Sakura não era de prestar atenção aos boatos ou às coisas bobas que frequentemente agitavam os corredores do Colégio Hashirama. Quem estava namorando quem, quem havia sido traído por quem, quem era o/a garoto/a mais bonito/a do colégio, quem era o/a mais feio/a… Sakura ouvia murmurinhos por toda parte, mas não dava atenção a nenhum deles. Não prestava atenção naquilo que não a ajudaria a entrar em uma faculdade de medicina e se tornar uma cirurgiã. Pouquíssimas coisas naquele colégio poderiam ajudá-la, essas, em geral envolvia seus professores e muitos livros.

Ela era membro ativo de pelo menos três clubes do colégio: Clube do Livro, com reuniões às sextas. Clube do Jornal, com reuniões às segundas. E o Clube de Debate, com reuniões às quartas. Às vezes pensava em encaixar alguma ocupação para as terças e quintas, mas sabia que precisava de tempo para realizar as matérias do jornal, as pesquisas para o debate e ler um capítulo por semana de um dos dois livros escolhidos para o semestre. À noite voltava para o dormitório pelo menos uma hora antes de soar o sinal para o “Toque de recolher”, tomava o segundo banho do dia, fazia anotações importantes em seu caderno, e conversava com Hinata até que as luzes fossem apagadas e se deitava para dormir.

Era uma vida bastante simples e calma, controlada e às vezes previsível, mas Sakura gostava daquilo. Ter crescido com sua mãe não foi sempre fácil e desde pequena foi obrigada a tomar conta de si mesma, quando a mãe não podia estar por perto. Acostumou-se em ter uma agenda para seu dia, a aproveitar cada hora de seu dia para as atividades essenciais para seu crescimento pessoal e a preparação de seu futuro profissional.

Orgulhava-se de ter algumas das melhores notas do colégio e, modéstia à parte, desconfiava ser a única entre os quase três mil alunos a estar verdadeiramente preparada para os desafios que encontrariam todos na faculdade. Orgulhava-se principalmente por nunca ter permitido que algo a distraísse a ponto de fazê-la esquecer o que era melhor para ela.

Muito diferente das decisões tomadas por sua nova colega de quarto, Ino Yamanaka. A garota era realmente muito bonita e não tinha dificuldades para se relacionar com ninguém, bastava alguns minutos e Ino logo estava falando com você como se a conhecesse por uma vida inteira. Também era uma garota inteligente, sempre com as notas altas e sua auto-estima era tão grande que chegava a dar uma pontinha de inveja em Sakura. Se pudesse ter tanta confiança em si mesma quanto Ino, talvez algumas coisas em sua vida fossem diferentes… mas Sakura nunca reclamou e não pretendia começar agora.

Pois havia uma coisa que Ino não conseguia esconder com sorrisos e auto-estima. Desde a briga com Karin, sua vida estava arruinada. Bom, pelo menos as coisas que a garota considerava importantes e agora ela precisava recuperar um pouquinho de sua dignidade. Sakura não fazia ideia de como Ino conseguiria isso, mas, antes mesmo de conhecê-la oficialmente, tinha decidido que a ajudaria, se sua ajuda fosse necessária.

Sakura imaginava que devia ser difícil para Ino aprender a lidar com pessoas tão diferentes de suas antigas amigas, por isso, a aproximação delas ocorria de forma lenta e por vezes desajeitada. Também era difícil para Sakura, que sempre foi tão metódica com sua vida, encontrar assuntos que agradassem e intretessem Ino de forma satisfatória. Queria que fossem amigas, realmente queria, mas à medida que os dias se passavam e as aulas corriam num ritmo cada vez mais acelerado, ia descobrindo que seria mais difícil do que pensava, por mais que Ino fosse uma das pessoas mais simpáticas que conheceu. Às vezes, simpatia apenas, não bastava.


A quinta-feira finalmente havia chegado, não havia reuniões de clubes para aquele dia, ainda tinha duas semanas para encerrar a crítica de O morro dos ventos uivantes de Emily Brontë, que estava escrevendo para o jornal, e para o debate sobre a crise mundial de 2009, e já havia terminado o capítulo designado na última reunião do Clube do Livro. Também não havia lições para terminar, pois as tinha feito durante o almoço, quando foi visitar a biblioteca com Hinata. Era raro que sua agenda estivesse completamente vazia e seria mentira se Sakura dissesse que não gostava quando isso acontecia. Afinal, era para isso que gostava de fazer suas tarefas com antecedência!

Encontrou Hinata no dormitório, lendo o mesmo livro que ela para o Clube do Livro, numa versão mais antiga, de capa dura verde, títulos escritos em dourado e páginas amareladas.

– Falta muito, Hina?

– Mais ou menos. – A morena marcou a página em que estava com o dedo e olhou para a amiga. – Por quê?

