O Lado Negro Do Sol
2 Capítulo II
Notas iniciais
É aquele mesmo papo: Vestígios de Assassin's Creed: Renascença e, desta vez, tem uma pequena dose de... Loliconismo, por assim dizer. Só dizendo xD
Depois dos irmãos que terminaram a Missão com certa perfeição, estes se recolheram aos seus aposentos, que não passavam de dormitórios com oito leitos. Três beliches e dois colchões no chão, enquanto os guarda-roupas do quarto abrigavam todos seus pertences e uma porta levava até o banheiro dos cada oito residentes de seus respectivos dormitórios. Havia duas janelas consideravelmente grandes, que não davam em muita coisa, afinal, só se veria o mato do bosque além delas. Portanto, as cortinas só eram úteis quando o sol era absurdo e atravessava as árvores, invadindo com certo esplendor os cômodos consideravelmente grandes.
Todavia, Nataline não estava com um pingo de sono. Depois do jantar, a garota simplesmente foi até os dormitórios que dividia com Panthère – pessoa que chegara logo depois de cumprir a ronda lá fora -, Lynx*, Once*, De Chat*, Lionne*, Le Caracal* e Le Serval*, a com quem Pigeon menos simpatizava ali. E que, infelizmente, fora a única com quem topara, ao se aproximar de uma das camas.
– E como imaginei você deixou um homem se ferir. – Zombou ela. A menina era uma figura de rosto rechonchudo, mas ainda sim, uma infeliz bonita, com cabelos negros escorridos até a altura dos seios e olhos cor de âmbar. Seu corpo era curvilíneo e haviam algumas sardas em seu rosto, como se fossem mesmo as pintas de um serval. Estava deitada sob a parte de cima de uma dos beliches, esta que dividia com Lionne. – Até onde vai a sua incompetência, Mestra?
Nataline sabia que poderia simplesmente ignorá-la ou falar com Giuseppe e a insolência e ousadia de Serval estavam resolvidas, muito provavelmente com expulsão ou punição. Acontece que a loira não era de perder brigas e, agora substituindo as vestes de roubo por uma camisola de cetim preto, soltava os cabelos, em frente ao espelho, de forma que ainda encarasse a morena apoiada em seus próprios cotovelos, que retribuía o olhar fuzilador. Acontece que Jounett sabia ser desdenhosa e irônica. O que dava um “quê” a mais em seus confrontos.
– Até onde vai esta sua língua imunda, irmã? – Perguntou simplesmente, deixando que o coque que fora feito em seus cabelos se desmanchasse e caísse sobre camadas sedosas por sobre seus ombros. E ali paravam. Sentou-se em um dos pufes, com os olhos pregados em Serval. Grandes órbitas cinzentas que até os dias atuais nunca haviam demonstrado uma única gota de piedade ou sentimento por alguém. – Acho que você andou chupando o veneno do Capitaine Vautour* novamente. Só que nos lugares errados, como a bela meretriz que você é.
Serval entreabriu os lábios, claramente ofendida. Um sorriso sacana formou-se nos lábios de Pigeon, mas ainda assim, discreto. Não gabava-se de sua vitória, por mais que esta já fosse existente. Seu avô a ensinara ter um mínimo de dignidade com seus inimigos e adversários. A humildade era o que a sustentava, apesar do orgulho ser a principal ruína de sua alma vez ou outra.
Antes que a morena pudesse protestar contra algo, alguém bateu na porta do quarto. Pigeon moveu os olhos para o portal, proferindo algo como: “Entre”, em um tom baixinho, mas ainda assim, audível. A batida foi dada com certa pressa e isso preocupou um pouco a loira e até mesmo Serval.
– Madame Pigeon? – Chamou a voz de Lara, uma das serventes. Uma de umas mãos estava envolta num avental todo molhado, indicando claramente que a mulher estaria lavando pratos ao receber a ordem de ir chamá-la. – Monsieur Bovalier quer vê-la.
