O Lamento Da Lua
12 Doze - Esperança
A derrota e o fracasso doem demais, principalmente quando isso ocorre em pleno começo. Enquanto sentia o sacolejo de ser carregado como um corpo morto por um homem de passos com som de galope, comecei a aceitar aquele como o verdadeiro fim da missão. O que ia ser de mim depois disso? Será que vou presenciar todos os meus irmãos serem capturados por Orion e ver o chalé 7 esvaziar aos poucos? Será que eu ainda veria o chalé 7 e todo o resto do acampamento ou tudo terminaria ali, na escuridão de um saco preto em minha cabeça enquanto Orion me mataria por vingança a meu pai?
O pensamento da morte me doeu mais quando lembrei de Alice, Matheus e Camilla, que provavelmente deveriam estar em algum lugar também correndo perigo.
Não é possível que tenhamos tanto azar assim. Se duvidar fomos os únicos semideuses que pensaram em ter uma iniciativa contra as atitudes de Orion e estamos agora caminhando para uma derrota ridícula e humilhante.
Meus pensamentos negativos se calaram quando ouvi algo parecido com climatizadores industriais. Os passos dos cascos do sátiro que me carregava começaram a soar diferente, como se agora trotassem em um tipo de metal, fazendo bastante eco. O barulho revelava que mais deles vinham juntamente e senti um calafrio na espinha quando pensei que provavelmente estavam me levando para o casal paranoico. Evitei o medo e tentei manter coragem.
Um barulho de porta automática se abrindo e em seguida, poucos passos depois dentro de onde quer que eu estivesse, fui lançado contra o chão, e ouvi mais três baques logo depois de mim.
O saco foi tirado com força e meus olhos encolheram quando receberam a claridade das lâmpadas florescentes.
–Comuniquem ao caçador que estamos com ele aqui. – meus olhos começaram a se adaptar a claridade do local e focaram o sátiro falando em um tipo de oktok.
–Ok. – respondeu uma voz no aparelho.
Olhei para meus lados e me deparei com Alice, Camilla e Matheus igualmente amarrados, nos pulsos, pernas e boca.
O sátiro tirou todos os nós e depois nos trancou como se fossemos um dos animais em exibição do zoológico, apertando um botão do outro lado da sala que ativou a tranca das grades. Quando terminou de nos aprisionar saiu pela porta automática e voltamos a só escutar o som dos climatizadores. O local era todo revestido em ferro e eu não fazia ideia de em que parte do zoológico poderia ficar escondido.
–Está tudo bem com vocês? – perguntei.
–Claro que está. Estou me divertindo pra caramba! – disse Alice pegando nos pulsos.
–O que vamos fazer agora? – perguntou Matheus.
–Não sei se podemos fazer algo... – disse analisando as opções que tínhamos de fuga. Zero.
***
Ficamos estudando a prisão por um tempo e não encontramos nada ao nosso favor. No fundo havia apenas uns pedaços de carvão usados, com nenhuma significância. As horas começaram a passar e o cansaço contagiou a todos que se dispersaram em cada canto do cubículo.
Percebi que Camilla não havia falado em momento algum desde que chegamos ali e, algumas vezes, achei ter visto passar as mãos rapidamente nos olhos, como se estivesse enxugando lagrimas.
Enquanto a observava de longe, lembrei dos olhos avermelhados na praia da Ondina e de como ela se irritou com o que a dracaenae havia dito sobre alguma situação complicada que ela havia passado. Imaginei que, por trás daqueles sorrisos, olhos verdes e os cachos louros, devia existir algo que era bastante pessoal o qual vinha afetando-a emocionalmente com frequência.
Já devia ser bastante tarde. Alice dormia encostada em uma parede, com o rosto colado numa das barras da prisão. Matheus estava deitado no fundo do espaço e não dava pra saber se ele estava dormindo ou apenas esperando pelo destino. Camilla tentava me evitar e foi em uma das tentativas que seu olhar cruzou com o meu e, sem precisar eu dizer uma palavra se quer, ela disparou em chorar.
Levantei de onde estava, indo em direção a ela que soluçava baixinho, ainda olhando para mim. Sentei ao seu lado e a abracei tentando consola-la do que quer que fosse o motivo do choro enquanto ela tentava começar a falar sem sucesso.
Ficamos alguns minutos só abraçados até que o ritmo dos soluços diminuiu e ela enfim conseguiu falar em um quase sussurro.
–Me perdoa...
–O que? – disse, pensando não ter escutado alguma parte que ela talvez tivesse dito antes e não pude escutar. – Perdoar pelo que?
–Eu que dei a ideia de virmos para cá. Eu que permitir vocês prosseguirem nessa missão. Eu que deveria ser a sua guarda e a guarda de Alice. Agora olha onde nós estamos...
–Ei – disse interrompendo – Não dê uma dessas pessoas que tentam tomar para si toda culpa de tudo, Ok? Se estamos aqui é porque erramos juntos. Não se amargure por causa de nós.
Camilla olhou nos meus olhos, fitando meu rosto com aquela profunda mistura de tons esverdeados que me hipnotizava nos treinos o qual eu apanhava mais que defendia. Ela pareceu ficar pensativa por um momento e depois de um suspiro rápido ela voltou a falar.
–Eu só não quero que aconteça algo a algum de vocês. – disse enxugando os olhos molhados. – Não sei se aguentaria outra vez uma derrota...
As últimas palavras saíram com um pouco de esforço e em um tom de voz mais baixo e dolorido.
–Camilla... Você é uma ótima caçadora. – disse tentando aliviar um pouco o sentimento de culpa dela – Não queria estar com nenhuma outra caçadora, Luana que não me escute, nessa missão se não fosse a dona dos All stars.
