Notas iniciais
Olá leitores lindos. Desculpem o facto deste capítulo ser mais pequeno do que habitual mas se o juntasse com o próximo, não ficaria lá muito bem porque têm tempos diferentes e seguimentos diferentes. Pois bem, apreciem (:

À noite, as casas pareciam todas iguais, com os arbustos geometricamente aparados e as sebes brancas delimitavam o território de cada fortaleza familiar, como se as pudessem proteger de um ataque hostil de um inimigo desconhecido que tente quebrar a tranquilidade da família real que lá habitava.

O sussurro dos grilos ouvia-se lá, ao longe, onde se misturava com o coaxar dos sapos, habitantes da pequena lagoa que os Santos tinham no seu jardim frontal. Naquela típica noite de final de verão, havia que fazer os preparativos para o ritual diário que, dali a umas horas, iria surgir bruscamente nas vidas dos adolescentes: o início das aulas.

Junto à vedação da pequena casa branca rústica, um ser coberto com um turbante vermelho escarlate olhava fixamente para a janela do quarto do primeiro andar.

“Ventus Magis. Fracta fenestram. Glass. Impetum.”

Um forte vento surgiu do chão, batendo fortemente contra a casa dos Dixon. Alana acordou sobressaltada. “O que é isto?”– pensou para consigo, levantando-se apressadamente. O vento batia contínua e fortemente, como se fosse um tornado pronto a tomar tudo e mais qualquer coisa num raio de um quilómetro. E, sem pedir licença, a forte rajada irrompeu pela divisão, como se de um assaltante impetuoso, um assassino frio e explosivo se trata-se, pronto para disparar certeiramente na direção da sua vítima. Alana sentiu-se tonta. Aquela ventania circundara-a e privava-a do composto essencial para sobreviver. Uns braços invisíveis mas fortes demais para serem combatidos por uma pessoa normal prendiam-lhe o pescoço, o esófago. Numa tentativa desesperada de se soltar, a rapariga agitou freneticamente as pernas e os braços, esperançosa de que, talvez, pudesse acertar no corpo invisível que a tentava extrair do mundo mundano. Os seus olhos lacrimejavam, a sua garganta estava cada vez mais apertada e estreita e Alana jurara que quase ouvira o seu pescoço a estalar. E, de súbito, parou. A rapariga fora atirada fortemente ao chão sem qualquer cerimónia e a ventania, que outrora a tentara estrangular, retirou-se do festim macabro.

Sentada no parapeito da sua janela, uma figura encapuzada trajada com um manto vermelho escarlate assistia ao tenebroso espetáculo. Tudo aquilo lhe dava um certo prazer lúgubre, uma sensação de vitória perante o sofrimento alheio. Não, alheio não: o de Alana.

“Parece que vai ser mais fácil do que pensávamos.”- disse uma voz feminina, embora rouca, e profunda.

Alana levantou a cabeça apenas o suficiente para distinguir de onde provinha aquele som.

“O que… O que queres dizer com isso?”

Mas a figura não respondeu. Limitou-se simplesmente a balançar a cabeça (ou pelo menos aquilo que Alana julgara ser, uma vez que ainda não lhe tinha visto nem cabeça nem rosto nem qualquer outra parte do corpo) da esquerda para a direita e a soltar uma gargalhada fria.

“A ignorância realmente nunca é demais.”

A rapariga começava a estranhar aquela conversa. Quem seria aquela mulher? O que quereria dela? Teria sido ela a causadora dos acidentes que a atingiram naquele dia?”

Antes que Alana pudesse fazer alguma das imensas perguntas que pairavam na sua mente, como um amontoado de corpos à deriva após o naufrágio de um imenso barco de cruzeiro luxuoso, ouviu-se um barulho de fundo. Parecia água a correr em canos longínquos. Num impulso, sabe-se lá vindo de onde, a rapariga baixou-se e uma corrente de algo azul-turquesa atingiu em cheio a mulher até então sentada à beira da sua janela. Esta levantou-se tão depressa quanto pôde e riu. Não era um riso frio e maldoso como o de anterior, não. Era um sorriso onde se podia notar uma certa excitação e satisfação.

E, tão depressa quanto apareceu, assim desapareceu.

Alana levantou-se, arrastando-se (tinha torcido o pé ao embater contra o chão duro do seu quarto) até à janela. Uma rapariga morena, de cabelos ondulados olhava fixamente para ela. Não lhe conseguia vislumbrar os traços do seu rosto, pois a luz do luar era escassa e fraca mas os olhos tinham algo de anormal, algo de extraordinário e assustador ao mesmo tempo: era a cor. Eram de um azul tão penetrante que quase cegava quem para eles olhasse. E Alana apenas se deixou ficar, ali, contemplando a maravilhosa visão que estava a ter. Não queria que ela fosse embora, gostava aquele brilho, daquela sensação de proteção. Por uma fração de segundo, uma ideia veio-lhe à cabeça: quem seria aquela rapariga? Ou melhor, o que era ela? Sim, porque tinha a certeza de que humana, ela não era!

“Espera.”- disse firmemente.

Desceu as escadas ruidosamente da excitação mas, quando saiu para o jardim a fim de se encontrar com aquela magnífica criatura, ela tinha desaparecido. Sem mais, nem menos. Havia um certo cheiro doce e amargo no ar. Algo que nunca antes ela cheirara.

Sem hesitação, decidiu seguir aquele odor tão reconfortante e fantástico. Era como se Alana conseguisse capturar coisas que antes nunca notara. Seguiu pela rua fora, virando uma vez à direita e duas à esquerda. Estava perto, ela sabia-a. O odor intensificava-se. Sentia agora o cheiro a pânico e incerteza. Um beco. Era dali que o cheiro emanava. De costas para ela lá estava o ser que a ajudara.

“Hei, quem és tu?”

A rapariga sorriu timidamente e desapareceu, numa nuvem de orvalho e nevoeiro.

Notas finais
"Ventus Magins. Fracta fenestram. Glass. Impetum.” - "Vento, parte a janela. Vidros. Ataque." (TRADUÇÃO NÃO LITERAL)