O Legado Elemental
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Capítulo 3 — A Profundeza da Sombra
O ônibus está tão deserto quando o homem entra, que ele chega a suspirar de alívio; ela não o incomodara hoje, ainda. O motorista parece nem notar que há alguém lá, então ele caminha para o último banco. Está chovendo tanto está tarde, e ele está encharcado e com frio.
Ele se vestira como sempre – o sobretudo preto, botas, calças pretas, blusa monotonamente preta, os cabelos pretos longos que cobrem parte da face –, esperando que pudesse esgueirar-se nas sombras e então ninguém o notaria. Terrível engano. A cicatriz que partia do alto da sobrancelha esquerda e acabava no lado direito do rosto, pegando uma parte dos lábios e parando no queixo anguloso, chama atenção o suficiente para as pessoas notarem e o olharem assustadas. Ele é uma aberração. Ficará deste jeito para sempre.
O ônibus para em um ponto, mas ele sabe que não é lá que sairá, então continua sentado com os cotovelos apoiados nos joelhos. Ele fita suas botas, mas avista sapatos perfeitamente engraxados vindo em sua direção. Levanta os olhos. O homem loiro não olha diretamente para ele, mas se senta ao seu lado. Ele encara incrédulo sua nova companhia, querendo saber por que diabos ele sentara logo ao seu lado, quando todos os outros bancos estão vazios.
O loiro diz algo em alemão.
— Não falo sua língua — Lorcan diz secamente.
Então o homem finalmente vira o rosto para olha-lo e, diferente da maioria das pessoas, não parece surpreso com sua cicatriz.
— Eu disse que está um belo dia — ele repete, desta vez em inglês.
Lorcan franze a testa, olha através da janela embaçada, para o dia chuvoso e cinzento, e depois para ele. Não havia nem uma pontada de sarcasmo em sua voz.
— Não está, não — ele responde, a voz rouca, ainda franzindo a testa.
O desconhecido estica o braço e bate na janela com um dedo. As gotas de água se afastam do vidro da janela, a chuva para e as nuvens somem, dando lugar a um sol radiante.
— Está, sim — ele retruca — Mas sei que você não lida muito bem com a luz — ele bate novamente na janela e as nuvens voltam, o dia continua nebuloso, mas não há chuva. As pessoas na rua parecem muito surpresas com as mudanças tão repentinas.
— Quem é você? — ele pergunta, o semblante sério começando a ficar rígido.
— Henri — ele responde, totalmente relaxado, como se nada tivesse acontecido.
Uma risadinha faz Lorcan desviar o olhar e fitar a garota empoleirada no encosto do outro banco. Ela apresenta um sorriso malicioso e observa Henri curiosamente. Ele parece não notar sua presença.
— Achei que iria me deixar em paz pelo menos hoje — Lorcan diz baixinho, em irlandês.
— O que foi? — Henri olha pra ele, então para o lugar que Lorcan fita com uma expressão tensa, mas não há nada ali.
— Pensei que estava sentindo minha falta — a garota faz uma expressão magoada e salta do banco, parando com uma leveza inumana. Ela é tão pálida que ele consegue enxergar através dela — Eu senti muito a sua falta, Lorcan — ela estica seu nome, então sorri — Eu fico tão sozinha. É tão vazio e frio lá.
— Vá embora, Allison — ele sussurra.
Henri franze as sobrancelhas, então dá de ombros.
— Parece que você está mesmo mais louco do que eu pensava — e ri sozinho — Tudo bem. É desse lado que estamos interessados.
Lorcan o encara por alguns segundos.
— Ele é uma graça, não é mesmo? — Allison senta-se no colo de Henri, mas ela não tem peso e ele não a vê.
— O que você quer? — Lorcan pergunta a Henri, decidindo ignorar a garota fantasma.
— Demorou um pouco — ele fita seus sapatos como se procurasse o mínimo de imperfeição, e então levanta o olhar — Mas finalmente viemos busca-lo.
— Me buscar? — Lorcan arqueia uma sobrancelha.
— Você é especial — Henri explica, como se ele não soubesse disso — Como eu. Mas temos dons diferentes. Você pode...
— Eu sei o que posso fazer — ele o interrompe rispidamente, mas seu olhar está em Allison, que perdera a expressão debochado, agora o encara com fúria — Mas o que isso tem a ver com você?
