O Lamento Da Lua
13 Treze - A espera do Sol
Tínhamos um destino. Por mais que estivéssemos ainda presos atrás daquelas grades esperando a chegada de Orion, o desenho do farol havia despertado em todos nós uma necessidade maior de planejar uma fuga.
Contei o sonho que tive provavelmente enquanto estava desenhando a mensagem de Apolo.
–...E no final ele dizia... – tentei me certificar da minha memoria. Não queria acreditar que Apolo tinha dito uma coisa tão sem sentido quanto “Coce a cabeça, não é o fim”. Qual seria o motivo de uma pessoa coçar a cabeça por não ser o fim de alguma coisa?
–Dizia o que? – perguntou Camilla com um tom empolgado. Seus olhos ainda estavam vermelhos, mas eu percebia que o desenho havia trazido a ela uma esperança, uma chance de não deixar repetir o que ela tanto se lamentava.
–“Coce a cabeça, não é o fim”... – disse observando os rostos de cada um, esperando um entusiasmo e um “Já sei o que ele queria dizer!”, mas não foi o que aconteceu.
–Você tem certeza que foi isso? – perguntou Matheus – Será que você não trocou as palavras?
–Nossa... Surpreendente sua informação, pai. – disse Alice cruzando os braços e levando a mão a cabeça – “Coce a cabeça”. Pronto, mais alguma instru...
Ela mudou de expressão. Seus dedos continuaram no cabelo, mas pareciam apalpar algo entre os cachos ruivos que estavam presos em um rabo de cavalo.
–Espera um pouco... – disse ela tirando a mão dos desarrumados fios vermelho-castanhos, segurando algo, fazendo o rabo de cavalo soltar e o cabelo cair sob os ombros – Mas que sorte a minha. – disse agora olhando o que estava em sua mão.
Ali estava. O conhecido lápis da sorte de Alice. A todo instante prendendo o seu rabo de cavalo e em prontidão agora para dar sentido às palavras do deus do sol.
–Isso! – disse Camilla em um quase sussurro, boquiaberta olhando o lápis como se fosse um resultado de um truque de magica que Alice acabara de fazer – Alice... Era isso que Apolo queria avisar. Você pode nos tirar daqui... Pode acertar o botão de tranca das grades.
***
Alice se concentrou um pouco, observando o botão do outro lado da sala com total avaliação. Enquanto eu, Camilla e Matheus rezávamos para que a nossa única chance fosse um sucesso.
Não teve muito suspense. Alice se quer moveu os braços, ensaiando como lançaria ou qualquer coisa do tipo, ela simplesmente lançou e ouvimos o clique da tranca abrindo e em seguida um alvoroço agonizante de alarmes disparando. “Agora eles sabem que estamos livres.”
–Sigam direto para a recepção. – disse abrindo as grades rapidamente – Pegamos nossas coisas e seguimos direto à procura desse farol.
–É o Farol da Barra. – disse Alice desembaraçando os cabelos soltos – Você não disse que o do seu sonho era listrado em preto e branco?
–Sim. – confirmei – Então pelo menos já sabemos aonde ir.
–Vamos logo, antes que eles entrem e nos matem mesmo que Orion não esteja aqui. – disse Camilla se posicionando na frente da porta automática que logo abriu em um som delicado.
Corremos por entre os diversos corredores que se interligavam como um verdadeiro labirinto. Entramos em desespero quando começamos a ouvir os barulhos de cascos contra o piso de metal, indicando que não estávamos a sós no labirinto.
–Eles devem estar sendo instruídos por alguém. – disse Camilla – Tem câmeras de segurança por todos os corredores.
–Não exatamente. – disse Matheus que vinha correndo logo atrás de todos nós. Me perguntei se ele por acaso estava cansado ou com algum problema na correria até que vi suas mãos segurando algo – Eu desativei todas que passamos por perto.
E é aí que está minha resposta para a pergunta “Quais são as vantagens de ter um amigo ladrão?”.