– Nada. – Sakura deitou na cama, sentindo-se um pouco inquieta. – É só que eu queria fazer alguma coisa hoje.

– Fazer o quê?

– Não sei. – Deu de ombros, olhando para Hinata com o canto dos olhos. – Só não quero ficar sem fazer nada.

– Já leu o capítulo?

– Já. Terminei ontem.

– Como consegue ler tão rápido com tantas coisas para fazer?

– Eu apenas sento e leio. – Sakura virou-se para o lado, de modo a encarar Hinata. – Eu entro naquele mundinho e não consigo sair.

– Eu também entro no livro, mas… — Hinata deu de ombros. – Não consigo ler no mesmo ritmo que você e não tenho tantas coisas para fazer durante a semana.

Sakura sabia que Hinata só tinha entrado no Clube do Livro por insistência sua, para que passassem mais tempo juntas, mas era muito tímida para os outros dois clubes e não tinha interesse em nenhuma outra coisa. Era triste que uma menina tão inteligente quanto Hinata se sentisse tão perdida quanto ao seu futuro quanto a maior parte de seus colegas, que não era nem de longe tão merecedores quanto a Hyuuga.

– Você devia procurar alguma coisa para fazer esse ano, Hinata, aproveitar que o ano letivo está apenas começando e temos muito tempo pela frente.

– Eu vou tentar. – Hinata prometeu, no tom de voz que usava mais para agradar do que para convencer alguém.

O silêncio caiu sobre elas, enquanto Hinata voltava à sua leitura perdendo-se rapidamente naquelas páginas. Sakura começava a sentir-se mais inquieta, quando a porta do quarto abriu e Ino entrou com um sorriso satisfeito. A menina lançou um “olá” animado para as duas e se jogou de costas na cama, e só depois pareceu se concentrar em Sakura, a olhando como se fosse uma estranha.

– Não tem reunião de clube, hoje, Sakura?

– Não. Hoje é quinta-feira.

– Ah, é. – Ino sorriu para ela. – Você não tem compromissos às terças e quintas, não é?

– Não. Estou livre nesses dias.

– Que bom! – Ino animou-se subitamente, sentando-se na cama. – Significa que podemos curtir o primeiro sinal de vida que o sol resolveu dar, desde o início do ano!

– Parece que sim. – Sakura também animou-se.

– Vamos dar uma volta no jardim. – Ino saltou da cama e já foi logo puxando o braço de Sakura para que a menina fosse com ela. – Não quero ficar cercada por paredes nem mais um segundo hoje.

– Eu vou com você. – Sakura riu, conseguindo se soltar dela. As duas olharam para Hinata. – Vamos, Hina?

– Eu tenho que terminar…

– Você termina de noite. – Ino interveio. – Prometo que fico quietinha para não te atrapalhar.

– É que está tão bom. – Hinata ficou um pouco vermelha, ela nunca dizia “não” para ninguém. Sakura sabia que ela só precisava de mais insistência.

– Leva o livro, a gente para em algum lugar e você lê. – Disse, começando a tirar o livro da mão dela.

– Mas eu duvido que você vai preferir o livro, à nossa companhia. – Ino emendou, tratando de ajudar Hinata a se levantar. – Vamos conversar um pouco, faz tão bem quanto uma boa leitura.

Hinata não recusou mais, pegou o livro com Sakura e, mesmo relutante, saiu do dormitório com a melhor amiga e a nova colega de quarto. Sakura não sabia muito bem porque, mas sentia que muitas coisas mudariam a partir de sua amizade com Ino e gostaria que isso também valesse para Hinata. Seu pressentimento lhe dizia para ir em frente, que confiasse em Ino e era o que estava fazendo. Apesar de não ter muitos amigos, Sakura nunca precisou se esforçar muito para conseguir um. Afinal, as melhores coisas da vida vinham de forma natural, e a melhor coisa que se tinha a fazer era confiar no tempo.

– Que livro é esse que você está lendo, Hinata? – Ino perguntou, enquanto as três caminhavam por entre as árvores em volta da escola.

– O morro dos ventos uivantes. – Respondeu a morena, fitando a capa do livro fechado que carregava nos braços.

– Hum… já ouvi falar. Acho que minha madrasta tem esse livro na estante dela.

– É um ótimo livro. – Sakura interveio, contente por poder falar sobre algo que conhecia tão bem. – Eu estou fazendo uma resenha desse livro para o jornal desse mês.

– Legal. – Ino sorriu. – E sobre o que fala?

– É sobre um amor impossível e loucura. – Sakura já havia lido aquele livro no ano anterior, o que não a impediu de ficar animada quando o pessoal do jornal sugeriu que ele fosse o primeiro livro do ano. – A narração é um pouco confusa, é narrada em primeira pessoa, mas frequentemente muda de narrador… e se passa em duas épocas diferentes. São duas gerações de duas famílias que se odeiam, mas que de certa forma são muito próximas, e que precisam lutar contra muitas coisas para conseguir viver um amor verdadeiro. Tem muita tragédia… eu prefiro a segunda parte da história, mas eu acho que a maioria das pessoas prefere a primeira.

