O Inverno dos Mortos
4 Três
Notas iniciais
Era dia 3 de dezembro, um sábado anoite, quando eu vi Lorie ser morta.
Eu me lembrava desse dia como se fosse algo recente. Mas não, fazia hoje exatamente dois anos desde que tudo aconteceu. Sentada no parapeito da janela, no meu confortável quarto, eu havia acabado de pegar no sono, o que resultou no meu primeiro e último sonho assustadoramente vívido e amedrontador. Lorie havia acabado de sair e prometera voltar com uma pizza de quatro queijos, a minha favorita.
O dia tinha sido normal, como todos os outros, sem preocupações ou tristezas. Minha vida era quase perfeita. Naquele dia estava nevando e eu adorava neve. Bem, quando se tem uma casa, todos adoram neve. Sienna havia acabado de me ligar, me despertando do meu pesadelo, e informou que passaria em minha casa.
O pingente que eu sempre usava estava em meu pescoço, e minhas mãos o segurava firmemente. Ele foi a única coisa que ainda tenho. A única coisa que sobreviveu depois de tudo. Eu não o usava, pois me lembrava de algo que queria esquecer, mas naquela época, por ser um presente de Lorie, eu sempre o usava.
Sienna chegara, com seus cabelos cor de fogo e suas roupas clássicas, sentando a minha frente e conversando comigo como se naquela noite, nada aconteceria.
Eu e Sienna, sentadas juntas em circular, em volta da pizza, escutávamos Lorie contando suas histórias constrangedoras e divertidas. As risadas eram inevitáveis quando se tratava de nós três juntas.
Eu me lembrava de Lorie convidando Sienna para passar a noite ali, o que ela fazia de vez em quando. Uma das melhores coisas que Sienna fez naquele dia foi recusar, poupando-a dos acontecimentos que estavam por vir.
Ficamos eu e Lorie, ali, na nossa pequena sala, da nossa pequena casa. Os moveis e decorações, ajeitados pela própria Lorie, trazia ao recinto um ar de tranquilidade e conforto.
Voltando ao quarto, deitando da cama, fechando os olhos e o tempo passando, eu não havia percebido que havia mais alguém, além de mim e Lorie, na casa.
O crepitar de algo que eu não sabia, alcançava meus ouvidos. O cheiro, que eu havia sentido e presenciado no pesadelo naquele dia, era exatamente o mesmo.
Me levantando assustada, ouvi Lorie gritar e com um estrondo, ela entrando em meu quarto agitada e aterrorizada, com uma faca nas mãos, trancando a porta atrás de si.
— Não há tempo para explicações Cassie, mas prometa que fara tudo que eu pedir. – Lorie me suplicou com o olhar, como se aquilo fosse seu último pedido. E era.
— Como assim? O que aconteceu? – O calor e o cheiro das chamas já invadia nossas narinas e deixavam nossos olhos lacrimejantes. O cabelo castanho de Lorie parecia estar voltando de uma guerra. Não havia percebido até então que suas roupas estavam com grandes cortes e sua calça, que outrora era cinza, agora estava suja de algo escuro.
— Só prometa para mim Cassie – Os passos subindo as escadas me fizeram concordar imediatamente sem questiona-la novamente.
-Agora eu quero que você pule da janela – eu a olhei estupefata, como se estivesse escutando errado. – Nada irá acontecer com você Cassie, acredite em mim. — Me abraçando rapidamente, como uma despedida, percebi que uma de suas mãos seguravam firmemente sua coxa onde um liquido vermelho escuro saia.
— Você está sangrando – pigarreei.
—Sim, foi um dem.... não importa. Só pule da janela Cassandra. Por favor. – Ela pegou minhas mãos e pousou um pequeno papel sujo de sangue. – Vá a este lugar. Terá alguém que cuidara de você. Pode confiar nela. Agora vá – com um empurrão, Lorie me levou até a janela e a abriu. O vento passou pelos meus cabelos e o cheiro de fumaça ainda continuava. Coloquei os pés do parapeito e olhei para baixo. As cores das chamas saiam das janelas, e Lorie, gritando pela última vez para eu pular, abriu a porta de onde havia entrado e desapareceu. Olhei para baixo novamente e juntei a coragem que nunca imaginei que tivesse. A rua estava silenciosa e deserta. Ninguém reparara no fogo ainda. Havia muitas perguntas sem respostas, mas eu havia prometido a Lorie, e não iria decepciona-la. Com um impulso, tapando a boca para evitar um grito, me joguei da janela.
Imaginando-me quebrando uma perna ou um braço, cai do chão macio de folhas com um baque cobrindo minha cabeça com as mãos. Levei alguns segundos para perceber que nada era um sonho e que eu havia realmente saltado de uma janela do segundo andar. Me levantei aturdida e me curvando, tentando me esconder de algo que não sabia. A porta da frente estava escancarada, e eu pude ouvir os passos chegando cada vez mais perto. Me encolhi no arbusto que havia me segurado da queda e olhei para cima.
Uma forma masculina passou pela porta, descendo as escadas. Dois outros homens vieram atrás, segurando alguém inconsciente.
