele se surpreende com a resposta.
–Aquele ataque em que fracassamos era uma missão muito especifica. E resultou em nossa derrota antes mesmo da guerra começar. Athena realmente é a deusa da sabedoria.
– Refere-se ao ataque ao Ikki?
A mulher solta um resmungo e pensa: — “Esse pião não sabe da existência do diário? Isso quer dizer que poucos sabem dele, ou talvez apenas aquele bastardo que matou meus primos e irmãos. Isso muda as coisas”. Ela corta seus pensamentos quando o cavaleiro sacode a cadeira.
–Continue! Refere-se o ataque ao Ikki?
–Isso mesmo, nós não vamos atacar Athena. Pois nosso deus Ares não está desperto e nós, seus seguidores, não despertamos todo nosso potencial. Iriamos esperar até que ele viesse ao mundo.
–Quer dizer que nós que começamos a Guerra...
–Isso mesmo. – Ela arqueou a sobrancelha percebendo que o santo de ouro havia entrado em seu jogo. Fez um olhar piedoso, contraindo os lábios, apertando os braços contra os seios, fazendo-os avolumarem e falou com tom manso. – Deixe-me ir, prometo que não voltaremos a nos ver.
–Preciso pensar... – Ele colocou a mão ao queixo e olhou fixamente para o ousado decote da moça. Apoio sua mão direita sobre o joelho da moça, curvando-se para ficar rosto a rosto com ela, então bradou: — Nem fudendo! Com quem achas que estas lidando?
Ao dizer isso cravou a sua unha escarlate no joelho da Berserker, fazendo-a gemer de dor. Ergueu-se e deu as costas para ela, buscando controlar-se, pois apenas vê-la fazia seu sangue ferver. Somente após controlar sua cólera voltou-se para a prisioneira.
–Fomos proibidos de torturar. Então façamos um trato: Eu dou minha palavra de cavaleiro de Athena, que se responder todas as minhas próximas perguntas, lhe dou a chance de fugir. Solto estas correntes que lhe prendem e se me venceres estarás livre. O que achas?
–Está bem, mas apenas quatro perguntas. Afinal não quero passar o dia todo aqui e de nada adiantará saber das coisas se estará morto quando eu passar por aquela porta! – Falou a mulher ainda com um tom de dor na voz.
–Certo. O que vocês esperam para atacar, ou melhor, o que Ares esta esperando para despertar?
–Hades logo irá despertar. Uma nova guerra santa começará e não importa que for o vencedor, pois este estará fraco e debilitado pelas inúmeras perdas.
–Onde esta o último general? Por que ele não estava em Madri?
–Ele foi avisado pelo meu segundo tenente, que vocês estariam atacando Madri. Agora ele deve estar no local mais protegido para um de nós, ao lado da ânfora de Ares.
–Como assim?
–A ânfora de Ares emana um poderoso cosmo que reduz a força de qualquer oponente a dez por cento, em contra partida duplica o nosso. Ele vai ficar lá até chegar ao momento de despertar Ares.
–Despertar Ares? Ele tem que ser despertado?
–Sim, somente um general Berserker pode despertar Ares. Acabaram-se suas perguntas. Agora chegou a sua vez.
–Droga. Eu tinha mais uma.
–Está bem, apenas mais uma.
–Como o exército de Ares é dividido e por quê?
–Existem quatro legiões. Cada uma ligada a um deus. Eros deus dos Delírios comanda a primeira legião, com todos aqueles que despertam medos ligados a ilusão. Anteros deus do desprezo lidera a segunda legião, seguido pelos que incitam os medos ligados ao próprio ser humano. Já Fobos deus do Medo lidera a penúltima legião, tendo como servos os representantes dos medos ligados a todos os animais. Por fim Deimos deus do pânico com a última legião, guiando aqueles com a chaga dos medos ligados ao espírito. E assim que Ares despertar ele irá acordar seus filhos para seguirem marcha contra o que sobrou de vocês, ou de Hades.
Miro solta a prisioneira, que logo tenta sair em disparada pela porta. A velocidade da berserker era formidável, todavia não mais do que o tido como mais veloz dos cavaleiros de ouro. O escorpião logo alcançou a fugitiva e assim começava outra batalha sangrenta.