Enfim encontramos a saída do covil de metal. O céu ainda estava estrelado, e o ar úmido da madrugada não apresentava pretensão alguma do nascer do sol. Não devia ser mais que duas da manhã.
Um pouco distante, entre algumas arvores, eu já conseguia notar a presença dos primeiros sátiros que nos avistaram e vinham em nossa direção. Desejei que não aparecesse nenhuma ninfa em minha frente e nos acoplasse em um casulo de raízes outra vez.
“Alerta. Liberação dos animais permitida.” Disse uma voz feminina das caixas de som que se espalhavam pelo parque repetidas vezes. Infelizmente não existe muita diversidade no significado da palavra “liberação” naquele sentido e isso me causou um arrepio inevitável e um frio na barriga que me deu ânsia de vômito.
–Ai meu Deus... – disse Matheus ao ouvir a voz – Diz que não é o que eu estou pensando. Diz que não, diz que não, diz que...
Matheus foi interrompido com uma resposta. A tal manticora, que vimos atrás das grades quando chegamos, surgiu em um salto pesado a nossa frente, com o rosto quase humano mostrando as presas afiadas. A cauda de espinhos sacudia de um lado para o outro, se preparando para lançar as agulhas em nossa direção.
Desviamos de um golpe agressivo da pata de leão e aproveitamos a brecha para fugir antes dos espinhos caírem na grama onde alguns segundos atrás estávamos.
Como se nossa situação anterior estivesse melhor, agora estávamos sendo seguidos por vários sátiros, uma manticora e correndo o risco de se bater com qualquer outra criatura que esteja no zoológico de Ártemis. Estávamos completamente fu-
–A recepção é ali! – gritou Alice quando a manticora por um momento esqueceu de que lado ela estava e saltou em cima de um sátiro.
A dríade apareceu na porta do compartimento e, movendo as mãos ágeis delicadamente, começou a cobrir a entrada com raízes e folhas.
Um ciclope apareceu de trás das árvores inesperadamente, golpeando a recepção, derrubando uma das paredes e fazendo a dríade soltar um gritinho de pânico.
Me perguntei em que área do zoológico aquele homem gigantesco poderia estar exposto e que grade era capaz de resistir a pancada que ele havia atingido aquela parede.
A dríade correu, esquecendo completamente de nós quatro. Pude ver o dourado de o meu arco reluzir debaixo dos escombros da parede e corri até o ciclope que vinha grunhindo em nossa direção.
Nosso foco nas armas era tão grande que esquivamos do golpe da clava do homem passando por debaixo das pernas peludas. Peguei o arco com as mãos um pouco tremulas e coloquei rapidamente a aljava nas costas tirando uma flecha imediatamente e deixando-a já em prontidão.
Enquanto Camilla ainda procurava todas as armas que ela carregava, percebi que a manticora já havia se recordado que nós éramos o seu foco principal e vinha em direção à recepção.
–Camilla, rápido! – disse quando o rugido da boca ensanguentada do rosto humano vinha correndo com as patas pesadas de leão.
Camilla ainda procurava por sua dupla de adagas que ela prendia em cintos nas pernas quando comecei a disparar flechas seguidas em direção à manticora que já estava perto o suficiente. O couro do monstro parecia ser bastante firme, pois as flechas cravavam na carne e não faziam com que o pacote completo parasse.
Meu coração congelou quando o par de patas dianteiras me empurrou e me pressionou contra o chão. O cheiro de sangue dos sátiros que o monstro havia matado fazia meu estomago revirar e os olhos alaranjados do rosto humano fitavam os meus com o desejo de me destroçar por completo.
Foi então que em um rugido fechei os olhos esperando ter a garganta abocanhada pelas presas e em seguida senti o peso diminuir. Quando abri os olhos uma explosão de pó resumia o paradeiro da manticora e Camilla se posicionava com a adaga enfiada no ar.
–Achei. – disse ela sorrindo para mim e me dando a mão para me levantar.