– Eu não planejava fazer parte desse mundo de vocês. – disse se afastando do meu abraço e se sentando de pernas cruzadas, sem dar muita atenção ao que eu havia acabado de dizer – Eu era uma mortal normal, como qualquer garota, mas ai veio o meu irmãozinho.
Percebi que era um tipo de desabafo e preferi dar espaço a ela. Algo me dizia que aquelas palavras estavam engasgadas e talvez ela realmente quisesse contar tudo que vinha corroendo particularmente o interior dela.
–Quando ele foi reclamado como filho de Apolo, eu e minha mãe descobrimos os perigos que as proles do Sol estavam sofrendo e me juntei à caçada. – continuou ela.
–Nossa... A minha irmã fez o mesmo por mim. – disse meio que sem necessidade – Seu irmão deve ter orgulho de você.
–Eu o protegia de uma forma um tanto rigorosa demais. – disse baixando a cabeça e brincando com os dedos, ignorando mais uma vez o que eu havia dito – Mas eu só não queria que acontecesse mal algum a meu irmão.
Confirmei com a cabeça, já que falar não estava mudando em nada.
–Foi então que no aniversario de sete anos dele, ele me implorou tanto para leva-lo a uma praia que eu e minha mãe concluímos que não haveria problema. – disse ela olhando em minha direção e seus olhos já começando a encher de agua mais uma vez. – O sol estava lindo naquele dia... – disse com um sorriso enquanto uma lagrima escorreu. Meu coração apertou só de imaginar o que vinha pela frente.
–Não precisa falar se não quiser. – disse limpando a lagrima com meu polegar.
–Ele estava tão feliz naquele dia. Até que... – ela parou um pouco, mas não chorou – Até que uma lança surgiu do nada e acertou meu irmãozinho. Não encontrei quem foi o responsável do ato, na verdade eu perdi meu chão, não consegui enxergar mais nada. Apenas corri em sua direção e tirei a arma do peito dele. Lembro-me do sangue escorrendo descontroladamente pelo peito infantil e frágil e de quanto eu tremia sem saber ao certo o que fazer. As ambrosias e tudo que eu carregava para cura tinham ficado em casa. Ele ainda conseguiu sorrir para mim – disse sorrindo enquanto rápidas lagrimas caiam descontroladas – Falando uma coisa que nós sempre falávamos um para o outro. Ele dizia para mim “Você é minha lua, e seu brilho vai me proteger de todos os pesadelos e monstros que tentarem me pegar” e eu respondia para ele “Você é meu raio de sol, e sua luz sempre me lembrará do quanto eu te amo”.
Ela vacilou novamente no choro colocando as duas mãos no rosto. Me senti um nada. Na verdade eu nunca sabia o que fazer quando uma pessoa ao meu lado passava por situações desse tipo, porque eu não sei o que exatamente devo falar.
Ela pegou uma corrente no pescoço e mostrou um pingente de um mini-sol.
–Nós começamos a usar quando me tornei caçadora e ele soube que era filho do deus do sol. Eu usava esse do sol e ele um da lua. – disse ela olhando para o pingente – Nós éramos muito próximos... E ele era muito novinho.
Apenas balancei a cabeça em concordância. Agora eu entendia o motivo da tristeza quando estávamos na beira da praia da Ondina.
–Você não pode se torturar desse jeito... – disse olhando para ela observando o pingente – Eu tenho certeza que seu irmão sabia o quanto você se preocupava com ele e o quanto você o amava.
–Você não entende... – disse ela me olhando – Sua irmã era quem me consolava no começo. Ela sempre me ajudou, porque eu tenho certeza que ela pensa como seria te perder.
Um idiota, falando coisas idiotas, para variar. Era insignificante eu dizer qualquer coisa, porque a perda era a dela. Só dela.
–Eu só não posso deixar que aconteça o mesmo com vocês... – disse ela por fim.
–Não vai. – disse, me sentindo estranhamente tonto e vendo tudo escurecer – Eu sinto que não vai.
***
Eu estava em um lugar completamente escuro, onde apenas um infinito traço de luz rodava por todas as direções, lento e silenciosamente, procurando o fim do horizonte negro. Por algum motivo eu andava em direção àquela luz, sem saber ao certo onde meus pés tocavam.
A cada passo que dava, pude ver a grama se materializando aos meus pés e uma torre se revelando abaixo da luz rodopiante. Era um farol, listrado em branco e preto. Sua estrutura era reconhecível; o mar, o farol, sua plataforma, era tudo realmente familiar e até o homem parado na frente do portão me fazia recordar alguém que já tinha visto em algum lugar.
Quando me aproximei reconheci aos poucos aquela feição e a personalidade galanteadora. Apolo, assim como os traços que havia feito no desenho que tinha em minha casa, sorria para mim.
A luz acima do farol continuava a girar lentamente enquanto nada acontecia entre mim e meu pai. Até que sua boca se moveu e deixou as seguintes palavras saírem: “Coce a cabeça, não é o fim”.
Abri os olhos.
Mesmo que não tivesse duvida que fosse um sonho me vi surpreendido quando percebi Alice, Matheus e Camilla olhando para mim com caras de espanto. Eu não estava deitado, como a maioria das pessoas adormece, mas estava ajoelhado.
–Você está bem, cara? – perguntou Matheus.
–Porque vocês estão me olhando assim? – perguntei sem perceber que segurava algo – O que aconteceu?
–Rafa... – disse Camilla em um tom de surpresa – Olhe para baixo.
Meus olhos obedeceram e vi minha mão suja de preto, segurando um pedaço de carvão. No piso metálico encontrei o motivo que eles estavam abismados e que também me fez arregalar os olhos. Eu havia desenhado O Farol.
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