O Hóspede.
4 Dia Na Praia.
Notas iniciais
O H Ó S P E D E
Eu estava na praia deitada de bruços numa toalha enquanto o guarda-sol impedia os raios do sol penetrar a minha pele. Vee estava ao meu lado, sentada em sua toalha enquanto passava bronzeador pelos seus braços e pegando aqueles raios ultravioletas na pele. Apesar de ontem ter chovido praticamente o dia todo, hoje amanheceu com o dia aberto e sem nuvens, com o sol sorrindo todo o seu calor. Fui acordada às sete da manhã por Vee que cismou de a gente ir para a praia pegar uma cor, já que hoje era nosso último dia de férias.
Scott havia mencionado praia hoje, mas depois de ter sugerido dele pagar nossa conta nuns quiosques ele havia tirado o dele da reta. Pão duro.
Não vi Patch hoje, deveria estar dormindo quando saí, pois, ontem ele havia chegado tarde da noite. Naquela madrugada ainda demorei voltar a dormir depois daquele pesadelo. Ele não era o único que me assombrava, havia outros bens sinistros.
— Nossa, eu tenho que pegar uma cor, estou parecendo uma parafina de tão branca. – Vee estendeu o seu bronzeado para mim. — Passe nas minhas costas?!
Virei-me de barriga para cima e me sentei, pegando o frasco de bronzeador. Joguei um pouco em minhas mãos e passei nas costas de Vee.
— Será que se eu tirar a parte de cima do biquíni alguém notaria? — ela perguntou.
— Vee, a praia está lotada e você ainda me pergunta se vão notar? Claro, né?
Revirei os olhos pelo absurdo que minha amiga falava.
— Mas eu detesto ficar com aquela marquinha na pele. – insistiu ela.
— Por que você não veio com aquele sem alça?
— Helooou! — ela se torceu para trás para me fitar. — Aquele biquíni é branco. Eu já estou pálida que nem um papel e com um biquíni daquele eu ia parecer uma lagartixa transparente.
Revirei os olhos novamente.
— Então não reclame.
Ela se virou para frente.
— Tsc. Eu não quero ficar com marca.
Terminei de passar o bronzeador nela e lhe entreguei o frasco. Abri minha bolsa que estava ao meu lado e tirei o meu protetor, passei em meus braços e fui mais para sombra. Ao contrário de Vee eu não queria pegar um câncer de pele.
— Falei com Scott hoje. — ela comentou guardando seu frasco em sua bolsa.
— Eu falei com ele ontem pelo face.
— Cachorro, ele disse que não tinha falado contigo. — ela olhou para mim.
— Sei nem por que você se exalta, sabe perfeitamente como Scott é. — disse calmamente voltando a me deitar de barriga para baixo.
— Mas custa falar a sério pelo menos uma vez na vida? Poxa, ninguém sabe quando ele está falando a sério ou brincando.
Não disse nada e Vee deitou de bruços em sua toalha, um pouco afastada de mim pegando todo aquele sol. Ela levou as suas mãos até os laços da parte de cima do biquíni e o desamarrou.
— O que você está fazendo, sua louca?
Ergui um pouco meu corpo para olhá-la.
— Eu disse que não vou ficar com marquinhas.
— Mas a praia está lotada. — disse incrédula. — Vão acabar te denunciando por atentado ao pudor.
— Relaxa. Eu estou de barriga para baixo, e eu nem retirei o biquíni, só desamarrei. Só ter cuidado.
— Mas acontece que você é uma cabeça de vento e vai acabar esquecendo e mostrando o que não devia.
— Ai, Nora para. Os peitos são meus e eu faço o que quiser com eles. – disse ela desinibida.
— Depois não diga que eu não avisei.
Ficamos um tempo calada, estava com meus olhos fechados. Aquilo estava bem relaxante, a final das contas à ideia de Vee de passar o dia na praia não era tão má assim. A imagem de Patch passou pela minha cabeça, fazendo-me eu abrir os olhos bruscamente. Mas que droga! Só me faltava essa, começar a me interessar por um completo estranho.
— O que foi? — perguntou Vee me fitando.
— Nada. — respondi rapidamente como se ela pudesse ler meus pensamentos.
— Nem acredito que amanhã começa as aulas.
— Nem eu. — falei ajeitando meus óculos escuros.
— Eu estava aqui pensando...