— Tudo será explicado quando chegarmos lá.
— Lá aonde?
Henri aponta para sua sombra que se forma toda vez que as luzes da rua são lançadas sobre ele. Ela é um pouco falha, mas ainda sim serve.
— Acredito que será um transporte bem mais rápido.
Lorcan o fita tenso.
— Vamos! — Henri está animado para isso, nunca fizera algo do tipo antes — Iremos parar no lugar exato. Eu posso fazer isso.
— Eu não sei... — ele olha de esguelha para Allison, sentindo aquela antiga culpa voltar com tudo.
— Vai dar tudo certo, você vai saber de tudo. Mas, antes, precisamos chegar lá o mais rápido possível. Eu ainda tenho mais um compromisso para hoje.
Lorcan levanta-se, olhando para a sombra de Henri. Allison pula de seu colo antes que Henri levante também e a atravesse. Ela odeia ser atravessada.
— Você primeiro — Lorcan oferece.
— Só uma pergunta — ele vira-se para Lorcan, aparentando insegurança pela primeira vez, não tendo tanta confiança em sua capacidade de manter a mente focada — O que acontece se eu me desconcentrar?
Mas antes de ouvir uma resposta, Lorcan o empurra. Henri atravessara a sombra, e ela continuara congelada minutos depois de Lorcan pular junto.
Allison sumira.
✗✗✗
Christa está deitada em sua cama, a revista há muito deixada de lado. Algum idiota está tocando a campainha há dois minutos, e ela já não aguenta mais aquele barulho irritante. Já gritara pela tia, já gritara por Belle, mas ninguém fora atender. Irritada, ela calça os chinelos e desce as escadas.
— O que é? — ela abre a porta com força, quase rosnando para os dois homens parados na soleira — O quê vocês querem?
Henri pensa ter tido o vislumbre de uma faixazinha de baba no canto da boca dela, enquanto ela fazia aquela careta e mostrava os dentes, como um cão raivoso. Mas já vislumbrara demais esta tarde. Começando por atravessar sua própria sombra em companhia daquele cara sem senso de humor chamado Lorcan e correr o risco de ficar preso nela para sempre.
— Estamos procurando uma pessoa — responde o homem prostrado ao seu lado.
Christa olha de um para o outro, notando a semelhança gritante e supondo que são pai e filho. O homem mais velho tem um olhar severo, vestido com um terno aparentemente mais caro que o seu guarda-roupa inteiro, cabelo perfeitamente penteado para trás. Entretanto, as feições do mais jovem são relaxadas, e os fios loiros agora estão levemente bagunçados de forma casual, como se ele tivesse passado as mãos.
— Hum, hum... — ela resmunga, com um olhar suspeito em cima deles — Tá, e daí?
— Você é filha de Jane Shaw?
— Sou, sim — ela responde.
Será que fizera algo que não lembrava? Porém, tinha certeza de que nunca vira aquelas pessoas em sua vida. Lembrar-se-ia de olhos tão azuis. Talvez fosse outra confusão que sua mãe arranjara antes de morrer e deixar todos os problemas para ela cuidar. Mas já vira os mesmo traços daquele homem em algum lugar...
— Belle? — ele pergunta, o olhar firme se suavizando e tomando uma expressão de alívio.
— O quê? Não! Claro que não — como podem tê-la confundido com a Belle? Elas não se parecem nem um pouco — Meu nome é Christa.
— Você é filha de Jane Shaw, mas se chama Christa? — Henri finalmente pronuncia-se, franzindo a testa — Tem algo errado.
— Claro que tem algo errado! Belle é a filha bastarda e fracassada da minha mãe, ok? — agora ela se sente enojada — Olha, é melhor vocês irem embora. Não sei por que estão procurando a Belle, não sei que problemas ela andou arranjando, mas ela não está aqui...
— Espere — o homem segura a porta antes que Christa a feche — Você sabe onde ela está?
— Não — ela responde secamente e bate a porta.
Henri franze o cenho, sentindo uma sensação estranha, não em relação à Christa, vem de outro lugar. Então ele arregala os olhos e vira-se para o pai.
— Mas eu sei — ele anuncia.
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