O palácio de Lâfrer vivia um caos organizado. De um lado, o Rei Richard insistia em um protocolo mínimo para garantir que sua filha não partisse como uma fugitiva; do outro, Yaman tentava adaptar sua vida de nômade marinho às exigências de uma união real.

​No Pátio das Carruagens: Yaman e Kaelen

​Yaman estava debruçado sobre um baú de carvalho, separando mapas e instrumentos de navegação, enquanto Kaelen polia uma adaga, observando o amigo com um sorriso irônico.

​— Então o Capitão dos Sete Mares vai mesmo dobrar o joelho diante de um altar? — Kaelen soltou uma risada curta. — Os homens no cais estão apostando quanto tempo você aguenta sem o balanço das ondas sob os pés.

​Yaman parou, segurando um astrolábio de bronze.

— Eles podem apostar o que quiserem, Kaelen. O balanço que eu preciso agora é outro. Mas o Rei... ele não facilita. Ele quer um casamento com trezentos convidados e um bispo. Eu só queria uma vela ao vento e a Claire ao meu lado.

​— O velho Rei está garantindo que você não suma na primeira neblina — Kaelen guardou a adaga. — E as roupas? Vi um alfaiate real entrando nos seus aposentos com veludo carmesim. Você vai parecer um pavão, Capitão.

​Yaman estremeceu.

— Eu disse a ele que se me fizessem usar aquela gola de renda, eu sabotaria a própria cerimônia. Chegamos a um acordo: couro negro, mas com os botões de ouro da família Lâfrer. Um meio-termo entre o pirata e o príncipe que ele gostaria que eu fosse.

​Nos Aposentos Reais: Claire e a Família

​Claire estava de pé sobre um banquinho, enquanto Margot e três costureiras ajustavam a barra de um vestido que era a mistura perfeita de rebeldia e realeza. Elisandra estava sentada por perto, segurando o filho mais velho no colo.

​— Claire, por favor, pare de se mexer! — Margot implorou, com alfinetes na boca. — Como vou terminar esse bordado se você tenta sacar uma espada imaginária a cada cinco minutos?

​— É o hábito, Margot — Claire riu, mas havia um brilho de felicidade real em seu rosto. — Eu disse ao papai: eu caso no palácio, mas a festa será no porto. Quero que os marinheiros de Yaman bebam com os duques. Quero ver a cara dos nobres quando Kaelen começar a contar as piadas de Tortuga.

​A Rainha Catarina entrou no quarto, trazendo uma caixa de veludo.

— Sua teimosia venceu o seu pai, Claire. Ele aceitou a festa no porto, contanto que você use o colar das Lâfrer durante a cerimônia.

​— É um preço justo, mamãe — Claire desceu do banquinho, ignorando os protestos das costureiras, e abraçou a mãe. — Eu passaria o resto da vida usando correntes se significasse que, ao final do dia, eu poderia partir com ele.

​Elisandra interveio, sorrindo:

— E para onde vocês vão primeiro? James está morrendo de inveja, embora não admita. Ele diz que o máximo de aventura que terá agora é decidir o novo imposto sobre o trigo.

​— Vamos para o Sul — os olhos de Claire brilharam. — Yaman diz que há ilhas onde a areia é rosa e as estrelas parecem tão perto que podemos tocá-las. Eu passei vinte e dois anos lendo sobre o mundo. Agora, vou escrevê-lo com meus próprios pés.

​O Encontro no Corredor: Rei Richard e Yaman

​Mais tarde naquela noite, Yaman encontrou o Rei Richard na galeria de troféus. O Rei segurava uma garrafa de um vinho antigo.

​— Olivier — chamou o Rei. — Sente-se.

​Yaman obedeceu, sentindo a tensão ainda presente, mas mitigada pelo respeito mútuo.

​— Eu não gosto de você — o Rei começou, servindo duas taças. — Nunca gostei. Você representa tudo o que eu tentei manter longe das minhas muralhas. Mas... eu vi Claire hoje. Ela não cavalgava como se estivesse fugindo de algo. Ela caminhava como se tivesse chegado em casa.

​Yaman tomou um gole do vinho forte.

— Eu também não gosto de palácios, Majestade. Mas eu morreria por ela. E, o que é mais difícil para um homem como eu, eu viveria por ela.

​— Cuide dela — Richard disse, sua voz ficando embargada por um momento. — O mar é vasto, mas a minha fúria é maior se ela derramar uma única lágrima de tristeza por sua causa.

​— Se ela chorar, Majestade — Yaman olhou o Rei nos olhos —, será de alegria por ver o sol nascer no meio do oceano. Eu prometo.

​O Rei assentiu silenciosamente, levantando a taça. Pela primeira vez em cinco anos, não havia ordens ou ameaças, apenas o brinde de dois homens que, cada um à sua maneira, haviam sido vencidos pela força indomável de Claire Lâfrer.