O Líder Da Máfia
16 Jantar "Romântico"
Notas iniciais
— Alecssander... — murmurei, admirando o lugar.
— Eu sei. — ele disse sorrindo, convencido de que tinha feito uma boa escolha.
Nós fomos de carro até o outro lado da ilha, onde havia um belíssimo luau sendo realizado na areia da praia com o tema Havaí. Em uma parte, havia várias mesas de dois lugares com garçons circulando entre elas e servindo os casais que as ocupavam. Do outro lado havia uma tenda branca onde tocava vários estilos musicais e a pessoas dançavam animadas na pista de dança. Atrás e do lado dessa tenda havia várias barracas vendendo bebidas alcoólicas, doces e jóias artesanais. O lugar todo estava sendo decorado com tochas acesas fincadas no chão e velas em cima das mesas e espelhadas pela areia. A lua cheia brilhava bem acima de nós e a brisa do mar refrescava.
— Senhor Fairchild, é uma honra tê-lo conosco essa noite. — disse um homem de bermuda florida, sem camisa e usando um colar de flores. Ele parecia o gerente — Por favor, me acompanhem.
Seguimos o homem até uma mesa mais afastada das outras e assim que sentamos, uma garçonete que usava uma saia de palha, a parte de cima do biquíni de concha e um colar de flores no pescoço veio nos dar os cardápios e colares iguais os deles. As minhas flores eram brancas com folhas verdes e as de Alecssander eram amarelas com folhas verdes também.
— Sr. e Sra. Fairchild, o que gostariam de comer e beber esta noite ? — ela perguntou pegando um bloco de papel e uma caneta. — Hoje estamos com promoção para as comidas havaianas.
— Ótimo. Eu vou querer o Lobster Mea Ulu e para beber a Pina Colada. — ele disse para a garçonete. — E você ?
— O-O mesmo... — murmurei. Eu não fazia ideia o que ele tinha pedido e não entendia o que estava escrito no cardápio. Só espero que não seja nada nojento.
— Salemona Me Ka Laiki e Pina Colada — ele disse para a garçonete que assentiu e saiu em seguida.
Minutos depois ela trouxe duas taças de uma bebida meio amarelada com um guarda-chuva fincado numa rodela de abacaxi na beira do copo. Experimentei a bebida e gostei; era uma mistura de abacaxi, côco, leite condensado e alguma bebida alcoólica que eu suponho que seja vodca.
Alecssander pigarreou.
— Então... Você gosta de caracóis ? Bom, claro que gosta, foi o que pedimos afinal...
Quase cuspi toda a bebida que estava em minha boca.
— C-Caracóis ?
— Sim... O que você acha que pediu pra comer ?
Senti meu estômago embrulhar e eu já estava prestes a chamar a garçonete para mudar o pedido quando Alecssander riu.
— Estou apenas brincando com você. — ele ainda ria — Pedi lagosta com ervas finas para mim e salmão com arroz para você. Espero que goste de salmão.
— Com certeza deve ser melhor do que caracol. — falei e ele riu de novo.
O resto do jantar correu tudo bem. A comida estava ótima e não há nada que eu tenha que reclamar. Quando o garçom entregou a conta, o gerente de mais cedo veio até a mesa e disse que tudo era por conta da casa, simples assim.
Alecssander levantou-se e estendeu a mão em minha direção.
— Vamos dançar ? — ele sorriu apontando para a pista de dança com a cabeça.
Neguei com a cabeça.
— Não sei dançar.
— Eu sei que você sabe. Você estava ótima naquele baile da sua faculdade. — ele revirou os olhos — Por favor ?
Suspirei. Eu odiava o fato de que desde que comecei a gostar dele, sou facilmente convencida.
— Tudo bem... — falei pegando sua mão.
Ele nos conduziu até a pista de dança. Na entrada, duas garçonetes nos viraram de costas um para o outro e me deram mais dois pares de flores; as minhas, brancas que combinavam com o colar. Eram duas pulseiras para ambos os pulsos e duas tornozeleiras para ambos os calcanhares. E por fim, colocaram uma coroa de flores brancas em minha cabeça. Virei novamente de frente para Alecssander e ele estava igual mim, só que sem a coroa. Ele segurou minha mão novamente e continuamos andando até o meio da pista.
— Você está linda. — ele disse e depois sorriu.
Não respondi, pois minhas bochechas vermelhas já me denunciaram, então apenas sorri sem mostrar os dentes e desviei no olhar. Darella, sua fraca.