Canto IV – Julgamento
“Era como uma dança. Movimentos precisos e harmoniosos. Sentia que eu voltava a ser criança e que bailaríamos até um cair. Aquele era o remédio que necessário para toda a frustação de minha alma sair.”
Depois da sua tentativa de fuga ser frustrada pelo dito mais rápido dos cavaleiros de ouro, ambos se mantinham estáticos frente a frente. Sem piscar, controlando a respiração, analisando um ao outro, como se suas vidas dependessem do próximo movimento, o que por acaso, de fato dependia.
Ambos tinham posicionado seus pés visando dar uma boa base para seus possíveis futuros movimentos. Seus braços elevados permitiam tanto um rápido ataque quanto uma defesa segura. Os dois haviam levado o duelo a um nível técnico muito além do normal, visto que sabiam dos poderes avassaladores de seu adversário.
O primeiro a agir foi Miro, afinal, este não conseguia aguentar tamanha ansiedade pela batalha. Com passos rápidos buscou a lateral direita para atacar, a Berserker apenas acompanhou com o corpo e no momento em que o escorpião atacou com um soco, ela pulou por cima dele, pousando sobre as costas do dourado. Aproveitando a oportunidade, desferiu um chute na altura da cabeça que foi facilmente evitado quando o santo agachou-se.
Vendo-se na posição mais desfavorável, o dourado saltou para frente afastando-se da inimiga que já tentava chuta-lo novamente, mas se conteve devido à distância criada e preferindo disparar uma rajada de cosmo escarlate pelo punho. Miro defendeu-se facilmente cruzando os braços frente ao tórax.
–Vamos ficar nesse lengalenga até criarmos cabelos brancos? – O cavaleiro debochou.
–Impressionante a sua agilidade. – Elogiou enquanto voltava a posição inicial.
–Devo dizer que a cor de seu cosmo é tão bela quanto sua portadora. – Sorriu de canto, lembrando-se da tentativa de sedução que ocorrera instantes atrás. Fez sua unha escarlate crescer e apontou-a para a adversária. – Acho que combinam. Minha unha com seu coração.
–Tente. – Retrucou enquanto queimava seu cosmo ainda mais intensamente.
–Então receba a Agulha Escarlate!
O Escorpião atacou em três pontos, acertado a berserker fazendo surgir os respectivos buracos em sua armadura Areana. No entanto, ela sequer se moveu ou demonstrou qualquer sinal de dor derivada do golpe. A única reação foi seu cosmo crescer ainda mais e uma gota de suor brotar em sua testa e escorrer pelo seu rosto, parando em seus lábios, fazendo-a sentir um gosto salgado.
–Bravo. Vejo que es realmente valente! Aguentar a dor que o veneno do escorpião cria ao se espalhar por seu sistema nervoso é para poucos. – O santo aguardou uma resposta, mas nada foi dito. – A dor deve estar lhe privando da fala. O próximo vai ser sua sentença de morte. Adeus. Agulha Escarlate!
Miro disparou três ferroadas ao mesmo tempo, contudo o ataque simplesmente desapareceu ao se aproximar do cosmo de Eritro. Esta por sua vez, fez seu cosmo se recolher e contra-atacou com o mesmo golpe disparado pelo dourado. Fazendo-o sentir em seu próprio corpo as ferroadas. O cavaleiro é jogado para longe com o impacto do golpe.
–É a sua vez de sentir seu próprio veneno. Espero que a sua dor seja insuportável. – Novamente seu cosmo brilhava por todo o recinto. – Morra! Ruby Laser!
Aproveitando o momento de vacilo do adversário ela lançou diversas faixas de luzes avermelhadas que cruzavam o espaço a partir de suas mãos esticadas. O Escorpião que estava caído ai chão, apenas teve tempo de se defender parcialmente, pondo-se de cócoras e cruzando os braços frente ao rosto.
Quando o ataque cessou, o santo continuava na mesma posição e com poucos arranhões a onde não havia proteção da armadura, a qual estava intacta. Pondo-se de pé ele assume a posição inicial de batalha e observa o expando da moça.