O semblante da mulher de aparência cansada, com cabelos grisalhos presos num coque para trás e de silhueta magra, ainda que resistente, parecia preocupado. Aquilo arrancou certo nervosismo de Nataline e um sorriso vitorioso nos lábios de Serval, que, como nome verdadeiro, atendia por Sophie. Ah, criatura maldita!
– Diga ao Monsieur que estou indo. – Pigeon respondeu quase de imediato, assentindo com a cabeça e se levantando rapidamente. Terminou de ajeitar os cabelos e procurou por um roupão de linho, jogando-o por cima dos ombros e o amarrando na altura da cintura. Lançou um: “vá se foder”, para Serval e passou pela porta, se perguntando o que é que M. Giuseppe, também apelidado de Lièvre* pelos mercenários particulares que o serviam, iria querer com ela no final daquele dia. Será que receberia alguma bronca por ter permitido que um de seus irmãos treinados por ela, tivesse se machucado?
Seguiu por um corredorzinho bem mal iluminado. Era estreito e levava a uma porta vermelha, que parecia ter se tornado mais distante que o normal. Por mais incrível que pudesse parecer, o corpo de Nataline foi relaxando aos poucos, conforme chegava mais perto da maçaneta. Lara tomara a frente, agora afastando a porta, murmurando algo que indicava que a menina já estava presente. Logo o cheiro de fumaça de, provavelmente, algum charuto caro, invadiu as narinas da loira. O ambiente se tornara empesteado pelo mesmo, enquanto as luzes naquela sala variavam entre as mesmas cores vistas na sala de estar. Laranja, amarelo, preto, vermelho... Tons que lembravam um dos maiores amores de Giuseppe: bordéis.
– Ah, minha querida pomba. – A voz grave, que saía por debaixo de um capuz que cobria toda a faceta do dono daquele grande e, por que não dizer exótico escritório, cumprimentou a jovem. Seu tom era animado, se bem que aos desavisados, poderia soar como algo ironicamente assustador. – Até hoje não me arrependo de tal codinome. – O homem riu nasalmente, ainda sem levantar a cabeça. Certamente o olhar que estava sendo escondido, estava baixado para a gata ruiva e gorda que ele tinha em mãos. O bichano parecia estar completamente à vontade. – Sempre tão pontual e imediata, assim como o codinome como a chamam.
– Pediu para me ver, Monsieur? – Perguntou Nataline, mantendo a postura ereta e a expressão impassível. Seus braços estavam para trás agora, mesmo que ela sentisse que o roupão poderia ser aberto, já que não fora amarrado com tanta firmeza como deveria. – No que lhe poderia ser útil?
Um minuto de silêncio se sucedeu. Era praticamente possível escutar apenas o ronronar da gata no colo do dono e o barulho do charuto sendo tragado. Tal demora acarretou num nervosismo maior partindo de Pigeon. Ela odiava esperar e realmente estava se sentindo desconfortável com todo aquele showzinho que já era natural de alguém como Bovalier.
– Me deram o relatório do roubo de hoje. – Recomeçou ele, com seu típico tom vagaroso, agora afastando o charuto dos lábios. O pousou num cinzeiro, enquanto, agora com a mão livre, parecia correr as unhas pela mesinha de madeira refinada. – Sete mil, hm? Confesso que esperava pelo menos uns dez, em visto que existiam cofres internos. Mas vocês foram bem. E quanto aos feridos... Quantos foram mesmo?
– Um. – Respondeu ela, ainda no mesmo tom. – Mas não teve nada a ver com o modo como o treinei. Ele se feriu em batalha com os do Arrebatamento. Não foi escalando ou coisa do tipo. Na verdade, ele veio pulando muito bem.
– Hm, sempre na defensiva, minha querida... Nataline. – Um meio sorriso formou-se na única parte que era visível, que não foi encoberta pelo grande capuz vermelho que o homem usava. – Admiro isso. Mas só queria que soubesse que desta vez não estou frustrado... É claro que Coyote ficará um tempo afastado, até reconquistar minha confiança nele, mas eu sei que você não tem nada a ver com isso. Sei que não. Eu sei de muita coisa, você sabe.
