O Jeito Como Você Mente
4 Ino
Notas iniciais
Mas... são adolescentes e muitas coisas mudam nessa época da vida, certo?
Enfim, espero que gostem do capítulo.
Ino caminhava ao lado de Hinata e Sakura na direção o Salão Principal, para o jantar. Tinha descoberto que as duas podiam falar pelos cotovelos sobre os assuntos que mais gostavam, e que não conseguia seguir a maioria daqueles raciocínios. Elas falavam sobre personagens de livros e séries que ela não conhecia, como se fossem seus amigos de infância. Ino estava tentando acompanha-las, mas sentia-se mais perdida do que nunca, enquanto pegava a comida e levava a bandeja para uma mesa no canto do salão, onde Hinata e Sakura pareciam ter estabelecido como seus lugares oficiais.
— Eu juro que, algum dia, vou conseguir descobrir sobre quem vocês estão falando. – Comentou, colocando a bandeja na mesa e afastando a cadeira. – Parece que vocês estão falando de pessoas de outro planeta, porque eu não faço ideia de quem seja.
— Estamos falando sobre “Diário de uma paixão”, um livro de Nicolas Sparks, que lemos no mês passado.
— Eu assisti esse filme. – Ino animou-se um pouco.
— O livro é infinitamente melhor. – Hinata afirmou categórica.
— Sim, mas eu não gosto de todos os livros desse autor. – Sakura começou a arrumar a comida antes de sentir-se a vontade para comer. – Algumas coisas são exageradamente românticas, até ficar brega. E todos os livros são praticamente iguais.
— Não são, não. – Hinata reclamou, baixinho. – E um pouco de romantismo não é nada demais em uma era em que as pessoas acham o vulgar normal.
— Pode ser, mas acho que ainda falta um longo caminho para que a literatura encontre um meio termo entre o romântico arcaico e o romântico moderno. Enquanto isso, temos que lidar com pérolas sobre submissão feminina, numa era em que as mulheres já deveriam estar comemorando sua liberdade.
— Nossa. – Ino deixou escapar. – Vocês falam como se fossem uns dez anos mais velhas do que realmente são. – Olhou-as por um instante, desviando o olhar para a própria comida, para não ser tentada a dar continuidade àquele pensamento. – Eu não acho que um livro vai me fazer regredir anos de luta pela causa feminista.
— Talvez um livro, não. Mas vários livros sendo empurrados pela garganta de adolescentes despreparadas, seguidamente e sem nenhum incentivo para que elas leiam uma literatura mais madura e reflexiva, talvez faça um grande estrago. Não só para as mulheres, para a humanidade como um todo.
— As pessoas têm lido cada vez menos. – Ino comentou, nem contra, nem a favor do que Sakura disse, mas a menina emendou sem deixá-la completar seu pensamento.
— Exato. As pessoas têm lido cada vez menos, mas esse tipo de livro tem aparecido cada vez mais entre os mais lidos pelos adolescentes de todo o mundo. Isso significa que os livros certos não estão sendo lidos.
— E o que você chama de “livros certos”? – Ino abandonou a comida e tinha a atenção toda voltada para Sakura.
— Os grandes clássicos da literatura, livros que formaram gerações inteiras e que não podem ser esquecidos.
— Como “O morro dos ventos uivantes”?
— Exato.
— O livro preferido de Bella e Edward de “Crepúsculo”? – Ino sorriu com um leve tom de deboche.
— Nem me lembra disso. – Sakura pareceu realmente ofendida. — Nessas férias, eu fui na livraria e encontrei uma reedição desse livro, sendo vendido exatamente assim. Quero dizer, não era o livro de Emily Brontë ou um dos grandes clássicos da literatura mundial. Era simplesmente “o livro favorito de Bella e Edward”. – Ino não pode não rir da expressão exasperada de Sakura. – Rebaixaram o livro a um dos suplementos que a J.K. escreveu para formar o universo de Harry Potter.
- Suplementos?
- “Criaturas fantásticas e onde vivem”, “Quadribol através dos séculos” e “Contos de Beedle, o bardo”. – Hinata tentou esclarecer, mas Ino não tinha ideia do que eram aqueles títulos. A palavra “quadribol” era familiar, mas Harry Potter não estava entre seus filmes favoritos.
- Vender “O morro dos ventos uivantes” do modo como as editoras têm feito, é tirar a identidade dele.
- Talvez os fãs de “Crepúsculo” possam conhecer grandes clássicos da literatura, começando por esse.
Sakura deu início a uma tagarelice sobre “Crepúsculo” e outros livros que, segundo ela, seguiam a mesma linha, mas Ino não foi capaz de acompanhar o resto da discussão. Não por não ser capaz, mas por não ter o menor interesse. Se quisesse discutir livros e literatura, teria entrado no Clube do Livro.
