O Jogo do Cristal
5 Capítulo 5
Era a terceira vez que o despertador tocara e, como sempre, Rose estava atrasada. Saiu do duche a correr, vestiu umas calças de ganga e uma t-shirt e desceu para o pequeno-almoço.
“Já viste as horas? Ser pontual não é o teu forte.”- reclamou a mãe enquanto a rapariga entrava na cozinha prendendo o seu longo cabelo platinado num rabo-de-cavalo.
“Dormir é essencial para o desenvolvimento cognitivo do ser humano.”- respondeu Rose pegando numa pera.
“E comer bem também. Isso é a tua refeição? Senta-te e come como deve de ser.”
“Não posso mãe, estou atrasada. Além do mais, não quero causar má impressão no meu primeiro dia de aulas como finalista do secundário, pois não?”- despediu-se da mulher com um beijo na bochecha. –“Adeus pai! Tem um bom dia.”- gritou fechando a porta atrás de si.
Ir de bicicleta para a escola era a parte preferida do dia de Rose. Sentia-se unida à Natureza, como se os pássaros comunicassem com ela, como se as folhas e as flores cantassem o seu nome. Talvez porque sempre vivera em Frame’s Hallow, onde havia muitas florestas e muitos animais, mas ela quase que sentia como se ali não pertencesse. Rose ouviu o eco da campainha ao fundo da rua. Começou a pedalar o mais depressa que as suas pernas o permitiam. Ia a virar a esquina para a escola quando chocou com alguém e caiu do veículo.
“Não sabes ver por onde andas?”- perguntou a rapariga loira visivelmente irritada. Tinha caído de lado e doía-lhe o coxis.
“Desculpa. Não sabia que nesta cidade eram os inocentes quem tinham culpa dos males que acontecem.”
Rose olhou para cima. Um rapaz de cabelos castanhos desalinhados e olhos verdes fixava-a. Notava-se uma forte presença solista no seu sotaque. O seu rosto era oval e os seus lábios um pouco mais encarnados do que o normal.
“Desculpa. Já estava atrasada e agora com este acidente ainda estou mais.”
“Tudo bem. Chamo-me Killian. Killian Foster.”
“Rose Miller.”- respondeu a rapariga levantando-se e pegando no seu veículo.
“É bom saber que as pessoas aqui são todas bem-humoradas pela manhã.”- brincou Killian.
“É. Tenho que ir.”- ela não estava minimamente interessada em prolongar aquela conversa, pelo menos por agora. Estava mais preocupada com aquilo que Mr. Wood iria dizer quando, uma vez mais, ela chegasse atrasada.
“Miss Miller, vamos ter problemas se continuar com esse comportamento.”- dissera-lhe o professor uma vez. Rose só esperava que por «problema», ele não quisesse dizer «Está chumbada.»
*
Alana parou em frente à porta principal. Nunca esperou uma mudança tão grande e acentuada na sua vida. Vista do seu interior, o edifício era maior do que aquilo que parecia no exterior. A rapariga olhou para todo o lado. Uma escadaria branca dava acesso aos pisos superiores da escola. Eram demasiadas salas para as percorrer uma a uma até encontrar a certa.
Ao contrário do que acontecia na sua antiga escola, no Instituto de St. Laurel, os alunos tinham liberdade de escolher as disciplinas que mais lhes agradavam, desde que, no seu currículo, estivessem pelo menos duas línguas e um dos módulos de matemática. No dia anterior, ela tinha ido à secretaria da escola fazer um levantamento das disciplinas em que se podia matricular. No manuscrito que a recepcionista lhe entregara, estava escrito:
Instituto de St. Laurel II
Disciplinas:
Línguas e Literaturas:
Inglês e Literatura Inglesa
Espanhol e Literatura Espanhola
Francês e Literatura Francesa
Alemão e Literatura Alemã
Grego e Literatura Clássica
Latim e Literatura Clássica
Matemática:
Estatística
Álgebra
Cálculo
Lógica
Ciências Sociais:
Economia
Direito
Sociologia
Psicologia
Gestão:
Gestão Financeira
Contabilidade
Marketing
Cálculo Financeiro
Física, Química, Geografia, Biologia, Geologia e Educação Física (obrigatória).