A loira continuou calada. E Giuseppe ergueu momentaneamente a cabeça, ainda sem mostrar mais de seu rosto. Soltou um suspiro baixo; às vezes a submissão de algumas pessoas o cansava demais.
– Eu só queria parabenizá-la pelo arrecadamento. – Disse, voltando ao assunto. – Acho que vou ter que mandar pessoas melhores para acompanhá-la da próxima vez, mas... Pode me dar sua mão por um momento, querida? – Estendeu sua própria, apenas esperando, não aceitando um “não” como resposta. Então, só coube à Pigeon obedecer. Estendeu sua palma delicada e de dedos longos, ao se aproximar da mesa do homem, sobre a madeira. Giuseppe a pegou e, ao ver o dorso que antes fora “carimbado”, voltou a sorrir. – Pigeon. – Leu o nome que, anos antes, fora colocado na pele da menina com ferro em brasa. Sim, uma notável crueldade com uma criança de seus bons sete anos de idade, mas... Havia seus apesares. – Ainda gosta deste codinome, princesse?
Automaticamente, os olhos de Nataline caíram sob seu dorso marcado. Lembrava-se do dia em que o avô estivera com ela na cerimônia de Admissão, quando ela fora parar na Guilda com apenas sete anos. Quando tinha quinze, então seu avô partiu. Mas lhe ensinou muitas coisas. Coisas estas que naqueles dias atuais, acabaram por torná-la a melhor das ladras e escaladoras entre os da Guilda de Charlatões, Mestres e Ladrões; não só deles, mas qualquer outro grupo que ousasse ter mais anos de experiência na arte do crime.
– Sim. É a minha única herança. – Foi o que a loira respondeu, sem pensar muito em qualquer outra frase. Pigeon fora o título que seu avô lhe designara, juntamente com o próprio Giuseppe. – Mas ao que devo as perguntas, Monsieur...
– Estaria pronta para trocá-lo? – A mão grande do Chefe apertou a palma delicada que havia sob a sua. O sorriso voltou a se tornar inexistente, enquanto o tom se tornava apenas... Profissional. Já passara impressões erradas para outros filhos e tinha medo que isto se repetisse, principalmente se tratando de sua preciosa Pigeon. A pessoa que jurara à Fransisco Jounett, avô dela, que iria proteger como sua própria vida. – Substituí-lo. Receber o segundo carimbo... Como seu avô recebeu?
Desta vez o semblante de Nataline não pôde ficar impassível. Assumir a responsabilidade de um segundo codinome... Não eram todos que puderam fazer! Apenas duas pessoas – e estas que Pigeon teve a chance de conhecer – conseguiram tal feito. O atual mestre de táticas, que hoje era Le Renard antigamente era Recruta Vauteour*. Só assumiu a posição que tinha nos dias atuais porque o antigo MDT*, Rogério Tissou havia traído a Guilda. Havia se aliado ao Clã Chevallier e, estes sendo inimigos dos Charlatões, Mestres e Ladrões, armaram uma emboscada que fora muito bem planejada e implantada pelo próprio Rogério, causando assim, num quase massacre à Guilda. Irmãos foram mortos e a punição de Tissou, programada. Então, quase um mês depois do acontecimento, o mesmo teve seu corpo achado pela manhã seguinte à sua execução, fincado numa estaca que ficava na praça principal de Avignon. Quanto ao codinome modificado que partira de seu avô... Bom, Nataline nunca entendera muito bem o motivo pelo qual o homem havia sido “promovido”. Apenas havia visto um “Serpent” quase que ilegível no dorso da mão do homem, assim, de repente, de uma noite para a outra numa fase da vida da garota em que ela se encontrava com seus bons treze anos.
– Monsieur... – Começou, sem saber muito bem o que dizer. Um sorriso nervoso brotou em seus lábios. Como reagir?! Bovelier não aceitava muito bem pessoas que demonstravam sentimentos. Assim que novos irmãos eram admitidos na Guilda, deixava bem claro: “qualquer coisa que vocês demonstrem, futuramente poderá ser usada contra vocês”. – Eu... Sinto-me honrada, mas, hn... Não posso, digo, eu... Eu não mereço! Pessoas que tiveram seus codinomes trocados estiveram servindo a Guilda por pelo menos bons quinze anos, meu senhor! Eu não poderia passar por eles de forma tão...