Um resumo simples do resto do caminho da gente é pó de monstro. As criaturas que surgiam inesperadamente a nossa frente recebia nossos golpes sem muita atenção e nossos olhos focavam nos portões azuis na saída do cativeiro.
–Fechem os portões! – gritavam os sátiros que vinham logo atrás.
Passamos das grades e, antes que a multidão de sátiros, dríades e monstros descontrolados nos alcançasse, gastei minha ultima Bomba de Delicadeza que, em um quique rápido, cobriu toda a saída com um muro de terra.
***
O céu ainda era noturno e o cheiro de maresia vindo da praia aumentava cada vez que íamos em direção as Gordinhas outra vez. Elas estavam imobilizadas quando passamos correndo por elas. Quase nenhum carro transitava por ali, os poucos que passavam deviam estar voltando ou do trabalho ou de alguma noitada.
Da Ondina até a Barra era muito distante e nenhum ônibus passava por onde estávamos para nos levar até o farol listrado em preto e branco. Meu coração ainda palpitava em um ritmo que parecia estar exatamente nos meus ouvidos. Meus olhos vasculhavam a longa rua que levava até o Cativeiro da Lua esperando a qualquer momento uma onda de monstros correndo em nossa direção.
Passou um taxi e, sim, pegamos como se fossemos pessoas normais no meio de uma noite normal. O taxista nos olhou com uma cara estranha, mas mesmo que ele parecesse recusar nos levar já entravamos no carro sem muita cerimonia. Não era de se questionar o motivo do olhar de reprovação do taxista. Estávamos com caras de mendigos.
–Pro Farol da Barra. – disse Camilla se ajeitando e colocando o cinto no banco ao lado do motorista.
O motorista continuou nos olhando pelo retrovisor, franzindo o cenho e analisando sem dizer uma palavra se quer.
–Ela disse Farol da Barra! – gritou Alice, que estava sentada atrás do banco do motorista – Pode ser ou tá difícil? – disse em um tom neutro a segunda parte.
–Desculpa. – disse o homem mudando a marcha e acelerando logo depois.
–Você está naqueles dias? – sussurrou Matheus para Alice, sendo que eu estava no meio dos dois.
–Isso é uma das perguntas que não se faz para uma garota. – disse ela séria olhando para ele.
–Desculpa. – disse ele desviando o olhos para a janela do carro. Prendi a risada.
O taxi permaneceu na longa Avenida Oceânica que só terminava exatamente em frente ao farol. Aos poucos que nos aproximávamos da luz infinita que eu havia visto em meu transe, o valor no taxímetro não parava de aumentar fazendo meus dedos irem involuntariamente à procura de alguma coisa nos bolsos da minha calça jeans. Nenhum dinheiro.
Alice e Matheus não pareciam se preocupar, cada um olhando para suas respectivas janelas e Camilla olhava sem foco para fora da dela, recebendo o vento no rosto que balançava os cachos louros.
Esqueci do problema econômico quando pensei no que aquela cabeça poderia estar pensando naquele momento. A perda de um irmão sem saber quem o havia matado e carregar no peito a eterna culpa devia ser algo difícil com o que se dar, mas talvez fosse um verdadeiro motivo que a influenciava para permanecer lutando. “Eu só não posso deixar que aconteça o mesmo com vocês” foi o que ela disse.
Cutuquei o ombro dela e quando ela se virou para mim mexi a boca, sem emitir som algum, dizendo: “Não temos dinheiro algum, minha filha.”.
Rapidamente os olhos verdes correram a procura do taxímetro e arregalaram ao ver o valor. Ela tornou a me olhar, sendo que eu já tinha demonstrado a ela a minha total pobreza. Dei de ombros e vi os lábios dela franzirem de preocupação.
–Matheus – sussurrei ao meu lado direito – Estamos sem dinheiro para pagar o taxi.
Matheus arregalou os olhos no mesmo instante.
–E como vamos pagar ao moço?! – a exclamação foi um pouco alta demais, fazendo o motorista enfezar a cara e nos expulsar do veiculo imediatamente.