— Você pensa? — a interrompi e ri da cara dela.
— Engraçadinha. — ela fez careta. — Mas continuando, eu estava pensando, você me disse que aquele... o seu inquilino... como é mesmo o nome dele?
— Patch.
— Isso, Patch. Você disse que ele veio para Coldwater estudar. Ele vai estudar na nossa escola?
Remexi-me desconfortavelmente, eu não sabia por que, mas falar sobre Patch me deixava meio desconfortável.
— E eu lá sei. — virei minha cabeça para frente. — Pode ser que sim, talvez não.
— Como assim não sabe? – ela me olhou com intensidade. — Você mora com o cara, já devia saber pelo menos o número da identidade dele.
Olhei para Vee, incrédula.
— Você é louca? Não sou nenhuma atirada. E, aliás, ele é bem estranho.
— Estranho? Não entendi?
— É complicado explicar. – comecei. — Quando eu o vejo, parece que eu o conheço há muito tempo. O rosto dele para mim é estranho e familiar ao mesmo tempo.
— Uau. Isso parece àquelas pessoas que encontram sua alma gêmea.
— Vee, fala sério. Nada haver. Eu só sinto uma sensação estranha quando ele está por perto. É como se uma vozinha me dissesse para me afastar, que ele não é boa coisa.
— Sabe o que é isso? — não respondi e ela continuou: — Que você é uma paranoica. Agora fiquei muito curiosa para conhecer esse Parti.
— Patch.
— Que seja. Eu quero muito ver esse Patch. Quero ver se ele é tudo isso que eu estou imaginando. Quero ver se ele supera o Ian Somerhalder.
— Bom, se supera ou não, eu não sei, mas ele chega perto.
— Ai, eu acho que vou jantar na sua casa.
— Deixa de ser vadia.
— Não é por que eu estou curiosa para conhecer um cara que eu vou ser vadia. Deixo este título para Mercie.
— Não vamos estragar nosso dia falando daquela idiota.
— Tudo bem.
— E aí, minhas lindas amigas gostosas.
Olhamos para frente encontrando Scott se agachando em nossa frente.
Ele estava só com o calção de banho sem a camisa onde mostrava o seu peitoral bem trabalhado e definido, resultado das horas que ele passava na academia. Usava óculos de aviador preto, seu cabelo curto estava com umas manchas verdes, e tinha uma argola de prata em seu lóbulo direito. Scott era bem bonito, fazia o tipo que não valia nada. E não valia mesmo. Ele pousou uma caixa de isopor ao lado e Vee levantou o tronco que foi o suficiente para revelar seus seios.
— Ai meu Deus! — ela desceu o tronco para baixo, tentando colocar o biquíni que tinha saído. Os olhos de Scott estavam fixados no colo de minha amiga. — Droga! Não fique aí olhando Nora e me ajude a colocar.
— Eu avisei, e a senhorita me escuta? Não. Paga para ver. – briguei, me levantado e ficando agachada ao seu lado que estava de bruços.
— Tá, tá. Para de reclamar e me ajude.
As risadas de Scott eram audíveis, ele sentou-se e gargalhou enquanto eu amarrava o biquíni de Vee.
— Para de rir, idiota! Que droga. — Vee estava aborrecida.
— Belos peitos. – ele disse com um tom sacana.
— Vai se ferrar.
Ele riu mais ainda fazendo Vee ficar emburrada. Terminei de amarrar e voltei para sombra de meu guarda-sol. Vee se virou para frente terminando de ajustar seu biquíni. Seu rosto estava corado, devido à vergonha, mas foi ela quem pediu.
— Vai para lá.
Scott me empurrou para o lado, todo cavalo, e sentou-se em minha toalha pegando a minha sombra.
— Ai. Se você não sabe, tem muito espaço para você se sentar do que na minha toalha. — apontei para a areia da praia.
— Mas acontece, Grey que eu não quero ficar torrado que nem um camarão por ficar no sol que nem sua amiga.
— Mas é um folgado. — disse Vee se ajeitando em sua toalha.
— Por que não trouxe o seu guarda sol? — perguntei.
— Para quê? Se tem os dos otários para pegar.
— Você é um idiota.
Ele empurrou seu ombro no meu, me fazendo trombar para o lado.
— Admita Grey, você xinga e maltrata o papai aqui, mas não sabe viver sem ele. — ele abriu um sorriso de escárnio e debochado. — Você me ama. Aliás, vocês duas me amam.