– Como pode? – Questionava-se ainda na posição do golpe cósmico. – Sua armadura está intacta, a não ser pelos buracos das ferroadas.
–Elementar minha cara Eritro. Seu ataque final, não foi com a potência total. Acha que erguer seu cosmo a níveis tão baixos poderá fazer qualquer coisa contra uma armadura de ouro? — Explicou. – Agora eu que estou surpreso. Afinal o que aconteceu com minhas agulhas? Como foi possível refleti-las contra mim.
–Eu sou a general da primeira legião. Portadora do Medo Escarlate. Tudo que envolve a luz vermelha, incluindo seu ataque, eu posso controlar de acordo com a minha vontade. – Ela abriu um largo sorriso. – Agora vejo que na verdade a batalha já está ganha. Mas me diga antes de te matar. Como foi sentir a dor do próprio veneno?
–Não seja ridícula. Eu sou imune ao meu próprio veneno! Ao contrário de você, que já demonstra cansaço e fadiga. Apesar de seu autocontrole para não demonstrar, percebo que estas sofrendo muito.
–Grande coisa. Pois seus ataques serão todos inúteis para mim agora que já conheço sua ‘Agulha Escarlate’. Devia ter aceitado minha primeira oferta... – Ela sorria fazendo referência aos seus seios.
–Quem disse que vou usá-lo? – O dourado partiu para o ataque corpo a corpo.
Surpresa pelos ataques físicos repentinos, a Berserker se limitou a esquivar-se. Até o momento em que a sequência de golpes de Miro apresentou uma brecha para um contra ataque. A partir de então, cada soco dado por uma das partes, era esquivada com perfeição pela outra e retribuída da mesma forma. Da mesma maneira os chutes entrelaçados acabavam por atingir somente o ar.
A luta seguiu aumentando de intensidade por vários minutos, os quais pareciam uma eternidade. Entretanto em dado momento, os chutes se cruzam e a canela dourada atinge o joelho de Eritro que cai de joelhos ao lado do Escorpião, que prestes a cravar sua unha na garganta desprotegida da moça detêm-se. Deixando apenas uma linha de sangue desenhar-se no pescoço da ruiva. Esta por sua fez fica congelada, sem saber o que fazer.
–Por que parou? Você ganhou. – Ela vira o rosto para ver os olhos do santo, nisto a unha escarlate abre um corte que começa derramar mais sangue. — Estou morta. Termine.
–Não posso. Essa vitória não foi justa. – Declarou o cavaleiro.
–O que quer dizer com isso? Eu perdi.
–Perdeu por que eu atingi seu joelho machucado.
–Meu joelho... – A general olhava para a ferida que ali havia.
–Eu só ganhei por que acertei seu joelho já ferido. E ainda por cima ferido por mim mesmo enquanto estavas amarrada.
–E agora?
–Vá embora.
–O que?
–Você é surda? Eu disse para ir embora.
–Mas... – A mulher olhava espantada para Miro.
–Eu direi que você fugiu. O que de fato vais fazer. – Interrompeu-a. – Só vou omitir o fato de ter te ajudado.
–Sabe que se um dia voltarmos a nos ver, um acabará morto, não é?
–Quando a Guerra Santa contra Ares começar, podes ter a certeza de que não vou segurar minha ferroada por motivo algum. – Ao terminar de falar com seu sorriso malicioso, virou-se em direção a porta e começou a caminhar. – E particularmente, espero que esse dia nunca chegue.
–Espere! – Ela segurou-o pelo braço e repentinamente lhe deu um ‘selinho’. – Como agradecimento. Adeus!
Ainda atônito, pelo ocorrido ele apenas pode observar a bela ruiva correndo para fora da prisão e desaparecendo entre as luzes ofuscantes da claridade exterior. Colocando os dedos sobre o lábio ele ficou com aquela sensação do beijo roubado em sua memória.
#Diário de Athena: Página 634
“Relato que nesta nova era em que nasci, surgiu a solução para os problemas relatados nas páginas anteriores. E agradeço a Platão por ter encontrado o responsável por tais feitos. Aristóteles descobriu como criar armaduras capazes de proteger os homens contra ataques cósmicos, infelizmente os itens necessários para confeccioná-las são extremamente raros e encontrados apenas em algumas estrelas.
