O Lamento Da Lua
14 Quatorze - Sete
Adentramos. Luzes se acenderam automaticamente desvendando algo que nos fez arregalar os olhos. Havia garotos e garotas amarrados. Deviam ter em media quinze a dezessete anos, tirando uma garotinha que parecia ter nove. Todos estavam imobilizados e amarrados uns aos outros, com as bocas igualmente tampadas em panos grossos e sujos.
–Meus deuses... – sussurrei quando vi todos gemendo e com as aparências terríveis.
–Venham! Ajudem-me a desamarra-los! – disse Camilla que já estava com as mãos trabalhando desfazendo os nós.
Aos poucos liberamos um de cada vez. Eram seis no total, percebi quando terminei de desamarrar um garoto de cabelos castanhos quase louros.
–Você está bem? – perguntei e percebi que o olhar dele foi de incompreensão. – Você consegue me ouvir?
–Ele não é brasileiro. – disse uma voz fraca e rouca de uma garota de cabelos cheios com cachos embaraçados e castanhos claros – Assim como ela e ele.
Disse sinalizando para uma menina de pele bronzeada e cabelos louros com algumas pequenas tranças e um garoto sério, negro, alto e forte, com os olhos mel e careca.
–Ele é do Canadá – disse indicando o garoto que eu havia desamarrado – Ela é especificamente do Havaí, e ele dos Estados Unidos – completou a garota pigarreando um pouco, porem continuando com a voz arrastada e ressecada.
–E o que eles estão fazendo aqui exatamente? – perguntou Alice que ajudava a menor dos desamparados.
–Turismo. Não percebe? – disse Matheus tirando sarro mais uma vez da cara de Alice que olhou atravessado para ele.
–O mesmo que nós. – respondeu um garoto com as feições parecidas com a garota que havia falado há pouco tempo. – Meu nome é Lucas Cavalcante.
–Me perdoem por não ter me apresentado. – disse a garota – Eu sou a Ivy. Ivy Cavalcante também.
–Somos gêmeos. – completou Lucas que possuía os cabelos lisos, castanhos e ondulados, no mesmo tom do da irmã. –Aquele ali é o Jonathan Baumer. – disse sinalizando o garoto estadunidense. – E Kaiki Fritzer. – disse indicando a loura com pequenas tranças discretas nos cabelos curtos.
–Aquele é o Abdel Hooper – disse Ivy indicando o canadense – E essa é a Clara...
–Amorim! – exclamou a pequena. Tinha cabelos ruivos, mas não do tipo tingidos de Alice. Ruivos do tipo fogo que misturavam com mechas louras, destacando-as, o que me fez lembrar a Julia Araújo, minha amiga que vivia tingindo os cabelos de cores exóticas e que nesse momento não fazia ideia de onde os seus dois melhores amigos foram parar.
Nos apresentamos.
–E qual o motivo de todos vocês estarem aqui? – perguntei.
–Por causa de você. – disse Lucas em um tom que por um momento me pareceu indelicado, como se eu tivesse culpa.
–Minha causa?
–Somos todos filhos de Apolo. – resumiu Lucas que havia tirado um violino da case de couro que estava dentro de um saco grande e velho, testando as cordas. Tentei imaginar qual o motivo do instrumento naquele momento, mas preferi ignorar.
Observei todos os rostos que estavam em minha frente no circulo que havíamos feito no chão. Todos eram meus irmãos e estavam correndo os mesmos riscos que eu com as recentes ameaças de desaparecimentos e assassinatos cometidos por Orion.
–Orion realmente veio na intenção de se vingar de Apolo. – disse Ivy abrindo novamente o saco de onde Lucas havia tirado o instrumento. Os outros se aproximaram e pelo que vi, ali estavam os pertences de cada um. Armas, mochilas... Esses tipos de coisas. Por fim ela pegou uma flauta dourada e prendeu no cinto. – As contas dele com o nosso pai só ficarão acertadas quando um dos dois estiver morto.
–Vocês por acaso são uma dupla de músicos? – perguntou Matheus que levou uma cotovelada de Alice que revirou os olhos.
–A Profecia diz que só Ártemis decidirá o final de tudo. – disse ignorando a pergunta de Matheus e percebendo que não era a intenção de Ivy responder. Ela se aproximou e sentou perto do irmão.
–Sim... E não preciso dizer que nossas chances não são as melhores, não é mesmo? – disse Lucas que havia colocado o violino e o arco -segunda peça do instrumento- de lado. – Provavelmente Apolo nem dará importância quando o plano de Orion for colocado em prática.
–Não acredito mais que as coisas vão realmente acontecer como Orion havia imaginado. Não sei você, mas não vou estar aqui esperando de braços cruzados e permitir que ele faça o que bem entende. – disse Ivy para o irmão com um tom de determinação, mesmo com a aparência abatida.
–Plano? – perguntou Alice – Eu ainda não entendi o que isso tudo quer dizer.