Uma mulher vestida de havaiana veio ao meu lado dançando do jeito típico do Havaí fazendo gestos com os braços e mexendo a cintura. Ela sorria e me incentivava a dançar igual, e não vou negar, tentei copia-la. Ela alargou o sorriso em um determinado momento e eu supus que estava dançando certo.
Quando ela saiu, olhei para Alecssander sem parar de dançar e vi ele me encarando com um sorriso de canto. Seus olhos estavam vidrados em mim e eu fui obrigada a desviar o olhar de vergonha.
Depois de um tempo, Alecssander começou a dançar de uma forma bem desajeitada e eu não pude evitar de cair na gargalhada.
Em um certo momento, me empolguei na dança e perdi Alecssander de vista, o que me obrigou a ficar zanzando pela pista para procura-lo. Quando estava prestes a sair de lá, ele surgiu em minha frente com as mãos atrás do corpo.
— Onde você estava ? — perguntei.
— Fui comprar uma coisa. Feche os olhos.
Arqueei uma sobrancelha.
— Vamos, feche os olhos. — ele disse impaciente.
Obedeci. Senti ele pegar meu braço e puxar em sua direção e depois amarrar algo em meu pulso.
— Tudo bem.... Pode abrir. — ele disse.
Assim que abri os olhos, vi que ele havia colocado no meu pulso uma pulseira artesanal com pingentes de bolinhas azuis, estrelas do mar, conchas, e... Caracóis.
— Caracóis ? Sério ? — eu disse fazendo uma expressão brava, porém, estava feliz.
Ele riu.
— Uma pequena lembrança para que você não esqueça essa viajem. — ele fez uma pausa — Gostou ?
Sorri, finalmente chegando à uma conclusão. É difícil assumir esses sentimentos, principalmente porque prometi a mim mesma que jamais me apaixonaria de novo, e tenho certeza que o que sinto por Alecssander não é amor, mas definitivamente não é só atração física. Então o melhor é assumir de uma vez o que sinto por esse idiota, do que acreditar que é impossível eu não me apaixonar por ninguém.
— Eu adorei.
E a noite se seguiu desse jeito. Ficamos até de madrugada dançando até cansar e decidir voltar.
Já na casa, falamos boa noite um para o outro e cada um foi para seu devido quarto. Retirei as flores e a roupa e procurei por meu vestido novamente, já que meu pijama estava na mala que Rosalya escondeu. Mas acabei encontrando embaixo do meu travesseiro uma lingerie preta super sensual e um pequeno bilhete, cuja caligrafia eu reconheci.
" Use essa lingerie essa noite no quarto com Alecssander. Não fique com vergonha, a alguns anos ele me disse que gostava de loiras de lingerie preta, espero que seu gosto não tenha mudado.
Enfim, a lingerie é apenas uma provocação. De qualquer forma, tenho certeza que o próprio Alecssander vai querer tirar essa lingerie do seu corpo quando te ver usando ela, mas não deixe ele se aproveitar muito de você, seja difícil. Lembre-se do que eu disse: "quando a oportunidade aparecer, agarre-a !" ( o.k, eu não disse exatamente isso, mas foi quase).
Beijos, boa sorte.
Rosa"
Atirei a lingerie para o outro lado do quarto e xinguei Rosalya mentalmente por pensar que eu e Alecsssander faríamos... Aquilo.
Me joguei na cama e fechei os olhos na tentativa de dormir. Fiquei revirando na cama durante uns quinze minutos e nada de sono. Já passava das quatro da manhã quando decidi levantar. Peguei minha camisa branca e joguei por cima do vestido, sem abotoar os botões, depois prendi o cabelo num coque frouxo.
Fiquei andando pela casa até chegar a porta que levava a um deck de madeira com sofá e uma mesa de vidro no centro, e mais abaixo havia uma escada que levava a outro deck de madeira sem cercado com duas poltronas com luminárias a sua volta.
Me sentei no chão do deck de baixo e coloquei meus pés na água, observando a lua e o mar em minha frente.
Fiquei balançando os pés de forma distraída dentro da água até sentir uma presença atrás de mim, e ao me virar, me deparei com Alecssander descendo as escadas do segundo deck.
— Também não consegue dormir ? — ele perguntou.
Neguei com a cabeça.
Ele se sentou ao meu lado e também colocou os pés na água.
Ficamos em silêncio. Quando o olhei, notei algo que nunca tinha reparado antes: um tatuagem em seu antebraço direito. Era uma cruz medieval com vários "X" a rodeando, alguns pareciam mais desgastados e outros mais recentes.
— Posso perguntar uma coisa ? — murmurei.