– Basta. – Lièvre disse num tom ainda mais autoritário. Agora, claramente, não havia mesmo opção de escolha. Soltou a mão do que parecia ser uma frágil Pigeon e afastou sua cadeira da mesa, deixando que o animal que tinha em mãos, escapulisse para ir parar embaixo da escrivaninha. Uma silhueta corpulenta, ainda que cheia de traços e curvas, se revelou diante dos minuciosos e cinzentos olhos de Nataline. O homem caminhou até uma lareira que ali existia e conferiu algo em cima de uma prateleira que havia sobre ela. Ao lado de um retrato de um corvo cutucando o que parecia ser o cadáver de uma vaca, sob um céu negro e sem estrelas, existiam molduras de ferro, com nomes escritos. Todos pendurados de forma que formassem pelo menos uns cinquenta nomes: todos estes, sendo dos irmãos que formavam a Guilda.
De cima para baixo, a pirâmide era formada e atualizada conforme pessoas entravam ou morriam. Abaixo, os considerados “abutres” ou “coiotes”, já que eram mandados em missões pequenas para Arrecadações ou apenas colher informações por aí. Acima deles havia os Mercenários, que eram uns cinco ao todo. Não que estes fossem mais importantes que os anteriores, mas os Irmãos estavam logo acima dos contratados para matar, em visto que a pirâmide era baseada na confiança que o Chefe tinha em seus serviçais, como costumava dizer. É claro que iniciantes e mercenários não eram tão confiantes quanto sua própria família, certo? E por fim, havia o nome de Le Renard em terceiro lugar. No primeiro deles, havia, obviamente, o de Giuseppe, como Lièvre. Já no segundo... Fransisco Jounett como Serpent. Seu nome feito naquela peça de ferro com letras mais formais que as outras.
E um sorriso escapou dos lábios da figura encapuzada, mesmo que Nataline não pudesse vê-lo. Com cuidado, recolheu a peça entre os dedos, deixando um espaço no que parecia ser uma pirâmide feita com toda a precisão de espaço e tudo o mais. Assim que sentiu o ferro gelado sobre os dedos, Giuseppe se virou calmamente para Pigeon, que o olhava com a expressão impassível recuperada.
O silêncio se estendeu e Nataline apenas se manteve ali, observando, enquanto seu Chefe pegava algo como um espeto de ferro em uma outra estante, ao lado da lareira, tirando-o do meio dos livros. Encaixou sua ponta num lugar específico da parte de trás da moldura pequena de ferro e a aproximou do fogo a crepitar. A garota Jounett não pôde evitar engolir em seco; ela conhecia muito bem aquele ritual.
– Devo lhe confessar uma coisa, minha criança. – Começou o homem, agora baixando o capuz da capa de linho que usava que cobria o cetim que ele mantinha por baixo. Suas costas pareciam ainda mais largas, agora que tinham uma simetria perfeita de linhas que davam para o pescoço do homem e levavam até uma nuca morena, cujo final de cabelos negros se encontrava. Era muito bem aparado e penteado para trás, na parte de cima. Havia alguns fios brancos, era notável, mas nada que retirasse o ar charmoso que Bovalier mantinha mesmo quando não queria. As chamas do fogo continuavam esquentando o ferro, o molde para “carimbo”, sem urgência alguma. – Como todos nós sabemos daqui dois meses você completará seus preciosos dezenove anos. Muito nova, admito, mas está conosco desde muito pequena. Então se mais de dez anos se passaram em nossa companhia, sendo neta de quem você é, tendo o sangue de quem você tem, eu acho que não há nada mais justo que receber o nome daquele que libertou a Guilda da ruína que o maldito Rogério deixou. Seu avô foi um grande homem, Nataline. E eu creio que você esteja pronta para assumir o cargo da primeira grande mulher em meio a estes charlatões, mestres, ladrões e assassinos.