— Meu querido a humildade acabou de passar e te mandou lembranças. — disse Vee ironicamente.
— Topei com ela na entrada da praia, miss topless. — ele devolveu a ironia.
Vee bufou revirando os olhos.
— O que faz aqui? Você disse que tinha a agenda cheira e que não podia vir. — falei me ajeitando no resto de sombra que me restou, pois o bonito tomou posse de quase tudo, aquela muralha.
— Resolvi mudar de ideia. — ele se curvou e abriu sua caixa de isopor cheia de gelo, tirando uma lata de cerveja. — Pode servir se quiserem.
— Eu não vou beber. — falei.
— Tem refrigerante para os de menores.
— Batizada?
Ele revirou os olhos.
— Eu vou querer uma cerveja. — disse Vee pegando uma latinha.
Ficamos o resto da manhã e à tarde na praia curtindo o domingo ensolarado, jogando conversa fora e Scott implicando com nós duas. Ele era terrível, eu me pergunto por que ainda ando com ele!? Sério às vezes ele era insuportável.
— Eu vou em bora. – disse enquanto me levantava.
— O que foi? – perguntou Scott acessando a sua crise de risos. – Agora que o negócio está ficando bom e você vai arregar? Não aguenta muita pressão não, Grey?
— Minha cota de bancar a palhaça já deu por hoje.
— Eu vou com você, Nora. – disse Vee se levantando mais vermelha que uma pimenta.
Juntamos nossas coisas e saímos da praia deixando Scott sentado resmungando com sua caixa de isopor cheia de gelo, pois a cerveja o bonitão já havia tomado tudo.
❊ ❊ ❊
Vee me deixou em frente ao restaurante fechado e foi para casa. Ela ficou completamente o dia todo no sol e havia virado um torresmo. Estava com dor de cabeça.
Abri o portão de ferro que ficava ao lado da garagem subterrânea do restaurante onde meu pai estacionava seu carro. Segui o pequeno corredor que dava para o corredor aonde ficava a escada e a porta do restaurante. Subi as escadas e abri a porta e entrei um pouco atrapalhada por causa do guarda-sol.
— Quer ajuda?
A voz de Patch ecoou pela sala, fazendo-me olhá-lo. Ele estava deitado no sofá, mas ficou sentado. Ele iria se levantar quando minha voz se sobrepôs:
— Não, obrigada.
Percebi que a televisão estava ligada, saí rapidamente da sala, ignorando seu olhar em mim. Entrei em meu quarto jogando aquela tralha num canto, depois eu arrumaria. Abri o guarda-roupa e procurei uma roupa fresquinha e confortável. Iria tomar um banho para tirar aquela areia e aquela maresia impregnada em minha pele.
Saí do banheiro meia hora depois, limpa e cheirosa. Caminhei pelo corredor, passando pela sala e entrando na cozinha. Abri a porta da área de serviço e joguei minhas roupas sujas no cesto ao lado da máquina de lavar. Voltei para cozinha dando falta de meu pai. Entrei na sala e Patch voltou a ficar deitado no sofá maior assistindo Friends. Ele virou sua cabeça para trás e me olhou encostada no portal entre a sala e a cozinha.
— Cadê o meu pai? – perguntei, ignorando aquele friozinho na barriga quando seu olhar encontrou o meu.
Ele passou a mão no pescoço.
— Saiu.
— Hm. Você sabe aonde ele foi?
— Ele disse que iria numa loja de conveniência comprar umas coisas. Saiu faz pouco tempo antes de você chegar.
— Hm.
Vi o canto de sua boca ergue-se minimamente para cima.
Mordi o canto de minha boca adentrei a cozinha novamente. Meu estômago exclamava por comida, já que estava só com as besteiras que havia comido na rua. Atravessei a bancada que dividia a cozinha em dois e abri as portas do armário de cima, procurando algo para comer. Tirei um pacote de espaguete e quando me virei tomei um susto.
— Ah!
Patch estava atrás de mim, bem próximo. Não havia percebido ele entrando na cozinha. Ele havia entrado silenciosamente, como uma cobra que rasteja sinuosamente em direção de sua presa, pronta para dar o bote. Fora assim que ele havia agido, sem que eu simplesmente sentisse sua presença.
