O Jogo dos Deuses: A Casa da Esperança
7 Ana: Encontro com a Noite
Jane parecia não querer conversar. O lugar ao qual íamos parecia ter algo relacionado ao seu passado, talvez até mesmo a sua família.
– O que tem depois da estrada da noite? Aconteceu alguma coisa em alguma noite pra ter esse nome? – perguntou Emilly.
O sol começava a se por atrás de nós.
– A estrada da Noite tem esse nome porque leva ao palácio da Noite. – respondeu Jane.
– Você quer dizer que estamos indo encontrar a Noite em pessoa? – perguntou Kayanne.
– Isso mesmo.
Eu realmente não fazia ideia de quem era a Noite, mas eu tinha certeza de que iria descobrir.
À frente a estrada de terra terminava e começava outra já asfaltada. O asfalto era tão negro que parecia que eu estava flutuando em meio ao abismo.
O céu escurecera rápido, mas não havia sequer uma estrela, o que era estranho.
Passamos por enormes portões de ferro que pareciam colocar limite a um terreno no qual acabávamos de entrar.
Um enorme palácio se estendia a nossa frente, era impossível saber a sua altura, pois o palácio se perdia em meio à escuridão. Mal víamos uma à outra.
Acendi uma pequena chama na minha mão direita para que pudéssemos ver alguma coisa, mas de alguma forma a escuridão era mais densa e poderosa do que a luz naquele lugar.
– Ela está chegando. – disse Jane.
Aparentemente Jane conseguia ver tudo ao seu redor, o que tornava as coisas muito mais estranhas. Pelo menos pra mim.
O vento cantava em nossos ouvidos dando a entender de que o lugar estava isolado. Se houvesse um ataque estaríamos em completa desvantagem, mesmo sendo sete contra um.
Passos começou a ecoar em nossa direção. Caminhava lentamente. Um segundo para cada passo.
A escuridão estava clareando em volta da pessoa que caminhava ao nosso encontro. Sua pele era branca e seus cabelos eram de cor roxa. Ela usava um vestido preto que se misturava a escuridão. A deusa da noite nos fitava.
Jane ajoelhou-se como se ela fosse uma rainha ou algo do tipo. Nós seis a acompanhamos com o mesmo movimento.
– Levantem-se – disse a deusa.
Ao levantar pude ver seu rosto com mais clareza apesar da escuridão. A Noite tinha olhos de cor lilás e usava um batom vermelho que destacava o contorno de seus lábios no rosto branco.
– Ha quanto tempo não nos vemos minha netinha.
Jane era neta da Noite e filha do Fogo, o que me deixou curiosa para saber quem era a mãe.
– Ando meio ocupada. Preciso encontrar meu pai. – respondeu Jane.
– Sim, entendo. Huracán precisa de ajuda para despertar...
– Despertar? Como assim despertar? – questionei.
– Tarde não te contou da profecia de Huracán? Bem, em todo caso, vocês irão descobrir cedo ou tarde. – respondeu a Noite.
– Quem é Tarde? – perguntou Larissa.
– Eu sou Tarde. – disse Jane – Sou a deusa da tarde, filha da deusa do dia.
– Aliás, sua mãe mandou-lhe um oi. – disse Nix.
Jane ficou de boca aberta.
– Você viu a minha mãe?
– Bobinha, ela esteve aqui por muito tempo, até a profecia de seu pai chegar e ela sair correndo atrás dele.
Séculos se passaram, talvez até milênios e a mãe de Jane estivera ali por todo o tempo. Vimos à expressão no rosto de Jane, ela parecia abalada com a notícia.
– Hemera cismou de que as trevas iriam destruir a tal Casa da Esperança. Então ela foi pra lá. – disse Nix, como se nem ela acreditasse no que acontecera.
– A mãe antiga a casa ilumina. – murmurou Kayanne – Héstia estava certa quanto a sua busca.
Nix, a deusa da Noite, colocou sua mão branca, com unhas banhadas em esmalte de cor preta, em seu queixo, como se pensasse em algo interessante.