Lorie.
— A menina não está aqui – o primeiro homem que saiu segurava um telefone na orelha. – Mas achamos a Prophetam. – Com um sorriso diabólico no rosto, o homem disse mais alguma coisa que não pude escutar e desligou o telefone, olhando para os compassas que seguravam Lorie.
— Russel disse para matá-la. Ele já tem algo que vale muito mais do que ela. – Antes que as palavras dele fizessem efeito em minha mente, os dois homens levantaram Lorie e o terceiro, com um sorriso de satisfação no rosto, puxou algo da cintura
Tapei a boca com as mãos, inibindo um grito de horror. O homem empunhou a faca e como se aquilo fosse algo comum, enfiou-a no peito de Lorie. O sangue fluiu imediatamente, ensopando sua blusa de sangue. Lorie não se mexeu, e seu rosto, com marcas roxas nas mandíbulas, não fizeram nenhuma expressão.
—Vamos. E levem-na. – Limpando a faca suja de sangue na manga, o homem desapareceu, juntamente com os outros dois que seguravam Lorie.
Fiquei mais uns vinte segundos ali, refletindo sobre o que acabara de ver. As lagrimas tomavam conta do meu rosto, e a dor de ver Lorie daquele jeito, invadia meu coração.
O barulho dos moveis se despedaçando me despertou. Eu não morreria ali.
Corri para longe, com o papel ainda embrulhado em minhas mãos. Olhando para trás, pela última vez, vi a casa – a casa onde cresci, a casa onde vivi meus momentos mais felizes, a casa onde, por mais simples que parecesse, com sua cor avermelhada que agora estava tomada pelos tons das chamas -estralava e queimava, como um farol brilhante, no meio da escuridão.
Já havia perdido o senso de horas e minutos quando estava perto do meu destino. O papel que Lorie me dera estava no meu bolso. Um endereço estava escrito no papel, como Lorie havia dito. Descalça e com pijamas, eu andava nas ruas de Nova York com nada mais que um destino a ir, e um colar inútil no pescoço. O frio ainda era suportável, apesar da tremedeira e dos queixos batendo.
Ainda era madrugada, e desde que saira de casa, não havia encontrado sequer uma alma viva. Em uma das minhas paradas em mapas da cidade em pontos de ônibus, avistei o barulho de sirenes indo em direção de onde eu havia saído. Alguém havia chamado a polícia. Bem, era a coisa mais sensata a fazer. Os últimos pedidos de Lorie foi ir para o endereço, e pensar nela ainda doía, mas pela última vez, eu tinha de fazer o que ela pedira.
Meu estomago roncou de fome. Meus pés e minha cabeça latejavam conforme eu andava.
O endereço era um lugar distante, uns trinta minutos longe de casa, e cada passo, eu recordava na minha mente o que havia acontecido. Não fazia o menor sentido tudo aquilo. Em um dia você está em casa com sua família, e na mesma noite, alguém que você ama morre na sua frente, sem que você possa fazer nada. Lorie não era minha mãe, eu sabia disso. O que ela me contara era que meus pais haviam morrido, e ela era a pessoa mais próxima para cuidar de mim.
O que realmente me assustava eram as recordações do pesadelo ser exatamente iguais ao acontecimento da casa. As chamas, a fumaça, o cheiro, era tudo exatamente o mesmo. Será que eu estava louca? Será que eu era vidente? Ou era só coisa da minha cabeça? E aqueles homens que desapareceram do nada, o que eles eram e o que estavam fazendo ali?
Saindo do estado de estupor, eu me vi em frente ao destino.
Bem, era um parque. E eu nunca o havia frequentado. As luzes estavam apagadas, o a visão do mar ao longe juntamente com a ponte que o cruzava era lindo. Aparentava não ter ninguém ali, mas Lorie havia dito que teria alguém para confiar. Será mesmo?
Como se alguém estivesse lendo meus pensamentos, uma silhueta entrou no meu campo de visão.
— Quem é você e porque esta vestida assim? – A mulher me olhava desconfiada, como se eu fosse a coisa mais estranha que ela já tinha visto. Seu cabelo estava tampado pela touca de um casaco preto que cobria praticamente todas as suas pernas.
—Sou Ca..Cassandra Olsen – A tremedeira se tornava algo incontrolável agora.
A mulher me olhou nos olhos, e tirou o casaco preto que vestia, mostrando uma blusa branca por baixo. Ela o estendeu para mim, que aceitei de imediato. Olhando-me dos pés à cabeça, ela franziu as sobrancelhas.
—Lorie não veio com você? – A imagem dela sendo esfaqueada invadiu a minha mente. Tentei segurar as lagrimas que ameaçam descer.
—Ela .... Ela morreu. – Minha voz saiu como um sussurro. O olhar da mulher mudou de desconfiada para assustada. A expressão da face formou algo entre terror e tristeza.
—Precisamos sair daqui. – Estendendo as mãos, a mulher, apesar da tristeza que era evidente em seu olhar, emitiu um sorriso gentil. – Espero que possamos ser amigas. Meu nome é Rebecka, mas você pode me chamar de Beckie.
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