A loira continuou sem saber o que dizer. Então se Giuseppe achava, tinha que cumprir, sem reclamar. Sentia-se tremendamente lisonjeada, honrada. Mas tinha medo de que todos a vissem com a mesma responsabilidade que o codinome Serpent tinha antigamente. E se isto acontecesse certamente Nataline não aguentaria; era uma escaladora, não assassina como seu avô. Que diabos de semelhança poderia ter com aquele homem então, que não fossem seus títulos?!
– A mão, Madame. – Pediu Giuseppe, gentilmente. Voltou a estender sua grandiosa palma, enquanto com a outra segurava o que parecia ser um espeto com a moldura no meio, ainda no fogo. Agora, seu rosto de frente, mostrava alguma de suas incontáveis cicatrizes; algumas espalhadas pelo queixo quadrado, outras sumindo na curva de seu pescoço... Revelava também um belíssimo par de olhos castanhos. A intensidade do tom deles fazia Nataline ficar completamente perdida, mas, assim que a voz dele soou a loira só pôde, novamente, obedecê-lo. Tentando não demonstrar medo e já sabendo dos passos que teria de seguir, como o que lhe acontecera há uns bons anos atrás, espalmou sua mão na escrivaninha dele, tomando cuidado com as coisas ao redor. Teve a cautela de manter seu punho distante do computador de última geração que havia na parte esquerda da mesa, virado completamente para a cadeira de Lièvre, o que, supostamente, fazia com que ninguém visse o que ele fazia por lá.
E então, a jovem apenas esperou. A moldura absorta em pura quentura logo entrou em contato com sua pele, como um marcador entraria em contato com a pele de uma vaca, boi ou touro. Nataline não conseguiu reprimir um gemido, que veio como consequência de um grito entrecortado que estava para sair de sua garganta. O ferro quente, com as coisas escritas, agora contra a pele sensível do dorso de sua mão, queimando, praticamente a tomando com uma dor avassaladora.
Mas Pigeon apenas procurou manter o controle, ao voltar os olhos para a face de Giuseppe. O homem deveria ter lá seus cinquenta anos? Talvez, ninguém sabia muito bem. Mas que era bonito... Isso ninguém negava.
– Boa garota. – Giuseppe finalmente lhe sorriu, afastando a moldura que aquela altura, já devia estar livre da temperatura alta. Deixou o tipo de espeto em cima da mesma prateleira perto da lareira. Ele ficaria ali esfriando. – Admiro sua coragem e obediência, minha cara...
– Serpent. – Completou ela, já sabendo o que havia sob o dorso de sua mão direita, por cima do antigo codinome que lhe fora aplicado da mesma forma. Era algo pequeno e sutil, mas belo. A carne humana machucada, na visão de Giuseppe, era uma das coisas mais belas do mundo. E a imagem, só para variar, arrancou do homem mais um sorriso. Desta vez, um tanto quanto sádico.
– Sei que vai honrá-lo. – Disse-lhe, maneando a cabeça de forma leve, enquanto erguia uma das mãos para tocar as madeixas loiras de Nataline, ajeitando uma mecha atrás da orelha esquerda da garota. Três furos de brincos se revelaram, com um transversal colocado da diagonal de sua cartilagem. Os olhos castanhos de Lièvre demoraram-se ali, contente com, finalmente, um ar de rebeldia que fora adotado por sua preciosa e o que parecia, delicada Nataline. – Seu avô comentou comigo que um dia, se possível e se você merecesse, que adquirisse o mesmo codinome dele. E agora, visivelmente, você que já possuía a delicadeza de uma pomba, se tornou mais prudente do que uma verdadeira serpente.
Pigeon – ou Serpent, tanto faz, jamais se acostumaria com o novo codinome – finalmente sorriu. Inconscientemente, inclinou um pouco mais o rosto de forma que aprofundasse o toque de Giuseppe em sua pele, fazendo os dedos dele, ou pelo menos a pele de sua mão, roçar na lateral de seu rosto.
