O Horizonte de Claire
14 Preparativos
O palácio de Lâfrer vivia um caos organizado. De um lado, o Rei Richard insistia em um protocolo mínimo para garantir que sua filha não partisse como uma fugitiva; do outro, Yaman tentava adaptar sua vida de nômade marinho às exigências de uma união real.
No Pátio das Carruagens: Yaman e Kaelen
Yaman estava debruçado sobre um baú de carvalho, separando mapas e instrumentos de navegação, enquanto Kaelen polia uma adaga, observando o amigo com um sorriso irônico.
— Então o Capitão dos Sete Mares vai mesmo dobrar o joelho diante de um altar? — Kaelen soltou uma risada curta. — Os homens no cais estão apostando quanto tempo você aguenta sem o balanço das ondas sob os pés.
Yaman parou, segurando um astrolábio de bronze.
— Eles podem apostar o que quiserem, Kaelen. O balanço que eu preciso agora é outro. Mas o Rei... ele não facilita. Ele quer um casamento com trezentos convidados e um bispo. Eu só queria uma vela ao vento e a Claire ao meu lado.
— O velho Rei está garantindo que você não suma na primeira neblina — Kaelen guardou a adaga. — E as roupas? Vi um alfaiate real entrando nos seus aposentos com veludo carmesim. Você vai parecer um pavão, Capitão.
Yaman estremeceu.
— Eu disse a ele que se me fizessem usar aquela gola de renda, eu sabotaria a própria cerimônia. Chegamos a um acordo: couro negro, mas com os botões de ouro da família Lâfrer. Um meio-termo entre o pirata e o príncipe que ele gostaria que eu fosse.
Nos Aposentos Reais: Claire e a Família
Claire estava de pé sobre um banquinho, enquanto Margot e três costureiras ajustavam a barra de um vestido que era a mistura perfeita de rebeldia e realeza. Elisandra estava sentada por perto, segurando o filho mais velho no colo.
— Claire, por favor, pare de se mexer! — Margot implorou, com alfinetes na boca. — Como vou terminar esse bordado se você tenta sacar uma espada imaginária a cada cinco minutos?
— É o hábito, Margot — Claire riu, mas havia um brilho de felicidade real em seu rosto. — Eu disse ao papai: eu caso no palácio, mas a festa será no porto. Quero que os marinheiros de Yaman bebam com os duques. Quero ver a cara dos nobres quando Kaelen começar a contar as piadas de Tortuga.
A Rainha Catarina entrou no quarto, trazendo uma caixa de veludo.
— Sua teimosia venceu o seu pai, Claire. Ele aceitou a festa no porto, contanto que você use o colar das Lâfrer durante a cerimônia.
— É um preço justo, mamãe — Claire desceu do banquinho, ignorando os protestos das costureiras, e abraçou a mãe. — Eu passaria o resto da vida usando correntes se significasse que, ao final do dia, eu poderia partir com ele.
Elisandra interveio, sorrindo:
— E para onde vocês vão primeiro? James está morrendo de inveja, embora não admita. Ele diz que o máximo de aventura que terá agora é decidir o novo imposto sobre o trigo.
— Vamos para o Sul — os olhos de Claire brilharam. — Yaman diz que há ilhas onde a areia é rosa e as estrelas parecem tão perto que podemos tocá-las. Eu passei vinte e dois anos lendo sobre o mundo. Agora, vou escrevê-lo com meus próprios pés.
O Encontro no Corredor: Rei Richard e Yaman
Mais tarde naquela noite, Yaman encontrou o Rei Richard na galeria de troféus. O Rei segurava uma garrafa de um vinho antigo.
— Olivier — chamou o Rei. — Sente-se.
Yaman obedeceu, sentindo a tensão ainda presente, mas mitigada pelo respeito mútuo.
— Eu não gosto de você — o Rei começou, servindo duas taças. — Nunca gostei. Você representa tudo o que eu tentei manter longe das minhas muralhas. Mas... eu vi Claire hoje. Ela não cavalgava como se estivesse fugindo de algo. Ela caminhava como se tivesse chegado em casa.
Yaman tomou um gole do vinho forte.
— Eu também não gosto de palácios, Majestade. Mas eu morreria por ela. E, o que é mais difícil para um homem como eu, eu viveria por ela.
— Cuide dela — Richard disse, sua voz ficando embargada por um momento. — O mar é vasto, mas a minha fúria é maior se ela derramar uma única lágrima de tristeza por sua causa.
— Se ela chorar, Majestade — Yaman olhou o Rei nos olhos —, será de alegria por ver o sol nascer no meio do oceano. Eu prometo.
O Rei assentiu silenciosamente, levantando a taça. Pela primeira vez em cinco anos, não havia ordens ou ameaças, apenas o brinde de dois homens que, cada um à sua maneira, haviam sido vencidos pela força indomável de Claire Lâfrer.
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