Tendo em conta de que, nos últimos dois anos, Alana estudara Inglês e como tinha passado grande parte da sua infância em Espanha, escolheu essas duas línguas. Metade das suas escolhas já estavam feitas, só tinha que escolher mais quatro disciplinas. Aleatoriamente fechou os olhos e parou o dedo em cima de cada conjunto, e os resultados foram: Sociologia, Química, Marketing e Biologia. Visto de fora, até nem era um conjunto muito mau. As línguas e as literaturas eram, de longe, o mais fácil. Sociologia não devia de ser difícil; embora a Química a assustasse um pouco.
“Como é suposto ir para a aula de Sociologia? Voando?”- perguntou num desabafo, alternado o olhar desesperado entre a instituição e o seu horário confuso.
Alana fez um esforço enorme para não entrar em pânico. Não sabe explicar como, mas tudo o que viu foi a sombra, a própria sombra, separar-se da companhia habitual do seu corpo e tomar a forma de um vulto escuro e translucido. A forma girou sobre ela própria, girou sobre a sua dona e depois parou exatamente na frente da rapariga. Alana esticou a mão direita. A sombra esticou a mão direita também.
“O que vão dizer as pessoas quando virem que não tenho sombra? Explicas-me?”
Mas o vulto limitou-se a encolher os ombros e deslizou rapidamente escadaria a cima.
“Hey! Ao menos espera por mim!”- disse agarrando rapidamente na mochila, seguindo-o.
Em cada andar, a sombra parava para se certificar que a sua proprietária ainda a seguia. De cada vez que Alana pensava que ia parar de percorrer os imensos corredores brancos da escola (que mais pareciam pertencer a um hospital, gelados e despidos), a sombra retomava a sua maratona de uma forma frenética e feliz. Até que, de súbito, parou, flutuando levemente junto à porta de uma sala de madeira no terceiro andar.
“Finalmente!”
O vulto voltou-se para Alana e fez um ruído agudo e estranho, quase como se se tratasse de um uivo de um cão pequeno. Resvalou fortemente contra a rapariga fazendo com que esta se desequilibrasse e batesse com força na porta.
“Mas o que reboliço é este no corredor?”- uma senhora na casa dos sessenta anos abriu bruscamente a porta. Vestia uma camisola branca com flores verdes, amarelas e azuis e uma saia branca. A sua cara redonda, com as maçãs do rosto naturalmente vermelhas conferiam-lhe um aspecto simpático e assustador ao mesmo tempo. – “Bem, mas a menina pensa entrar ou está à espera que faça um convite formal?”
“Desculpe… Ando meio perdida e…”- tentou explicar Alana mas a palavra rapidamente lhe foi cortada.
“Não importa, não importa. Entre e junte-se à aula, que isso é que é importante.”
A rapariga apressou-se a entrar e sentou-se na terceira carteira da segunda fila, bem no meio da sala. Sentiu os olhares da turma a cravarem-se nela, como se fossem ferrões de vespas libertados todos tendo o mesmo alvo em vista.
"Qual é o seu nome mesmo?"
"Alana. Dixon."
A senhora pegou nos óculos que estavam em cima da secretária e começou a procurar no livro de presenças o nome da rapariga.
"Hum..."- fez ela, parando o dedo no nome. -"A menina espanhola?"
"Exacto."
"Muy bien, puede sentarse."
Alana frisou o sobreolho e encaminhou-se para a única carteira vazia no canto da sala. Pousou as suas coisas, tirando o caderno. Tirou uma caneta do estojo preto e abriu o caderno para começar a escrever mas algo a impossibilitou. O se caderno estava todo escrito, ou melhor, desenhado. Em todas as páginas havia o mesmo desenho: o pentágono exatamente como na sua tatuagem.
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