O Hóspede.
7 Carona.
Notas iniciais
O H Ó S P E D E
Depois do intervalo tive mais dois tempos de biologia, um tempo de sociologia e agora estava indo para a sala de química do senhor Mc. Connor. Química era a matéria que eu sempre me dava mal. Nada daquelas fórmulas estranhas entrava em minha cabeça. Química para mim era a mesma coisa que tentar enfiar um cubo dentro de um círculo.
Entrei na sala do senhor Mc. Connor e vi que ele não estava na sala. Alguns alunos estavam em seus assentos com suas duplas ao lado. Pedia internamente para que meu parceiro ou parceira saiba mais química que eu, pois passaremos o ano todo sentados juntos.
Caminhei para uma mesa vazia que ficava ao lado da janela e me sentei no canto. Fiquei um tempo olhando entediada as minhas unhas que já começava a descascar a francesinha enquanto o professor não chegava. A sala já estava completamente cheia e ninguém havia se sentado ao meu lado. Bom, era melhor ficar sozinha do que dividir a minha burrice com mais alguém.
O senhor Mc. Connor entrou na sala com a sua pasta preta em mãos, onde posicionou em cima de sua mesa. Ele era nem muito alto e nem muito baixo, era magro, pele parda e cabelos pretos com vários fios de cabelos brancos. Estudei com ele no primeiro ano e ele era o professor mais rígido aqui em Coldwater High. Óbvio que esse ano irei me dar mal.
O senhor Mc. Connor começou a escrever algumas fórmulas no quadro branco com sua caneta hidracor preta. Dez minutos se passaram e agora ele explicava aquela fórmula quando ele foi interrompido com três batidas na porta. Ele franziu o cenho, e pelo que o conhecia, ele estava irritado por ser interrompido naquela explicação importante. O senhor Mc. Connor caminhou até a porta de madeira e a abriu. Prendi minha respiração quando vi Patch parado do lado de fora. A sala começou com os murmúrios, típico de quando o professor dar às costas e eu não pude ouvir o que ele e Patch falavam.
Depois de uma troca de palavras o Senhor Mc. Connor deixou Patch entrar. Ele iria ter a mesma aula que eu? Dei uma olhada rápida a minha volta só para perceber que o único lugar vago era ao meu lado. Voltei o meu olhar para frente e pude ver que Patch também havia percebido e agora mantinha aquele típico sorriso idiota nos lábios enquanto vinha em minha direção.
— Espero que isso não se repita na próxima aula, senhor Cipriano. – disse o senhor Mc. Connor.
Patch apenas assentiu com a cabeça e continuou seu trajeto. Então seu sobrenome era Cipriano?
Desviei o olhar para o meu caderno e fingi que lia alguma coisa escrita. Ele sentou-se ao meu lado, jogando sua mochila no chão enquanto abria as pernas, fazendo seu joelho encostar-se no meu, propositalmente. Desencostei minha perna na dele, as jogando um pouco para o lado da parede.
— Finalmente estou tendo uma aula junto de você. — sua voz saiu sussurrada, pois o professor havia voltado à explicação.
— Infelizmente. – o olhei de lado, e pude ver que ele observava atentamente meu rosto. Alguma coisa dentro de mim me deixou atordoada com aquele olhar. Parecia... familiar. Voltei minha atenção à explicação, mas sentia os olhos de Patch queimando a minha pele.
Ele deu uma risadinha baixa, e resolvi ignorar. Senti sua perna encostar-se à minha novamente e eu tentei afastá-la, mas não havia mais espaço. Ele estava me provocando?
— Dá para você parar? – questionei com a voz baixa, a minha atenção totalmente voltada para ele.
Ele apenas arqueou as sobrancelhas, com um semblante totalmente debochado.
— Parar o quê? – ele se fazia de inocente, e aquilo estava me irritando.
— Feche as pernas.
— As pernas. – ele ainda me olhava zombeteiro. – Infelizmente não dá. Cadeira pequena. Mesa pequena. Espaço pequeno. Fica difícil para o meu lado.