– A deusa do fogo é importante para Hemera, caso contrário elas não teriam feito uma promessa antes do casamento de Huracán.
– Que promessa? – perguntou Larissa, da qual eu já me esquecera da presença, não foi por querer, juro.
– Perguntem à Hemera quando a encontrarem, não sou uma enciclopédia. – retrucou Nix.
– Bem, de qualquer forma, obrigada vovó. – agradeceu Jane.
– Eu ficaria grata se você parasse de me chamar assim, me faz ter a imagem de uma deusa idosa e isso é nojento.
Foi impossível não rir com esse comentário de Nix.
– Aliás, vocês não podem sair assim. Tenho uma surpresa para as seis semideusas.
Estava demorando. Agora seria a hora em que ela diria "Vocês só poderão ir embora depois de provarem que Huracán escolheu as semideusas certas", mas em vez disso ela nos surpreendeu com presentes.
– Fiquem com esses colares, eles irá protegê-las de algumas coisinhas fofas.
Nix deu um colar para cada uma de nós seis. O pingente era uma pedra negra de formato circular com uma lua crescente entalhada enquanto o sol completava a outra parte como se fosse um.
– Não vou tirar muito mais do tempo de vocês. – disse Nix – Vocês têm apenas alguns dias para chegarem a Casa da Esperança.
Em um passe de mágica nós surgimos em meio a uma floresta. O novo dia se aproximava com os primeiros raios de sol.
– O que aconteceu? – perguntei.
– Nix nos colocou no caminho. – respondeu Jane – Vamos em frente.
Kayanne distribuiu as frutas de Deméter para que pudéssemos eliminar a nossa fome e obter mais energia para a caminhada já que não havia nenhum outro tipo de transporte para usarmos, pelo menos não onde estávamos.
Restavam alguns dias para que encontrássemos Wendell, e Jane não sabia dizer se estávamos pertos ou não e nem quantos dias exatamente, mas sabia que aquele era o caminho certo para a Casa da Esperança.
O sol parecia se esconder por trás das folhas das altas arvores que nos rodeavam. O clima estava agradável com o canto dos pássaros. Parecia um conto de fadas até que lembramos que uma vida dependia do nosso sucesso nesta missão.
Às vezes eu me pegava imaginando o que estaria acontecendo no mundo do qual viemos, e nesse exato momento eu passei a sentir o que o meu clone estava vivenciando. Ele provavelmente ainda estava dormindo, se preparando para quando acordar tomar um café da manhã reforçado por minha mãe.
Era curioso como podia existir dois mundos diferentes.
– Na verdade existe mais de um. – comentou Jane – São milhares.
Me perguntei se os deuses podiam ler nossa mente, mas Jane respondeu antes que eu pudesse pensar em perguntar.
– Não posso ler sua mente, não se preocupe com isto. Eu apenas li a sua expressão. Também sou conhecida como a Leitora do Oculto, embora a expressão não seja oculta.
Jane sorrira e voltara sua atenção para a estrada a sua frente. Ela parecia conformada com as ultimas descobertas sobre sua mãe. Ao menos agora ela sabia onde sua mãe estava, e felizmente, ela estava indo para o mesmo lugar nós estávamos indo.
Dexter, o tigre que Wendell enviara para nos ajudar, estava brincando enquanto tentava capturar borboletas que voavam ao seu redor.
O martelo de Hefesto começou a esquentar em meu cinto e quando olhei para frente, uma forma musculosa nos encarava segurando um enorme machado com pontas afiadas e brilhantes possuindo diversos símbolos entrelaçados no ferro e na madeira que sustentava a lâmina de ferro.
Ele era grande e bufava sempre que podia. Em suas narinas tinha uma enorme argola como um piercing. Ele tinha o corpo como o de um homem e sua cabeça era de um touro e tinha chifres enormes.
O minotauro se preparava para avançar.
Ysla lançou uma flecha com o seu arco, mas o minotauro pegou a flecha e a partiu ao meio, o que em minha opinião não foi nada legal.
– Eu achei que o minotauro estava preso em um labirinto. – disse Larissa.