Passou os olhos pelo Salão Principal, sem procurar nada e sem se prender a nada. Karin e Shion frequentemente apareceram em seu campo de visão durante o dia, mas até aquele momento, Ino não foi obrigada a trocar nenhuma palavra com elas, pelo que era imensamente grata. Mesmo assim, Ino preferia não baixar a guarda. Conhecia Karin muito bem, e Shion podia ser inofensiva sozinha, mas na companhia daquela ruiva, era tão perigosa quanto. Em pensar que Ino costumava protegê-la de qualquer ameaça…
O pensamento de Ino, assim como seu olhar, seguiu automaticamente de Karin para Kiba, sentado numa mesa no centro do salão, com Naruto, Shikamaru e Chouji ao seu redor, rindo de algo que ela não tinha como saber o que era. Os quatro não eram vistos juntos com frequência, mas sempre que Ino os observava, pareciam um perfeito grupo de amigos que se conheciam há muito tempo. Kiba e Shikamaru eram os únicos realmente populares daquele grupo, mas nenhum dos dois ligava muito para status quo e geralmente faziam o que bem entendiam e ninguém questionava seus motivos para andarem com os perdedores. Ino sabia que Kiba preferia muito mais as idiotices de Naruto e os micos de Chouji do que a pose blassê dos garotos mais desejados do colégio.
Na verdade, se Ino tivesse que listar coisas que gostava em Kiba, essa estaria no topo. Ele poderia ser como Sasuke, Neji ou Gaara, se quisesse. Tinha o ego tão elevado quanto eles, mas sua natureza, a verdadeira, era underdog demais para se misturar a pessoas que enxergavam os outros como se fossem donos do mundo. Kiba podia ser tão falso quanto ela própria, mas levava a vida com tanta leveza e despreocupado, que ela não conseguia deixar de admirá-lo um pouco por isso.
Mas, se tivesse que fazer uma lista de coisas que não gostava nele, ter dado bola para Karin também estaria no topo.
- Eu já volto. – Disse para suas colegas e se levantou, indo na direção dos quatro garotos animados no centro do salão.
Assim que a viu, Kiba sorriu com um jeito de superioridade que quase a fez se arrepender das coisas que tinha acabado de concluir sobre ele. Ino cumprimentou os meninos ao redor dele com simpatia e seu sorriso simples.
- De manhã você disse que precisava falar comigo. – Kiba pulou a parte do cumprimento. — Fiquei me perguntando sobre o que era, mas não te vi a tarde toda.
- Eu estava com as meninas. Mas, como nunca é tarde demais, você tem um tempo para mim agora?
- Até dois. – Kiba disse, se levantando para acompanha-la ao outro canto do salão, onde havia menos gente e eles poderiam conversar sem os ouvidos curiosos dos amigos dele. – Diga, em que posso ajudá-la, miss?
- Bom, para começar, se você pudesse me dar uma dose extra de paciência, eu agradeceria.
- Não posso. Eu mal tenho paciência com meus próprios problemas, não tenho doses extras para te dar. – Ele riu, mas Ino apenas sorriu.
- Eu imaginei que não.
- Como vão as coisas com suas novas colegas? Vocês passaram o dia juntas, parece um bom começo.
- É. – Ino suspirou, olhando para as duas, do outro lado do salão. Sentiu-se um pouco frustrada ao se dar conta de que elas provavelmente ainda estavam discutindo a “crepuscularização” da literatura jovem. – É um bom começo, eu sei disso, mas…
- O quê? – Kiba tinha um tom divertido na voz. – Elas não são tão legais quanto você pensava?
- Elas são legais. – Disse, sem mentir. – Mas, às vezes eu não sei o que fazer. Uma é tímida demais até para se olhar no espelho, e a outra se acha a pessoa mais inteligente do universo.
- Como o Sheldon Cooper?
- Quem?
- The Big Bang Theory.
- Kiba… — Ino realmente ficou sem paciência naquele momento.
- Acorda para a vida, garota. É uma série de televisão, famosa e bem divertida. Mesmo para quem não é inteligente. – Kiba deu um tapinha de leve na testa de Ino, fazendo-a o olhar com raiva, mas ele não se importou.
- Faz isso de novo e eu te mato.
- Faça isso e perde a única pessoa que se preocupa o bastante para querer te ajudar. – Kiba deu de ombros. Ameaças não o afetavam e Ino já deveria saber disso. – E tudo o que precisa fazer para conseguir a minha ajuda é admitir que precisa de mim. O resto é só deixar comigo. Mas, primeiro, admita.
Ino sentiu-se enraivecer. Lá estava o sorriso superior de novo, aquele sorriso detestável, que a fazia se arrepender não apenas de concluir que gostava do jeito dele, há apenas alguns minutos, mas de tê-lo escolhido como seu parceiro.
Admitir que precisava da ajuda dele! O acordo entre eles era ajudar o outro a conseguir o que queria. Ele teria a ajuda dela, quando precisasse, então porque essa patifaria agora?