Percebi que ele tentava prender uma risada, mas estava falhando. Meu nível de irritação já estava em nível cinco. Ele não percebia que estava me atrapalhando? Eu era péssima naquela matéria, e tinha que fazer de tudo para não ficar em recuperação na hora das provas. Qualquer explicação era importante.
Bufei.
— Idiota.
O resto da aula se passou arrastando, chata e tediosa e Patch contribuía, me irritando. Ele encostava sua mão na minha, seu ombro no meu, sua perna na minha e assim por diante. Eu reclamava, mas ele só me olhava fingindo de inocente o que me deixava neurótica.
Cadê a droga do professor que não via aquilo?
❊ ❊ ❊
Depois que os últimos tempos de química acabaram, arrumei rapidamente minhas coisas e saí da sala feito uma bala. Mais um minuto junto de Patch eu iria enlouquecer. Não passei no armário e fui direto para a saída.
Saí da escola sem um pingo de vontade de andar. Atravessei os portões do colégio chegando à rua. O vento frio que chamava pela chuva, batia em minha pele a fazendo arrepiar. Olhei para o céu e vi que o mesmo estava com nuvens totalmente carregadas, e que em breve cairia um temporal. Maldita hora que não peguei o carro de papai emprestado e não peguei meu casaco.
Eu só andei alguns metros fora do colégio quando uma Harley Davidson preta parou bem ao meu lado. Olhei para o lado e vi um cara montado nela, o cara tirou seu capacete negro e reconheci Patch naquela máquina mortífera assustadoramente grande.
— Sobe aí que te dou uma carona. – ele disse, fazendo um movimento com a cabeça para o banco traseiro.
Fiquei parada o olhando que nem uma idiota. Meu olhar desviava para ele e a moto, tentando entender de onde ele havia tirado aquilo. Com um movimento rápido ele tirou sua jaqueta de couro e estendeu para mim.
— Toma.
Olhei para a jaqueta estendida em minha frente e depois para ele. O vento ainda chocava com a minha pele arrepiada e gelada.
— Para que isso? – indaguei, me referindo à jaqueta como se eu fosse uma retardada.
Patch arqueou suas sobrancelhas e pressionou seus lábios, como se prendesse uma risada.
— Uma jaqueta. Ela irá aquecê-la enquanto a moto estiver em movimento. — disse ele como se fosse óbvio.
— Não vou subir nisso aí. – eu disse.
Tinha pavores de moto. Aliás, nunca andei de moto em toda minha vida. Prefiro confiar minha segurança num meio de transporte que contenha portas dos dois lados. E, além do mais, minha cota de Patch estava estourada.
— Vamos, não precisa ter medo. — ele sorriu. — Ou prefere ir andando? É uma boa esticada daqui a sua casa. – ele deu uma olhada no tempo. — E sem contar que daqui a pouco irá cair um temporal.
— Prefiro andar. — comecei a caminhar, o ignorando.
Escutei sua risada baixa atrás de mim.
— Está com medo de mim, Nora?
Parei e virei para trás e o olhei. Franzi o cenho, me dando conta de como aquela risadinha debochada que ele dava era tão irritante. E mais irritante ainda, era as minhas pernas estarem trêmulas, pela possibilidade de andar na mesma moto que ele.
— Não tenho medo de você. Só não confio nisso aí. — apontei com o queixo para aquela máquina destruidora.
— Não vou deixá-la cair, confie em mim. — seu olhar era intenso e de certa forma me causou conforto. Alguma coisa dentro de mim, um lado desconhecido dizia que ele não me faria mal.
Ficamos nos olhando sem desviar o olhar um segundo se quer. Ainda estava envergonhada pôr ontem. Aquele quase beijo. Será que se aquele telefone não tivesse tocado a gente tinha nos beijado? Fiquei a noite toda pensando naquele momento como uma tecla quebrada. Eu queria beijá-lo e ponto. Patch era lindo, tinha aquele ar misterioso e um olhar de segundas intensões. Era impossível não se sentir atraída por aquele ser extremamente sexy.
