Notas iniciais
Queria agradecer ao pessoal que tá lendo e acompanhando aí :33 Adoro vocês *Betado

Capítulo 2 — Você Está Prestando Atenção?

Ash acorda com as pancadas na janela do carro. Ela se ajeita no banco de trás, esfrega os olhos e olha para o policial atarracado que a encara do vidro, carrancudo.

— Puta merda — ela murmura. Arruma a franja loira com uma mão e sai do veículo.

— Moça, você estacionou em local proibido — diz o policial, anotando alguma coisa em um caderno — Multada — arranca a folha e entrega à ela.

— Trinta pratas? — ela olha atônita para o papel, mas quando se volta para o policial, ele já havia ido embora.

Ash suspira e olha para seu velho Mercedes-Benz 190E caindo aos pedaços, descaradamente nomeado por ela de Ruby. A única coisa que possui além de uma bolsa cheia de roupas no banco de trás, os óculos de sol preso no decote da camiseta e o par de botas pretas de salto nos pés.

— Mais um dia no inferno — murmura.

Sem alternativa e com apenas algumas notas amassadas no bolso da calça, Ash chuta uma lata próxima e caminha até o parque a apenas alguns quarteirões de distância.

O tempo está nublado e uma ameaça de chuva é aparente. Ela olha para frente e avista a praça praticamente deserta. Senta-se no banco, cansada, apesar de ter percorrido uma pouca distância, mas suspeita que seja por causa das noites mal dormidas. Dormir em um carro não é lá muito confortável, e muito menos seguro. Sentada no banco ela reflete sobre sua vida miserável e solitária.

Ash, apenas Ash. Ela não tem sobrenome. Não se recorda se algum dia já teve. É provável que não. Chegou ao orfanato com três anos dizendo chamar-se Astor, mais tarde apelidada de Ash. Cinza. O rastro deixado sob seus pés por onde passa. E agora, tudo que consegue pensar é que não pulara de um cidade a outra, de um país a outro, de forma indetectável. Deixara um trilha de fumaça, chamas e pó atrás de si.

Seus olhos queimam por trás das pálpebras fechadas que os dedos esfregam em círculos, antes de levantar-se e andar até um coreto rodeado por um lago estreito.

Encarando o lago com uma expressão cansada, Ash canta baixinho Hurt de Jhonny Cash e tira um maço de cigarros do bolso do jeans rasgado. Pega um e o leva à boca. Observando cuidadosamente o espaço ao seu redor e, quando conclui que a praça está vazia, uma pequena chama tremeluz na palma de sua mão e ela a usa para acender o cigarro. Ela fecha a mão. Dá uma leve tragada, segura a fumaça nos pulmões por alguns segundos, e o tira da boca para soltar uma baforada a favor do ar. Apesar do hábito antigo, Ash ainda odeia o cheiro que fica em seus cabelos. O cigarro descansa entre os dedos, enquanto ela continua cantando baixinho. Ela dá uma última tragada em seu cigarro, analisa-o por alguns segundos e o atira ao lago. Suspira frustrada e vira-se para partir.

A estupefação e o topor de Ash não seriam tanto se o papel pardo perfeitamente dobrado e esquecido ao pé de uma árvore fosse apenas isso: um simples papel esquecido na grama. Mas a surpresa não se deu ao caso de que aquilo não estivera ali antes, mas sim por seu próprio nome estar ridiculamente escrito com tinta vermelha em uma letra com tantas voltas quanto um nó de marinheiro. Ash sacode a cabeça, livrando-se da estupefação, e abaixa-se para pega-lo, com uma careta para a extravagância da fonte. Seus dedos esbarram na tinta ainda molhada e mancham o bilhete. Ela limpa a ponta dos dedos nas calças e desdobra o papel.

Não há nada escrito.

— Ridículo — ela sibila, revirando os olhos para a brincadeira.

Provavelmente era algum daqueles moleques que já a vira entrar e sair do bar tantas vezes que até seu nome já sabia. E ela estivera tão perdida em seus pensamentos que não notara que alguém havia chegado e deixado algo ali. A desculpa parece esfarrapada, já que ela não conseguiria imaginar um daqueles garotos como um especialista em caligrafia. Quando segura o papel com uma mão e o incendeia com a outra, letras aparecem rapidamente diante do calor, antes de serem incineradas.

— Não, espera! — ela grita, tentando apagar o fogo antes que queime tudo.

A beirada está chamuscada e queimou algumas letras, mas ela consegue ler a maioria e deduzir o resto.

Você pode me ver como eu vejo você?

Ash acha que o coração perdeu uma batida. Olha em volta rapidamente, nervosa. Queima o papel de novo. O olhar não consegue encontrar o bilhete em chamas, lança as cinzas no lago. Ela esconde as mãos no bolso e sai apressadamente em direção ao Mercedes-Benz, analisando ao redor sem tentar ser discreta. Ela quase pode ouvir as palavras perseguindo-a, sendo sussurradas em seu ouvido.

Você pode me ver como eu vejo você?

Os olhos desconhecidos em seus movimentos, queimando sua nuca.

Você pode me observar como eu te observo?

Você pode sentir meus olhos em você?

Sim. Ela sentia aquela sensação incômoda, uma comichão, há meses. Como se alguém a observasse.

A alguns metros de distância do carro, ela tromba violentamente com um homem jovem e incrivelmente alto. É lançada ao chão, enquanto o garoto apenas dá um passo para trás, tentando retomar o equilíbrio.

— Olha por onde anda, cara — ela rosna, levantando-se em um salto e espanando o jeans rapidamente.

Não é daqui, com certeza, ela pensa, ao observar sua aparência elegante tão deslocada naquele bairro desafortunado. Olhos extremamente azuis, cabelos loiros bem penteados, pálido e, baseando-se em seu próprio comprimento de um metro de setenta e cinco centímetros, ela estima que ele tenha em torno de um e noventa e seis. Um terno em perfeita ordem.

— Entschuldigen sie — ele começa um pedido de desculpas em alemão, mas muda para inglês ao captar a expressão confusa dela. O sotaque soa forte nas palavras pelo embaraço — Perdoe-me, eu... — mas, subitamente, ele para de falar.

Seu olhar vaga por Ash, os olhos arregalados e, então, o reconhecimento lampeja. Um tremor involuntário passa pelo corpo dela. Se aquele estranho a reconhecia de algum lugar, não era um bom sinal.

Ela não pensa duas vezes antes de correr desesperadamente até o carro, tentando dar partida antes mesmo de estar totalmente dentro do veículo.

— Vamos lá, garota — ela dá alguns tapas no painel, quando tenta inutilmente girar a chave na ignição, mas o carro não pega — Não me deixe na mão — ela berra, desesperando-se.

— Espere! Não vou machuca-la. — grita o estranho, agora em um inglês perfeito, enquanto corre em direção ao carro.

— Ruby! — ela grita com o carro e ele finalmente liga.

Ash afunda o pé no acelerador e vira o volante com força, quase batendo no carro estacionado em sua frente, mas não passando longe o suficiente. O retrovisor voa e para aos pés do homem.

— Merda! — ela pragueja, virando a esquina e sumindo da vista dele — Espero que ele não tenha anotado minha placa.

O homem fica lá parado, vendo o carro sumir.

— Droga — ele resmunga — Ele não vai ficar nada feliz por eu tê-la perdido.

Uma mulher que passa por perto o olha com uma expressão duvidosa, Henri a encara e então dá meia-volta, resmungando.

Notas finais
Mas agora tô vazando porque estou atrasada para a aula ;-; Hehe, até mais xD