Pelo menos já dava para ver o farol aonde o taxista nos deixou antes de disparar gritando combinações de palavrões que eu nunca na minha vida havia pensado que fossem possíveis.
–Parabéns mesmo, cara. – disse depois que o carro sumiu na curva que terminava a Avenida Oceânica.
Matheus desistiu de apresentar algum argumento em sua defesa quando recebeu o olhar tá-pra-matar de Alice. Camilla apontou para o fim da longa calçada, onde se encontrava o farol em um pequeno morro na beira do mar.
Caminhamos até o local, recebendo os ventos contínuos que vinham da maré em um frio incomodo. A madrugada não parecia ter intenção de ir embora, as estrelas ainda brilhavam cercando a lua refletida no horizonte.
Quando nos aproximamos do nosso destino, procurei algum sinal de meu pai onde ele estava no meu sonho. Como era de se esperar, ele não estava lá. Seguimos em direção à plataforma da torre listrada, indo para a porta de madeira cercada por duas pilastras e uma parede longa de pedra. Acima da abertura da porta se encontrava o símbolo da bandeira imperial do Brasil, em alto-relevo.
–Será que estamos realmente no farol certo? – perguntou Alice olhando para os lados a procura de alguma resposta.
–É esse aqui. Eu tenho certeza. – disse ainda procurando por Apolo – Ele estava exatamente onde estamos, e o resto é tudo igual ao meu sonho.
–Talvez a intenção de Apolo fosse realmente não estar esperando aqui. – disse Camilla – E sim que encontrássemos algo que ele acha que devêssemos vir procurar.
–Mas o que seria? – perguntei.
Procuramos e não encontramos nada. Decidimos esperar por algum sinal.
***
Estávamos sentados na grama imaginando que os monstros do zoológico chegariam primeiro que a boa vontade de Apolo em nos dizer o que exatamente deveríamos fazer. Camilla estava ao meu lado e foi olhando pra ela que desejei aos deuses, e principalmente a meu pai, que no final tudo desse certo, para que ela não sofresse com mais nenhuma morte de semideuses sob sua responsabilidade.
Meu olhar chamou a atenção dela e percebi minhas bochechas arderem de vergonha quando olhou para mim. Ela sorriu ao perceber minha reação e provavelmente ao ver minha cara se transformar em um tomate.
Ela chegou mais perto de mim e me deu um beijo (não, não foi oficial...), igual ao que ela me deu no final do nosso primeiro e único treino no acampamento.
–Mesmo com tudo o que vem acontecendo, e os medos que sinto em reflexo do meu passado – disse ela ainda sorrindo — Há algo que me faz realmente gostar muito de você. – completou, deitando em meu ombro.
–Agora você me dá outro beijo – disse em um tom de humor – E, por favor, nada de bochecha dessa vez.
Ela riu me dando um soco leve no ombro.
–Humildade é sempre bom, sabia? Tente manter ela por perto. – disse ela cruzando as pernas – Foi bom te conhecer, Rafa...
Pensei em aproveitar o momento. Dizer logo o que eu penso. “Mas ela é uma caçadora, Rafael, tá achando que tudo mudou por causa de dois beijos na bochecha?” Que se dane. Que diferença ia fazer ficar guardando isso pra mim se nada ia mudar? Já que nada ia mudar, qual o mal em dizer em voz alta, enfim, o que sinto por ela? Minha boca abriu já na intenção de despejar as palavras que desejei serem as certas, até que fui interrompido.
A resposta de Apolo surgiu em um “ótimo” momento, me causando um arrepio e um pouco de angustia. Um som abafado de sofrimento vinha de dentro do farol e um terror tomou conta de todos nós. Pude perceber que era mais de uma pessoa e elas não conseguiam emitir palavras, só sons de desespero.
–Está vindo daí de dentro. – disse Matheus recuando um pouco da porta quando se levantou do gramado.
Alice mordeu o lábio inferior e seguiu em direção à porta.
–Está aberta. – disse ela quando as dobradiças rangeram.
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