Ele assentiu.
— O que significa sua tatuagem no braço ? — apontei com a cabeça.
Ele assumiu uma expressão sombria e encarou o mar a sua frente.
— Cada "X" representa uma pessoa que já matei. — ele sussurrou tão baixo que se não estivéssemos lado a lado, eu não teria ouvido.
Ficamos em silêncio. Eu estava receosa em fazer mais perguntas sobre o assunto; não queria força-lo a falar o que não queria.
— Pode... Pode me dizer quem foi a primeira ? — perguntei.
— Você está bem curiosa, não acha ?
Fiquei em silêncio, pensando numa resposta.
— Se me responder isso, você tem direito a uma pergunta sobre qualquer coisa em relação a mim.
— Qualquer coisa ? — ele perguntou.
— Qualquer coisa.
Ele colocou o dedo sobre um "X" bem desgastado.
— Meu pai foi a primeira pessoa. — sussurrou.
Arregalei os olhos.
— Mas... Mas sua família não tinha sido assassinada ? — perguntei e ele me encarou — Rosalya me contou.
Ele soltou uma risada baixa.
— Claro que ela contou. Mas isso foi o que saiu na mídia. A verdade é que na época, o contrabando ilegal de drogas e bebidas estava no auge e meu pai começou a usar os produtos. Naquela época eu era novo, dezessete ou dezoito anos se não me engano. Então, no dia vinte de abril de mil novecentos e noventa e sete, meu pai estava drogado e caindo de bêbado, ele sacou sua arma e deu um tiro na cabeça da minha mãe, bem na minha frente. Nós brigamos e eu consegui arrancar a arma de suas mãos. A mesma estava destravada e quando eu a peguei, apertei o gatilho sem querer e a bala acertou o peito dele. Aquela foi a primeira vez que usei uma arma de verdade. A primeira vez que matei alguém. — ele sussurrou a última frase.
Ficamos em um silêncio melancólico até eu limpar a garganta.
— Sua vez.
Ele pensou um pouco antes de falar.
— Quem é a voz que te atormenta nos delírios esquizofrênicos ?
Instantaneamente me arrependi por ter sido tão curiosa e perguntado sobre a vida dele, agora eu tinha que pagar o preço.
— Thomas. — respondi, sem dar detalhes.
— E quem é Thomas ?
— O acordo não era uma pergunta ?
— Você não fez só uma. — ele cruzou os braços com uma expressão vitoriosa e eu suspirei.
— Touché. — falei, pensando em por onde começar a contar a história — Há alguns anos, conheci um garoto chamado Thomas numa lanchonete perto da faculdade. Bom, naquela época eu ainda estava terminando o ensino médio, e o conheci quando eu não tive dinheiro suficiente para pagar meu lanche e ele gentilmente pagou. Depois disso, começamos a conversar e sair mais juntos, até que nos apaixonados e começamos a namorar. Ele era bem mais velho do que eu, mas eu não me importava. Estava cega demais para perceber a pessoa que ele realmente era. — fiz uma pausa, buscando as palavras — Ele era alcoólatra e um dia quando estava completamente bêbado, foi até minha casa, arrancou minhas roupa e fizemos... Hum... Você sabe. Eu não tinha percebido que ele estava bêbado então apenas me deixei levar pelo momento. Mas isso se seguiu por quase todos os dias, e quando tentei questiona-lo, ele me deu um tapa na cara. Novamente, deixei passar e ele gostou. Gostou de me bater e ver que eu não revidava. Ele era sádico e masoquista, mas eu não ligava. Até que eu cansei disso e quando tentei terminar, ele ameaçou me matar. E por alguns meses aguentei esse tipo de relacionamento até que ouve um dia em que peguei uma faca na cozinha e a guardei no bolso. Ele iria abusar de mim mais uma vez, mas quando foi pegar camisinha, eu corri até a porta da sala para fugir, mas estava trancada. Depois disso foi tudo muito rápido: ele apareceu atrás de mim, eu apunhalei a faca em seu abdômen e ele morreu em meus braços me chamando de assassina. — suspirei — Um ano depois, fui diagnosticada com esquizofrenia sendo que a voz que me obriga a me cortar e a fazer coisas que não quero, é a dele. E é isso.
Ele ficou em silêncio, provavelmente absorvendo tudo que eu acabei de falar.
— E por que não o denunciou para a polícia ? — perguntou.
— Eu estava cega. Cega de amor. Achava que não tinha problema ele fazer aquelas coisas porque ele me amava — dei uma risada sarcástica — Depois desse dia eu jurei a mim mesma que nunca mais me apaixonaria novamente, e bom, funcionou nos últimos anos.