– Merci. – Murmurou completamente perdida nos olhos do mais velho. Automaticamente levou os dedos de sua mão antes prejudicada até o pulso dele, alisando-o. De um momento para o outro, parecia que a distância entre os dois havia encurtado completamente. E quando deu por si, a que havia entre os lábios de ambos, teve o mesmo destino.
Foi um beijo calmo. Delicado, até. O coração de Nataline parecia estar explodindo, enquanto seu estômago parecia estar fora de si com todas as sensações do mundo. Não era certo, claro que não era. Mas sempre lhe disseram que o errado poderia ser mais divertido do que qualquer tipo de coisa...
Então, só para variar, o momento fora arruinado. Quando a língua de Giuseppe estava para pedir passagem entre os lábios de Pigeon, algum elemento amaldiçoado bateu na porta. Lièvre rapidamente mostrou profissionalismo, de uma hora para a outra, enquanto se distanciava da menor sem mais nem menos. Aquilo deixou uma Nataline confusa e frustrada, mas inexpressiva. Procurou arrumar sua postura e baixar os olhos para sua mão que agora trazia seu novo codinome, enquanto Bovalier caminhava com passos pesados até a porta, visivelmente irritado. A abriu e logo a figura de Le Renard se encontrava ali, apoiada no batente, com uma garrafa de destilado na mão. Um sorriso débil mostrava sua fileira de dentes, ainda que alinhados, amarelados por conta do tabaco que o homem consumia com tanta frequência.
– Lièvre! – Exclamou ele, feliz, erguendo os braços com enorme felicidade, como se abraçar Giuseppe fosse uma coisa que ele fazia depois de séculos. Que na verdade, só era feita em tempos assim, quando Aloizio Granville (Nome verdadeiro de Renard) bebia demais. Ou seja, de semana em semana. – Como é bom te – Sua fala foi interrompida assim que seu olhar recaiu sobre Pigeon, ao fundo da sala. Tentou baixar um pouco o tom para que só o Chefe escutasse, mas foi inútil. – Muito ocupado?
Giuseppe negou. Apenas suspirou e fez sinal para que o Mestre de Táticas com seus trinta e poucos anos entrasse. Renard o fez, cambaleante, como sempre. Normalmente, Bovalier não aceitaria serviçais bêbados, mas o homem não estava perto de cumprir com um serviço ou coisa do tipo. Então, este tipo de coisa o chefe deixava passar.
– Preciso ficar sozinho com Le Renard, Serpent. – Disse o Chefe, tentando melhorar seu tom de voz. Nataline demorou um pouco para processar tudo que havia acontecido, mas obedeceu, assentindo com a cabeça e murmurando um “Oui, Monsieur” antes de acenar para Renard também e passar pela porta, segurando firmemente o laço em seu roupão. Logo o portal de madeira fechou-se por cima de seu ombro e Pigeon – ou a antiga – rapidamente decidiu agir como se nada tivesse acontecido. O sono finalmente chegara e sua mão doía como o inferno.
Talvez fosse hora de usar de Serval, novamente, como um passatempo para esquecer toda e qualquer coisa que tivesse passado. Ou simplesmente, adotar o mesmo hobbie de Renard. A bebida, afinal, conseguia esclarecer muita coisa, mesmo que seu cérebro não ficasse tão esclarecido assim ao sofrer um pouco das alterações que a mesma lhe proporcionava.
Notas finais
Agora o significado dos nomes, sweeties:
Lièvre: Lebre. É o Chefe da Guilda.
Lynx: Lince.
Once: Onça.
De Chat: Gato.
Lionne: Leoa.
Le Caracal: Caracal.
Le Serval: Serval. (Maior inimizade de Nataline)
Capitaine Vautour: Capitão Abutre, um dos chefes principais dos mercenários.
MDT: Mestre de Táticas. Houveram 2, no total. Um traidor, Rogério Tissou e, atualmente, Aloizio Granville mais conhecido como Le Renard ocupa este cargo.
Serpent: Serpente. Avô de Nataline, já falecido. A garota ocupou seu codinome, este que foi um dos poucos casos de "promoção" de títulos.
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