O Inverno dos Mortos
3 Dois
Notas iniciais
O abrigo continha quartos praticamente iguais. O quarto onde Beckie e eu ficamos não era o mesmo da outra vez que vimos aqui. As duas camas de solteiro (e Beckie deu pulinhos de felicidade ao vê-las) eram simples e básicas. O quarto em si não continha nenhuma decoração, a não ser as velhas cortinas que tentavam cobrir a única janela do recinto. A única diferença dos outros quartos eram a disposição dos moveis, quantidade de camas e as cores dos lençóis. Eu não era nenhuma vândala, mas sabia que nunca tinha ficado com aquele quarto pelo fato de que a parede não tinha nenhuma marca de que eu havia passado por ali. Alguns outros quartos continham três, até quatro camas. Eu e Beckie tivemos a sorte de pegar um só para a gente.
Fazia tempo que eu frequentava este lugar, e acredito eu que a Senhora Dorothea me odeie porque sabe as coisas que faço. E deixar marcas das paredes é uma delas. Peguei minha pequena caneta preta na mochila e caminhei até a parede ao lado da cama. Como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo e sem o menor esforço, desenhei duas inicias na parede. C.O. O meu verdadeiro nome.
E não, não era Moon.
— Obrigado Senhor por este dia eu dormir separada de Moon. – Beckie disse olhando para o teto, ignorando minha ação de “vandalizar”.
— Eu que agradeço por você me tirar tão rápido de perto da Dorothea.
—E você não devia fazer aquilo mocinha – ela virou para me olhar – é perigoso você ser assim tão .... Impossível. Você sabe o porquê de a gente sempre andar escondidas e se você continuar assim, apesar de que foi muito engraçado e eu definitivamente não devia estar falando isso, nós temos que tomar muito cuidado. – Ela me encarou com os olhos castanhos puxados.
Eu entendia tudo o que Beckie dizia. Meu passado não era lá muito dócil e tranquilo, e indícios de que ele estava voltando, aparecia em meus sonhos e até na vida real.
—Eu sei Beckie, mas, do que mesmo a gente está fugindo? -Meus olhos olharam fixamente para ela, esperando que finalmente — depois de eu fazer essa pergunta várias vezes — respondesse.
— Eu tenho que ir buscar roupa e comida. Depois do almoço eu vou e espero que você se comporte. — Disse ela ignorando minha pergunta — Vou tomar um banho agora. -Dando meia volta, Beckie deixou sua mochila em cima da cama e saiu do quarto. Maravilha. Outra das muitas perguntas ignoradas com sucesso.
Deitei, sentindo o extrato da cama estralando atrás de mim e fiquei olhando para o teto. Porque Beckie agia assim? Me ignorando e fingindo de que nada havia acontecido? Antes mesmo de eu pensar em responde-las, o sono invadiu minha mente e infelizmente, o sonho tomava conta de mim.
A sensação de quase morte chegava novamente em meus sonhos. Sentada no que aparentava ser uma floresta, me senti sozinha. Como aquilo era vívido, pensei. As arvores altas e negras a minha frente estavam balançando pelo vento, mas elas não emitiam nenhum som. Os galhos estavam esmagados a minha volta, e as folhas secas, apesar de ser lindas eram incrivelmente assustadoras. Não dava para enxergar o céu, mas eu sabia que era madrugada. Nas primeiras vezes (a muito tempo atrás) que sonhara sonhos desse tipo, eu acordava sempre chorando e com medo. Mas agora, eu sabia que estava sonhando e isso de algum jeito me acalmava.
Um cheiro tomou conta do lugar e naquela mesma hora eu já sabia o que era. Olhando novamente para a floresta, eu vi o que antes era verde, escuro e apagado, agora estava em tons de vermelho, amarelo e laranja. Com um grito de medo eu me levantei e tentei correr, mas meus pés não saiam do lugar. As chamas, a cada segundo, tomavam conta de toda a parte da floresta e a cada segundo, mais perto de mim. Eu sentia o calor do fogo, o cheiro de fumaça e do queimado, sentia tudo sendo engolido lentamente. Estalos das arvores enfim eu pude ouvir, e ao mesmo tempo, gritos em uníssono. Meus pés se soltaram e eu corri, corri como nunca havia corrido antes. Mas a cada passo, mais as chamas se aproximavam e eu sabia que não tinha nada para fazer. Eu iria morrer.
Com um sobressalto, eu abri os olhos. As marcas C.O ainda estava na parede, e eu finalmente havia acordado. Meu cabelo estava grudado na nuca, e ainda ofegante eu fechei os olhos e pensei. Isso foi realmente vívido. Fazia tempo que não tinha esse tipo de sonho, que mexia com o psicológico. Como que no começo eu sabia que era um sonho mais depois pensei que ia morrer? Isso nunca acontecia.
Respirei fundo e me levantei e assim como Beckie, arrumei minhas coisas na cama e sai para tomar um banho.
Era por volta das 10am quando cheguei na grande cozinha do Abrigo para ajudar nos serviços. Pela janela onde a comida era entregue, vi as pessoas sentadas conversando no refeitório. O lugar era grande, e as mesas ocupavam quase todo o espaço. A luz de fora vinha das duas grandes janelas que tomavam conta da parede. Ali dentro era quente, não precisando de roupas e mais roupas para conter o frio. Havia em torno de cinquenta pessoas ao todo, alguns ou ajudando na cozinha, ou na limpeza dos quartos e banheiros. As pessoas que estavam no refeitório ou ajudariam no jantar, ou na louça depois do almoço. Tudo era dividido e calculado, e isso era muito interessante de se participar.