— Que droga! – exclamei me afastando, encostando-me no armário ao lado com a mão no coração. Sentia-o bater forte. – Será que você não podia fazer pelo menos um pouco de barulho para que eu saiba que tem alguém por perto?
— Te assustei?
— Imagina – ironizei -, adoro bancar a idiota gritando atoa.
Patch riu pelo nariz, seus olhos escureceram ainda mais. Ele inclinou seu tronco para frente e disse num tom de voz sombria:
— Se eu fosse um assassino, esse seria uma ótima oportunidade para te matar. Distraída desse jeito se torna uma presa excepcionalmente fácil.
— O quê?
Minha voz havia saído num sussurro quase inaudível. Senti minhas pernas tremerem, minhas mãos soavam e meu coração batia tão forte que eu podia ouvi-lo. Minha nossa, será mesmo que esse cara era um psicopata assassino? Ou pior, um serial Killer que gosta de ver o pânico na cara de suas vítimas antes de matar? Eu não sabia ao certo, só sei que Patch não é um cara comum. Sem mencionar aquela sensação incomoda de que eu o conhecia de algum lugar. Aquela ânsia de correr, de fugir, de estar o mais longe possível dele. Mas ao mesmo tempo queria que ele ficasse... perto.
Patch curvou sua cabeça para trás e gargalhou com vontade. Apoiou-se com a mão na beirada da bancada para não se desiquilibrar.
Esse cara era louco?
Agarrei o pacote de macarrão contra o meu peito. Ele se reergueu me fitando com um olhar divertido.
— Você tinha que ver a sua cara. – riu um pouco mais. – Você fez umas caretas estranhas.
— Não achei um pingo de graça. – ralhei brava, com o cenho franzido por ter sido tachada de boba.
Patch ainda sorria e se aproximou mais de mim. Senti meu sangue correr forte e apertei minhas costas ainda mais contra armário, quase nos fundindo. E Patch se aproximando ainda mais parando a centímetros de mim. Seu cheiro de hortelã invadia minhas narinas. Eu estava nervosa demais para reparar em seu rosto lindo, e sua língua umedecendo seus lábios.
— Me desculpe pela brincadeira. – disse ele me olhando com aqueles olhos negros cintilantes. – Eu nunca faria mal a você. Não a você, Anjo.
Ele apoiou sua mão no armário, ao lado de minha cabeça, me encurralando. Minha boca se entreabriu soltando a minha respiração presa. Sentia meu estômago revirar, meu coração acelerar mais – como se isso fosse possível. Eu não conseguia pensar com clareza. Tudo o que eu pensava era o quanto Patch estava acabando com o resto do espaço que havia entre nós e de sua última palavra que fora proferida para mim.
— Anjo? – sussurrei só para ele escutar. A casa estava silenciosa, a não ser pelo som que saía da televisão na sala. – Eu não sou nenhum anjo.
Ouvia o som da respiração dele sair pela boca assim como a minha. Ele se aproximava mais e mais, e disse sem quebrar nosso contato visual:
— Sim, você é um Anjo. Meu Anjo. Só... meu.
Fechei meus olhos, sentindo a outra mão de Patch deslizar pelo meu braço nu, subindo pelo meu ombro, pelo pescoço até chegar em meu rosto. Aquele formigamento gostoso sobrepôs à sensação de agonia e desespero para estar longe dele. Sua testa encostou-se à minha e sua respiração quente queimava a minha pele do rosto. Minha boca formigava, sentindo a sensação elétrica dos lábios dele quase encostando os meus.
Sim, estava quase lá, só mais um pouquinho, só mais um pouquinho. Algo vibrou em meu bolso de trás, me fazendo dar um pulo e me desprender de Patch que me olhou confuso. Afastei-me dele ficando longe, longe o bastante para recuperar meu espaço pessoal. Virei-me de costa para Patch e tirei meu telefone do bolso da bermuda ouvindo o toque estridente. Nem tive cabeça para olhar o número e o levei ao ouvido.
— Alô?
— Finalmente te encontrei. – a voz robótica soou do outro lado da linha. – Não vejo a hora de nos encontrarmos novamente, Nora.
A ligação encerrou. Senti meu sangue gelar e meu coração bater em um nível acelerado. Era só o que faltava agora. Quem quer que seja do outro lado da linha tinha a intenção de me assustar. E eu sinto dizer que conseguiu.
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