Mas tinha um, porém. Essa sensação de perigo que eu sentia quando ele estava por perto. Aquela sensação sufocante, como se algum mal fosse acontecer só por que ele estava perto. E sem contar na impressão familiar que ele me transmite. Era como um djavú que passava em minha mente como se ele fosse conhecido. Mas não sei de onde.
Olhei para o céu percebendo que a qualquer momento iria chover. Aqui em Coldwater não importa se era verão ou inverno, o clima sempre muda de uma hora para outra. Olhei novamente para Patch que estava sentado em sua moto, esperando por minha resposta.
Suspirei fundo e tomei coragem.
— Você vai me levar direto para casa? — perguntei temerosa, ignorando o fato de odiar motos. E odiar contrariar meu sexto sentido de proteção.
— Claro.
— Tudo bem.
O canto esquerdo de sua boca curvou-se para cima em um sorriso satisfatório e estendeu novamente a jaqueta de couro.
— É melhor colocá-la.
Relutante, peguei a sua jaqueta e a coloque, subindo o zíper para cima, me sentindo agasalhada. Logo o seu cheiro evaporou em minhas narinas. Hortelã e amadeirado, que me deixou tonta, totalmente inebriante, totalmente masculino.
— Você ficou bem com a minha jaqueta. — ele disse me analisando com aquele olhar felino.
Eu não disse nada, pois não tinha uma resposta para dar. Apenas agarrei o capacete extra que ele me oferecia e não pude deixar de perceber seu sorriso de satisfação antes dele colocar seu capacete.
Ele inclinou um pouco a moto para o lado, para que eu pudesse subir. Levei minhas mãos até seus ombros e tomei impulso para cima, passando minha perna direita em volta do acento de trás.
— Se segura em mim. – ele disse.
Timidamente, levei minhas mãos e rodeei sua cintura o apertando bem de leve. Mas aquilo não havia sido o bastante para Patch, pois ele agarrou meus pulsos, os puxando para frente, me fazendo chocar contra suas costas largas, e me fazendo agarrá-lo com força.
Pude sentir seu peitoral bem definido por debaixo daquela camisa fina, no tom cinza esverdeada, e o calor de seu corpo emanando ali. Senti seu corpo tremer levemente e suas costas ficarem rígidas, o sobe desce de seu corpo com sua respiração descompassada.
O que foi isso?
Cinco...
Dez...
Quinze...
Vinte...
Vinte segundo se passaram com as mãos de Patch nas minhas em torno de sua cintura enquanto o sentia seu corpo tenso com o meu colado atrás de si. Ele largou minhas mãos e colocou as suas no guidão da moto a inclinando reto, colocando o pé no acelerador, e movimentando a moto, saindo daquele lugar.
Patch começou a acelerar, me fazendo o agarrar como se minha vida tivesse em risco. Acho que ele fazia de propósito, pois toda vez que ele diminuía a velocidade eu afrouxava o aperto, e de novo ele acelerava me fazendo agarrá-lo mais ainda e pressionar minhas pernas em seus quadris cada vez mais forte.
Vadio.
Minutos depois nós chegamos em frente ao restaurante, bem a tempo quando começou a cair os primeiros pingos de chuva. Ele conduziu a moto até a garagem subterrânea do restaurante que estava aberta. Desceu a rampa e estacionou na vaga ao lado do carro de papai.
Usei seus ombros novamente como apoio para descer. Meu coração parecia que iria sair pela boca a qualquer momento. A primeira vez que ando de moto e quase tenho um ataque cardíaco. Tirei meu capacete e o joguei contra Patch que agarrou na hora enquanto saía da moto e tirava o seu em seguida.
— Você é um idiota! — ralhei sentindo uma onda de fúria subir dentro de mim.
Ele apenas arqueou as sobrancelhas como se eu fosse uma doente.
— O que eu fiz?
— O que fez? Precisava correr daquele jeito? Quase nos mata naquela velocidade toda!
O canto de sua boca ergueu-se levemente num pequeno sorriso debochado.
— Isso? Não ia deixar que nada acontecesse com você, Anjo.
