O Horizonte de Claire

10 ​O Refúgio nas Sombras


O palácio de Lâfrer estava em festa, mas para a aniversariante, o ambiente parecia um funeral decorado com luxo. O Grande Salão de Baile transbordava com a nobreza de cinco reinos vizinhos, todos presentes para celebrar a maioridade da Princesa Claire. Flores raras adornavam as colunas, e o som de uma orquestra completa tentava preencher o vazio que se instalara no peito da jovem.

​Claire usava um vestido deslumbrante, uma obra-prima de seda branca e fios de ouro que a fazia parecer uma deusa da manhã. Mas, por trás da tiara de diamantes, seus olhos não tinham o brilho da menina de dezessete anos que um dia sonhara com o amor.


​Enquanto o Rei Richard e a Rainha Catarina recebiam os convidados, Claire aproveitou um momento de distração e escapou para a varanda da ala leste — o mesmo lugar de onde vira o navio de Yaman desaparecer meses atrás.

​— Alteza? — a voz de Margot soou suave às suas costas. — O Rei está procurando por você para a primeira valsa. Os pretendentes estão em fila, Claire. Há príncipes e duques esperando por um único olhar seu.

​Claire não se virou. Ela continuou observando o mar escuro sob o luar, o vento agitando levemente seus cabelos ruivos.

​— Deixe-os esperar, Margot — respondeu Claire, a voz desprovida de qualquer emoção. — Eles não estão aqui por mim. Estão aqui pela coroa que carrego na cabeça e pelas terras que meu pai prometeu ao meu futuro marido.

​— Você está tão linda, Claire... deveria estar feliz. É o seu dia. Dezoito anos é a idade que você tanto esperava para "começar a viver".

​Claire soltou uma risada amarga, que não lembrava em nada a doçura de outrora.

— Eu comecei a viver no dia em que um pirata me chamou de ingênua e me mostrou que o mundo é vasto. E morri no dia em que ele me disse que eu não passava de uma distração entediada. Que ironia, não é? Hoje sou oficialmente uma mulher, mas nunca me senti tão vazia.

​O Confronto com o Rei

​O Rei Richard apareceu na sacada, sua expressão alternando entre o orgulho e a irritação.

— Claire! O que faz aqui sozinha? O salão está cheio. Este é o seu momento de brilhar, de escolher o homem que governará ao seu lado.

​— Eu já escolhi o silêncio, meu pai — disse ela, finalmente virando-se para ele. — O senhor conseguiu o que queria. Tirou o "perigo" da minha vida. Mas esqueceu de me perguntar se eu preferia o perigo ao lado dele ou a segurança apodrecendo dentro desta gaiola de ouro.

​— Aquilo foi uma paixão de criança, Claire! — o Rei ralhou, aproximando-se. — Veja este baile! Veja o poder que você tem! Aquele homem não lhe daria nada além de uma vida de crimes e incertezas.

​— Ele me daria a verdade — rebateu Claire, com uma firmeza que fez o Rei recuar um passo. — Ele me daria o horizonte. O senhor me deu um baile onde eu sou o troféu principal de uma vitrine. Satisfeito?

​A Rainha Catarina entrou na sacada, o olhar compassivo, tentando tocar a mão da filha.

— Querida, o tempo cura...

​— O tempo apenas nos ensina a conviver com a dor, mamãe — Claire desviou o toque, voltando-se para o oceano. — Podem voltar para a festa. Digam aos convidados que a princesa está indisposta. Afinal, uma menina ingênua pode ter dores de cabeça, não é? Mas uma mulher de dezoito anos... essa só tem arrependimentos.

​O Rei e a Rainha se retiraram, trocando olhares de preocupação e culpa silenciosa. Claire ficou sozinha, as luzes do baile refletidas nas lágrimas que finalmente permitiu cair. Ela pegou a taça de vinho que segurava e, em um gesto de rebeldia silenciosa, entornou o líquido no chão da varanda, como um brinde ao homem que a ensinara a olhar para o mar, mas a deixara ancorada na mais profunda solidão.

​— Feliz aniversário, Claire — sussurrou ela para o vento salgado. — Onde quer que você esteja, Yaman... espero que o seu horizonte seja menos cruel do que o meu.