O Legado da Fênix
1 Prólogo
Notas iniciais
O sol estava se pondo, fazendo o seu costumeiro espetáculo de cores. O vento tocava suavemente a minha face, como se me beijasse, bagunçava levemente meus cabelos e levava embora algumas folhas secas das árvores, e trazia consigo o adorável cheiro de folhas verdes. Meu arco descansava sobre minhas pernas, ao meu lado direito, meu pai, que estava sentado sobre a enorme pedra, no alto da colina, onde todo o espetáculo podia ser assistido de camarote.
Antes disso, meu pai me ajudava a treinar arco-e-flecha, dentro da floresta, mas ao começar a escurecer voltamos para o vilarejo e sentamos na pedra, apenas esperando mamãe nos chamar para o jantar.
Pelo menos, era isso que eu queria que acontecesse, porém, a vista que eu tinha era totalmente diferente e terrivelmente pavorosa.
No lugar de uma linda vila tranquila no alto de uma colina, havia apenas cinzas e ruinas , as pessoas estavam todas mortas, todos, até meu pai e minha mãe, ninguém sobreviveu além de mim. Por conta do meu desespero e de meus poderes, o chão estava ficando levemente congelado.
Meu corpo tremia como nunca, senti como se estivessem esmagando meus pulmões, o grito preso na garganta, mas nada se comparava ao terror de ver tantos mortos.
Era assustador olhar para aquilo, o sangue banhando o chão e o fogo já fraco engolindo o quanto podia o resto das ruínas, o cheiro do queimado estava começando a me deixar tonta.
A fumaça aos poucos se dissipava, meus olhos ardiam bastante, mas as grossas lágrimas que se formavam neles amenizavam um pouco a ardência.
Dei alguns passos lentos em direção a minha antiga casa. Estava em ruínas, tudo queimado ou ainda pegando fogo. Só consegui pensar em duas pessoas, mamãe e papai.
Minhas pernas fraquejaram e eu caí de joelhos no chão, já não segurava mais minhas lágrimas.
Subitamente o clima quente e abafado por causa do fogo que estava, ainda a pouco, engolindo o meu vilarejo se dissipou, dando lugar a um repentino frio.
Abri os meus olhos, e vi a neve e o gelo aos poucos cobrirem as ruínas, como uma geada no início do inverno. Aquela neve tinha de origem minhas mãos, que estavam apoiadas no chão, e sem a proteção de minhas luvas.
Eu havia me descontrolado, novamente, mas procurei não pensar muito nisso.
Levantei-me e olhei ao meu redor, meus olhos estavam inchados e ainda lacrimosos demais, e o resultado disso fora a minha visão completamente embaçada. Esfreguei meus olhos com as costas das minhas mãos e enxerguei a alguns metros de mim um objeto de um tom vermelho sangue, ao me aproximar percebi que o objeto vermelho era uma chave, nunca vi igual a essa, sei que nesse mundo há uma variedade imensa de chaves bem diferentes, me lembro de que uma vez mamãe me pediu para buscar uma chave no chaveiro, e lá vi chaves de tudo quanto era jeito, todas lindas e bem trabalhadas feitas de prata, bronze, ferro ou ouro, com várias pedras preciosas, mas esta, esta era bem diferente de todas, era feita de um metal leve e muito resistente, era folheada com uma espécie de tinta rubra e era muito bem detalhada e com um símbolo estranho, parecia uma chama bem pequena. Guardei-a no bolso do meu casaco.
Voltei a caminhar até a minha casa, ou o que restou dela, estava cansada demais para sair daquele lugar, e mesmo se não estivesse eu não tinha para onde ir, eu estava sozinha, odeio ficar sozinha; e eu estava com medo, muito medo.
Me encolhi no chão e fechei os olhos, mas o sono não veio, estava com medo e sozinha, ainda por cima eu era uma aberração descontrolada, nem pude salvar meus pais, que tipo de filha eu sou? Porque tudo de ruim acontece comigo? O que foi que eu fiz?- comecei a chorar baixinho, até pegar num sono.
Meu corpo estava todo relaxado, mas o frio me incomodava, então resolvi me encolher mais. Coloquei as minhas mãos no bolso do meu casaco e pude sentir a chave que havia encontrado mais cedo, a pressionei e desejei estar longe daqui.
E mais uma vez a inconsciência se apossou de meu corpo.
Acordei com algo me cutucando, daí notei que estava dormindo em cima de grama fofa e fresca, e não em cima de cinzas e poeira, então logo tratei de acordar.
Assim que abri os olhos me deparei com um par de orbes azuis, de súbito me assustei e a pessoa que me cutucava também. A primeira coisa que ela indagou foi:
– Quem é você?
O meu medo cresceu mais dentro de mim, será que se eu contasse ela iria me matar?
Observei melhor a pessoa na minha frente, e era um menino, tinha cabelos cor de cobre e algumas sardas espalhadas pelo rosto, porém o que mais me chamou atenção foram suas orelhas grandes e pontudas, tentei tocá-las, mas o menino se afastou antes que eu pudesse fazê-lo. E impaciente tornou a repetir:
– Quem é você?
– Sou Hazel, Hazel Flaming.
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