– Ele deve tê-lo recrutado – disse Jane – o deus traidor.
Um deus usando criaturas do mal para nos impedir em nossa missão difícil... Isso também não soava legal.
Todas nós sacamos nossas armas, menos Larissa, pois seu cajado se transformara num bracelete e ela ainda não aprendera como conjura-lo.
O minotauro dava um passo a cada dois segundos. Ou ele estava segurando toda a sua raiva, ou não tinha pressa em nos matar. Eu gostaria que fosse vontade de encontrar sua família, mas ele tinha uma família? Tenho que pesquisar sobre isso depois.
O minotauro teve a brilhante ideia de acelerar o passo e começar a correr como um atleta grande porem leve. Eu tive a paciência de espera-lo chegar para que eu pudesse bater com o meu martelo no queixo enorme dele e mandá-lo para longe por um tempo.
Quando ele se levantou, sua raiva explodiu e seus olhos ficaram queimando em vermelho.
O monstro foi para onde Ysla estava que por sua vez foi muito ágil ao desviar dos ataques de machado. Ela rolou em meio às pernas do monstro saindo por detrás dele sacando e atirando uma flecha no ombro do minotauro.
O minotauro urrou de dor e arrancou a flecha de seu ombro com toda a brutalidade possível.
Aproveitando que a atenção do monstro estava sobre Ysla, Yasmim avançou e cravou sua espada nas costas do monstro enquanto Emilly rasgava seu pé com a espada de pedra.
O tigre Dexter, que fora enviado para nos proteger e ajudar, estava escondido atrás de uma árvore não muito próximo da luta.
Na tentativa de ajudar, Larissa levantou a mão na direção do monstro, que acabara de virar em sua direção depois de lançar Yasmim para longe.
Ele começou a estremecer e caiu de joelhos.
Quase não acreditei no que estava vendo. Larissa tinha o monstro sob o seu controle, ela mesma parecia surpresa e ao mesmo tempo irritada.
O minotauro a olhou como se a estivesse amaldiçoando com tudo o que existisse em ambos os mundos depois percebi de que era o contrario.
Os olhos de Larissa brilharam na cor roxa e ela disse com toda a calma em uma voz que não parecia ser dela:
– Exploda!
O minotauro arregalou seus olhos vermelhos e explodiu espalhando cinzas para todos os lados.
Todas nós ficamos pasmas.
Olhei em volta a procura de Jane, mas não a vi.
– Alguém viu a Jane em algum lugar?
Ninguém percebera até aquele momento o desaparecimento de Jane. Dexter estava deitado ao lado de Kayanne. Alguma coisa o assustara.
"Vocês lutam com tudo o que tem, mas ainda desconhecem suas maiores habilidades", disse uma voz masculina que ecoou por toda a floresta. "Vamos ver como se saem sem a sua deusa companheira".
– Quem é você? – perguntou Emilly.
"Vocês devem se preocupar com quem vocês realmente são se pertencem a este mundo ou ao patético mundo mortal de onde vieram. Eu posso ajudá-las a encontrar as respostas que necessitam".
– Desculpe, mas minha mãe disse para eu nunca conversar com estranhos. – disse Yasmim.
"Há há há! Vocês me divertem. Os Olimpianos estão usando vocês como peoas neste jogo e quando não precisarem mais de vocês eles as jogarão de volta para o seu mundinho patético. Eu posso oferecer tudo o que querem, juntem-se a mim e não sejam uma simples memória de uma guerra perdida antes mesmo de começar. Pensem bem semideusas, esperarei até o meio dia no castelo que está no fim desta estrada. Sejam rápidas".
A voz morreu ali e o silêncio começara a sumir com a chegada dos pássaros que haviam voado para longe quando a voz surgira.
Nós tínhamos certeza de que aquela voz não era nenhum amigo, mas precisávamos ir até o castelo que ele mencionara.
– Jane deve estar lá. – disse Emilly.
Então eu levantei depois de ter me jogado no chão para descansar. Levantei a minha voz confiante.
– Vamos salvar a filha do fogo!
Fale com o autor