— E você não se apaixonou por ninguém até hoje ? — ele perguntou. — Talvez apaixonar seja uma palavra muito forte... Mas não gostou de ninguém ?
Encarei seus olhos. Sentia meu coração a mil. Eu não poderia dizer isso a ele. Não hoje, não agora.
— Não.
Ficamos em um silêncio tenso.
— Então quer dizer que sua família na verdade não foi assassina, mas sim se mataram entre si ? — franzi o cenho.
— Então quer dizer que você matou o seu ex namorado e ele literalmente voltou para te assombrar ?
Concordamos com a cabeça e segundos depois, caímos na gargalhada.
— Que bosta de vida — ele disse.
Ficamos em silêncio novamente. Então ele se levantou, tirou a camisa — o que me deu uma ótima vista de baixo para cima do seu corpo definido — e me encarou.
— O-O que... está fazendo ?! — gaguejei. Era impossível falar coisa com coisa quando seu corpo está mais visível do que seu rosto.
— Acho que devemos esfriar a cabeça e nos livrar desses pensamentos melancólicos — disse — Estamos num lugar bonito demais para trazer nosso passado até aqui.
E então ele simplesmente pulou no mar a nossa frente.
— Você não vem ? — perguntou com um sorriso que exibia suas covinhas, passando a mão pelos cabelos molhados em seguida.
Neguei com a cabeça.
— Eu vou me afogar de novo. — murmurei.
— Não vai. Eu te seguro. Vem logo ! — ele sorriu. Continuei parada — As vezes precisamos viver um pouco de adrenalina para nos sentirmos vivos de verdade. Então pula, Darella !
Fiquei receosa. Ficaria tudo bem se Alecssander me segurasse... Mas e se ele não segurasse e eu me afogasse de novo...?
Espantei esses pensamentos e fiquei de pé, retirando a camisa. Alecssander sorriu.
Respirei fundo.
— É melhor você não deixar eu me afogar hein ?! — falei em um tom mais alto para que ele pudesse ouvir.
Ele deu um sorriso de canto.
— Eu nunca deixaria isso acontecer. Não de novo.
Quando me senti confiante, me joguei no mar. Não demorou nem quinze segundos e eu já senti os braços de Alecssander me segurando e me levantando até a superfície; estávamos abraçados na mesma posição do afogamento de mais cedo.
— Seu idiota — murmurei — Por que me fez pular no mar se a água está gelada pra caralho ?!
Ele riu.
— Você está exagerando.
Ficamos em silêncio.
— Se me dissessem que um dia eu estaria numa ilha sozinha abraçada ao líder da máfia no meio do oceano eu certamente não acreditaria. — quebrei o silêncio.
Ele riu.
— E provavelmente gritaria dizendo que me odeia e que isso seria impossível de acontecer.
Agora foi a minha vez de rir.
— Tem razão. Mas agora as coisas mudaram né ?!
Ele ficou com uma expressão séria.
— Isso quer dizer... Que você não me odeia mais ?
Fiquei em silêncio, com o cenho franzido, pensando sobre sua pergunta. Eu certamente não o odiava, mas deveria falar a ele ?
Encarei seus olhos. A proximidade de nossos rostos fazia meu coração palpitar.
— Não... — sussurrei.
Ele aproximou seu rosto ainda mais do meu e eu inevitavelmente fiquei olhando para sua boca, e ele fez o mesmo. A medida que nossas bocas se aproximavam, eu sentia meu coração acelerar mais e mais.
— O-O que pensa que está fazendo seu idiota ? — gaguejei. Ele não respondeu e continuou a se aproximar lentamente.
Então, por um pequeno descuido, Alecssander afrouxou os braços em minha cintura e bem... Eu afundei.
Ele me ajudou a voltar a superfície e então decidimos que era melhor voltar ao deck.
Andei rapidamente para dentro da casa, mas parei na porta de vidro que levava ao deck e olhei para trás, onde Alecssander estava parado com um olhar pensativo.
— B-Boa noite — murmurei e não esperei sua resposta, fui correndo até o quarto de hóspedes.
Peguei uma toalha qualquer e corri até o banheiro do corredor onde tranquei a porta, retirei as roupas molhadas e entrei de baixo do chuveiro, deixando a água morna cair sobre meu corpo.
Eu quis beijar Alecssander naquele momento, e assumir isso é estranho até mesmo para mim, mas algo me perturba...
Ele também queria me beijar ou só se deixou levar pelo momento ?
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