O LIMITE

4 III (fim do preview)


5 de Março de 2008

Enzo parecia um menino completamente normal. Tinha um quê meio gordo, daqueles bem largos mesmo, embora isso não me disparasse nenhum alarme. Parecia ser daquele tipo de garoto que come de tudo; massas, rocamboles, saladas e até pedras – das metamórficas às sedimentares. Distraía-se com um lápis extremamente bem apontado, daqueles de ponta grossa, 6B ou HB. Fazia desenhos num caderno de folha parda, ao lado de uma pilha de outros lápis pretos. Parecia preso em seu mundo, perdido num outro espaço.

Parecia feliz.

Sentava na primeira cadeira da coluna do meio da sala, com a mochila verde pendurada nela. Praticamente todos os outros assentos (à exceção dos de meus dois melhores amigos e alguns colegas) eram ocupados por meninas imbecis e garotos mais ainda. Era difícil distinguir quais eram essencialmente animais e quais escaparam da reabilitação. Todos eram idiotas que faziam de tudo para esbanjar riqueza, aparência, graça, masculinidade ou qualquer outra coisa. Era a mesma turma do ano passado e do anterior a ele, o que colocava a cereja no bolo do meu ensino médio e, aparentemente, isso não iria mudar. Eu até tinha a esperança de que, devido aos Vestibulares aos quais teríamos que prestar, algo na psique retardada deles entrasse em colapso e fizesse com que eles segurassem as vontades incabíveis de fazer sexo uns com os outros em prol do estudo, mas era apenas mais um daqueles sonhos que nunca se realizariam.

Eles nunca pararam.

Esses de quem falo sentavam-se ao fundo da sala. Todas as cadeiras, a partir da mesa do professor, estavam em linha reta. A parte que desconstruía essa harmonia era do meio para o fundo, tudo da metade da sala para lá era desalinhado, uma bagunça total, uma verdadeira zona. Umas meninas deitavam-se nos colos de três ou quatro meninos e vários desses mascavam chicletes e jogavam seus respectivos produtos no chão, no cabelo de alguém ou mesmo na mesa do professor. Aquilo era um grupo social muito forte, todos sabiam disso. Esse “fundo”, como passarei a chamar, nunca me deu muito problema – jamais fiquei mais de dois minutos numa conversa com um desses babacas –, mas não posso dizer que nunca fui confrontado por algum deles para assistir ao seu jogo.

O campeonato de futebol no meu colégio é inalienadamente o evento mais badalado de lá. São torneios que acontecem mensalmente, em quatro fases (uma por semana), e que dão, aos participantes do time ganhador, um valor ‘x’ em dinheiro, dinheiro este que foi investido pelos alunos para assistir ao jogo e que é, estupidamente, gasto em galões de bebidas alcoólicas para festas. É assim hoje, foi assim há três anos atrás e não mudará amanhã pela manhã. É claro que a maioria esmagadora dos estudantes é menor de idade, mas quem liga para isso quando se tem o troféu do campeonato em mãos? Eles eram desesperados por aquilo. Eu diria que só jogavam futebol por causa daquilo. Pessoalmente, acho um absurdo sem proporções, mas lutar contra todo esse sistema é como ralar uma pedra num ralador de queijo. Você sabe que não vai funcionar e, eventualmente, um dos teus dedos vai escapar, causando um daqueles acidentes que o tio da gente conta no meio do jantar de família para que todos fiquem com pena dele.

Preferia ficar em casa estudando ou sair com Beatriz e Victor para um cinema alternativo ou a casa de um deles. Sempre tínhamos três opções; a cobertura de Victor (e a consequente e obrigatória ida ao seu telhado para comer doces), a casa de Beatriz (normalmente quando só o seu pai estava em casa, já que ele era o único que permitia que nossos discos de música instrumental tocassem a noite inteira no maior volume) e a minha casa, onde honestamente nunca vi atrativo, mesmo que Beatriz e Victor sempre pedissem para passar as tardes lá. Era muito melhor do que as festas regadas a bebida para as quais os vencedores do campeonato iam.

Sempre foi muito melhor.

Entre rabiscos, Enzo brincava.

Notas finais
Este é o último capítulo que decidi publicar no Nyah, excetuando os que já estão mais para o final. Servirá como um seak peak do que é a história de Enzo, afinal, não acho que poderei continuar com a história aqui, publicada de forma completa, depois de registrá-la. A ideia é publicar este escrito. A ideia é esta.