O Líder Da Máfia
25 Olá escuridão, minha velha amiga
Notas iniciais
Acordei no escuro.
Não era nenhuma novidade, já que eu tinha acordado no escuro nos últimos... bom, não sabia quantos dias. Podiam ser semanas ou meses. Eu havia perdido a noção do tempo naquela cela fria e minúscula, com o piso de pedra dura servindo de cama. Meus captores podiam me manter acordada ou dormindo com a ajuda de uma droga que tornava impossível medir a passagem do tempo. Durante um período, tive certeza de que a droga estava na comida ou na água, por isso entrei em greve de fome. Não adiantou, e a única coisa que consegui foi ser alimentada à força — uma experiência que nunca, nunca mesmo, gostaria de repetir. Finalmente entendi que a droga vinha através do sistema de ventilação e, ao contrário da comida, não dava para entrar em greve de ar.
— Você pensou sobre nos dizer onde ele está, Darella ?
A voz feminina computadorizada e metálica ressoou pela cela pequena, parecendo vir de todas as direções ao mesmo tempo. Sentei, puxando a camisola áspera até o joelho. Era mais por força do hábito do que qualquer outra coisa. Além de não ter manga, ela era tão fina que não esquentava nada. Só me dava uma sensação psicológica de decência.
— Eu dormi — respondi, contendo um bocejo. — Não tive tempo para pensar. — a droga no ar me mantinha sonolenta o tempo todo, mas eles também mandava alguma espécie de estimulante que garantia que eu ficasse acordada quando queriam, por mais exausta que estivesse. O resultado era que eu nunca me sentia descansada de verdade, o que parecia exatamente o objetivo deles.
— Você não precisa dormir para saber onde ele está — continuou a voz. — Diga-nos, Darella, onde está Alecssander ?
— Mesmo que eu soubesse, não diria a vocês. — me arrastei para trás até encostar na parede áspera.
— Você não quer sair daqui, Darella ? Não quer uma cama confortável, roupas decentes, ou uma comida melhor ? — propôs — Não quer voltar à sua vida normal, sem todos esses problemas da máfia que ele te causou ?
Fiquei em silêncio. Voltar à minha vida antes de Alecssander ? Não. Eu não queria isso pelo simples fato de que minha vida não tem sentido sem ele. E não digo isso só porque o amo — sim, amo, e fico feliz em admitir isso para mim mesma sem hesitação alguma -, digo isso por que antes dele, minha vida se resumia à estudar e encher meu sangue com cafeína; sem amigos, sem ninguém. Isso não era viver.
Graças a ele, conheci Rosalya, que se tornou minha melhor amiga em pouquíssimo tempo com seu jeito maluco que me trás alegria em qualquer momento. Me deixei aproximar de Rose, Christine e Oliver, que antes eu considerava meros conhecidos e agora não me imagino sem cada um deles. Mas, principalmente, me permiti amar mais uma vez.
Eu não largaria tudo isso apenas para ter meu conforto de volta.
— Não, obrigada. — eu disse. — Estou me acostumando com esse lugar. Seria uma pena sair daqui agora.
Além disso, eu sabia que eles não me libertariam de verdade até encontrar Alecssander. No máximo, ficaria presa em outra sala com um pouco mais de conforto.
Ainda assim, não conseguia deixar de pensar que se, de alguma forma, eu conseguisse entrar em contato com Alecssander, algo mudaria. Eu me sentiria melhor em saber se, pelo menos, ele estava bem ou se os captores já sabiam onde ele estava e queriam apenas que eu confirmasse. Será que eu suportaria ? Será que conseguiria manter a mente intacta, sem me render aos caprichos que eles estão propondo ?
Essas e outras perguntas foram deixadas para trás quando um cansaço profundo me atingiu. A essa altura, já sabia que não dava para resistir e deitei no chão, permitindo que um sono profundo e sem sonhos caísse sobre mim. Mas, antes que a droga me derrubasse, respondi as perguntas de mais cedo. Sim, eu suportaria. Eu aguentaria porque sabia que Alecssander viria me buscar. Eu desejava profundamente que ele viesse e então, eu confessaria o que sinto. Fiquei determinada a isso por que só estando nesse lugar terrível percebi o quanto sinto falta dele. Do seu perfume; da sua voz.
Portanto, Alecssander vai vir. Ele precisa vir.
[...]
Um tempo indefinido depois, acordei e encontrei comida na cela. Era o mingau de sempre, algum tipo de cereal quente de caixinha que devia ser fortificado com vitaminas e minerais para, na medida do possível, me manter saudável. Mas chamar aquilo de "cereal quente" era generosidade. "Morno" seria mais adequado. Eles o deixam o mais insosso possível. Com ou sem gosto, comi automaticamente, sabendo que precisava manter as forças para quando saísse daquele lugar.