–Orion vem sequestrando filhos de Apolo para a realização de um... Digamos, ritual. – disse Lucas – Sete é o numero de Apolo, sete é o numero que iniciaria o ritual e sete era a quantidade de filhos do sol que necessitaria para chamar o deus para a própria morte.
–Ainda não entendi. – disse Matheus franzindo o cenho.
–O ritual consta com o sacrifício de sete filhos específicos do deus do sol. Orion acredita que se matasse uma grande quantidade de filhos, Apolo se revelaria contra o ato brutal e surgiria à procura de uma batalha a qual o Caçador tanto anseia pela vitória. – explicou Lucas olhando para Matheus – Contudo, era necessária a morte de uma criança aos sete anos para dar partida ao tal processo, que na verdade não passa de uma suposição de Orion.
–O meu irmão. – ouvi a voz de Camilla dizer. Não era triste e nem surpresa. Era firme e com um tom pequenino de vingança.
–Lamento. – disse Ivy colocando a mão no peito.
Camilla confirmou com a cabeça, aceitando o consolo.
–Quanto a vocês... – disse ela logo em seguida, provavelmente na tentativa de não deixar o assunto de seu irmão se tomar um foco maior – Provavelmente ele não estava procurando por qualquer filho de Apolo, já que foi buscar esses em outros lugares do mundo.
–Bem... O verdadeiro número Sete é o Rafael. – disse Ivy olhando para mim, mas mesmo assim não me surpreendi. Até a pouco tempo eu imaginava que eu era quem Orion realmente queria matar. Depois de meu pai, lógico. – A criança da Profecia era indispensável nesse plano, seguido por outros seis filhos do Sol.
–Porém, como você, temos habilidades raras. Não tão raras quanto a sua, já que existem outros filhos de Apolo como nós. – disse Lucas esticando um pouco as pernas.
–Você quer dizer que todos vocês tem dons fora do comum? – disse Camilla.
–Não é tão fora do comum assim. Como disse agora pouco, existem outros com até dons iguais aos de alguns de nós aqui. – disse Ivy – Mas tivemos a sorte de sermos os escolhidos pelo Caçador.
Olhei ao redor tentando imaginar quais eram os dons específicos de cada um que ali estavam. Imaginei o que Clara, a pequenina que trançava e destrançava os cabelos ruivos, escondia por trás do seu rostinho inocente. Pensei em perguntar o que cada um podia fazer, mas Ivy logo voltou a falar, impedindo que acontecesse um bizarro momento parecido com identificação de mutantes.
–Bem, mas o caso agora é serio. Você veio até nós, Rafael, por alguma razão e não é mais seguro ficarmos aqui. – disse ela mostrando todos na roda – Os Sete estão aqui. Orion provavelmente já está vindo para cá nesse exato momento.
Lembrei do zoológico... E sim, ele está mesmo.
–Eu não tenho nenhum plano. – disse entrando um pouco em desespero.
–Acho que o melhor agora é encontrar as outras caçadoras, o mais rápido possível. – disse Camilla – Se ele já está com Ártemis, então precisamos nos unir urgentemente a elas e estarmos prontos para o que nos espera pela frente.
–Orion deve ter reunido outro exercito com a ajuda de Ártemis, sem ser aqueles do zoológico. – disse Alice se levantando imediatamente quando todos nós nos preparávamos para sair do farol. – Será que iremos mesmo conseguir vencer deles só com nove semideuses e algumas caçadoras?
Camilla olhou para ela apreensiva, com os lábios cerrados.
–Vamos logo procurar por elas. – disse enfim, tirando o arco da aljava e seguindo para a porta de madeira que estava fechada.
Saímos recebendo uma claridade neutra no rosto. O céu começava a clarear com traços amarelados o que significava que o sol enfim estava dispensando a madrugada que parecia não ter fim.
De repente o clima ficou pesado, como se eu estivesse pressentindo algo ruim que estava para acontecer. E algo realmente ruim apareceu a nossa frente.
–É melhor corrermos. – sussurrei, percebendo que só eu havia notado o cão que havia se materializado a nossa frente. – É o Sirius. O cão de caça do Orion.
Sirius rosnou, mostrando os enormes dentes amarelados. Desde o Caça a Bandeira eu percebia que o Sirius era consideravelmente maior que o tamanho normal dos outros cães de caça. Ele tinha um porte forte, e seu pelo denso o transformava em uma figura monstruosa bem próxima a um lobisomem.
–Mas se o Sirius está aqui... – falou Alice arregalando os olhos.
–Orion deve está por perto. – disse com os olhos fixos nos dentes ameaçadores.
–Bem observado, filho do Sol. – disse uma voz densa e grossa de trás de nós. Quando me virei para observar, a figura de um homem muito alto se materializava aos poucos com pontos de brilhos que me lembravam estrelas no céu, se reunindo e moldando o corpo rapidamente. A feição grossa e brutal, juntamente com os olhos frios e negros, me fez reconhecer imediatamente a figura que surgira na frente da porta do farol.
Era ele, o Caçador.
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