O Hóspede.
5 Atordoada.
Notas iniciais
O H Ó S P E D E
Não sei quanto tempo fiquei parada olhando a tela do celular desligado, mas foi tempo o suficiente para processar o que havia acabado de acontecer. Aliás, o que foi que acabou de acontecer agora? Eu não fazia à mínima ideia o quê, ou quem poderia ser., mas, a voz dissera meu nome. Era para mim. Provavelmente deveria ser um trote. É isso, um trote de muito mau gosto, de alguém que queria me assustar. Mas quem seria a pessoa que quer me assustar?
Fechei os olhos sentindo as batidas aceleradas de meu coração. Isso tudo é uma loucura. O melhor a fazer era esquecer e fingir que nada aconteceu. Até por que, quem me queria mal? Eu nem tinha inimigos. Não que eu saiba. Bom, tem a Mercie, mas ela não conta. Mercie é daqueles tipos de pessoas que ladra, mas não morde.
— Aconteceu alguma coisa?
A voz de Patch me fez abrir os olhos, despertando de meus devaneios. Por um segundo eu havia me esquecido de sua presença e de nosso... engoli em seco. Não acredito que quase nos beijamos. Beijamos!Que é loucura. Onde eu estava com a cabeça para chegar tal ponto? Como pude deixar Patch me intimidar assim, tão depressa? Justo eu que não me deixo ser intimidada por ninguém.
Como não respondi ele tornou a chamar:
— Nora?
Estava de costa para ele, mas sentia-o bem perto de mim. Sentia minhas costas queimando com a sua aproximação. Um calor que evaporava por dentro quando ele chegava perto de mim. Mordi o lábio inferior com força.
Percebi que ele se abaixou-se e ergueu-se novamente. Ainda me mantive de costa para ele, impossibilitada de dar um passo para frente, pelo simples motivo de minhas pernas estarem fracas. Fracas por sentir aquela sensação elétrica que percorria meu corpo quando o corpo de dele colou-se ao meu, atrás de mim. Minha respiração ficou mais acelerada e sonora, pois respirava pela boca entre aberta. Senti sua mão em meu ombro, apertando-a de leve enquanto a outra passou por minha cintura erguendo o pacote de macarrão para mim.
— Você deixou cair.
O assopro de sua voz batia em meu pescoço, próximo ao ouvido me causando arrepios, minha respiração acelerou ainda mais. Com um movimento brusco agarrei o pacote de macarrão de sua mão e me afastei dele, ficando mais afastada possível. Eu tinha que controlar aquelas sensações agoniantes e quentes que se passava por todo o meu corpo.
Ouvi novamente a voz de Patch:
— Quem era ao telefone?
Virei-me de lado e dei uma olhada nele bem rápida, colocando o telefone novamente no bolso de minha bermuda e o pacote de macarrão em cima da mesa. Estava constrangida com sua presença, envergonhada com o nosso quase beijo. Aquele roçar de lábios havia me deixado transtornada com um turbilhão de sensações perigosas e pensamentos nada impróprios que sentia.
— Ninguém. — respondi.
Sentia que ele ainda me olhava, e eu fazia todo o esforço para não o olhar ou sair correndo para meu o quarto e me trancar até amanhã. Mas antes disso, preferi fingir indiferença.
— Esse "ninguém" te deixou bem atordoada. – ele continuou, caminhando para perto aonde eu estava, próximo da mesa do outro lado da bancada
Dei passos para o lado deixando a mesa entre nós.
— Não era nada de importe. Só um trote.
— Trote?
Eu comecei a ficar impaciente com suas perguntas.
— É. Pessoas que não tem nada para fazer e ficam fazendo brincadeirinhas sem graça.
Seu olhar passava por meu rosto atenciosamente. Sua expressão estava sem nenhum sinal de humor.
— Mentirosa.
— O quê?
A linha de sua boca se ergueu minimamente para cima, num pequeno sorriso de lado.
— Você mente muito mal.
Bufei enquanto revirava os olhos.
— O que você está fazendo aqui na cozinha? Não tem nada melhor para fazer do que ficar me amolando?
Estava nervosa com a sua presença, e principalmente por ser o alvo de seu olhar penetrante.
— Vim lhe avisar que seu pai deixou comida pronta para você. — ele apontou com o polegar para o micro-ondas. — Está ali dentro, é só esquentar.
Meu olhar desviou para onde ele apontava. Minhas mãos soavam, em sinal de nervosismo. Balancei a cabeça para cima e para baixo e voltei a olhá-lo, percebendo que ele não havia desviado seu olhar de mim.
— Valeu.
Ele havia vindo aqui à cozinha para me avisar que meu pai me deixara comida nas micro-ondas. Bom, ele já avisou, o que ainda faz aqui? Ele não percebe que a sua presença me incomodava? Me deixava tão nervosa ao ponto de ficar atordoada o bastante para não controlar meus pensamentos?
— Ainda quer alguma coisa? – a minha voz saiu num tom impaciente, eu praticamente o expulsava.
— Não. – ele caminhou em direção à porta. – Só para deixar avisado, vou sair.
— Para onde?
Me xinguei internamente por ter feito aquela pergunta, era como se eu me importasse aonde ele iria. Maldita língua que não sabia ficar controlada dentro da boca.
Patch parou no portal e se virou para mim, e aquele sorrisinho estupidamente cafajeste estava em sua boca. Era como se ele tivesse gostado da minha pergunta, como sentisse o prazer em saber que eu me importava.
— Vou ao fliperama do Boo. Quer vir? Te espero até se arrumar.
— Dispenso.
— Tem certeza? – insistiu. – Vai ser divertido se você vier.
— Boa noitada para você.
Virei-me caminhando para o canto da cozinha, abrindo o micro-ondas e tirando uma tigela de comida de lá dentro. Quando me virei não encontrei mais Patch na cozinha e o som da porta da sala sendo batida soou pelos cômodos silenciosos.
Respirei aliviada, sentindo meu corpo tencionado relaxar. Só a presença de Patch por perto me deixava nervosa, como e ele fosse uma pólvora em chamas. Mas pelo jeito eu teria que arrumar algum escudo contra essas sensações que sentia, pois só assim poderei viver sobre o mesmo teto que Patch.
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