– Ual. Parece interessante. – Ino apontou para um banco que ficava debaixo dos galhos de uma árvore enorme e elas foram até ele. – Você também faz parte do jornal, Hinata?

– Não. Eu estou lendo por causa do Clube do Livro. – A morena sentou-se, colocando o livro sobre as pernas.

– É o único clube que ela participa. – Sakura sentou-se entre as duas. – Estávamos pensando em encontrar algum outro clube para a Hinata participar, mas estamos sem ideias.

– Eu não sei. O único grupo do qual fiz parte foi o das líderes de torcida, na minha antiga escola, e o de natação. Eu adorava estar na água e mesmo depois da aula acabar, eu enrolava o máximo que eu podia antes de sair.

– Você competia? – Sakura quis saber.

– Competi poucas vezes. Eu não sou boa o suficiente. Competia quando as outras garotas não podiam, ou não queriam. – Ino sorriu, lembrando-se de algo. – Uma menina, uma vez, ficou subitamente apavorada antes de uma competição. Eu não sei o que deu nela, só sabia que nada a faria entrar naquela água aquele dia. Então o técnico pediu que eu fosse no lugar dela. Foi a primeira medalha de ouro que eu ganhei! – Completou, levantando a cabeça orgulhosa. – Eu era boa. Hoje em dia, só nado para afastar o calor, como exercício para manter a forma, não para competir.

– É uma pena o Colégio Hashirama não ter uma equipe de natação. – Sakura lamentou-se. – Eu queria ir numa competição.

– Assistir não é tão bom quanto estar na água. Especialmente no calor. É insuportável só assistir. E, no frio, não compensa passar frio para ver uma dúzia de pessoas terem choque térmico quando saírem da piscina quente.

– Mesmo assim… seria legal ver você ganhar uma medalha de ouro.

– E quanto às líderes de torcida? – Hinata perguntou, timidamente, chamando a atenção das duas.

– Só se fosse para torcer para o time feminino. – Ino deu de ombros. – Os garotos estão mais preocupados em chutar a cara um do outro do que em jogar.

– A Tenten faz parte do time feminino. – Hinata começou a dizer e Ino ficou olhando para ela, provavelmente esperando que ela dissesse mais alguma coisa. Como nada veio, Ino seguiu.

– Eu sei, acho que ela será capitã no ano que vem, quando a Temari tiver se formado. É a melhor jogadora do time, a única que traz algum orgulho para o colégio. Mesmo entre os meninos.

– A seleção para as líderes de torcida começa na semana que vem. – Hinata lembrou-se.

– Sim, eu sei. – Ino fitou as próprias unhas por um momento. – Mas eu não vou fazer. Karin estará na banca, junto com a Shion, e eu tenho sérias dúvidas de que elas me aceitem.

Sakura sentiu um pouco de pena de Ino, ela parecia realmente incomodada por causa de Karin, e Shion, sua outra ex-colega de quarto e amiga. Ino devia estar sentindo-se sozinha, assim como ela e Hinata frequentemente se sentiam em meio a todos aqueles alunos.

– Acho que você devia tentar mesmo assim. – Incentivou, ganhando a atenção de Ino. – Não tem nada a perder. Quem escolhe as líderes de torcida é a professora Anko, se você for realmente boa, elas não poderão te aceitar. E quem sabe não é uma chance de fazer as pazes com elas…

– Eu não quero fazer as pazes. – Ino cortou-a imediatamente. Sakura imaginava que aquela seria a resposta. – Não quero provocá-las também. Não se deixem enganar, elas são bem cruéis quando querem, eu as conheço bem.

– Eu concordo com a Sakura. – Hinata falou, após alguns segundos de silêncio. – Fazer parte das líderes pode te ajudar a conseguir bolsa para a faculdade, e temos que começar a pensar nessas coisas, antes que o último ano chegue e não tenhamos mais tempo. Ter brigado com elas não pode te impedir de pensar no seu futuro.

Ino ficou em silêncio, olhando para as duas e, por fim, sorriu, sem dizer mais nada àquele respeito. Ficaram naquele banco por mais de duas horas, conversando sobre possíveis clubes para Hinata, outras possibilidades para Ino, sobre os preciosos livros de Sakura e outros assuntos que foram surgindo no decorrer da conversa. E, quando finalmente se levantaram, sob a desculpa de dar outra volta no colégio, Sakura sentia-se satisfeita, e Hinata não tinha aberto o livro uma única vez.

Notas finais
Okay, mais um capítulo fresquinho, espero que gostem. Eu vou continuar a escrever o quarto capítulo e devo postar ainda essa semana... ou não... veremos rsrsrs
Kissus e ja ne.