Notas iniciais
Aqui começa realmente a história. E não se assuste se vocês não entenderem de inicio a história e estiverem confusos. Com o tempo tudo ira se encaixar. Espero que gostem.

Nada melhor que uma cama bem quentinha no inverno, ou um copo de chocolate quente nas mãos. E até mesmo as pantufas de bichinhos que, cai entre nós, são bem agradáveis e superquentes. Mas aqui estou eu, sentada em um banco com nada mais que uma mochila nas costas e restos de algo que um dia fora um cobertor. As ruas ao longe estavam brilhosas e silenciosas, juntamente com o Rio East e a ponte que cobria boa parte da minha visão. E era ali, naquele grande parque do Brooklyn, naquele simples banco, que eu praticamente dormia todas as noites. É isso mesmo que está pensando. A rua era meu lar a quase dois anos, e eu praticamente já havia me acostumado.

Não conseguia dormir. Devia ser pelo frio 10° graus que estava fazendo hoje, talvez os pesadelos contínuos, ou pelo fato que Beckie emitia aquilo que pode se chamar de ronronar de um gato no outro banco ao meu lado. Ela dormia profundamente, enrolada nos cobertores. Os cabelos cor de mel estavam encobertos por uma touca. Tanto eu quando ela tínhamos de usar luvas e toucas para conter o frio do inverno. Nossas roupas eram quase as mesmas. Uma calça moletom com duas grandes meias por baixo, e all star. O casaco cinza que Beckie usava estava mais sujo e pouco rasgado. O meu era preto e ainda estava em uma boa condição.

Atrás dos bancos continha muitas arvores e arbustos, que ajudava não só em nos esconder de pessoas indesejadas, como conter a geada e o vento. Era momentos como esse que eu sentia vontade de jogar tudo pro ar e sair correndo sem rumo, esperando algo de bom acontecer e mudar a minha vida. Mas eu precisava de Beckie, e sabia que ela precisava de mim. Me aconcheguei o máximo que dava no banco de madeira, virando um sanduiche de cobertores. Fechei os olhos tentei, pela décima quinta vez, dormir.

— A gente tem que sair daqui. – Dizia Beckie enquanto nós justávamos as poucas coisas que tínhamos. Naquela noite havia sonhado nada muito anormal como todos os outros sonhos que tenho. Acordei com Beckie me sacudindo e me oferecendo um pão com presunto e queijo. Eu não sabia de onde Beckie tirava toda a comida, a roupa e os cobertores. Mas também não perguntava, pois sabia que ela não iria me responder. A curiosidade me matava, é claro, mas o fato de dormir aquecida e de estomago cheio, me proibia de questiona-la.

— Daqui a pouco os guardas estarão aqui e, sabe como é.- Eu realmente sabia como era— E também preciso pegar mais comida. Hoje vamos para o abrigo. – Brooklyn Bridge Park era onde eu e Beckie ficávamos quase todos os dias. Uma vez por semana, nós íamos ao Abrigo Para Sem Tetos que não ficava muito longe. Lá era possível dormir em uma cama e fazer refeições diárias. Mas também era requerido trabalhos domésticos e ajudas comunitárias.

Pendurei a mochila nas costas e caminhei lado a lado com Beckie que segurava o resto das coisas. Não passava das 8am quando enfim saímos dos domínios do parque. Olhei para trás e vi os seguranças andando entorno do lugar. As pessoas já começavam a chegar com seus bichos de estimação, e seus rostos estampados por uma noite bem dormida e tranquila. Como eu sentia falta daquilo. Da tranquilidade, da calmaria, das camas confortáveis. Jurei para mim mesma que se um dia tivesse tudo aquilo de novo, não voltaria a reclamar nunca. Digo de novo pois sim, eu já tive uma casa, e alguém, diferente de Beckie, para cuidar de mim. Minha infância foi excelente. Eu brincava todos os dias na rua de casa com a minha amiguinha. Eu ainda me lembrava dela, a menina com os cabelos cor de fogo que era minha vizinha e quase sempre estava na minha casa. Como perdi tudo? Talvez uma história para outro momento.

— Espero que hoje tenha camas separadas – disse Beckie me olhando enquanto passávamos pelas ruas a caminho do abrigo. – Porquê da última vez que dormi na mesma cama que você, acordei com as penas roxas por causa dos seus chutes.

— Eu não tenho culpa se meus sonhos são muito vívidos.

— E eu não tenho culpa se não tinha outra cama para dormir. -Beckie emitiu um sorriso largo e olhou para frente, continuando seu trajeto.

O ar estava com cheiro de café misturado com fumaça e lixo. As lojas, por serem grudadas umas às outras, emitiam odores misturados e diferentes. A lanchonete da esquina estava ao lado de um beco, que continha caçambas de lixo que mesmo ao longe eu enxergava os alimentos fora dos sacos, atraindo não só, eu imaginava, ratos enormes, como insetos a caminho de um grande banquete.

A cada minuto ficava mais difícil caminhar pelas ruas. Desviei e esbarrei em muitas pessoas que ou estavam atrasadas para o trabalho, ou era muito sem educação mesmo. Nem percebi que chegara no abrigo. Ele ficava não muito distante nos outros prédios, apesar de ocupar um grande espaço. Suas portas estavam escancaradas, permitindo a entrada de quem quisesse ter uma noite decente de sono por pelo menos um dia. As paredes transmitiam uma cor velha e rachaduras do chão as extremidades. Uma grande placa estava sobre a porte que dizia ABRIGO DAS CARLOTAS. Beckie me pegou pelos braços e me conduziu para dentro do prédio.

— Bom Dia Dorothea – Beckie apertou as mãos da mulher que estava do outro lado da bancada a nossa frente. O rosto dela era, digamos, enrugado e marcado. O nariz se arqueava para frente, trazendo não só a lembrança da bruxa de João e Maria como o medo de ser transformada em comida a qualquer momento. Os dentes eram tortos e amarelos e os cabelos brancos como algodão.

— Olá novamente Rebecka – a voz de Dorothea ecoou no recinto. Ela olhou de relance para mim com uma cara de, Odeio crianças. – E espero que hoje você nos ajude mais que do que estraga Senhorita Moon – Contive um sorriso que queria muito, muito mesmo parecer.

—Acredito que Moon irá se comportar hoje. Não é mesmo? – Beckie me olhou, reprovando com o seu olhar.

—Claro Senhorita Dorothea – tentei falar o mais formal possível – Quer dizer, Senhora Dorothea, pois se a senhora for virgem, o inferno é gelado.

Antes de Beckie agarrar meus braços e me levar para dentro, vi o olhar de espanto e raiva de Dorothea. Naquele momento, não me contive e soltei uma gargalhada, percebendo que Beckie se juntava a mim.

Notas finais
Semana que vem tem mais. Espero que tenham gostado.