- Primeiro, me diz o que a Karin queria com você hoje.
Kiba não respondeu imediatamente, perdendo o sorriso e desviando os olhos dos dela. Olhou para o salão e Ino percebeu que o olhar dele seguiu para onde Karin estava, olhando os dois.
- Nada demais, miss. – Disse, antes de voltar a olhá-la. – Só queria olhar meus desenhos.
- Desenhos? – Ino realmente surpreendeu-se. – Eu não sabia que você desenhava.
- Saberia se prestasse mais atenção nos outros do que em si mesma. – Kiba rebateu, voltando a sorrir, mas Ino não sabia que tipo de sorriso era aquele. – Assim como você saberia que aquelas duas lindinhas lá atrás são nerds demais para você, se as tivesse observado um pouco mais. – Kiba mostrou-se um pouco impaciente. — Agora, se puder cumprir a sua parte no acordo, eu ficaria grato em voltar para a minha mesa, com meus amigos.
- Quando me disser como pretende me ajudar…
- Eu não sei ainda, miss. – Kiba deu de ombros, fitando-a firmemente nos olhos. – Mas eu sempre dou um jeito, não dou? Por hora, eu vou te dizer o que eu sei. Ser amiga daquelas duas não é o bastante para recuperar sua imagem nessa escola. Você precisa ter o que a Karin tem agora. – Kiba fez um sinal com a cabeça, fazendo Ino olhar para Karin. – Ela tem um grupo, amigos ao redor dela. Todas as garotinhas inseguras desse colégio querem ser como ela. E os garotos querem namorar ela. Sabe o que você vai conseguir só com aquelas duas? – Kiba agora olhava para Sakura e Hinata. – Nada.
A sinceridade de Kiba era sempre muito irritante. Ino respirou fundo, olhando para Karin, Shion, Sasuke e os outros garotos que costumavam ser seus amigos. Como aquela garota tinha conseguido lhe tirar todos eles tão facilmente, sem que ela se desse conta do que estava acontecendo? Mas o pior era perder a amizade de Shion, a garotinha frágil e insegura que Ino e Karin tinham transformado numa garota forte e confiante. Ino realmente gostava dela, mas… Shion estava sentada ao lado de Karin, rindo com ela, tinha escolhido seu lado e Ino precisa seguir o seu caminho sozinha.
Voltou a atenção para Kiba, que a observava em silêncio. Os dois trocaram um olhar de pura compreensão e isso pareceu ser o suficiente para acalmar os ânimos dela.
- Eu preciso da sua ajuda. – Ino admitiu, ouvindo as palavras saírem de sua boca, sem pensar direito nisso. – Mas, se você se bandear para o lado da Karin, você está acabado na minha mão.
- A ameaça é desnecessária, mas foi anotada. – Kiba retrucou, sem se abater, mas havia um pouco de surpresa em seu olhar. – Nós terminamos essa conversa amanhã. Tente observar suas amigas mais um pouco e amanhã você me fala o que acha relevante sobre elas.
Quando subiram para os quartos após o jantar, Ino tinha a cabeça cheia de pensamentos. Estava fazendo o que Kiba lhe disse, mas não conseguia se concentrar. Sabia que ele não tinha sido totalmente sincero com ela sobre não saber o que fazer. Ele sempre pensava rápido, pois gostava de estar um passo a frente de Ino. Isso era como um alimento para seu ego, e Ino não tinha moral para repreendê-lo por isso. Ela própria frequentemente estava buscando algo para elevar sua autoestima e ter uma carta na manga para enfrentar qualquer obstáculo era seu motivo de maior orgulho.
No entanto, boa parte dessa “carta” envolvia Kiba e, quando viu Karin debruçada sobre a mesa dele, naquela manhã, começou a se questionar sobre o quanto poderia confiar nele. O que Kiba tinha a ganhar ficando a seu lado? E o que ele tinha a perder?
Ino sabia que poderia ajuda-lo, ou melhor, que deveria ajuda-lo quando ele pedisse, mas, afinal, o que Kiba queria? O ano letivo tinha começado há um mês e, até agora, ele não tinha se pronunciado sobre nada. Talvez fosse cedo demais para pensar nisso… mas, da última vez que confiou cegamente em alguém, acabou quase sendo expulsa do colégio e perdeu Sasuke.
Ela não deixaria isso acontecer de novo.
Notas finais
1) Não, eu não gosto de Crepúsculo;
2) Não, o que eu escrevi não foi uma crítica específica ao livro. Mas uma crítica ao modo como as editoras estão vendendo esse maravilhoso livro que é "O morro dos ventos uivantes", o que não implica numa crítica ao livro da Stephanie Meyer nem direta, nem indiretamente;
3) Se você gosta de Crepúsculo terá meu respeito incondicional. Afinal, como disse Voltaire: "Posso não concordar com as palavras que tu dizes, mas lutarei até o fim pelo teu direito de dizê-las".
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