Ele ainda debochava de mim? Mas como ele era um babaca prepotente, e a minha raiva só aumentava mais ainda. Tirei sua jaqueta de couro e o joguei com toda a minha raiva em sua cara, mas ele agarrou antes de atingir seu rosto.
— Não precisa dessa agressividade toda. – sua voz soou calmamente e a minha ira só aumentou.
— Vai à merda!
Saí correndo da garagem, subindo um lance de escadas até chegar ao corredor que dava para o restaurante, mas continuei a subir os dois lances de escadas até chegar ao corredor da casa. Mas antes que eu pegasse a minha chave para abrir a porta, uma mão agarra meu braço me fazendo virar.
Os olhos negros de Patch me fitavam intenso, sua boca estava em uma linha reta sem um pingo de humor.
— Dar para você me largar? – minha voz soou entredentes, ignorando as batidas aceleradas de meu coração.
Patch me empurrou contra a porta, encurralando-me com seu corpo. Sentia meu estômago dar cambalhotas com aquela proximidade repentina dele.
— Por que estar tão nervosa, Nora? — ele questionou, sua voz rouca, porém baixa. — Tenho a leve sensação de que você não gosta de mim.
— Jura? – ironizei, vendo o canto de sua boca se levantar.
Eu estava tão nervosa que sentia minhas mãos soarem trêmulas e frias. Mas não iria secá-las, isso só mostraria para Patch o quanto a sua presença mexia comigo.
Eu podia sentir algum tipo de repulsa pela presença de Patch. Meu lado racional sempre me alertava para me manter longe dele, pois, o mesmo era encrenca das boas. Aquele rosto bonito, o olhar predador e aquele sorriso malandro, dizia que ele não é boa coisa. Mas o outro — lado até alguns dias desconhecido por mim -, dizia o contrário. Esse lado me empurrava para ele, o lado que estava acomunado com o meu corpo que sempre me traía quando ele estava perto. Aquela sensação de desejo. E isso estava me deixando maluca e confusa ao mesmo tempo. Sabia que manter algum tipo de envolvimento com Patch era a mesma coisa que brincar com fogo, e possivelmente eu queimada. Mas ao mesmo tempo o lado desconhecido teimava em brincar com o fogo, como uma criança que gosta de brincar em frente à fogueira, mesmo se queimando se sentiria satisfeita, pois tinha sido prazeroso até quanto durou.
Patch se aproximou mais de mim, só restando alguns centímetros longe de meu rosto. Meu coração acelerou ainda mais.
— Acho que temos assuntos pendentes para resolver. – ele disse.
Senti minha mochila que estava em meu ombro esquerdo cair no chão, mas não liguei. Levei minhas mãos até seu peito e o empurrei, com as forças que me restava, tentando o afastar de mim, antes que eu não consiga controlar. Odiava quando perdia o controle.
— Se afaste. — ele não saiu do lugar, parecia uma parede sólida. — Não temos nada a tratar.
Ele aproximou mais o seu rosto do meu, até sentir seu nariz roçar minha bochecha. Fechei meus olhos, capturando aquelas sensações prazerosas daquele pequeno toque de Patch.
— Você sabe que temos. — murmurou ele, agora roçando sua boca contra minha pele. — E não adianta negar que o seu corpo diz ao contrário.
Abri meus olhos chocando com os negros deles. Realmente não havia como negar, eu queria beijá-lo. Olhei para sua boca entreaberta a poucos centímetros da minha. Queria saber o sabor da sua boca contra a minha. A parte desconhecida estava gritando, implorando para ser saciada, e o momento perfeito estava bem a minha frente. Não iria ter celular para atrapalhar, pois ele mesmo estava dentro da mochila e descarregado. Meu pai estava no restaurante que possivelmente estaria lotado. Então a possibilidade de ser interrompida era possivelmente quase nula.
Ah, que saber? Que se dane tudo.
E pela primeira vez dei atenção à parte desconhecida, levando minhas mãos até nuca de Patch e acabei com aquele pequeno espaço entre nós. Colando finalmente a minha boca na dele.
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