5 de Novembro de 2008

Meu nome é Carlos Eduardo, tenho dezoito anos e curso o terceiro ano do ensino médio (ou deveria dizer ‘cursava’?). Baixo, caucasiano, olhos escuros como os cabelos desgrenhados. Óculos, raquitismo e olheiras. Estudo (ou ‘estudava’?) num colégio público cujo nome talvez não possa ser aqui escrito por motivos de difamação. O peso da culpa também vem disso. A simples possibilidade de que alguém no mundo leia estas minhas palavras já acarreta na má-fama instantânea do colégio enquanto complexo de ensino, uma vez que o ocorrido que venho aqui relatar e dissecar seja talvez o pior registrado na história do lugar.

Sobre o lugar, é um colégio imenso. Ocupa o espaço de um quarteirão inteiro. Tente imaginar o maior de que tiver lembrança. Abre-se ao visitante com portões largos e tem, logo de cara, um pátio enorme e circular que suporta a maior parte de seus alunos. Duas escadas em curva convergem para o mesmo ponto, a entrada oficial do colégio, que dá para os amplos corredores de janelas largas com aquele ar gótico do qual tanto gosto. Paredes beges, corrimãos para todos os caminhos e corredores para as mais diversas salas de aula.

As salas são brancas, comportam até trinta pessoas confortavelmente e têm ares-condicionados, para que, afinal, não derretamos no calor infernal do verão brasileiro. Há, além das salas, a biblioteca, no nosso andar, o refeitório, no andar de baixo, e quadras de futebol numa área atrás do pátio circular. Ao todo são três andares de colégio organizados assim;

Térreo é o pátio, as quadras de futebol na parte de trás, o ginásio nas proximidades (para o campeonato mensal de futebol) e o refeitório;

Primeiro andar são as salas, a biblioteca, banheiros e a direção do colégio, centralizada no corredor de entrada;

Segundo andar são mais salas de aula e o alojamento dos zeladores.

O refeitório é um lugar igualmente gigantesco. Muitas mesas e cadeiras coloridas por lá. Há um balcão gigante em uma das paredes e os doces e salgados são vendidos ali. As comidas de verdade, pratos cheios de macarrão com salsicha ou panquecas de carne moída, são todas distribuídas pelos cozinheiros, na segunda ala do grande balcão. Temos, então, um grande balcão dividido em dois; a ala das porcarias e a ala das comidas especialmente gostosas. Há também uma “terceira” ala, no meio das duas, para biscoitos de maisena deliciosos.

Tem o ginásio e as quadras. Não costumo jogar futebol, sou desse tipo de jovens “das artes”, entende? As quadras nunca me apeteceram. Óbvio que já fui por lá, já assisti a alguns jogos com meus amigos e tudo mais, tanto nas quadras menores quanto no grande ginásio, mas, para ser sincero, é raro me ver passando por ali. Nas quadras acontecem os treinos e pequenas partidas de futebol. Não se joga basquete ou vôlei na minha escola, a única coisa que entretêm todos os meninos é o futebol. Uma paixão insaciável pelo esporte, eu diria. Nunca fui e nunca tentei ser um jogador e é provavelmente por isso que minha altura não passa de um metro e sessenta aos dezoito anos. Ao que tudo indica, pararei por aí.

Bom, pátio central, refeitório, quadras e ginásio. Não sei se disse, mas meu colégio dá aula aos sábados. Acredite se quiser.

Sempre tive boas notas. Fui inabaladamente aquele aluno que tira entre oito e nove, nunca passando, e às vezes caindo para um sete e meio na média de vez em quando. Jamais perdi boas memórias na minha vida por causa dos estudos, que fique claro. Cultivei amizades verdadeiras e venho criando laços cada dia mais fortes com os dois amigos que fiz ainda na sétima série do ensino fundamental, e que permanecem até hoje como os dois melhores da minha vida. Seus nomes são Beatriz e Victor.

Fui dedicado até hoje ao estudo e a eles, uma vez que o ensino médio de que falo ainda está, mesmo que teoricamente, em curso. Estamos em novembro de 2008 e é aqui que a história retrocederá até oito meses antes de hoje, exatamente neste mesmo dia, cinco. Hoje é dia cinco de novembro, um dia muito especial, especialmente pelo que aconteceu hoje à tarde e talvez porque, apesar do meu extremo cansaço, eu ainda tenha forças para escrever esta história. É hoje que começo a detalhá-la, analisá-la, é hoje que dou início à minha narrativa tão ao mesmo tempo minuciosamente descritiva e grotescamente repugnante. Não tenho certeza se me arrependerei por escrevê-la, além de já me arrepender por tê-la vivenciado; para todos os efeitos isto aqui não passará de um livro de lugar-comum, um diário; um registro individual do que aconteceu e a minha forma pessoal de analisá-lo.

Às vezes eu queria nunca ter conhecido Enzo.