Apenas conseguimos produzir 12 delas, devido à intensidade das estrelas e sua projeção na abóboda celeste da Terra. Eu junto de seu idealizador e outros treze seguidores, demos forma as armaduras referentes às constelações de Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Libra, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes. As chamaremos de armaduras de ouro!
Tal progresso quase matou Aristóteles que já tem alguns séculos de vida. Obviamente que mesmo sendo um lemúriano com sangue divino e portador do misotepha menos(1), o tempo lhe provocou grandes danos e elevar seu cosmo a níveis muito elevados tem seus riscos. Este grande homem fez façanhas tão importantes que chamaram a atenção do mundo e para poder continuar sua jornada em paz foi necessário forjar a sua própria morte em uma invasão inimiga.
Fugindo de seu passado Aristóteles viajou para longe, em um lugar onde mais tarde eu reencarnaria e encontraríamos outros seguidores, que já tinham por si só despertados o cosmo. Um deles o despertou de uma forma inacreditável, sendo confundido como um deus entre os homens.
Esses homens ajudaram-nos a criar as armaduras, passamos anos no deserto, onde outros fiéis nos seguiam em busca de esclarecimentos refutando a tirania dos deuses. E por fim lá estavam as primeiras de muitas. Junto com as armas que eu havia pedido, contudo percebi que o poder de cada arma era tão assombroso, que decidi proibir seu uso, excetuando-se casos em que se faça necessário. Dei tal poder de decisão ao mais firme deles, assim como uma armadura a cada um. Exceto àquele que já não precisava de tal proteção.
Jesus era um homem formidável com poderes admiráveis vindos do amor e do cosmos que transbordavam de seu ser. Nomeie-o, como Grande Mestre da Humanidade, criando assim uma tradição, para que o melhor dentre todos os homens, possa guiar os passos daqueles que seguirem o caminho dos Santos de Athena enquanto eu não estiver aqui. Entretanto meus planos, ainda que com nobres fins, necessitavam de certo sacrifício alheio.
Em nossa última ceia expliquei parte do plano e que para tal, necessitaríamos de um mártir. O qual Jesus aceitou ser de bom grado, como era de se esperar daquele que portava o maior coração de todos os homens. Assim como também se fazia necessário um pseudo-traidor, que por sorteio (2) foi eleito Judas Escariotes, portador da armadura de sagitário, seria tido com o maior traidor de todos os tempos, sendo marcado para sempre com esse falso título.
Prefiro não descrever o que aconteceu, pois só de lembrar meu coração se vira em lágrimas. No entanto posso dizer que depois que tudo passou e o grande mestre já se encontrava na cruz, um dos nossos seguidores, se passou por soldado e perfurou o pulmão do crucificado ao invés de acertar seu coração. Permitindo assim, que mesmo na cruz pudesse respirar inconscientemente (3). Todo o sangue derramado caiu sobre as armaduras de ouro, que estavam ao redor da cruz. Elas ressoavam junto do cosmo do maior e mais poderoso homem que já pisou na Terra.
Tanto na cruz quanto na cripta, íamos cuidar de seus ferimentos e alimenta-lo todas as noites, sempre sem sermos vistos. Depois de três dias com cuidados intensivos em seu ‘túmulo’, ele já estava quase que totalmente recuperado e assim seguimos para profetizar a boa nova da liberdade e do amor! Longe da tirania dos deuses.
Este livro deve ficar com você, Jesus. Só entregue a mim na próxima encarnação, pois eu irei junto de Aristóteles e Judas Escariotes formar as outras armaduras. Daremos nossas vidas para criá-las. Peço também que reúna homens que tenham uma centelha de cosmo, para quando eu voltar.
Adeus meu amado! Madalena/Athena#
(1)Técnica usada por Dohko para obter a longevidade.
(2)Aquele que pegasse o cálice errado (ou certo, dependendo do ponto de vista)
(3)Quando os crucificados não tinham seu coração perfurado, morriam asfixiados pelo próprio peso sob as costelas, que o impediam de respirar.
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