Dessa vez na nossa estadia, eu ficaria com o trabalho de cortar os legumes e Beckie de limpar os quartos. Uma vez eu havia ficado encarregada de limpar os banheiros e a partir desse dia, nunca reclamei de cortar legumes. Por comida, cama e banho, todos faziam o trabalho sem reclamar, e até alguns, que frequentavam o lugar tanto quanto eu e Beckie, conversavam normalmente como se não estivesse ali pelo fato de morar nas ruas.
Avistei Beckie passando pelo pessoal segurando os produtos de limpeza. Ao longe, ela não parecia morar nas ruas, digamos assim. O cabelo estava tampado por aquelas toucas de renda, e as roupas simples tampadas por um avental branco de plástico. Rebecka era descendente de Japoneses, e era só isso que eu sabia sobre o passado dela. Bem, os olhos dela eram puxados, mas antes dela me contar eu sempre confundia com coreana e chinesa.
— Moon – me virei e vi Leonard atrás de mim. – Os legumes já estão lá atrás. Chamei alguém para te ajudar, pois hoje temos mais pessoas do que o normal. – Exatamente como Beckie, Leonard trajava a touca e o avental. As rugas estavam estampadas em sua face, e os olhos verdes cansados diziam que ele dormiu nas ruas na noite anterior. Ele era amigável comigo e Beckie, e as vezes, como hoje, nos encontrávamos no abrigo.
— Claro Leonard. Só vou pegar as coisas e já vou. – Com um sorriso simpático, ele se virou e foi em direção ao seu trabalho.
Assim como Leonard disse, os legumes já estavam postos no balcão esperando por mim. Já havia passado um tempo quando alguém finalmente apareceu.
—Ei você – Senti alguém me cutucar no braço. Olhei para lado e vi uma forma alta e esguia segurando uma faca. Se não fosse pela touca de renda, eu imaginaria que estava ali para me matar.
—Olá Sebastian – sorri para ele. Sebastian Green não morava nas ruas como as outras pessoas dali. Como eu. Mas ele ajudava por boa vontade, e todos o admiravam. Seu cabelo era de um tom loiro escuro e seus olhos mais verdes do que o de Leonard. O formado do resto ela ligeiramente quadrado e seu nariz se encaixava perfeitamente. Ele era bonito.
— Me chamaram aqui para ajudar você. Posso? – Confirmei com a cabeça e ele se posicionou ao meu lado. Suas mãos aparentavam fazer aquilo muitas vezes. Ele cortava uma cenoura duas vezes mais rápido que eu. Imaginei alguém o perguntando qual era a sua habilidade. Eu corto legumes incrivelmente rápido senhor.
—Por que você está rindo? – Perguntou Sebastian.
— Nem percebi que estava rindo. Minha mente é louca as vezes. Desculpe – falei ainda sorrindo.
—Bem, para minha alegria, acho que temos algo em comum. – Ficando mais vermelha que um tomate, deixei a faca no balcão e fui até a pia lavar as mãos. Tá, confesso, eu sou tímida. E não, não é mentira. Em alguns momentos onde pessoas dizem coisas que não imagino, eu costumo ficar mais vermelha que um tomate.
— Está tudo bem? – Pude ouvir Sebastian atrás de mim.
— Está sim – pigarreei voltando para o balcão e percebendo que Sebastian me encarava confuso.
—Enfim, Rebecka veio com você? — Perguntou ele.
— Sim, ela está limpando os quartos. – Ele sorriu e virou sua atenção para as cenouras.
— Ela cuida muito bem de você.
—Como assim?
— Você está mais bonita que antes. – Respire, Inspire.
—Mas porque você faz tudo isso? – Tentei me desviar do assunto antes que eu virasse um pimentão vermelho. – Quero dizer, ajudar as pessoas daqui? -Ele pareceu refletir por um instante. Fiapos de cabelo saiam da touca, deixando seu rosto com um jeito mais rebelde.
—Creio que nem todos possam crescer em uma família descente. Meu pai é dono daqui e, apesar dele achar que é algo lucrativo, pois ele recebe muitas coisas apor ajuda-los – Sebastian fez uma cara desgosto- Eu tento ser diferente do meu pai e fazer o que eu posso para ajudar. – Ele me olhou com os olhos de um gatinho abandonado. – Não quero ser ele.
Era fato que a família Green era bem conhecida por aqui. Eu conhecia Sebastian muito pouco, mas sabia que ele conhecia bem mais Beckie e eu. Não sabia se acreditava ou se ele dizia isso para todas as garotas de Nova York.
—Acho que já está na hora do almoço. – Afirmei, tirando a touca dos cabelos. Sebastian balançou a cabeça e pegou a bandeja de legumes, deixando o recinto mais rápido do que entrou. Bem, acho que o magoei.
Retirei o avental, deixando o suéter cinza e a calça jeans preta aparecerem e corri até o quarto, passando pelos grandes corredores escuros recheados de portas. O quarto estava exatamente como antes, só que mais limpo.
Me joguei na cama recém arrumada fitando as iniciais que ainda continuavam na parede. Lembrei do pesadelo que tive de manhã e enfim pude refletir. Eu não sabia se ficava assustada pelo fato de que esses sonhos haviam voltado, ou de que esse era o mesmo sonho que eu tive naquela noite. A Noite, onde tudo começou. Olhei para a parede e fechei os olhos, deixando que as lembranças daquele dia tomassem conta de mim.
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