Se é que um dia vou sair daqui.
Esse pensamento traiçoeiro surgiu antes que eu pudesse impedir. Era um medo que vinha me assombrando, a possibilidade de me manterem ali para sempre e nunca me encontrarem. De eu nunca mais ver as pessoas que amava — Alecssander, Rosalya, ninguém. De nunca mais poder tomar café. De nunca mais ler um livro. Este último pensamento me atingiu com força porque, naquele dia, por mais que meus devaneios com Alecssander me ajudassem a esquecer por um momento onde estava, eu daria tudo por algo tão mundano quanto um romance barato para ler. Aceitaria até uma revista ou um panfleto. Qualquer coisa que não fosse a escuridão e aquela voz.
Seja forte, repeti para mim mesma. Seja forte por você. Seja forte por Alecssander. Ele faria o mesmo, não faria ?
Sim, faria. Onde quer que estivesse, ainda em Nova York ou em qualquer outro lugar do mundo, eu sabia que Alecssander nunca desistiria de mim, e eu precisava estar à altura. Tinha que estar pronta para quando estivéssemos juntos novamente. Tinha que estar pronta para nosso reencontro.
Terminei a refeição miserável e fui me lavar na pequena pia do canto da cela, tateando o caminho na escuridão até chegar ao lado do pequeno vaso sanitário. Um banho ou ducha de verdade estava fora de questão (embora eles já tivessem oferecido isso como recompensa caso eu falasse onde está Alecssander) e eu precisava me limpar diariamente (ou o que eu achava que era diariamente) com uma toalha de rosto e água fria com cheiro de ferrugem. Era humilhante saber que eles estavam observando com suas câmeras de visão noturna, mas ainda era mais digno do que ficar suja. Eu não daria essa satisfação a eles.
Quando estava limpa o suficiente, voltei a me encolher na parede, batendo os dentes enquanto a pele molhada tremia sob o ar frio. Será que algum dia me sentiria aquecida de novo ?
— E então, Darella ? Mudou de ideia ? — a voz falou de repente.
Permaneci em silêncio. Abracei as pernas e apoiei a cabeça nos joelhos, tentando imaginar um pouco de privacidade.
Me peguei perdida em pensamentos, lembrando de quando fui sequestrada pela máfia. Eu fazia papel de durona, mas estava com muito medo. Pensei em quando Rosalya me arrastou pelas lojas do shopping, lembro-me de ter ficado entediada, e ele nos seguiu com um disfarce ridículo. Se soubesse que sentiria tanta falta disso, desses pequenos detalhes, teria aproveitado mais.
De repente, senti uma dor aguda no braço esquerdo, e quando levei a mão até ele, retirei uma seringa e um líquido escorreu pelo meu braço. Entendi que boa parte estava dentro do meu corpo, mas tirei a seringa a tempo. Mas, afinal, o que é esse líquido ? Algum novo tipo de estimulante ?
A resposta veio em seguida quando comecei a ficar sonolenta novamente, e logo, fui dominada pelo cansaço e me deixei levar pelo efeito da droga.
[...]
Acordei vagarosamente com uma estranha sensação de dor e incômodo, até notar algo saindo e entrando repetidas vezes pelo meu corpo. Eu ainda estava sonolenta demais para captar exatamente o que estava acontecendo, mas entendi perfeitamente quando senti duas mãos masculinas segurando minha cintura e me puxando para frente, para dar mais impulso.
Então era esse meu destino ? Depois de anos tentando fugir de Thomas, eu seria estuprada de novo ?
Agora entendi o efeito da droga. Era para me manter dopada enquanto esse homem me usava, mas como tirei a seringa, o efeito durou menos do que ele esperava. Permaneci em silêncio, com medo de fazer algo e ele me castigar. Felizmente, não demorou muito para que ele parasse com os movimentos e eu ouvisse o som dele fechando o cinto da calça e saísse por uma fresta de luz na parede, o que me permitiu ver claramente seu rosto. Eu não o conhecia; era loiro de olhos verdes e pele bronzeada, além de ter um sorriso diabólico nos lábios.
Quando voltei para minha familiar escuridão, virei de frente para a parede e fechei os olhos com força, sentindo lágrimas quentes escorrerem por minhas bochechas. A última vez que chorei desse jeito foi quando dormia todas as noites chorando devido aos estupros constantes de Thomas. Ao pensar em seu nome, chorei ainda mais quando me lembrei que neste lugar não poderia tomar meus antipsicóticos e logo, além da voz feminina, sua voz masculina melancólica voltaria a me assombrar. E eu não podia fazer nada quanto a isso.
Por isso, abracei meus joelhos e continuei chorando baixinho, desejando do fundo do meu coração que Alecssander viesse logo. Eu prometi que seria forte, por ele e por mim. Mas não sei se aguentaria por muito tempo nessa situação.
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